“As épocas que subestimam a utopia são épocas de empobrecimento intelectual, ético e estético.” (Milton Santos)
De início, a comoção popular ante o suicídio do presidente Vargas, dificultou a ação dos que eram contrários ao projeto getulista, de entrada controlada do capital estrangeiro e de proteção à indústria nacional. Mesmo assim, em 1955, Eugênio Gudin (1886-1986), um expoente da escola monetarista liberal e ministro da Fazenda do governo Café Filho (1954-55), na tentativa de solucionar o problema inflacionário, liberou a entrada de capitais estrangeiros, por meio da Instrução no 113, da Superintendência de Moeda e Crédito (SUMOC). Com ela, abriu-se a possibilidade de um crescimento industrial através do investimento direto do capital estrangeiro. Essa instrução, mantida durante o governo (1956-61) Juscelino Kubitschek (JK; 1902-1976), permitiu a instalação no país de filiais de multinacionais e uma ação mais livre do capital internacional.
A instalação de mais indústrias no país provocou o aumento da classe operária e alterações qualitativas na mesma, uma vez que a preparação para o trabalho deveria ser diferente em razão da presença de novas tecnologias. Outrossim, a maior complexidade da economia passou a exigir um maior número de pessoas nos setores burocráticos e de serviços, ampliando as classes médias urbanas, que também passaram a possuir novas possibilidades de consumo. Até a estrutura agrícola que, com o obtido na exportação e na explotação do trabalho, tinha sido a principal fonte de recursos para a industrialização, começou a sofrer pressões para se modernizar, no sentido técnico do termo. Os que isto fizeram, acabaram provocando desemprego, queda salarial e êxodo rural; muitos não investiram em novas tecnologias e mantiveram o grau de explotação do trabalho e as precárias condições de vida no meio rural. Com isso, agravaram-se os problemas no campo e a sempre adiada reforma agrária voltou a ser tema de discussão e de luta.
O governo JK, através do Plano de Metas, pretendia desenvolver os setores estratégicos, principalmente energia, transportes, indústria de base, alimentação e educação. Sua meta síntese e símbolo era a construção da nova capital. Em seu governo, o setor industrial cresceu bastante, com destaque, quanto à visibilidade, do ligado à indústria automobilística. O país já possuía indústrias de bens de consumo imediato — ramo dominante na República Velha — e de bens de produção — implantadas na era Vargas; agora, o maior crescimento foi do setor de bens de consumo duráveis — com a participação direta de capitais externos —, inclusive através de estímulos e benefícios do Estado. O momento possibilitava uma certa facilidade de obtenção do capital externo, uma vez que os EUA estavam finalizando a reconstrução da Europa Ocidental e buscavam novas áreas para investimento. Mais da metade dos recursos financeiros foi destinada para os setores de energia e transporte7. Os fracassos gritantes foram quanto às metas relativas à alimentação e à educação. Ocorreu também a elevação dos níveis de inflação, notadamente no final da gestão JK, e o aprofundamento da dívida externa, agravada pelo fato de o governo começar a tomar empréstimos externos sem finalidade produtiva. Os saldos da balança comercial passaram a ficar negativos e, para complicar ainda mais o quadro, no final do período haviam aumentado a concentração de renda e a desigualdade regional. Uma das razões deste último fato foi que certos planejadores acreditavam na necessidade de se criar um grande pólo econômico, pois, a partir dele, o crescimento se propagaria, em círculos concêntricos, para as outras regiões e, por isso, canalizaram os investimentos em infra-estrutura e os empréstimos para São Paulo (principalmente), Rio de Janeiro e sul de Minas Gerais.
Houve, portanto, um elevado crescimento do setor industrial, notadamente o de bens de consumo duráveis, mas dependente do capital estrangeiro. Ampliou-se a internacionalização da economia nacional (agora com a presença física das multinacionais), com a integração da estrutura industrial aqui existente à estrutura dessas grandes empresas, que para aqui transplantaram uma tecnologia baseada no petróleo — em um país ainda carente dele — e necessidades de consumo de seus países de origem. Este modelo de crescimento só poderia desembocar em crises. Estas crises também derivaram da construção da nova capital, alvo de constantes ataques pela oposição.
