Como abordado no capítulo 4, Data Driven é o termo utilizado para definir organizações que são totalmente guiadas pelos dados, nas quais nenhuma decisão é tomada sem estar baseada no que os dados apontam. Pela pesquisa bibliográfica e pelas entrevistas, percebe-se que as poucas empresas que seguem o conceito de se guiar 100% pelos dados acabam por minimizar em muito suas margens de erro em quaisquer tomadas de decisão, mas que essa realidade ainda está relegada a poucas empresas ao redor do mundo. Especificamente no Brasil, o assunto ainda é um tabu ou tratado até como utopia, como relatou o respondente A, quando questionado sobre se as empresas às quais ele fornece serviços de Big Data são de fato Data Driven. Ele disse: “A empresa não tomar uma única decisão a não ser baseada em dados? Bem utópico! Extremamente utópico nos nossos dias atuais!”. O respondente A foi além e demonstrou que esse é um tema especialmente complicado, um dos principais desafios hoje enfrentados pelo mercado nacional, pois, segundo ele, o problema está na cultura do brasileiro que ainda acredita em “salvadores da pátria”.
21 Texto original: This idea was radical because the prevailing belief was that employees wouldn’t know how to
access the data, incorrect data would be used to make poor business decisions, and technical costs would become prohibitive. While there were certainly challenges, Facebook found that the benefits far outweighed the costs; it became a more agile company that could develop new products and respond to market changes quickly. Access to data became a critical part of Facebook’s success, and remains something it invests in aggressively.
66 O brasileiro, principalmente, acha que tem salvador da pátria. Que é o político que vai resolver o problema do país [...] É o ministro da justiça que [...] Então a gente sempre elege um Deus e fala que é esse ‘Deus’ que vai resolver o nosso problema [...] então a gente transfere isso pra toda a nossa sociedade, não só na política, mas também dentro das empresas, então a gente olha pra algumas pessoas e fala: ‘Não! O que aquele cara fala a gente vai fazer, porque o cara tem experiência [...] o cara é isso, aquilo’ e esse é um problema que impede as empresas de tomar decisão na realidade, entendeu?
Como apontado neste estudo por diversos autores como Blackwell et al., Kleber Markus e Wilson Bueno, as empresas sequer fazem uma análise de seus processos ou do mercado utilizando simples pesquisas de campo. Elas ainda optam pela velha tentativa e erro, colocando suas organizações em risco com decisões baseadas na experiência de seus executivos, mesmo com a disponibilidade de um abissal volume de dados gerado diariamente por elas mesmas e por seus consumidores e stakeholders.
O respondente B, apesar de ter demonstrado que sua empresa vem investindo em criar uma cultura da comunicação e que a criação do departamento de soluções digitais já representa um grande amadurecimento da alta gestão em relação aos dados da empresa, relata que ainda não estão preparados para ser uma empresa Data Driven, que essa cultura está sendo criada aos poucos.
[A empresa] já vem trabalhando nesses projetos, e cada vez melhorando mais intensamente, há cinco anos e agora com essa nova área tentando achar uma solução mais ágil pra isso, mas ainda é uma jornada, eu acredito, de algum tempo, porque acho que os principais impactos que você tem sobre isso é, indiferente de ser fato de gerar dados, você também precisa ter pessoas preparadas pra fazer a análise, que daí eu acho que é a segunda etapa da coisa. Então, hoje, eu acho que a gente tá na fase de criar (a cultura) e depois a gente vai começar realmente a criar a fase do analista da coisa mesmo. Começar a parar de usar planilha Excel que tem lá o costume de exportar coisas e montar e realmente começar a trabalhar na área de informação mesmo. Então, eu acho que isso vai ser o grande benefício, mas não vejo isso em curto prazo. Acredito que em médio prazo a gente vai começar a coletar os bons resultados do que a gente tá fazendo agora.
