CAPÍTULO 01.OS PROGRAMAS BOLSA ESCOLA NO CAMPO DAS
1.1 Os Programas de Renda Mínima
A renda mínima como constituição básica dos Programas Bolsa Escola é
algo evidente nas propostas de instituição dos mesmos. Nesta perspectiva, cabe-
nos compreender sobre a origem desta idéia e sua disseminação no contexto
mundial, através de sua institucionalização em programas sociais.
A renda mínima, aqui, está entendida como transferência de renda a
indivíduos ou família, cujas condições sócio-econômicas não lhes provêm o básico
necessário para a sobrevivência.
Oliveira (2003) nos aponta que “a garantia de uma renda mínima não é um
instrumento redistributivo recente e ao longo da história encontramos várias
menções que nos remetem a este princípio”. De acordo com ele:
Suplicy e Cury (1994) nos apontam outros ideólogos que advogaram em favor de uma renda mínima: Juan Luis Vives (1526); Thomas Paine, um dos principais ideólogos das revoluções americana e francesa; James Edward Meade, prêmio Nobel de economia de 1977, que defende desde 1935 a introdução de um dividendo social – uma renda mínima; Joan Robinson (1937); Juliet Rhys Williams (1942); Milton Friedman (1970) e Celso Furtado (1968) (OLIVEIRA, 2003, p. 35).
Silva (1997) remete às práticas concebidas por diferentes sociedades ao
longo da história da humanidade, cujos princípios são garantir um mínimo de
existência, demonstrando como a idéia de uma renda mínima vem se constituindo,
embora de maneira bastante distinta da que é pensada atualmente.
Esta autora considera que a idéia de renda mínima aparece de uma
maneira mais organizada somente no século XIX. E no século XX, no período
entre as duas Guerras Mundiais, teriam aparecido as primeiras sugestões acerca
do estabelecimento de um “dividendo social” como forma de combater o
desemprego na Inglaterra e nos Estados Unidos. Também na França, nesta
mesma época, ocorreria uma reivindicação por parte
dos fundadores da Revista Ordre Nouveau (Daniel-rops, Aron, Daudieu, Marc) de uma garantia de um mínimo social para cada indivíduo, do nascimento à morte, independentemente de qualquer trabalho (SILVA, 1997, p. 27).
Neste sentido, a autora expõe que no final da Segunda Guerra Mundial e
nos anos 60, esse tema ressurge na Inglaterra e nos Estados Unidos. Na
Inglaterra, através do projeto do liberal Rhys-Williams (1949), que estabelece a
relação da renda mínima com o trabalho e nos Estados Unidos, através do Projeto
de Friedman (1962), que propõe o imposto de renda negativo. No entanto, esse
sistema não teria se implantado como modo de organização da proteção social.
De acordo com esta autora, no contexto dos anos 80 do século XX,
marcado por grande transformação econômico-social, pelo crescente desemprego
e pela precarização das condições de vida, a discussão sobre renda mínima
ganha fôlego como uma alternativa diante da crise. Assim, se disseminam pela
Europa ideários diversos propondo formulações de políticas de renda Mínima,
[...] a partir de variadas modalidades que vão, na França, de proposições liberais (Stoléru e Stoffacs), às proposições mais recentes do socialista Gorz, passando pelas variantes reformistas, também recentes (Bresson, Aznar, Guitton). Na Bélgica (o Collectif Charlles-Fourier); na Inglaterra (Roberts e Parker); e nos Paises Baixos (o Partido Radical, o Partido Ecologista e o Sindicato de Alimentação) registra-se a defesa da direita e da esquerda, em torno da idéia de uma renda mínima universal (EUZEBY, 1991 citado por SILVA 1997, p. 28).
Neste contexto, as implementações de Programas de Renda Mínima se
consolidaram nestes países, apresentando características diversas, mas
mantendo um princípio comum: “a universalidade, isto é, o acesso ao benefício é
garantido a todos que satisfizerem os critérios de concessão” (OLIVEIRA, 2003, p.
