O CUIDADO NA FAMÍLIA
1.1 Infância: “trabalho-castigo”
1.4.3 Fronteiras entre estar bem e poder competir
Lúcia demonstra perceber que, hoje, as filhas estão menos dependentes38 da sua presença em
casa, mas ela entende que vão permanecer dependentes no futuro. Ela diz que pensa em fazer um curso superior, já que, quando as meninas ficarem mais velhas, elas vão precisar mais dela, referindo-se ao custeio dos estudos.
E assim minha filha, vou tentando: meto a cara no concurso. Minha intenção é agora, não, porque minhas filhas tão pequenas e elas dependem muito de mim, mas quando eles tiverem maior vou fazer um curso superior, faculdade, para ver se a gente melhora a condição de vida da gente, ter uma aposentadoria mais tranquila, para descansar um pouco mais depois. Porque filho a gente sabe que é para vida toda, eles vão ficando maior e vão ficando mais independente, então a gente de certa forma fica mais tranquilo, pelo menos eu espero.(Lúcia)
Constantemente, ao se referir às filhas, Lúcia lembra-se dos estudos:
Eu vejo que isso perde um pouquinho, minhas filhas por exemplo, às vezes eu fico observando elas...é televisão, computador, e às vezes eu compro um livro de presente, elas não lêem, não têm o hábito de ler, sabe? Eu falo: “Gente, vocês têm que ler!” A mais velha até que ainda tem, mas as outras duas não. Falo assim: “Gente, é lendo que a gente aprende a estudar, aprende a escrever a palavra certa, continha...você tem que saber ler para saber o que a equação está te pedindo. Se vocês não souberem ler, você não sabem fazer nada, você tem que ter o hábito de leitura, tem que saber ler pra vocês aprender”. Pego no pé delas, compro livro, à noite às vezes eu tomo leitura delas, mas não é aquela coisa espontânea, igual às vezes eu pegava e ficava a noite toda lendo, aquela leitura, eu viajavaa...iiiii, viajava para tudo quanto é lugar, tudo quanto é cenário do livro...minha mãe comprava e trocava com minha tia, minha tia também lê, ficava uma trocando com a outra. (Lúcia)
Embora Lúcia não esteja desenvolvendo ações de cuidado próxima das crianças, no cotidiano, as suas motivações com relação a trabalhar “fora” estão sempre muito vinculadas às filhas, seja para continuar no trabalho sem estudar, para sair do trabalho que não lhe permite vê-las ou para pensar em qualificar-se mais de modo a garantir-lhes a possibilidade de estudar. A visão de Lúcia sobre o trabalho reflete a ética do cuidado, na medida em que ela se volta para as relações familiares e para a responsabilidade com o cuidado das filhas, mesmo que a distância.
Nota-se que as preocupações de cuidados com as filhas estão sobretudo vinculadas à relação escola-trabalho. Decerto, a escola representa uma possibilidade de ascensão social, como mostram os estudos sobre escola e trabalho das mulheres (DURU-BELLAT, 1990). Mas também é verdade, que se tem exigido mais qualificação para trabalhos mais precários, quebrando-se a relação entre educação-trabalho digno. Fato é que, em uma sociedade competitiva, cuidar bem dos próprios filhos pode significar garantir-lhes uma vantagem competitiva contra outras crianças. Lúcia, por exemplo, conta que havia colocado Vitória na escola de balé da Fundação Clóvis Salgado, a qual, embora seja uma escola pública, é muito pouco conhecida e reconhecida como um espaço a ser ocupado pelas pessoas das classes populares. Lúcia me mostrou fotos de Vitória no balé e explicou como ela acabou se desenvolvendo bem mais que as colegas da escola e da creche. Ela se mostrava orgulhosa da sua atitude de cuidado que se afirma ainda positiva, haja vista o sucesso da filha diante das outras crianças.
