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Como visto, as memórias do universo privado de El país bajo mi piel prevalecem sobre as memorias de guerra, do universo público, sobretudo porque a narrativa metafórica e quase poética fica reservada aos relatos do eu narrativo. Segundo Lúcia Castello Branco, no livro O que é escrita feminina (1991, p. 14), a dita escrita feminina foi historicamente associada a temas e questões que relacionavam a mulher ao confinamento do lar:

[...] essas preferências são facilmente explicáveis por uma leitura de cunho sociológico: com um olhar histórico, não é difícil afirmar que as mulheres não escreviam textos épicos porque não iam às guerras, que sua preferência pelo gênero memorialístico ou autobiográfico se deve a seu profundo conhecimento dos universos do lar e do eu, próprios à criação de uma escrita intimista etc.

Até a emancipação feminina impulsionada pelo pensamento feminista, fundamentalmente a partir da década de 1960, quase não se falava na escrita feminina sobre temas como negócios, vida urbana, guerra, e de qualquer coisa que pertencesse ao universo exterior ao “Eu” (BRANCO, 1991, p. 14). Embora a identidade narrativa de El país bajo mi piel tenha inicialmente se adequado às exigências de sua família e classe social ao casar-se virgem aos 17 anos com um rapaz culto de seu mesmo círculo social, o contato com ideias feministas libertadoras, juntamente com a consciência sócio-política, têm papel decisivo na construção da identidade narrativa. Com o questionamento e a conscientização de si há o movimento de saída para o universo público, da guerra, do trabalho, da independência e até mesmo dos amantes.

Lugar de profunda erupção do íntimo, o corpo ganha especial protagonismo na narrativa aqui analisada.

Segundo Branco (1991, p. 15), o corpo feminino seria o meio pelo qual a voz narrativa tem contato e se relaciona com o mundo: “essa trajetória […] é certamente atravessada pelo corpo, já que o corpo está sempre aí, „esbarrando‟ no real e

apontando caminhos e descaminhos”. Nesse sentido, o espaço privado faz da concretude do corpo o lócus principal onde são explorados sentimentos como angústia, confinamento, prisão, solidão, conformação, entre outros. Em El país bajo mi piel, o corpo configura-se como meio intermediador das relações do “Eu” com as experiências vividas e rememoradas. O corpo é o meio pelo qual se dá a relação com o outro e com o espaço que o cerca, é o lugar onde as experiências – resultados dessas relações – são registradas, codificadas, elaboradas, questionadas e compreendidas.

La domesticidad me ahogaba. Empecé a tener pesadillas. La mitad del cuerpo se me convertía en electrodoméstico, y me agitaba como lavadora de ropa. Por esa época leí libros feministas. Germaine Greer, Betty Friedan, Simone de Beauvoir. Mientras más leía menos podía tolerar la perspectiva de años y años conversando sobre recetas de cocina, muebles, decoración interior. Me aburrían los sábados en el Country Club repitiendo la vida de nuestros padres: los maridos jugando al golf, los niños en la piscina, mientras nosotras dale otra vez con las niñeras, la píldora, el dispositivo intrauterino de cobre o los ginecólogos de moda (BELLI, 2001, p. 25-26).

Ao longo das memórias, é possível encontrar trechos em que a voz narrativa demostra insatisfação com sua vida pautada pelas convenções sociais. Nesses casos, como no fragmento acima, ela desumaniza a si mesma e compara seu corpo ao maquinário doméstico, no entanto essa relação mecânica é transgredida quando vincula o íntimo do próprio corpo80 às mudanças, à revolução, o que aponta mais uma dualidade discursiva em El país bajo mi piel, como veremos mais adiante.

