O CUIDADO NA FAMÍLIA
2.3 Início da trajetória na enfermagem.
2.3.2 Outros relatos: maternidade e cuidados delegados
Rosa descreve toda a sua trajetória muito vinculada à sua mãe e ao hospital, haja vista que uma grande parte da sua vida se passou lá, já que ela trabalhou 12 horas diárias no hospital durante 31 anos. Os outros relatos, sobre a escola e também sobre a maternidade e relacionamentos afetivos, foram breves. Nos seus poucos relatos, nota-se o modelo de delegação de cuidados e também o cuidado muito relacionado à inserção escolar.
Rosa diz que os dias mais felizes da sua vida foram o nascimento de Tereza, sua filha e de Arthur, seu neto. Notam-se na descrição de Rosa preocupações vinculadas à questão da enfermagem, como não poder assistir o parto.
Minha história de vida...O que eu achei mais lindo foi quando fui mãe e no dia que eu fui avó. [Risos] É, Rosa... Como é que foi? Ah, foi muito bom. Quando eles me ligaram eu estava trabalhando.“Pode descer que o seu neto tá nascendo.”Eu estava trabalhando lá
no IPSEMG... [silêncio] Foi gostoso. Quando eu cheguei lá já tinha nascido, e eu tinha pedido para assistir o parto... Eu já conhecia o médico, mas infelizmente eu cheguei muito em cima da hora. Não tive como assistir o parto, mas eu considero como um dos dias mais lindos da minha vida (Rosa).
Como Lúcia, ela não desenvolveu por muito tempo ações de cuidado junto, face à face, de Tereza, sua filha. Mas apesar disso, ela considera-se bem sucedida na criação da filha, já que arrumou um trabalho a mais depois que ela nasceu e assim pôde pagar alguém para cuidar dela. Relação que toma por base o modelo da delegação (HIRATA E KERGOAT, 2007) de cuidados.
Eu comecei a criar ela sozinha mesmo porque eu já trabalhava e tinha minha carteira assinada... Arrumei mais um emprego e trabalhei no Neo Center. Eu pagava uma sobrinha minha para olhar ela, e eu optei em ter só ela mesmo na época...Eu já sabia o que eu queria, e graças a Deus não tive dificuldade para criá-la, não (Rosa).
No relato acima, Rosa descreve como foi a vida depois que Tereza nasceu, já que também se separou do marido. Ela foi casada na igreja e no civil, o que conta rindo como quem diz um exagero. Ela contou também, com ares de indiferença, que não era muito de paquerar, não.
(...) gostava muito era de dançar. Eu tive dois namorados só. O primeiro que não deu em nada, e o segundo que deu, nós casamos e separamos...[Risos] Mais fácil é sermos amigos do que marido e mulher. Não é fácil não (Rosa).
Tereza sua filha contou que sua infância foi muito boa, lembrando também da dança. Especificamente, lembrou que ela e as primas ensaiavam apresentações da Xuxa para fazer para a família nas festas e no natal. Tereza disse que é filha da sua mãe, no sentido de ter “puxado a ela”, já que Rosa é considerada a doida da família, autêntica e alegre. É a mais bagunceira de todas as irmãs, faz graça até...pros outros. Ela contou que, antes de decidir fazer enfermagem, com dez para doze anos começou a trabalhar no salão da sua tia, salão que fica do lado do bar do avô, entre as casas da família, e que já ficava por lá, lavando cabelo, atendendo telefone. Um dia sua tia lhe falou que ela iria começar a fazer unha, para ganhar seu dinheiro:
Aí eu odiava, mas odiava mesmo, eu chorava demais porque os meninos estavam brincando e eu não podia brincar porque eu tinha que fazer unha. Aí eu comecei a fazer, minha primeira cliente foi uma tragédia e eu nem fiz curso. Aí ela me colocava para eu fazer unha da Andreza [sua prima], Andreza fazer a minha. Aí depois que eu tive o Arthur eu resolvi fazer o curso técnico [de enfermagem]. Minha mãe incentivou bastante, eu estava com Arthur pequeno, né, mas também eu sempre gostei, a gente cresceu vendo todo mundo falando, contando caso de hospital.(Tereza)
O cuidado de Rosa com sua filha também nos pareceu muito vinculado à possibilidade de estudar.