A maioria das explicações geográficas sobre Brasília a colocava como a busca de uma cidade ideal, a tentativa de repetir o êxito das planejadas Washington (EUA) e Canberra (Austrália), o desejo de esquecer o passado colonial — que Rio de Janeiro simbolizaria — e de superar o subdesenvolvimento, a vontade de romper o domínio do litoral e povoar o interior, e outras. Ou seja, a maioria omitia o aspecto geopolítico de sua implantação. Brasília foi construída como um símbolo de um novo Brasil, moderno e industrial; o símbolo de um ideário nacional-desenvolvimentista (50 anos em 5), ao mesmo tempo em que ocorria u’a maior internacionalização da economia. A razão oficial para a mudança era a existência de uma grande Terra Central (Heartland) não ocupada, o que deveria ser feito através da interiorização da capital, processo que estimularia a Marcha para o Oeste.
Alguns defendiam que a localização correta seria em uma área central em relação ao ecúmeno; já o Estado-Maior das Forças Armadas, afirmando ser o intérprete mais abalizado em relação a assuntos de defesa nacional, defendia o centro do
7 O Plano de Metas previa a construção de 10 mil quilômetros de rodovias; construiu-se o dobro. A meta era chegar à produção de 100 mil veículos por ano em 1960; foram produzidos, naquele ano, mais de 300 mil. A produção de energia elétrica quase dobrou e a produção anual interna de petróleo foi de 2 milhões de barris em 1955, para 30 milhões em 1960.
território, o Planalto Central, e era favorável à construção no retângulo Cruls8. Entendiam como Planalto Central a parte mais central do Planalto Brasileiro e afirmaram ter escolhido a região mais próxima do centro do Brasil. Apesar de ser um preceito constitucional, até a Segunda Guerra Mundial os governos republicanos não se esforçaram seriamente para cumprir a Constituição. Mas, desde o início do período republicano, os livros de geografia e os atlas passaram a conter, na área referente ao estado de Goiás, um retângulo indicativo: Futuro Distrito Federal, para criar uma opinião pública favorável. A presença do Retângulo Cruls nos mapas naturalizava a idéia de mudança da capital e não provocava muitas discussões a respeito de sua localização, pois ela já estava estabelecida.
O preceito constitucional permaneceu nas Constituições de 1934 e 1937 mas a nova capital se restringia ao marco, colocado em 1922, e ao retângulo nos mapas. Em 1947, no governo Dutra (1946-51), criou-se uma comissão de estudos para a localização da nova capital do Brasil. Esta Comissão organizou, no mesmo ano, duas expedições ao Planalto Central, compostas de dezenas de técnicos, com participação marcante, na chefia das expedições e dos grupos de trabalho, de geógrafos9.
Os defensores da Marcha para o Oeste afirmavam que a cidade do Rio de Janeiro era inadequada para governar por possuir muitas aglomerações, freqüentes agitações sociais, falta de tranqüilidade para governar, excesso de favelas e mendigos, e pelo fato de ser litorânea. A localização litorânea faria com que Rio de Janeiro estivesse mais sujeito a influências externas, inclusive de doenças, o que não ocorreria no Planalto Central, distante do mar e de clima mais seco, que seria mais salubre; e ainda sujeita a ataques armados estrangeiros, argumento militar muito destacado na época, apesar da existência da aviação militar e da bomba nuclear.
O plano urbanístico selecionado foi o de Lúcio Costa (1902-1998) que, como o arquiteto Oscar Niemeyer (1907- ), sofreu influências de Le Corbusier (1887-1965) e da Carta de Atenas (escrita em 1941), um documento muito mais próximo da Geografia do que aparenta. Elaborada oficialmente por Le Corbusier, continha a visão da cidade funcional, propondo algumas soluções, como planejamento regional, zoneamento funcional, conjuntos habitacionais providos de equipamentos coletivos, e outras. O documento sintetizava o conteúdo do Urbanismo Racionalista ou Funcionalista que, como afirmou Rebecca Scherer na apresentação da edição brasileira,
“supunha a obrigatoriedade do planejamento regional e intra-urbano, a submissão da propriedade privada do solo urbano aos interesses coletivos, [...] a padronização das construções, a limitação do tamanho e da densidade das cidades, a edificação concentrada porém adequadamente relacionada com amplas áreas de vegetação. Supunha ainda o uso intensivo da técnica moderna na organização das cidades, o zoneamento funcional, a separação da
8 O Retângulo Cruls, ou o Quadrilátero de Cruls, era uma área de 14.400 km2 (90 por 160 km) demarcada em 1892 pela expedição chefiada pelo belga Louis Cruls (1848-1908), e por ordem do presidente Floriano Peixoto (1891- 1894). A função da expedição era a de cumprir o artigo 3o da constituição de 1891: “Fica pertencendo à União, no
Planalto Central da República, uma zona de 14.400 quilômetros, que será oportunamente demarcada, para nela estabelecer-se a futura Capital Federal.”
