• Nenhum resultado encontrado

4. CAMINHOS QUE SE CRUZAM: UM FLERTE ENTRE AS TEORIAS

4.3 E DE REPENTE, A TRS MARCA UM ENCONTRO COM A TEORIA

No nosso estudo, tentaremos descobrir por meio dos discursos de estudantes LGBT se, de fato, suas trajetórias escolares foram marcadas por

preconceito, discriminação, regulação de gêneros, negação de suas reais identidades e ajustamentos normativizadores que pudessem garantir sua sobrevivência nos espaços educacionais. Pessoas LGBT costumam compartilhar discursos marcados por representações, muitas vezes negativas sobre a constituição e vivência de suas identidades e sexualidades, mostrando como a sociedade heterossexista e cisnormativa67 consegue chancelar sua cultura em detrimento daquelas não-normativas.

Se a Teoria Queer vem se ocupar da problematização das formas de regulação de dispositivos sexuais impostos pela cultura heterossexual, contestando a binarização de gêneros e a manutenção de identidades sociais hegemônicas (BUTLER, 1999; SALIH, 2012), a Teoria das Representações Sociais pode, por assim dizer, desvelar no discurso do sujeito coletivo estas marcas de coerção sociossexual tão atacadas pela Teoria Queer.

Podemos dizer que a Teoria Queer, enquanto teoria socioantropológica, problematiza a construção das noções normativas sobre as identidades e orientações sexuais não-padrão; sua proposta é desarranjar o que se pensa convencionalmente sobre o certo e errado das sexualidades, desnaturalizando-as e revelando-as como instrumentos políticos de controle e regulação social (BUTLER, 1999). Assim, a Teoria das Representações Sociais, por tratar de investigar as imagens, sentidos e significados presentes na fala que representa o pensamento coletivo compartilhado pelos sujeitos discursivos, de forma bem sugestiva pode cumprir o papel de revelar a maneira com que estas objetivações e ancoragens passam a orientar as escolhas e agências de determinados sujeitos sobre sua subjetividade.

Ora, voltemos a ressaltar que entendemos a Teoria das Representações Sociais como “uma forma de conhecimento prático, de senso comum, que circula na sociedade; esse conhecimento é constituído de conceitos e imagens sobre pessoas,

67 Que diz respeito à normatização de regras que privilegiam sujeitos cisgêneros (contrário de

transgêneros), ou seja, pessoas que foram designadas com um gênero ao nascer e com ele se identificam; quando há conformidade com as regras construídas para o sexo biológico do ponto de vista da normalização cultural da sexualidade. As variações do termo incluem a expressão cis, cissexual, cissexismo, cissexista. (Cf.: https://feminismotrans.wordpress.com/2013/03/15/cissexual- cisgenero-e-cissexismo-um-glossario-basico/).

papéis e coisas do cotidiano” (RANGEL, 2004, p. 68) e, normalmente, os sujeitos as constroem dentro de seus grupos sociais por meio de seus diálogos, impressões, visões, valores e crenças veiculadas, aceitas e naturalizadas como verdadeiras e inquestionáveis; o que nos leva a refletir que “muitos dos preconceitos, dos estigmas e exclusões decorrem desse processo e dos equívocos que eles podem gerar” (idem, ibid., p. 68).

Por meio das TRS podemos identificar e/ou reconhecer de que modo os sujeitos interpretam suas verdades e o que há, de fato, por trás destas verdades. Suas visões de mundo não se constroem sozinhas, mas na coletividade inconsciente e nas práticas sociais, e lutar contra este pensamento é matéria bastante delicada.

De acordo com Rangel (1999), entende-se como representação social a criação das ideias e sentidos que são coletivas e, às vezes até, inconscientemente, construídos (e compartilhados) sobre os mais diversos temas inscritos na dimensão da existência social e humana; pode ser entendida também como “uma das perspectivas de entendimento da elaboração e da veiculação de conceitos (afirmações e explicações) e imagens da „realidade‟, como os sujeitos a percebem e constroem”.

A Teoria Queer, por sua vez, tenta descortinar o que está posto, o que normativiza, o que engessa por meio da regulação do macrocosmo social; sua proposta é de despolarizar os gêneros, os sexos, as sexualidades e o pensamento hegemônico que afere as noções maniqueístas de comportamento padrão e não- padrão (BUTLER, 1993, 1999; SPARGO, 2006; ROXIE, 2013). A Teoria Queer é uma teoria da sexualidade, da desestabilização da sexualidade legitimada, isto é, a heterossexualidade. E os dispositivos deste padrão heteronormatizador são perceptíveis nos discursos, mesmo daqueles sujeitos cujas sexualidades não são reconhecidas e valorizadas como é o caso da população LGBT.

Assim, a TRS ao ser conjugada com Teoria Queer pode cumprir um papel galvanizador no sentido de revelar o que está circunscrito no inconsciente da coletividade, ou seja, pode nos ajudar a entender como as coisas fora da consciência vão orientando as escolhas, as tomadas de decisão e as representações de si que possuem nossos sujeitos de pesquisa.

