O CUIDADO NA FAMÍLIA
2.2 Juventude: contexto escolar e trabalho
2.2.1 De cuidada à cuidadora: feminilidade?
Todas nós estudamos em escola pública, explica Rosa ao iniciar relatos do seu tempo escolar, no qual predominam tempos cronológicos demarcados pela inserção na enfermagem, casamento e maternidade. A despeito disso, sua trajetória, as motivações e os significados construídos em torno da escola são marcados pela condição de classe. Rosa era pobre e por isso estudou na escola dos pobres. Ela explica que, na favela onde moravam, havia duas escolas: uma mais próxima do bairro rico e a outra onde só tinha mato. Contou-nos que só algumas das suas irmãs conseguiram estudar, já nas primeiras séries, na escola próxima do bairro rico - já que esta era uma escola boa e de difícil acesso. Ela mesmo conseguiu estudar lá só depois de adulta, explica.
Era ali [explica onde ficava a escola]. A gente tinha que atravessar um córrego que tem ali. Eu não sei se você já viu...Hoje tem uma ponte, a gente atravessava era nas pedras para ir para a escola. Uns caiam na água e chegavam molhados.[Risos] Era muito bom! Um bocado estudou no Darci Ribeiro porque lá era difícil de entrar. Tempos atrás não era fácil. Por quê? Porque quando tem uma escola que é boa, aí as pessoas que têm melhores condições querem que seus filhos estudem lá. Para a gente mesmo que precisava, a gente não conseguia. Eu, por exemplo, eu fui estudar lá quando fui fazer o ensino fundamental [referindo-se da sexta série em diante]... Eu já era adulta porque mais nova eu não consegui não. Tinha o Parque das Mangabeiras onde nós brincávamos muito, só que não era parque, era mato... Era muito bom. (Rosa)
Rosa relata as coisas boas de estudar num lugar com mato e as diversões próprias da infância. Aliás, destaca-se em toda a sua narrativa - como já dissemos - a capacidade de descrever as alegrias, as coisas boas da sua vida. Apesar da relação com o lugar, ela conta sobre a escola como quem não está no lugar desejado, ocupado pelos ricos. Nesse sentido, a escola também influencia na constituição de Rosa “como um espelho” (SARTI, 2005), percebendo a si mesma não só como “eu”, mas também como o “outro”, condição da existência do “eu”. Assim, ela descreve as contradições de precisar estudar numa escola boa já que era privada de condições objetivas da vida, ao contrário dos ricos.
Voltamos à problematização do cuidado associado a escolaridade e competitividade. Como notou Tronto (1993), se olharmos para as relações de gênero, classe e raça, percebemos que aqueles que estão nas posições mais inferiorizadas na sociedade fazem o trabalho de cuidado, enquanto os que detêm poder usam sua posição de superioridade para demandar o cuidado dos outros. Também nesse sentido, a boa escola como um lugar de cuidados, é demandada pelos ricos.
Na sua narrativa do tempo escolar tampouco percebemos a falta de controle desse tempo por imposição de uma organização de gênero que acabava excluindo as mulheres da escola. Na sua família havia incentivo para a escolarização das filhas, sobretudo por parte da mãe, sendo o tempo de trabalho doméstico e o lazer rigidamente controlado de modo a levar em conta as questões escolares. O trabalho assalariado ou exacerbado na infância, como vimos, é significado nessa família como negativo e como falta de opção.
Por volta dos 14 anos é que Rosa e suas irmãs passam a trabalhar, as mais velhas começaram um pouco mais cedo. Rosa não percebe sua condição como negativa, mas, ao contrário, como um privilégio diante da inserção ainda mais precoce no trabalho das irmãs e das pessoas da comunidade. A inserção no trabalho é o que vai contribuir para que Rosa vivencie ao seu modo a condição juvenil e sua construção de identidade. Essa condição reforça a afirmação de Juarez Dayrell (2007) de que, no Brasil, a condição juvenil e possível de ser vivenciada quando os jovens trabalham e podem, desse modo, garantir o mínimo de recursos para o lazer, o namoro ou o consumo.
Rosa conta que estudou até a sexta série e parou, para fazer o curso de Atendente de Enfermagem42 na Casa da Fé. Logo que fez o curso, ela continuou empregada na Casa da Fé. Já que
a escola não era mais uma exigência do curso de atendente, justifica que quis sair da escola, revelando a escolarização como restrita à instrumentalização para o trabalho. Ao se afirmar como
42 A formação de atendentes de enfermagem atendia uma demanda própria do Brasil. A princípio, em 1923, o ensino de enfermagem era totalmente voltado para formar enfermeiras de “alto padrão”, como preconizado pela enfermagem nightingaeleana. Tratava-se de um ensino do 1o ciclo (exigência da 4a série do ensino básico) e que fosse aproveitada a denominação já corrente de éauxiliar de enfermagem’ (ALMEIDA e ROCHA, 1989).
cuidadora, profissionalmente, um trabalho feminilizado, constituído e possível “constituinte das feminilidades”, contraditoriamente Rosa adquire autonomia para afirmar seus gostos, considerados pela sua família e pelos modelos da sociedade como propriamente masculinos.
Então, antigamente, ainda se tinha aquela cabeça... “Vai virar homem, não sei o quê...” Eu gostava era de jogar bola. Era de brincadeira de menino mesmo que eu gostava, e assim como eu gosto até hoje. Então, [depois de trabalhar] eu passei a dançar nas rodas de brau...Eu entrava com chicletes na boca...[Risos] Igual aqueles Brau! [Risos] E o mais gostoso que eu acho assim... Meu neto ter me puxado mesmo. Por quê? Ele gosta? Nó! Põe um brau...Ele adora!
Também para Dayrell (2007), na juventude, o mundo da cultura aparece como um espaço privilegiado de práticas e símbolos, na qual os jovens buscam demarcar uma identidade juvenil, sobretudo longe dos pais, embora tendo-os como referência. Nesse sentido, a cultura soul e mais especificamente a figura do brau parecem demarcar um espaço importante na constituição das representações, no modo de agir e ser de Rosa.
Ao estudar os jovens como parte da família, Sarti (2004, p.18) observou que nestas, crescer, significa poder relativizar as referências familiares
desnaturalizando-as, o que permite o processo de singularização, tanto das famílias frente aos modelos, quanto do sujeito diante das imposições familiares. Esse processo atualiza-se permanentemente ao longo da vida, o que implica que, tratando-se de relações familiares, haja sempre o que fazer...Um mau começo dificulta a vida adulta, mas não impede o “crescimento” – entendido não verticalmente, mas horizontalmente, como mudanças de lugares –, se novas possibilidades se abrirem no caminho.
Sabe-se que a “personagem do brau”, como descreve Pinho (2005), é bem conhecida como um homem jovem, quase sempre negro, vestido de forma éaberrante’, com modos e gestos agressivos. É uma manifestação da classe e do gênero (PINHO, 2005) e, nesse sentido, também faz com que relativizemos a construção das “feminilidades” próprias do trabalho de cuidado, na trajetória de vida de Rosa, compreendendo-a para além do ideal tipo cuidadora, com suas pluralidades e contradições.