9 A primeira expedição foi chefiada pelo geógrafo francês Francis Ruellan (1894-1975) e contou com a expressiva
participação de Alfredo José Porto Domingues, Antonio Teixeira Guerra, Nilo Bernardes, Carlos Augusto de Figueiredo Monteiro e outros; foram feitos estudos do Triângulo Mineiro e do Sudeste de Goiás, sendo a Chapada dos Veadeiros o ponto mais setentrional atingido. A outra expedição, foi realizada sob a chefia do engenheiro- geógrafo Fábio de Macedo Soares Guimarães (1906-1979) e a orientação científica do geógrafo alemão Leo Waibel (1888-1951). A primeira “ocupou-se apenas dos aspectos da denominada geografia física, fazendo um levantamento, em oito sítios, previamente selecionados pela Comissão, de seus tipos de solos, relevo, hidrografia, clima etc ...”; a outra “enfocou a questão não apenas do ponto de vista fisiográfico, mas também dos aspectos da denominada geografia política, ...” (Vesentini, 1986, p. 64).
circulação de veículos e pedestres, a eliminação da rua-corredor e uma estética geometrizante.” (Le Corbusier, 1989, p. 19-20)
Em diversos momentos, transparecia a visão francesa de Geografia, com algumas afirmações próximas do determinismo fisiográfico.
Unidade geográfica, no texto, era sinônimo de região, a geografia de uma região eram os seus aspectos naturais. Para Le Corbusier, a
“geografia e a topografia desempenham um papel considerável no destino dos homens. É preciso nunca esquecer que o sol comanda, impondo sua lei a todo o empreendimento cujo objeto seja a salvaguarda do ser humano. Também planícies, colinas e montanhas contribuem para modelar uma sensibilidade e determinar uma mentalidade.” (Le Corbusier, 1989, p. 35)
Uma das preocupações primordiais era a habitação, notadamente quanto aos fatores condicionantes da higiene. “A saúde de cada um depende, em grande parte, de sua submissão às ‘condições naturais’. [...] ... o sol, a vegetação, o espaço, são as três matérias-primas do urbanismo.” (Ibidem, p. 51) Introduzir o Sol nas habitações era um imperioso dever do arquiteto, que deveria demonstrar que “no solstício de inverno o sol penetrará em cada moradia no mínimo 2 horas por dia.” (Ibidem, p. 64) As leis de higiene deveriam ser impostas pelas autoridades, as densidades demográficas urbanas deveriam ser por elas ditadas, o alinhamento das moradias ao longo das ruas deveria ser proibido — as calçadas eram do tempo dos coches e as velocidades mecânicas já eram uma ameaça de morte. A noção de que cabia aos especialistas decidirem as soluções que deveriam ser impostas pelas autoridades públicas estava contida na própria concepção de urbanismo definida no texto:
“administração dos lugares e dos locais diversos que devem abrigar o desenvolvimento da vida material, sentimental e espiritual em todas as suas manifestações, individuais ou coletivas. Ele envolve tanto as aglomerações urbanas quanto os agrupamentos rurais. [...] Por sua essência, ele é de ordem funcional. As três funções fundamentais pela realização das quais o urbanismo deve velar são: 1o habitar; 2o trabalhar; 3o recrear-se. Seus objetivos são: a) a
ocupação do solo; b) a organização da circulação; c) a legislação.” (Le Corbusier, 1989, p. 139)
A verticalização urbana possibilitaria nova densidade, mas os edifícios precisariam ser construídos distantes uns dos outros para permitir que as aglomerações se transformassem em cidades verdes, nas quais as superfícies verdes se constituiriam em um prolongamento da habitação.
O setor industrial também necessitaria ser submetido a regras lógicas. As indústrias seriam “transferidas para locais de passagem das matérias-primas”, ao longo das grandes vias, devendo as cidades industriais serem lineares e não concêntricas, se estendendo ao longo da via de comunicação. O setor habitacional teria de ser paralelo às construções industriais, separado delas por uma zona verde que protegeria as moradias dos ruídos e da poeira e suprimiria os longos trajetos diários dos trabalhadores. Em geral, o centro de negócios situar-se-ia na confluência das vias de circulação internas. A circulação precisaria garantir destinações diferenciadas às ruas, separando o trajeto do pedestre daquele do automóvel.