É necessário também que voltemos nossa atenção à capacidade que possuem as representações sociais em promover a articulação imediata entre o plano individual e o coletivo, que se consubstanciam e se confundem ao tentar explicar que os fenômenos psicossociais não estão desatrelados das nossas subjetividades, ou melhor, das nossas condições intersubjetivas. Quando um sujeito se permite compartilhar ideias, crenças, imaginários e referenciais simbólicos com um certo grupo, há sempre uma inclinação individual que o permite entrar em consenso com o mesmo, e quando isso não acontece, este enviesamento se dá através dos mecanismos de resistência ao pensamento coletivo e culturalmente amarrado.

Vale lembrar, ainda, que nas nossas relações interpessoais sempre nos vemos operacionalizar novos conceitos no nosso cotidiano através de trocas simbólicas, como por exemplo, a necessidade de ser aceito por um grupo orienta nossas ações no sentido de mostrar nosso comprometimento com o compartilhamento dos códigos e conhecimentos práticos definidos e consensuados nesta dada organização social. Sujeitos da população LGBT recorrem com bastante frequência aos mecanismos de regulação impostos pelo sistema de coletividade, mesmo quando este sistema lhes é acolhedor, como no caso, dos nichos e guetos por eles frequentados.

Assim, a construção de qualquer campo interacional significativo está sempre vinculada a diferentes representações sociais, uma vez que é através das relações e formas de arranjos grupais que são construídos os conceitos e imagens do mundo em que vivemos. Para Moscovici (1978, p. 65) há sem dúvida uma relação inseparável entre conceito e imagem sendo definidas por ele como “duas faces de uma mesma folha de papel”, o que nos leva a crer que um encontra-se diretamente dependente e inseparável do outro como mais a frente poderemos melhor compreender. O que para a TRS pode ser perceptível em termos de conceitos e imagens, para a Teoria Queer pode ser reconhecido em termos culturais, histórica e ideologicamente questionáveis, apresentando marcas e sinalizadores de uma linguagem homofóbica ou cissexista.

Tanto na TRS quanto na Teoria Queer podemos afirmar que é pela linguagem, inclusive, que estas impressões e concepções sobre as coisas são

impressas culturalmente e circulam por meio de signos e símbolos criando redes de entendimento, consensos e partilhas, ou seja, as representações sociais também são artefatos semióticos forjados por nossa necessidade de viver em grupo, nomear, explicar e dar sentido as coisas.

Podemos dizer que por meio da Teoria Queer e da Teoria das Representações Sociais é possível identificar as marcas de reprodução da coerção e da ditadura do padrão heteronormativo nas narrativas destes sujeitos, mesmo dentro do próprio grupo, bem como suas escolhas, suas impressões sobre suas sexualidades/identidades e a construção dos seus projetos de futuro são bastante perfilados, como veremos na nossa análise de dados.

No que diz respeito à TRS, Doise (1990 apud SÁ, 1995, p. 33) justifica o pensamento acima ao corroborar que as “representações sociais são princípios geradores de tomadas de posição ligadas a inserções específicas em um conjunto de relações sociais e que organizam os processos simbólicos que intervêm nessas relações” nos ajudando a entender que nossas escolhas nunca são inteiramente nossas, pois mesmo que não queiramos, é necessário reconhecer que “todos nós somos influenciados por outras pessoas” (ARONSON; WILSON; AKERT, 2011, p. 3). Estas influências e tomadas de posição ante os objetos do mundo são de grande interesse de análise das RS.

Entretanto, ao final deste capítulo, não nos atreveríamos dizer que a Teoria das Representações Sociais e a Teoria Queer, de fato, se assemelham, embora ambas à sua maneira, tentem desvelar as imagens e sentidos de senso comum presentes no pensamento das coletividades, sejam estes pensamentos mais ou menos normatizados e/ou culturalmente hegemônicos. No entanto, se não podemos atestar uma verdadeira cumplicidade teórica em ambas as teorias, podemos dizer que elas positivamente se completam na busca da compreensão dos discursos coletivos dos nossos sujeitos de pesquisa que emblemam este estudo.

A necessidade de se discutir a questão das sexualidades não-normativas em contexto educacional nos estimula a encontrar nos discursos dos sujeitos que vivem e enfrentam as dimensões dessas sexualidades as Representações Sociais que possuem sobre seu processo escolar, ou seja, quais são as imagens, sentidos e

significados que foram construídos (e mantidos por este grupo) sobre a ideia de escola, estudos e a relação deste todo com seus projetos de vida.

Do mesmo modo, os sinalizadores de um discurso marcado pela ordem binarista e heterossexista (BUTLER, 1993; 1999; SPARGO, 2006; LOURO, 2001, 2012; MISKOLCI, 2012) podem ser facilmente apontados pelos descritores da Teoria Queer, ao passo que analisamos os processos de escolarização de jovens LGBT e suas perspectivas de futuro (na dimensão de seus projetos de vida) no curso do estudo aqui realizado.

SEÇÃO V