Branco (1991, p. 21-22) ainda afirma que uma das características da escrita feminina é um percurso pela materialidade da palavra, que procura fazer do signo a própria coisa: “Ao procurar trazer a coisa representada para a cena textual, ao procurar fazer sua apresentação em lugar de sua representação, o que a escrita feminina busca é, em última instância, a inserção do corpo no discurso”. No fragmento abaixo, vemos como a insistência de sensações e a repetição da tomada

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A autora de El país bajo mi piel já havia tratado desses temas do universo privado em sua primeira obra de poesias Sobre la Grama, porém de uma forma desafiadora, falando de intimidades do universo feminino que eram consideradas tabu, como o tema da menstruação e da relação dessa intimidade com o próprio corpo, a celebração dos plenos poderes de mulher, nomeando a sexualidade e o exercício do gozo, mas tratando esses temas de maneira natural, aberta e sem pudores. Como já vimos, essa quebra de expectativa e desafio da hipocrisia social chocaram a sociedade local e, ao mesmo tempo, a colocaram em destaque no cenário literário do país.

de consciência do próprio corpo causa a tomada de consciência de si como sujeito único; aqui, o corpo passa a ganhar protagonismo na vida da voz narrativa.

Relaciono el fin de mi infancia con el recuerdo de viajar en el asiento trasero del auto de mi papá un día cualquiera, después del colegio, y darme cuenta como si me hubiera partido un rayo, de que estaba y estaría para siempre sola en mi propio cuerpo. Todavía me parece sentir el golpe de la adrenalina, el súbito sobresalto con que tuve esta certidumbre. En un instante comprendí aterrada que nunca nadie estaría dentro de mí, sentiría lo que yo sentía, escucharía mis pensamientos más recónditos. No me podía cambiar por otra persona ni ser otra cosa que esa niña de falda escocesa y blusa blanca de uniforme. Jamás podría ver de frente mi propia cara, sino a través de los espejos (BELLI, 2001, p. 15).

Cabe notar, porém, que esse processo de conscientização do “Eu” individual e único só se dá porque esse sujeito reconhece sua fragmentação existencial “como si me hubiera partido um rayo”, fragmentação essa já anunciada anteriormente. A descoberta da individualidade aparece acompanhada de uma consciência da solidão como ser humano. A ideia de solidão vem de encontro com a sensação de medo, que já havia sido referenciada na introdução da narrativa, quando pondera que o temor à solidão estaria ligado a seu gosto pelas multidões, aos homens e ao desejo de quebrar paradigmas e transcender os limites estabelecidos socialmente para o gênero feminino, justamente pelo fato de sua mãe ter sentido as contrações no Estadio Somoza durante um jogo de beisebol, como narra na seguinte passagem:

Quizás porque mi madre sintió mi urgencia de nacer cuando estaba en el Estadio Somoza en Managua viendo un juego de béisbol, el

calor de las multitudes fue mi destino. Quizás a eso se debió mi temor a la soledad, mi amor por los hombres, mi deseo de trascender limitaciones biológicas o domésticas y ocupar tanto espacio como ellos en el mundo (2001, p. 6, grifos nossos).

Outro momento em que o corpo ganha especial protagonismo é quando narra uma conversa com sua mãe sobre sexo e maternidade. A narradora revela entender as mudanças e as surpresas da puberdade a partir da compreensão do próprio corpo e, como consequência, seu reconhecimento como mulher:

No recuerdo sus palabras exactas, pero sí la sensación de maravilla y poder que me invadió. Aunque su intención era seguramente inculcarme las responsabilidades de la maternidad, sus palabras acerca del poder de la feminidad en una mente joven y sin prejuicios como la mía, despertaron ecos que trascendían la mera función biológica. Yo era mujer. En el género humano la única que podía dar vida, la designada para continuar la especie [...] Por ser esa criatura

espléndida todos los meses, ya pronto, mi cuerpo se prepararía para recibir la semilla germinada, acunarla y hacerla crecer en la oscuridad del vientre (BELLI, 2001, p. 22).

No pensamento acima, percebe-se uma forte relação da narradora com a concepção conservadora do que é ser mulher, porque, ao afirmar “no recuerdo sus palavras exactas”, vemos que essa visão permanece ainda no presente da escrita, uma vez que não as questiona, apesar de todas as questões feministas a que foi exposta e que diz ter sido de grande influência em sua vida. Não se pode negar que há, em seu discurso, uma forte propensão aos valores patriarcais em que ela havia nascido e se educado, e à visão que ela mesma comenta como “anales clásicos de la feminidad” (BELLI, 2001, p. 6). Esse trecho ainda antecipa outra dualidade: o mesmo corpo feminino, construído discursivamente, a serviço dos estigmas do gênero é também um potente elemento de transgressão dos valores patriarcais.

