4. CAMINHOS QUE SE CRUZAM: UM FLERTE ENTRE AS TEORIAS
4.1 MAPEANDO IMAGENS E SENTIDOS: A Teoria das Representações
Quando o psicólogo social franco-romeno Serge Moscovici, inaugura no início da década de 60 uma teoria apêndice da psicologia social, a Teoria das
Representações Sociais (TRS), seus esforços em entender como o conhecimento é
produzido social e culturalmente - seja ele científico ou popular, bem como seus resultados nas relações e práticas sociais significativas – foram, por assim dizer, um grande rompimento com o pensamento positivista e com a forma de se fazer e pensar psicologia aos moldes do que era feito na França dos anos de 1950 e 1960.
Segundo Nascimento (2004) e Brívio (2011), ao lançar na França em 1961 sua obra seminal chamada La psichanalyse: son image et son public, Moscovici trouxe para o cenário de estudos psicossociais um impressionante posicionamento e reflexão sobre a concepção de sujeito, deslocando-se da perspectiva individualista existente na psicologia social norte-americana da época para a relação imediata entre sujeito e objeto na perspectiva da coletividade.
Neste estudo, Moscovici ao se utilizar da expressão “representações sociais” cunhada primeiramente pela sociologia determinista durkheimiana, que antes a tratava apenas como conceito, passa a tratar o termo como fenômeno ao se ocupar de estudá-las através de sua estrutura e de sua dinâmica na sociedade ocidental moderna, isto é, Moscovici passa a se interessar “tanto em analisar o papel das representações em situações concretas da vida cotidiana, com toda a sua dinâmica e fluidez, quanto em compreender o processo mesmo de construções das representações sociais” (DUVEEN, 2009 apud BRÍVIO, 2011).
Sua teoria muito mais afinada com a psicanálise do que com as correntes cognitivistas e comportamentais da época foram silenciosamente ganhando espaço no contexto europeu e não demorou muito para se espraiar pelo mundo a fora, além de penetrar no universo de outras ciências humanas, sobretudo as sociais, como as ciências da educação, por exemplo.
Ao pensar sobre como funcionam os mecanismos que regem o pensamento humano e sua ordem social, ou seja, de onde vêm as explicações das coisas (objetos) insurgentes no cotidiano e perpetradas no imaginário social, o pensador radicado na França começa a buscar respostas nos grupos sociais e seus dispositivos simbólicos e ideológicos, amparando-os com a base científica da
psicologia social, que a título de registro, de acordo com Allport (1985 apud
ARONSON; WILSON; AKERT, 2011, p. 3) pode ser entendida “como o estudo científico de como os pensamentos, os sentimentos e os comportamentos das pessoas são influenciados pela presença concreta ou imaginada de outras”.
Moscovici passa, assim, a tentar interpretar as impressões, símbolos, ideias, conceitos e formas de expressar de dados grupos a fim de entender a ordem de seu pensamento comum e compartilhado passando, então, a organizar essas representações sobre estes fenômenos a partir do olhar e da conceituação coletivamente construída. Desta feita Moscovici (1981 apud SÁ, 1996, p. 31) corrobora este pensamento ao dizer que:
Por representações sociais, entendemos um conjunto de conceitos, proposições e explicações originados na vida cotidiana no curso de comunicações interpessoais. Elas são o equivalente, em nossa sociedade, dos mitos e sistemas de crenças das sociedades tradicionais; podem ser vistas como a versão contemporânea do senso comum.
Com isso, passamos a compreender as representações sociais como uma teoria que se ocupa em entender e explicar o pensamento social através do saber de senso comum e de natureza prática e como ele interfere direta ou indiretamente na construção de subjetividades e identidades dos sujeitos parte de um dado arranjo social.
Partindo da ótica acima apresentada, Lefevre e Lefevre (2012, p. 114) sumarizam o pensamento moscoviciano quando dizem que é através das
representações sociais que “podemos apreender a difusão e assimilação de conhecimentos, definição de identidades e transformações sociais. É um saber prático que liga um sujeito a um objeto com o qual desenvolve relação simbólica e interpretativa”.
