• Nenhum resultado encontrado

3.4 De como a voz narrativa constrói a si mesma através dos Outros

3.4.2 De como constrói a imagem do primeiro marido

Embora não relate situações extremas de insatisfação em sua vida de solteira, a narradora diz que o casamento foi o meio que encontrou para viver com plena independência. Importante notar que, mesmo a certa distância temporal sobre o episódio relembrado, a voz narrativa parece acreditar que o casamento continua sendo uma forma de viver plenamente uma independência como indivíduo, posto que não usa aspas nem sequer questiona ou pondera o trecho narrado:

Yo me quería casar lo antes posible. Tenía prisa por vivir, por dejar la casa de mis padres, el bullicio de mis hermanos – con el nacimiento de Lavinia, éramos ya cinco –, y empezar a vivir con plena independencia (BELLI, 2001, p. 21).

Aos 18 anos, numa visita à fazenda de uma amiga, conhece aquele que seria seu primeiro marido: “Era un hombre alto, delgado, los ojos pequeños tras las gafas, un poco tímido. Me gustó porque era aficionado a la lectura igual que yo. Hablamos de literatura sentados sobre la hierba viendo al río” (BELLI, 2001, p, 21). Nesse trecho, sua descrição física cria a imagem de um homem sério, tímido e calado, mas que, como ela, aprecia literatura – esse é o único momento, pelo menos no discurso da narradora, em que efetivamente compartilham um elemento em comum. Como se

82

Responsável pela assinatura do Tratado Bryan-Chamorro, em 1914, quando ministro plenipotenciário da Nicarágua. O acordo cedia perpetuamente aos EUA os direitos de propriedade exclusiva de terras e instalações para a construção do canal interoceânico no país centro-americano.

verá por comparação com suas outras relações, ele não parece ser física nem intelectualmente estimulante e desafiador, como os tipos que chamam a atenção da narradora, mas representa o modelo ideal de pretendente que os pais da narradora projetavam para ela: um rapaz do mesmo nível educacional e cultural e pertencente a uma família tradicional da Nicarágua. No entanto, uma característica discursiva chama a atenção sobre esse personagem: seu nome não é revelado em nenhum momento; a narradora apenas se refere a ele por seu papel social “mi marido”.

A ausência do nome próprio, para além de desumanizar a personagem, revela uma construção discursiva que sugere indiferença e desprezo por parte da visão da identidade narrativa sobre a existência dessa personagem em suas memórias. Não raro, ele é constantemente descrito como uma pessoa apática e melancólica “a pesar de su juventud, estaba ya tan fatigado de la vida” (p. 18) ou “No le interesaba salir conmigo, ni con amigos, ni siquiera ir al cine. Saber que yo estaba cerca era suficiente para él. Ni siquiera necesitábamos hablar, me decía” (p. 23). Além disso, a narradora contrastava sua própria vitalidade, otimismo e curiosidade com o pessimismo e passividade do esposo “La verdad es que éramos tan diferentes como el día de la noche. Yo era toda curiosidad, optimismo, vitalidad. Él en cambio era pesimista, soportaba la vida” (p. 28). Dessa forma, a narradora se utiliza do outro como contraponto para a construção da imagem de uma mulher cheia de vida, de desejos, de vontade de mudar o mundo. A partir desse contraste com o primeiro marido, a narradora começa a delinear, na própria imagem, o campo onde se darão as grandes transformações posteriores, que se desenvolvem do contato com outros amores. Além disso, a enumeração de características negativas atribuídas ao primeiro marido também acompanha os sentimentos que a narradora experimenta durante a rotina tediosa, enfadonha e monótona do casamento, que, diferentemente do que acreditava quando solteira, se mostrou um universo privado hostil e incômodo.

Quando já envolvida no sandinismo, a narradora revela que grande parte de sua habilidade em mentir devia ao marido, que nunca havia desconfiado de suas atividades clandestinas até ela mesma lhe contar: “Estaba segura de haberlos despistado como aprendí a hacerlo con mi marido, con el que no me crecía la nariz ni me ruborizaba o apartaba los ojos cuando inventaba menesteres o itinerarios falsos” (p. 53) e ainda:

Mi marido era tan poco observador que no se percataba de que las mujeres no solemos encerrarnos a leer en el baño, como es costumbre masculina. Pasarían varios años aún antes de que él supiera de mis andanzas. Y eso porque se lo dije (BELLI, 2001, p. 45).

O primeiro marido não era, contudo, simplesmente uma vítima nas mãos de uma mulher independente e que lutava para realizar seus sonhos. Ele havia tentado controlar a publicação de alguns de seus poemas, como tratado no Capítulo 1, mas a narradora já estava, então, no comando de suas próprias ações, assumindo responsabilidades e não permitindo que ninguém detivesse sua força de criação literária.

A única atitude contra a narradora que ele teria logrado foi a de afastar suas filhas num período em que, condenada à prisão na Nicarágua, ela não podia voltar a seu país para vê-las. A resposta à sua atitude vem em seguida, quando a narradora, usando astutamente uma ameaça reversa, consegue ter as filhas próximas de si depois de sete meses e exalta sua satisfação através de seu poder primitivo:

Salí a la calle más alta, más fuerte, poderosa, como una diosa antigua, torva, vengativa, que defiende a sus hijos con las armas que sean. Me sentí feliz de ser mujer, de mi instinto, de ser quien era (BELLI, 2001, p. 98).

O anúncio da separação do primeiro marido acontece quase sem nenhuma informação em meio à narração de situações ligadas ao movimento sandinista, como se essa separação fosse algo sem grande importância ou que essa voz discursiva autoficcional optasse por omitir da narrativa os detalhes. Ao comentar a separação, não a relata com detalhes ou reflexões, embora desde o início dê sinais do desgaste que isso lhe causara. Paralelamente a esse processo, as relações extraconjugais e o movimento sandinista já vinham provocando na narradora uma autoconfiança e um desejo de novas experiências que acabariam por impulsioná-la à decisão do fim do primeiro casamento.

Antes do fim de seu primeiro casamento, contudo, a relação extraconjugal com o Poeta, personagem que trataremos a seguir, tem um papel decisivo na construção da identidade narrativa,porque causa transformações significativas na narradora.