No que concerne ao cuidado dos/as filhos/as, a ética do cuidado - pensada de forma restrita ao âmbito das relações familiares - é problematizada por Tronto (2002). Para a autora, ao nos preocupamos com o cuidado, constantemente não o pensamos como uma relação da sociedade, para além dos nossos familiares e suas necessidades concretas e particulares. Desta forma, o cuidado valorizado dentro do quadro competitivo, bem como restrito à família, torna-se uma forma inimiga da igualdade de oportunidades (TRONTO, 2002). Segundo a autora (2002, p.1): “Porque nós não pensamos tipicamente o cuidado em quaisquer condições, que não sejam no íntimo e pessoal, é que geralmente traduzimos este valor em modelos pré-existentes de família cuidadoras.”
2 Rosa
Nosso primeiro encontro com Rosa se deu quando ela estava escalada para trabalhar na farmácia da unidade de saúde. Rosa, nesse dia, usava maquiagem discreta, tinha bochechas rosadas, brincos de pérola, vestia calça jeans bem justa e um tênis baixo colorido. Cheirava a fogão a lenha. Os gestos de Rosa não eram delicados. Quando entramos na farmácia e perguntamos se podíamos acompanhá-la, ela olhou para trás e respondeu que sim com a cabeça, olhando firme. Estava sentada na cadeira com o corpo escorado e com um olhar que parecia desdenhar a nossa presença e nos intimidar. Na farmácia, Rosa cantava música soul em inglês - acompanhando o som do rádio de Rita, que é a funcionária mais constante desse setor – enquanto entregava os remédios para as pessoas que estavam do outro lado das grades da janela. Em tom mais alto que o som do rádio, após ela pegar os remédios, sempre comentava algo: Uai, Dona Jandira, não melhorou a infecção ainda não? Já teve que renovar a receita, Beth?
Rosa tem 45 anos e, aos 20, ficou grávida de Tereza. Atualmente, elas moram juntas com Arthur, seu neto, que tem dez anos. Nesse dia, Tereza veio encontrar-se com ela ao final do expediente, para voltarem juntas para casa. Percebemos que essa era a rotina das duas enquanto caminhávamos junto delas para o ponto de ônibus. Na ocasião, Tereza explicou que trabalhava como técnica de enfermagem em outra unidade de saúde próxima. Reagimos com surpresa diante da semelhança da profissão delas, ao que Rosa comentou: E isso não é nada! [risos] Lá em casa somos oito enfermeiras, explicando que não só ela e Tereza, mas também quatro das suas cinco irmãs e duas sobrinhas fizeram o curso técnico de enfermagem. Ela também disse que duas das irmãs, mais tarde, fizeram o curso superior, acrescentando: meu sonho.
Dias depois, convidamos Rosa para participar da pesquisa e ela respondeu que iria pensar. No encontro seguinte, porém, justificou que não gostaria de participar e, bastante desconfortável, completou que não queria ter um fim como técnica de enfermagem. Perguntamos a Rosa se ela já tinha tentado fazer o curso superior e ela explicou que fez o Exame Nacional do Ensino Médio (ENEM), mas não passou. Ela não sabia explicar se havia se inscrito em alguma faculdade, se tentou usar o auxílio de algum programa do governo, etc. Oferecemos ajuda, caso ela precisasse se informar com relação a outros vestibulares, ENEM, Programa Universidade para Todos (PROUNI), faculdades, etc. Por volta de um mês depois, Rosa nos procurou pedindo informações sobre o vestibular e sobre como usar o ENEM. Estava preparada para a pergunta e trazia na mão os resultados anteriores, dados pessoais, senha. Ajudamos a fazer sua inscrição no Pro Uni e ela passou no vestibular para o curso de enfermagem, com um desconto que tornava o curso possível. Mais
matrícula, do curso e disse que, agora sim, queria contar sua história.
A história de vida de Rosa é uma história intimamente ligada à enfermagem. Todos os relatos dela, das irmãs e da filha foram repletos de histórias da enfermagem, de doenças e de hospitais. Mesmo a enfermagem tendo ocupado quase três quartos da sua vida, sempre nos perguntávamos se tantos relatos assim se relacionavam ao fato de não termos colocado bem a questão da pesquisa, que era compreender o cuidado para além da enfermagem. No decorrer das entrevistas, entendemos que essa era a esfera predominante e constitutiva da vida na família, como observou Tereza: desde nova é só se juntarem que fica todo mundo falando de enfermagem.