A leitura do documento passa a idéia de que é possível elaborar um modelo de cidade que pode ser reproduzido em qualquer região do mundo, por serem as mesmas as necessidades básicas do homem. Um tratamento homogêneo do espaço, como se nas sociedades existisse somente uma diferença de classes e não um antagonismo. Não analisou nem classe social e nem poder, como se os administradores não servissem a uma determinada classe ou fossem desprovidos de ideologia. O Estado era concebido como um elemento neutro, voltado para o bem comum e que operava com base na racionalidade do conhecimento técnico-científico.
Além disso, continha uma visão demiúrgica da arquitetura. O arquiteto seria o artífice do mundo, como se somente através da mudança de sua arquitetura, a sociedade pudesse ser modificada. “A arquitetura preside os destinos da cidade. [...] A arquitetura é a chave de tudo” (Ibidem, p. 141-142) e seria capaz de eliminar as injustiças sociais, submetendo os interesses privados aos coletivos. Não foi uma simples coincidência o fato de a Carta de Atenas ter sido escrita na década do New Deal, da etapa caracterizada por governos capitalistas interventores na ordem econômica e social, e valorizadores da planificação com base na competência técnica. A cidade precisaria de um plano que determinasse o cumprimento, de modo setorizado, das quatro funções: “habitar, trabalhar, recrear-se (nas horas livres), circular.” (Ibidem, p. 130) Segundo a Carta, zoneamento destas funções-chave ordenaria o território urbano.
Defendia um plano global e uma especialização das regiões, pois podendo “ser decididas atribuições, restrições e compensações que fixarão para cada cidade envolvida por sua região um caráter e um destino próprios.” (Ibidem, p. 135) Assim, uma cidade possuiria, por exemplo, uma função somente político-administrativa, com um controle rígido de seus habitantes — inclusive das migrações —, que não necessitariam ser ouvidos. A ditadura do plano daria a uma cidade um caráter de empresa ou de máquina de morar, animada pelo espírito da geometria, da ordem e da eficácia. Os projetos que concorreram no concurso para o plano urbanístico de Brasília tinham, no mínimo, inspiração racionalista; e venceu o que melhor aplicava os princípios da Carta de Atenas.
Brasília foi projetada com a supressão das ruas tradicionais, surgindo em seu lugar vias “exclusivas para os automóveis, com a solução dos desníveis para evitar os cruzamentos e os semáforos” (Vesentini, 1986, p. 151). As amplas vias expressas não possuíam calçadas; para os pedestres haveria o espaço no interior das superquadras. Existia uma preocupação, no plano urbanístico, de geometrização do espaço. “Cortada por um eixo rodoviário, que vai da extremidade da Asa Norte até à da Asa Sul, a cidade divide-se em setores (comercial norte e sul, hoteleiro, bancário etc.) e quadras, sempre referenciadas por letras e números: ...” (Ibidem, p. 152). Esta forma de referência através de letras e números foi, para Vesentini, u’a maneira de lhe dar um caráter universal, não precisando ser mudado ao sabor da história. Além disso, ela não possui um centro urbano — no seu significado tradicional — como as outras cidades, inclusive por causa da relativa auto-suficiência das superquadras. Apesar do pretenso igualitarismo, a cidade possui exemplos evidentes de segregação espacial: dentro do Plano Piloto, com as áreas reservadas às mansões e granjas e, fora dele, com as cidades-satélites, onde os construtores da capital — os candangos — e muitos dos que ali chegaram posteriormente, foram se alojar.