Sá (1995) ressalta ainda que esse tipo específico de teoria sobre representações sociais proposta por Moscovici, tem seu surgimento dentro da psicologia social com um claro objetivo central de redefinir os problemas e conceitos desta ciência psicossocial, muito claramente, se valendo deste novo projeto teórico chamado de TRS (Teoria das Representações Sociais).
O autor, ainda chama nossa atenção ao fato de que conceituar as RS não é tarefa simples; com conceituação discutível e muitas vezes fugidia como diz seu próprio criador, muitos estudiosos como Jodelet, Ibañez, Doise, Vala, Sá, Abric, Wagner e Elejabarrieta (SÁ, 1995, p. 29) se esforçam ao máximo para não cair em reduções por demais óbvias e lançar mão de definições simplistas e generalidades, uma vez que “se a realidade das representações sociais é fácil de captar, o conceito não o é”, pois é certo dizer que “a noção de representações ainda nos escapa” (MOSCOVICI, 1976 apud SÁ, 1995, p. 30).
Outro ponto pertinente sobre as representações sociais é que no tocante de sua estrutura elas se configuram ao longo de três dimensões: informação, atitude e campo de representação (ou imagem) tal qual define Sá (1995, p. 31):
A informação „se refere à organização dos conhecimentos que um grupo possui a respeito de um objeto social‟; o campo de representação „remete à ideia de imagem, de modelo social, ao conteúdo concreto e limitado das proposições acerca de um aspecto preciso do objeto da representação‟; a
atitude „termina por focalizar a orientação global em relação ao objeto da representação social‟.
Entretanto, mesmo ressalvando a importância dos três elementos acima citados, Sá (1995) reforça ainda que talvez o mais relevante destes elementos na formação das representações seja a dimensão “atitude” como tal citada por Moscovici (1976, p. 72 apud SÁ, 1995, p. 32): “a atitude é a mais frequente das três dimensões e, talvez, geneticamente a primeira. Por conseguinte, é razoável concluir que as pessoas se informam e representam alguma coisa somente depois de terem
tomado uma posição e em função da posição tomada”, ou seja, nossas ações são naturalmente resultados das nossas representações sobre os objetos do mundo.
Jodelet (1989) salienta também que, para que seja possível entender as representações sociais como forma de conhecimento concreto e interpretação significativa, faz-se necessário, primeiramente, atentar para sua “construção representativa” não deixando de levar em consideração seus mecanismos e
estruturas. Rangel (2004, p. 31) nos explica estes conceitos ao dizer que:
Os mecanismos de formação das representações, considerando-se o enfoque moscoviciano, são a objetivação e a amarração, ou ancoragem, ou ancoramento. Pela objetivação se dá a „materialização‟ de conceitos em imagens. Pela amarração, ancoragem ou ancoramento, assimilam-se ou adaptam-se as novas informações aos conceitos e imagens já formados, consolidados e objetivados.
Este mesmo fenômeno é explicado por Moscovici (1978) da seguinte forma: na objetivação é possível destacar os processos de materialização, classificação e
naturalização das imagens de modo que estas se tornem reais e compreensíveis;
conquanto a ancoragem se proponha a amarrar, no sentido de atribuir, novos conceitos à materialização destas novas estruturas.
Como é possível perceber, partimos do princípio de que as representações sociais são fenômenos que estão no escopo das relações sociais, se construindo e se constituindo em grupos, uma vez que “os humanos nascem num fenômeno simbólico e cultural, e não inventam nada por eles mesmos em suas experiências individuais” (MARKOVÁ, 2006, p. 191), o que vai ao encontro do que pensa Sá (1998) ao nos dar um valoroso ponto de vista quando afirma que:
[...] os fenômenos de representação social estão „espalhados por aí‟, na cultura, nas instituições, nas práticas sociais, nas comunicações interpessoais e de massa e nos pensamentos individuais. Eles são, por natureza, difusos, fugidios, multifacetados, em constante movimento e presentes em inúmeras instâncias da interação social (SÁ, 1998, p. 21).
