CAPÍTULO 01.OS PROGRAMAS BOLSA ESCOLA NO CAMPO DAS
1.3 O Programa Bolsa Escola de Belo Horizonte
1.3.6 De PEBE a BEM: as mudanças processadas no Programa Bolsa
O Bolsa Escola de Belo Horizonte teve algumas mudanças a partir de 2001,
ano em que foi lançada uma nova legislação, na qual abria-se para a co-existência
de dois Programas Bolsa Escola no município de Belo Horizonte: o Bolsa Escola
do próprio município (o PEBE, que com a nova legislação passa a ser denominado
de BEM – Bolsa Escola Municipal) e o Programa Bolsa Escola Federal.
Por meio da Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001, revogou-se a Lei nº
7.135, de julho de 1996, que dispunha sobre a criação do Programa Executivo
Bolsa Escola do município de Belo Horizonte, que foi descrita anteriormente neste
trabalho.
Com esta nova lei de 2001, foi instituído o Bolsa Escola Municipal –
BEM/BH, que é definido como de “natureza educacional” e cuja finalidade seria
garantir condições básicas à permanência e ao desenvolvimento escolar de aluno de até quinze anos matriculado em escola ou instituição educacional pública ou subsidiada pelo poder público e
que atenda aos requisitos e condições previstos por esta lei (Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001, art. 1º).
Nesta legislação há uma mudança substancial no que diz respeito a
definição do Programa Bolsa Escola do Município de Belo Horizonte se
comparada a legislação anterior, pois há uma delimitação do mesmo no âmbito
educacional em contraposição à grande abrangência deste Programa postulada
na sua primeira legislação.
Neste sentido podemos perceber ao longo da lei um esforço em afirmar o
Bolsa Escola como um Programa educacional, referenciando-se sempre no aluno
como pressuposto de suas ações, conforme podemos verificar no artigo segundo:
“o BEM/BH constitui-se de ações educativas e sócio-econômicas, referenciadas
no a luno de até quinze anos, membro de um núcleo familar
29, alvo de atenção
especial do Poder Público Municipal” (Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001).
Embora este artigo faça referência ao aluno de até quinze anos, o que se
verifica no artigo oitavo desta lei é o estabelecimento de um atendimento que
priorize a faixa etária de 6 a 15 anos, observando para tanto, “a disponibilidade de
recursos públicos e a seleção de castrados residentes no Município por tempo
mínimo de cinco anos” (Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001, art. 8º).
Contudo, a divergência entre os dois artigos permitiu que os profissionais
mantivessem no Programa as famílias que passavam a não ter mais dependentes
e/ou filhos com idade entre 6 e 15 anos, mas que ainda tinham filhos e/ou
dependentes menores de 6 anos.
Tal situação levou a gerente do Programa Bolsa Escola a solicitar um
parecer da Secretaria Municipal de Educação sobre a permanência ou não das
famílias com filhos e/ou dependentes menores de 6 anos no Programa Bolsa
Escola. A secretaria deu parecer negativo sobre a permanência destas famílias no
Programa, ressaltando que a Lei 8.287/01 “delimita o atendimento do Programa ao
29
Sobre a definição de “núcleo familar” entende-se “o grupo referenciado na família, eventualmente ampliada por pessoas que com ela tenham vínculo de parentesco ou dependência, constituindo um grupo doméstico que vive sob o mesmo teto ou no mesmo domicílio” (Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001, § 3º do art. 2º).
grupo de alunos com idade de 06 a 15 anos, não deixando ao administrador
qualquer discricionariedade” (SME/BH, 2004,). E ainda fundamentando este
parecer, expõe o seguinte esclarecimento:
Ademais, o que se pretende no contexto da lei é a permanência do aluno na escola regular. E mais, caso o legislador entende-se que os menores de 6 anos também devem ser beneficiados, haveria feito no corpo da lei, o que não fez. Tanto é que cessará o benefício quando o aluno completar 16 anos, caso o legislador entendesse pela prorrogação teria feito na lei (Parecer da Secretária de Educação de Belo Horizonte em 05/07/04).
Portanto, o parecer da Secretaria formalizou o atendimento considerado
prioritário na lei como sendo o atendimento possível e viável para o Programa.
A delimitação do Programa, enquanto educacional, percebido ao longo da
Lei 8.287/01 abriu precedentes para uma outra lei que fora lançada em janeiro
2003. Trata-se da Lei 8.494, que dispunha sobre o percentual de gastos com o
ensino público municipal, na qual estabelece-se que o município deverá aplicar
anualmente 30% (trinta por cento) da receita proveniente de impostos na
Educação Básica e no Programa Bolsa Escola. Portanto, esta lei inclui o Programa
Bolsa Escola no orçamento da Educação, tirando-o do orçamento geral do
município.
O direcionamento do Programa para o orçamento da Educação ganhou
repercussão entre os movimentos dos trabalhadores da Educação do município,
que rejeitavam a proposta, uma vez que temiam a restrição dos investimentos na
Educação em função do atendimento do Programa, também pouco reconhecido
em sua identidade educacional. No entanto, as justificativas dos gestores do
Programa em prol do orçamento na Educação buscavam respaldo no fato do
município direcionar 30% (trinta por cento) de recursos para a Educação Básica
que seria 5% (cinco por cento) a mais de recursos em relação ao previsto na LDB-
EM 9.394/96, portanto, o Programa não estaria privando o orçamento básico da
Educação.