É... Tereza estava sem nada para fazer, e eu falei: “Se você gostar [da enfermagem], você fica...”. Mas o sonho dela era fazer Assistente Social. Por isso que nós estamos correndo atrás. Nós estamos olhando uma escola mais em conta, e ela fez inscrição e não quer fazer. Nosso Deus... Ela está precisando. Tem que tentar, e eu acho que
A maternidade nos relatos de Rosa constitui uma preocupação e, certamente, ela responsabiliza-se com a filha, mas, ainda sim, as suas lembranças sobre o cuidado pouco remetem à maternidade. Ao desempenhar o papel de mãe, as lembranças do cuidar bem não se relacionam à sua presença junto a Tereza, às brincadeiras com a filha, mas, de modo semelhante a Lúcia, estão vinculadas aos seus estudos. A lembrança do cotidiano de cuidado na família, também como Lúcia, faz parte da sua infância, e não das suas vivências maternas.
3 Algumas considerações
Neste capítulo analisamos os relatos de Lúcia e Rosa (e também de alguns familiares), sobre suas vidas no âmbito da família. Os relatos apresentam formas de ser e exercer o cuidado, bem como alguns dilemas e desafios, que também estão colocados para a atuação como técnicas de enfermagem, já que o cuidado se constitui em continuidade. Observamos, no âmbito mais geral, que as agentes cuidadoras, bem como as transições entre agentes cuidadores e que recebem cuidado, estão fortemente marcadas pela dimensão de classe social e de gênero.
Nesse sentido, nota-se a importância da infância como uma etapa de vida em que se evidencia a aprendizagem de cuidados. Assim, a dimensão de classe social mostrou-se radicalmente ligada à conformação do pensamento do cuidado nessas famílias como uma contribuição para relações de troca/obrigação, passível de ser dada pelas meninas (e também um menino, embora questionada a sua contribuição), já que é algo da essência das mulheres, da ordem dos comportamentos e sentimentos da “natureza” feminina. Apesar de essa noção do cuidado ter base na simbologia naturalista, as mães de Lúcia e Rosa, de formas diferentes, são as orientadoras da aprendizagem de cuidado, delegados por elas sobretudo às filhas mais velhas, encarregadas de cuidarem das irmãs.
Na história de Rosa há uma preocupação por parte da sua mãe para que todas as crianças – incluindo suas irmãs mais velhas – pudessem conciliar o trabalho de cuidados com o brincar e com a escola. Além dessas preocupações, percebemos que, sendo Rosa a filha mais nova e sua mãe uma cuidadora legítima do aglomerado, a sua aprendizagem de cuidados se deu numa outra esfera (diferentemente das irmãs mais velhas), na comunidade, acompanhando sua mãe. Nesse lugar, a contribuição para a troca por meio do cuidado é evidenciada na forma de solidariedade com a comunidade, sendo a transmissão de saberes e valores sobre a saúde e sobre as relações interpessoais constituinte e sendo constituída como uma forma de poder próprio das mulheres.
Já Lúcia, como filha mais velha, era a principal cuidadora das irmãs, sendo o seu trabalho um trabalho-castigo, no qual se evidenciam constantes situações de violência e vulnerabilidade. Embora se evidencie uma rede de cuidados familiares que minimamente se mobilizam em torno de Lúcia e das irmãs, garantindo-lhes a assistência para sobrevivência, elas ficavam constantemente afastadas do convívio comunitário, sozinhas, tendo que se virar.