Desta feita, a Teoria das Representações Sociais pode ser entendida como um campo do conhecimento que tenta compreender a dinâmica das relações humanas sob o espectro da construção psicossocial da realidade, que se dá através das imagens e sentidos partilhados pelos indivíduos dela pertencentes. Em outras
palavras, as Representações Sociais se ocupam da explicação das razões e motivos que levam os sujeitos a construírem e escolherem certas representações do mundo ou de si mesmos.
Para Moscovici (2003) as interações sociais são responsáveis pela construção dos sentidos que damos aos objetos, às imagens, às coisas do mundo; para ele as representações sociais são:
[...] entidades quase tangíveis. Elas circulam, se entrecruzam e se cristalizam continuamente, através duma palavra, dum gesto, ou duma reunião, em nosso mundo cotidiano. Elas impregnam a maioria de nossas relações estabelecidas, os objetos que nós produzimos ou consumimos (MOSCOVICI, 1961 apud DUVEEN, 2003 p. 10).
As representações sociais (doravante RS) são também as imagens construídas social e coletivamente, circulando e se mantendo através do senso coletivo. É através delas que somos capazes de entender a constituição de crenças, ideias e explicações que nos são dadas na evocação de acontecimentos e fatos que circundam e circulam nas esferas sociais. Lefevre e Lefevre (2012, p. 113) também reforçam esta perspectiva ao dizer “a representação social pode ser traduzida como o senso comum, sendo capaz de nos aproximar do tema pelo lado dos atores sociais”, isto é, através daqueles que o produzem e fazem circular.
No entanto, neste ponto há de se ressalvar que as RS não são orgânicas ou naturais, mas sim criações e emblemas sociais sustentados nas diferentes formas de cultura (macrológicas ou micrológicas) ou subcultura. Segundo Jodelet (1989), Moscovici (2002) e Rangel (2004), as RS também podem ser compreendidas como entidades discursivas socialmente reguláveis, ajustáveis e construídas historicamente sendo elas sensíveis às mudanças do mundo e às necessidades da sociedade que as constroem.
Para Marková (2006) e Moscovici (1978), as RS são sempre inteligíveis e ideológicas/ideacionais e é talvez por isso que interferem tanto na constituição emocional dos sujeitos que as partilham e as tomam como certas e inquestionáveis, pois tentam explicar os fenômenos da humanidade através das suas experiências coletivas embora, por outro lado, sua individualidade seja também levada em consideração, pois com bem nos assevera Jodelet (2001 apud RANGEL, 2004, p.
31) “geralmente, reconhece-se que as representações sociais – enquanto sistemas de interpretação que regem nossa relação com o mundo e com os outros – orientam e organizam as condutas e as comunicações sociais”.
Sobre o caráter coletivo das RS podemos dizer que “nessa perspectiva, qualificar uma representação de social equivale a optar pela hipótese de que ela é produzida, engendrada, coletivamente” (MOSCOVICI, 1978, p. 35). É também nesse sentido que o mesmo autor fala na ideia de “coro coletivo” que cada um faz “queira ou não” (idem, p. 67 in RANGEL, 1999, p.56) levando-nos a entender que sempre somos orientados pelos discursos coletivos conscientes ou não na maioria das nossas impressões e definições que fazemos do/no mundo.
Desta forma, são as RS que reforçam laços sociais na medida em que, no seio de um dado grupo social, são compartilhadas ideias que são fundantes na construção de uma realidade social comum, o que pode ser confirmado em Jodelet (1989) ao dizer que a representação social “é uma forma de conhecimento socialmente elaborado e partilhado tendo-se uma visão prática e concorrente à construção de uma realidade comum a um conjunto social” (JODELET, 1989, p.36)64.