Borges (2003) afirma que esta situação se configurou mediante as diversas
posições sobre a compreensão do que constitui este Programa, como podemos
ver a seguir:
o fato do financiamento do Programa Bolsa Escola sair do orçamento destinado à educação tem sido muito debatido nos últimos anos, principalmente pelos profissionais da Rede Municipal de Ensino, em assembléias dos trabalhadores em educação e na Conferência Municipal de Educação. Existem posições que percebem o Bolsa Escola como uma política assistencial, que deveria ser financiada pela Assistência Social. Outras posições defendem o Bolsa Escola como uma política Educacional e que deveria permanecer com o financiamento da educação e, uma terceira vertente, que defende que o Programa dever ser gerenciado pela educação mas que o financiamento dever ser feito com os recursos da Assistência ou com os recursos que excedessem aos 30% que já são destinados a educação pelo Executivo (BORGES, 2003, p. 105).
Essa situação também aconteceu em outros municípios e constituiu-se em
alvo da preocupação de alguns pesquisadores, que levantaram questionamentos
sobre a viabilidade deste Programa ser financiado com os recursos da Educação.
Campos (2003) considera que “uma das questões que mais vem preocupando o
setor educacional é a possibilidade, bastante real, desses Programas serem
financiados com verbas que deveriam ser destinadas ao sistema escolar público”
(p. 24) e, como exemplo, esta autora aponta o município de São Paulo, que
desvinculou a verba destinada a Educação para financiar programas de
distribuição de uniformes e materiais escolares.
Esta autora desenvolve suas análises demonstrando que estes Programas
constituem “uma tentação muito grande para o administrador público” porque
ganham uma visibilidade social muito rápida e em contraposição, “os resultados
de uma boa rede escolar pública só se percebem a longo prazo e não são
evidentes a todos” (p. 24 ).
Em relação à entrada do Bolsa Escola para o orçamento da Educação no
município de Belo Horizonte, podemos verificar por meio das informações
fornecidas pela Secretaria de Educação que, em 2004, este Programa ocupou
3,26% do total destinado a este setor. No entanto, não temos a dimensão real do
impacto que ele provoca sobre o financiamento da rede escolar, uma vez que não
sabemos o que deixou de ser financiado para que ele pudesse ter a cobertura da
Educação.
Ainda que não aprofundemos nesta questão, devido ao foco desse
trabalho, cabe ressaltar que o Bolsa Escola atende a uma população que
corresponde a pouco menos da metade da sua demanda inicial em 1997, cujo
total de famílias inscritas foi cerca de vinte e sete mil. Isso implica que para o
Programa dar conta da sua demanda ele teria que aumentar significativamente a
quantidade de recursos consumidos do orçamento da Educação.
Retomando sobre a Lei 8.287/01, pudemos perceber que esta mantém os
mesmos critérios para cadastramento e concessão dispostos na legislação
anterior. O “benefício financeiro” denominado de “Bolsa escolar” continua a ser
repassado mensalmente a um representante do aluno, sendo preferencialmente a
mãe e somente em sua ausência ou impedimento poderia ser o pai ou
responsável
30. Varia-se apenas o valor da renda per capita e do “benefício
financeiro”, pois o valor passa a ser corrigido anualmente por um índice de
correção de âmbito nacional, não especificado na lei.
Nesta lei, definem-se de forma mais detalhada as condições de
permanência no Programa e as situações que podem levar à cessação temporária
ou definitiva do benefício.
Para permanecer no Programa, o bolsista deverá apresentar as seguintes
condições: manter a freqüência escolar igual ou superior a 85% (oitenta e cinco
por cento) das aulas; atender às convocações do Programa para reuniões de
acompanhamento, avaliação de permanência e demais atividades do BEM/BH e
manter atualizados os dados cadastrais junto ao órgão gestor do Programa.
Destaca-se entre estas condições uma diminuição de 5% na exigência da
freqüência escolar em comparação com a exigida na legislação anterior, que era
90%. Tal situação remete a uma análise realizada por Oliveira (2003) que aponta
que esta porcentagem está acima do exigido pela Lei de Diretrizes e Bases da
Educação Nacional, que é 75% de freqüência.
Mesmo com a redução de cinco por cento dessa exigência por parte do
Bolsa Escola, ainda mantém-se uma exigência maior do que a prevista na LDB-
EN 9.394/96, demarcando uma diferenciação na obrigatoriedade escolar do aluno
inserido no Programa.
Em relação à cessação temporária dos benefícios do BEM/BH, está
disposto no artigo 13 da Lei 8.287/01 que esta só poderá ocorrer nos casos de:
falta de representante-bolsista registrado no Programa; descumprimento das
condições estabelecidas para permanência no Programa e “não-recebimento, por
qualquer motivo, do benefício por três meses consecutivos ou cinco meses
intercalados”.
O benefício também poderá ser interrompido definitivamente,
caracterizando o desligamento do Programa nas seguintes situações: as crianças
e adolescentes atingirem a idade de 16 (dezesseis) anos, deixarem de residir em
Belo Horizonte, identificação de fraudes nas informações e documentos
apresentados e “constatação, por inspeção técnica, de melhoria substancial das
condições familares básicas para o acesso, permanência e desenvolvimento
escolar do bolsista, especialmente das condições exigidas para seu ingresso no
Programa” (Lei nº 8.287, de 28 de dezembro de 2001, art. 13)
Até julho de 2005 foram desligadas do Programa cerca de 2.355 famílias
por motivos diversos, como mudança de município, falta de contato com o
Programa, não recebimento do benefício por mais de três meses consecutivos, os
filhos e/ou dependentes saíam da faixa etária prevista pelo Programa e melhoria
substancial nas condições sócio-econômicas. Analisando os relatórios de
desligamentos da Regional Barreiro, foi possível verificar que eram poucos os
casos considerados como melhoria substancial nas condições sócio-econômicas,
que era compreendido como um aumento da renda de maneira que ultrapassava a
30 A pessoa responsável pelo recebimento do benefício financeiro recebe oficialmente a denominação de