36).
Silva (2004) explica que a emergência das propostas de renda mínima na
década de 80 ocorre devido à incapacidade do sistema de proteção social vigente
diante da configuração de um quadro de agravamento social, que se desencadeou
a partir dos processos de transformação da economia e do mundo do trabalho.
Os mecanismos de proteção social vigentes, pensados no âmbito do
Welfare State, fundamentavam-se no pleno emprego. Portanto, a garantia de um
mínimo para subsistência se realizaria via seguro social, como aposentadorias,
pensões, seguro-desemprego, licença-saúde e etc, ou outras formas de
assistência, trazendo consigo critérios que se assentam na lógica da inclusão no
mercado de trabalho. Diante das mudanças no processo produtivo e da
repercussão destas sobre a garantia do pleno emprego, através dos altos índices
de desempregos provocados, esta perspectiva de proteção social torna-se
fragilizada e incapaz de dar conta da demanda emergente.
De acordo com Silva (1997) é neste sentido que os debates no âmbito
internacional têm apontado para a necessidade e a possibilidade de adoção de
políticas de renda mínima, podendo ser verificados fundamentos teóricos de várias
matizes, originando concepções, modalidades e propostas muito diferenciadas.
Ainda que de maneira sucinta, esta incursão sobre a perspectiva histórica
da renda mínima no cenário internacional nos evidencia os traços desta política,
sua trajetória e institucionalização. Esta política que tem sua origem nos ideários
liberais vem traçando uma trajetória marcada pela credibilidade enquanto uma
política eficaz em termos de proteção social.
Da disseminação da política de renda mínima no cenário internacional na
década de 80, vamos verificar a consolidação de suas idéias em nosso país no
início dos anos 90 do recente século passado.
No Brasil, a primeira proposta de institucionalização de uma política de
renda mínima foi colocada pelo Senador Eduardo Suplicy em 1991, através do
Projeto de Lei nº 80, que institui o Programa de Renda Mínima, que teria como
objetivo beneficiar, sob forma de imposto de renda negativo, todas as pessoas
maiores de 25 anos, residentes no país e que aferissem rendimentos brutos
mensais inferiores a Cr$ 45.000,00 (quarenta e cinco mil cruzeiros) (SUPLICY,
2002, p. 339).
Em 2001, o Senador Eduardo Suplicy propõe outro Projeto de Lei que
instituiria, a partir de 2005, a renda de cidadania, através de um benefício
monetário anual voltado para todos os brasileiros residentes no país e
estrangeiros residentes há pelo menos cinco anos no Brasil, não importando sua
condição sócio-econômica (SUPLICY, 2002).
Estes projetos de leis não foram sancionados e a consolidação de suas
propostas não se efetivaram. Contudo, nesta década, surgiram diversos
Programas de Renda Mínima associados à Educação através de iniciativas locais
e também em nível federal e, assim, a idéia de uma renda mínima foi ganhando
visibilidade no contexto das políticas públicas governamentais de nosso país.
O atual governo, eleito em 2002, sancionou a Lei nº 10.835 em 08 de
janeiro de 2004, que institui o Programa de Renda Mínima voltado para todos os
residentes no Brasil, independente de suas condições sócio-econômicas,
configurando uma proposta de renda mínima, desvinculada de contrapartidas do
público e com uma perspectiva universalista.
A consolidação definitiva deste Programa está prevista para 2006, contudo,
o que se verifica é que ele se constituirá a partir da ampliação do Programa Bolsa
Família
8, hoje instituído no Brasil e cujo público está definido dentro de um limite
de renda.
Podemos verificar que a entrada das propostas de renda mínima no campo
das políticas públicas governamentais, nacionais e internacionais, tem levado a
uma proliferação de programas desta natureza, que vem formatando uma política
recorrente no campo da proteção social.
A fim de compreendermos os processos pelos quais a renda mínima
associada à Educação, aqui no Brasil, se configurou como Programas Bolsa
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