Sendo assim, podemos entender que as representações sociais possuem a capacidade de construir, “resguardar” e garantir sentido para as coisas que nos circundam e nos provocam; para tanto é necessário que façamos circular essa espécie de conhecimento prático entre os membros dos nossos grupos sociais, compartilhando-o e o validando como „certo‟, aceitável e necessário para os grupos que o elaboram consensualmente.
Ainda para Rangel (1999), as representações sociais se constituem baseadas em formas de perceber a realidade sendo elas apresentadas através das nossas interações e comunicações socialmente estabelecidas; estas mesmas representações podem alterar a constituição do real ao passo que “retornam a esta realidade com ideias expressas em conceitos e imagens que orientam critérios de valores e comportamentos” (ARRUDA, 1992; VALA, 1993; FLAMENT, 1989 apud
64 Minha tradução livre para:
“une forme de connaissance, socialement élaborée et partagée ayant une visée pratique et concourant à la construcion d‟une realité commune à um ensemble social”
disponível no livro JODELET, Denise. Représentations sociales: une domaine em expansion. In: JODELET, Denise. Les représentations sociales. Paris: PUFF, 1989. p. 31-36.
RANGEL, 1999, p. 59) o que em outras palavras nos leva a crer que “as representações refletem os fatos e refletem-se nos atos” (idem, ibid., p. 59).
Outra importante afirmação que também podemos salientar a respeito das RS é que na forma de imagens e conceitos uma dada representação social pode ser revista e questionada pelo próprio grupo que a criou a partir do processo de reflexão
dos fatos – ou seja, quando estes são transmitidos nas afirmações e examinados de forma crítica e contumaz, baseando-se em fundamentos pertinentes, há a possibilidade de ressignificação. O trecho abaixo reforça estar de acordo com esta percepção ao afirmar que:
[...] os mecanismos de resistência à mudança podem se romper pelo próprio dinamismo (e em todo dinamismo está a contradição) do processo. As mudanças, então, podem se dar na experiência do sujeito, no objeto de sua representação ou no contexto em que se estabelece a interação entre sujeito e objeto (RANGEL, 1999, p.59).
Assim, podemos resumir que os consensos e partilhas de um dado grupo podem ser fluídos, voláteis e passíveis de mudança, uma vez influenciados por uma reflexão crítica acerca dos seus processos de construção voltando para a prática com a possibilidade de mudança nos contexto representacional.
Partindo ainda do pressuposto de que são as nossas formas de perceber o mundo que orientam nossas representações, mediante os processos de compartilhamento social, podemos afirmar que os fatos - isto é, a noção de verdade sobre as coisas que percebemos no mundo - são constituídos a partir das representações expressas pelos sujeitos por meio de suas ideias e atos, bem como diz Vala (1993, p. 5)65 “a representação é a expressão de um sujeito”, o que acaba nos levando a conclusão de que as representações sociais têm como consequência a produção de comportamentos no qual faz-se necessária “a questão da coerência, que atende a uma necessidade de „atribuição de sentido‟ ao que se representa” (VALA, 1993 apud RANGEL, 1999, p. 63), pois da mesma forma como é impossível não se comunicar através de algum gênero discursivo (BAKHTIN, 2003)66, é também
65 VALA, J. Representações sociais: para uma psicologia social do pensamento social. In: VALA, J.;
MONTEIRO, M.B. (orgs). Psicologia Social. Lisboa: Fundação Calouste Gulbenkian, 1993. p. 1-14.
impensável que o sujeito não se expresse sempre através de alguma representação social.
Sobre isto, de acordo com Moscovici (1978) é sabido que “no processo de interação social os indivíduos elaboram/criam explicações a cerca dos „objetos sociais‟ e o fazem criando categorizações ou classificações que irão influenciar nas formas de comunicar e organizar os comportamentos” (apud RANGEL, 1999, p. 66).