Nota-se que, tanto nas narrativas de Lúcia, quanto nas de Rosa, a instabilidade das formas de prover a vida, sobretudo no âmbito público dos empregos, manifestada na perda do emprego dos pais, incide sobre a dinâmica da casa, fazendo com que as crianças estivessem mais vulneráveis a trabalhar precocemente como cuidadoras, já que suas mães se voltam para o trabalho assalariado.
contribui para a transição das agentes cuidadoras de mães para filhas, como também descreve uma situação particular do cuidado na qual o controle do público, da moral da família, delimita os modos de ser e agir dos agentes cuidadores e dos que recebem cuidado, de forma incisiva.
Evidencia-se em todas as gerações descritas que, ainda que as mães, como responsáveis pela autoridade da casa, sejam as principais agentes gerenciadoras do cuidado, elas, nessa condição, não são as principais cuidadoras, pensando o cuidado como uma relação face à face. Também vimos que, embora o cuidado seja parte de uma rede, em que todos os agentes são vulneráveis, as mulheres são responsáveis por cuidar e, muitas vezes, elas também se colocam a prova da capacidade de cuidar o que é de certo modo, uma proteção do cuidado como algo feminino. Essa última observação pode estar relacionada a um modo de pensar próprio da moral que envolve o cuidado, no sentido de conservação das relações existentes, bem como à necessidade tácita de receber cuidado como parte de uma rede de relações e, ainda, como “mulheridade”, uma forma de proteger-se dos medos diante do cuidado.
Embora não sejam as principais cuidadoras, quando mães, Lúcia e Rosa revelam uma mudança na forma de perceber as crianças como potenciais cuidadoras. A visão da maternidade como uma escolha combinada a uma melhoria nas condições objetivas de vida é importante para recolocação do lugar das crianças como pessoas com as quais se tem obrigações, isto é, virar pelo avesso a socialização recebida. Elas percebem suas filhas como pessoas que necessitam de cuidados e que não podem cuidar autonomamente de si mesmas ou umas das outras, no caso das filhas de Lúcia. Apesar disso, elas demonstram a fragilidade de se delegar cuidado a outrem, seja o marido, a mãe e irmãs (no caso de Lúcia), a sobrinha ou a irmã (no caso de Rosa). Nota-se a ênfase que a escola adquire, como um espaço a compor a rede de cuidados, e a escolarização como uma importante dimensão do cuidar bem das filhas.
Como afirmou Tronto (1983), os grupos subalternizados e, sobretudo, as mulheres desses grupos ocupam posições muito diferentes na ordem social, que justificam e são justificadas pela posição desigual que ocupam como cuidadoras na nossa sociedade. A escolha do cuidado como profissão evidencia o caráter contínuo dessa prática, seja na construção da alteridade e compaixão referente à pessoa a ser cuidada, como no caso de Lúcia, seja na ressignificação dessa compaixão já constituída com relação ao outro da comunidade, como no caso de Rosa. Em meio a esses sentimentos, que também se constroem na e pela falta de opções, a escolha razoável de ser uma trabalhadora de cuidados revela ainda uma possibilidade de afastar-se do cuidado na dimensão doméstica, seja na família ou seja como empregada doméstica. Os trabalhos de cuidado fora de casa como enfermeiras técnicas passam a ser menos um “dom” e mais uma possibilidade concreta de trabalho assalariado, que significa autonomia econômica, mas também autonomia sobre a próprio lugar de mulher, subordinado aos valores familiares.
Assim, concordamos com Tronto (1987) que, em termos éticos, essas mulheres sejam favoreci- das de algum modo, por suas experiências diárias. Em certa medida, elas constroem uma rede de re- lações referenciada na troca e no respeito, na solidariedade que constitui e é constituída, por sua vez, na noção de família mais ampla e solidária, onde o papel dessas mulheres diz respeito ao cuida- do. Evidenciaram-se, em contrapartida, como advertia Molliner (2004), dimensões da “caixa preta” do cuidado. As relações de cumplicidade, respeito na família, de manutenção das relações e da não violência também nos apontam dilemas para a ética do cuidado.