Como visto em diversos pontos da entrevista, o respondente C relatou que não há um planejamento de comunicação administrativa interna no que diz respeito aos dados e também não há esforços para que se crie a cultura da comunicação dentro da organização, então seria natural que sua visão fosse menos otimista do que o respondente B em relação à organização ser Data Driven. Então, sobre sua companhia ser Data Driven, ele foi claro: “Não, nem tudo é baseado em dados [...], mas o que acaba sendo é mais assertivo”. Mesmo consciente de que as
67 decisões que são tomadas baseadas em dados são mais assertivas e expõem menos a corporação a riscos, ainda assim é normal que se guiem pouco pelos dados.
Além de demonstrar que em sua empresa há a falta da cultura da comunicação administrativa no que diz respeito aos dados, o respondente C demonstra exatamente o que relatou o respondente A, no tópico 5.3 sobre comunicação administrativa e Big Data, que “quem tem o dado tem o poder” e que o medo de compartilhar informações entre os departamentos é um empecilho para que a companhia como um todo tome melhores decisões. Nesse mesmo trecho, o respondente A também cita sobre essa falta da cultura da comunicação ser exatamente um empecilho e não um impeditivo para as tomadas de decisão baseadas em dados, mas que a visão do todo fica comprometida e, consequentemente, os resultados, também. Ainda nessa resposta do respondente C, vemos que se repete uma certa dependência do marketing no que se trata da fluidez da comunicação da empresa, que em vez de se criar uma cultura descentralizada para análises de dados e tomadas de decisão, o caminho acaba sendo o da centralização em um único departamento, ou, como vimos com Bueno (2014), muitas vezes isso acaba ficando sob responsabilidade de um único profissional.
Ainda sobre Data Driven e comunicação administrativa interna ou a falta dela, o respondente A disse:
Os dados dizem a verdade sobre a companhia, então se eu não tenho esse direcionamento, da empresa como um todo, então um departamento pode olhar e falar: ‘Não! Isso aqui [...] Legal o trabalho que você fez! Muito bacana! Mas eu continuo lá fazendo o meu e você continua o seu.’ Entendeu?
Seguindo essa visão, o respondente C concluiu que na empresa para a qual ele trabalha “Ter um Big Data te ajuda a comprovar algumas coisas, mas no final das contas cada departamento acaba tendo o entendimento do seu pra poder seguir, então não consegue sair do lugar”.
O respondente A, como fornecedor de tecnologia para análise de dados de Big Data para grandes empresas, ainda no que se refere a Data Driven citou que é muito comum as empresas implementarem toda a estrutura de Big Data e ainda assim não fazerem uso ou subutilizarem as ferramentas, continuando a tomar decisões baseadas na experiência de seus executivos. “Isso é o que mais acontece. Eu ainda vou nas empresas pra convencê-las a utilizarem os dados”.
68 Questionados sobre o que eles acreditam que deve ser feito para que essa realidade mude e suas empresas comecem a caminhada em direção ao Data Driven, o respondente A voltou a dizer sobre se criar a cultura e então convencer a empresa de que absolutamente todas as decisões devem ser baseadas em dados, pois os dados dizem a verdade sobre a companhia. Ele ainda reforçou que para isso todos os departamentos devem ter completa autonomia no acesso e análise dos dados em sua totalidade, desde que se crie ambientes de análises com cópias dos dados originais para que eles não sejam corrompidos, o que no meio da tecnologia da informação se chama sand box ou caixa de areia. O respondente B disse que a comunicação interna já é voltada para a conscientização da importância dos dados e que futuramente serão implantados treinamentos voltados para isso. O respondente C mais uma vez atribuiu essa responsabilidade ao marketing e finalizou dizendo que “Se a pessoa não tiver adesão e a mente aberta no mesmo nível dos outros departamentos é bem difícil de você implementar essas questões, então você precisa trazer todo mundo pro seu lado”, e esse “lado” é o do marketing, na visão dele.