A ideia do corpo como potência também se estende ao parto, que se configura como outro evento de compreensão do “Eu”, porque o corpo atua como um elo recebendo os estímulos e as percepções externas, codificando-os de modo a permitir sentidos que ultrapassam a própria experiência, além de refletir uma anterioridade de sua existência. Por exemplo, ao relatar o nascimento de sua primeira filha, Maryam, a narradora diz que os médicos e enfermeiras comentavam o quanto ela era uma mãe jovem com 18 anos, ela, no entanto, se opõe reiterando a ancestralidade do corpo feminino: “Yo, en cambio, me sentía antigua, parte del múltiple cuerpo femenino que compartía en este rito de pasaje el poder de las convulsiones violentas de las que emergieron el mar, los continentes, la Vida” (2001, p. 24).

No decorrer da narrativa, o corpo também é o lugar da resistência e do sacrifício na luta pelas mudanças político-sociais em seu país, lugar de transformações, metamorfoses e revolução. O fato de a narradora pertencer a uma família tradicional e conhecida na Nicarágua tornava-a um alvo mais difícil e delicado de administrar para ações terroristas da ditadura de Somoza, uma vez que qualquer ataque de resultados mais sérios poderia ganhar proporções ainda maiores dentro e fora da Nicarágua, chamando a atenção da mídia internacional. Ao narrar um episódio em 1974, em que a polícia secreta da ditadura começa a persegui-la e vigiá-la constantemente de modo a ameaçá-la e dissuadi-la de se posicionar contra

a ditadura, o corpo feminino ganha novos significados na construção narrativa do texto.

Se por um lado a experiência de ser perseguida por estranhos lhe causava temor pelo desamparo das filhas, Maryam e Melissa, caso algo sério acontecesse, por outro sentia raiva crescente pela ditadura e um ímpeto por não retroceder e continuar lutando.

Me juré que por miedo no volvería a ser una pasiva observadora de cuanto era fallado y miserable a mi alrededor. Me haría bien, pensé, sentir en carne propia lo que significaba la vulnerabilidad de la mayoría de mis conciudadanos. La esencia de toda lucha era soportar los obstáculos, continuar. De otra manera nunca sería posible alcanzar los sueños. Si me entregaba al miedo, terminaría matando mi alma por salvar el cuerpo (BELLI, 2001, p. 55).

O corpo também é o ponto de tensão e contato direto com a ameaça e a violência do Estado autoritário “sentir en carne propia” e, ao mesmo tempo, serve de arma de luta e resistência tanto à ditadura quanto aos próprios medos e incertezas em sua participação no sandinismo.

Há ainda na obra uma constante referência ao ventre como local de refúgio, proteção e segurança em momentos difíceis de medo, solidão, ameaça e insegurança. No episódio referenciado acima, em que é perseguida até sua casa em Manágua, a narradora, tomada pelo medo, menciona o desejo de se refugiar com as duas filhas num ventre. “¡Si hubiera podido guardarlas de nuevo en mi vientre! Quería un vientre donde esconderme con ellas. La tíbia seguridade del líquido amniótico” (BELLI, 2001, p. 55). Em outro momento, falando da relação muitas vezes complicada com sua mãe, a narradora deseja as águas do ventre materno em busca de conforto e garantia de um rumo mais seguro para sua vida, uma vez que considera o útero espaço seguro e livre das ameaças e dificuldades enfrentadas no período de clandestinidade e guerrilha.

Esse corpo feminino da narradora, que ora avança, ataca, quebra paradigmas, reivindica e conquista novos espaços e ora recua e se submete aos valores mais conservadores e predeterminados dentro da sociedade patriarcal, revela justamente na contradição e na dualidade a sua humanidade.

Contudo, é interessante notar que um tema como a maternidade – tão representativo e simbólico do universo privado da escrita feminina – tenha se manifestado em sintonia com o tema da Revolução, de modo geral durante a Revolução Sandinista, e especificamente na narrativa de El país bajo mi piel. Discutiremos isso na continuação.