Ela foi planejada para ser uma cidade de burocratas, caracterizada pelo funcionalidade: distribuição espacial dos setores, circulação rápida dos automóveis, alocação rigorosa de escolas, igrejas e áreas de lazer, edifícios públicos que se destacam pela sua monumentalidade e pela presença marcante de concreto e vidro, materiais nem sempre adequados para ambientes tipicamente tropicais. Com tudo definido, “não há margem para qualquer participação ativa ou iniciativa criadora por parte do morador.” (Ibidem, p. 154)
Entretanto, a sociedade nem sempre segue o plano dos especialistas. Os pés na grama criaram atalhos, existem semáforos e há espaços ocupados pelo setor informal. Isto apesar de ter sido pensada com a finalidade de controlar a vida urbana e de ser uma cidadela do príncipe, sem muros visíveis. Sedia importantes órgãos estatais e possui unidades dos três segmentos das Forças Armadas. Ou seja, além de construída distante das concentrações demográficas da época e com uma organização espacial interna dificultadora de concentrações populares, possui também um cinturão
militar de proteção, contendo apenas quatro saídas, o que facilita o seu fechamento. O fato de estar próxima ao centro geodésico do território brasileiro permitiu que fosse utilizada como símbolo de interiorização. A sua arquitetura grandiosa e moderna expressava um novo Brasil, moderno e industrial. Grande parte da população, eufórica com o crescimento industrial e com a modernização, começava a acreditar mais em si, pois até no futebol, aquele esporte que a ajudava a esquecer de alguns de seus problemas, conseguira ser campeã mundial em 1958.
Brasília, como foi citado, estimulou as migrações internas brasileiras. São elas de difícil estudo, em razão da ausência de estatísticas diretas sobre este assunto no período. Até 1940, inexistiam indicações sérias sobre o tema; foi somente a partir desta data que o censo passou a indicar o lugar de nascimento e onde ele estava por ocasião do recenseamento. Ainda assim, só possuíam as entradas e saídas dos migrantes tais quais apareciam no momento do censo, nada dizendo sobre os movimentos que ocorreram no intervalo de dois recenseamentos consecutivos.
Entretanto, a população brasileira possuía um grau de mobilidade bastante elevado mas irregular, conforme as regiões. Em 1970, residiam fora de seu local de nascimento quase 30,5 milhões de pessoas ou 33% da população (1940: 8,5% do total; 1950: 10,3%; 1960: 18,2%).
Tabela 14. Migrações Internas - 1960 (1.000 pessoas)
Região Entrada de migrantes Saída de migrantes Saldo de migrantes
Sudeste + 1.862 - 1.487 + 375 Sul + 1.161 - 213 + 947 Norte e Centro-Oeste + 795 - 237 + 558 Nordeste + 165 - 2.046 - 1.881
Fonte: Hugon, 1977, p. 184
Verifica-se, pela tabela acima, que a região Nordeste foi a que mais forneceu migrantes e a única com saldo negativo. As médias regionais não se aplicavam, é claro, a todos os estados que a compunham. Nas regiões nas quais o saldo foi positivo, havia estados de emigração, como Minas Gerais na região Sudeste e Rio Grande do Sul, na Sul. Muitos se dirigiram para estados da própria região, como os mineiros em São Paulo; aliás, este último estado foi o que mais recebeu migrantes, seguido pelo Paraná. Entretanto, São Paulo também forneceu muitos migrantes para outras regiões (e com grande proporção de mulheres – 47,8% -- o que, na época, poderia significar um deslocamento de modo durável).
Isto também alterou a nossa população urbana, apesar dos critérios adotados, pois era a que se situava em áreas determinadas como urbana e suburbana. Entre 1940 e 1950, a população rural aumentou 17,4% e a urbana 45,5%, com o êxodo rural fornecendo 2,7 milhões de pessoas à zona urbana. Entre 1950 e 1960, a diferença foi maior, com a rural ampliando em 13,3% e a urbana em 72%.
Tabela 15. Percentual da população urbana e rural de 1940 a 1970 e aumentos intercensitários Percentual da população urbana e rural Aumentos Intercensitários 1940 1950 1960 1970 1940/50 1950/60 População urbana 31,2 36,2 46,4 55,9 45,5 72,8 População rural 68,8 63,8 53,6 44,1 17,4 13,3 População total 100,0 100,0 100,0 100,0 25,9 36,6
Fonte: Hugon, 1977, p. 192 Organizado pelo autor
Entre as causas do êxodo rural, estavam a absorção de pequenas e médias propriedades rurais por parte dos grandes proprietários, a expectativa de encontrar melhores condições de vida (salários melhores, educação para os filhos, assistência médico-hospitalar), a difusão do modo de vida urbano como bens de consumo e de entretenimento, a estrutura fundiária antidemocrática, a substituição da cultura de produtos alimentares pela agricultura de exportação, a industrialização urbana e, após 1964, o Estatuto do Trabalhador Rural que, ao estender direitos trabalhistas para o setor rural, fez com que muitos proprietários, não podendo ou não querendo arcar com os encargos sociais, demitissem seus empregados. A partir deste momento, ampliou o