Antes do Minhocão
CAPÍTULO 1 – Antes do Minhocão
1.1. De rua a avenida: prolongamentos e alargamentos
São Paulo possui um grande número de mapas, plantas e cartas nas mais diversas escalas, técnicas de impressão, temas e estados de conservação. Muitas informações, que explicam fatores importantes para a compreensão do contexto de alguns mapas, foram analisadas nas seguintes obras: São Paulo: Vila Cidade Metrópole, de Nestor Goulart Reis Filho e Desenhando São Paulo: Mapas e Literatura – 1877-‐1954, de Maria Lúcia Perrone Passos e Teresa Emídio. Também foram analisados os mapas divulgados em 1954 pela Comissão do IV Centenário de São Paulo.
Esses mapas são essenciais para a compreensão dos prolongamentos e alargamentos da Rua de São João – e da implantação e crescimento dos bairros e arredores.
A Rua de São João aparece com o mesmo comprimento ao fazermos um comparativo entre os mapas do IV Centenário, de 1810 – intitulado Planta da Imperial Cidade de São Paulo –, e o de 1877 (de Francisco de Albuquerque e Jules Martin). Iniciava-‐se no antigo Largo do Rosário – atual Praça Antônio Prado – e terminava na altura do atual Largo do Arouche, entre as ruas Vitória e General Osório, com aproximadamente 1.200 metros.
No mapa da Companhia Cantareira – levantado pelo engenheiro Henry Joyner, em 1881 – a Rua de São João aparece prolongada até a atual Avenida Duque de Caxias – na época uma rua estreita – duas quadras adiante do que aparecia no mapa anterior, de 1877, com
Fig. 01 – Mapa de 1877 – Mappa da Capital da Província de São Paulo (Francisco de Albuquerque e Jules Martin)
Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP
Fig. 02 – Mapa de 1810 – Planta da Imperial Cidade de São Paulo – com a Rua de São João no sentido vertical (norte girado) e (1.200 metros de extensão) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP
Fig. 03 – Trecho ampliado do Mapa de 1881, com a Rua de São João (1.400 metros de extensão)
aproximadamente 1.400 metros de comprimento e com a demarcação, em tracejado, de um futuro prolongamento.
Em 1897, no mapa de Gomes Cardim, a rua estende-‐se até a altura da Alameda Glette, com aproximadamente 1.800 metros, continuando em bifurcação: à direita segue pela rua Barra Funda e à esquerda segue pela rua das Palmeiras. Este traçado se manteria o mesmo até 1930, quando completa-‐se o prolongamento até a praça Marechal Deodoro.
Na gestão do prefeito Raimundo Duprat (1911-‐1913),
(...) tem início o alargamento da rua de São João, para 30 metros de largura, conforme plano de Bouvard. Passava a ser uma avenida, com canteiro central arborizado, por onde trafegariam os bondes da Light. Foram demolidos os prédios do lado norte, face direita da rua. (PORTO, 1992, p.109)
Em 1926, a praça Marechal Deodoro aparece pela primeira vez em mapas oficiais. A praça, com forma triangular, surge como um alargamento da Rua das Palmeiras e tem esse formato prevendo o futuro alinhamento da Avenida São João. Esse mapa, intitulado Planta da Cidade de São Paulo Mostrando Todos os Arrabaldes e Terrenos Arruados, foi desenvolvido pelo escritório técnico de Luiz Strina. Em 4 de maio de 1929, é publicado no jornal O Estado de São Paulo (OESP) a inauguração do monumento dedicado ao médico Luiz Pereira Barretto, de autoria do escultor Galileu Emendabile, implantado em ponto central da praça.
Fig. 04 –Mapa (inteiro) de 1881
Fonte: Mapas do IV Centenário – PMSP
Fig. 05 –Mapa (inteiro) de 1897
Fig. 06 – Trecho ampliado do Mapa de 1897, de Gomes Cardim – a Rua de São João estende-‐se até a Alameda Glette (1.800 metros de extensão) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP
Fig. 07 – Trecho ampliado do Mapa de 1916, da “Directoria de Obras e Viação da PMSP”. A Praça Marechal Deodoro ainda não existia.
Fonte: PMSP -‐ SMDU
Fig. 08 – Trecho ampliado do Mapa de 1926, “projeto preliminar de iluminação pública de São Paulo”. A Praça Marechal Deodoro aparece pela primeira vez em mapas oficiais. E o prolongamento final da Avenida São João, construído entre 1926 e 1930, aparece tracejado.
Fonte: PASSOS; EMÍDIO, 2009.
Fig. 09 – Notícia do dia 04/05/1929 no OESP, inauguração do Monumento a Luiz Pereira Barretto. Fonte: Acervo Estado
Conforme os mapas descritos no livro Os Rumos da Cidade: urbanismo e modernização em São Paulo, de Candido Malta Campos Neto3, pode-‐se elencar a sequência dos alargamentos
que a Avenida São João passou, através das sucessivas administrações municipais. São eles: - Na administração Raimundo Duprat (1911-‐1913): da Rua Libero Badaró ao Largo do
Paissandu (trecho de aproximadamente 400 metros);
- Na administração Washington Luís (1914-‐1919): do Largo do Paissandu à Praça Júlio de Mesquita (trecho de aproximadamente 500 metros);
3Livro lançado em 2002.
- Na administração Firmiano Pinto (1920-‐1925): da Rua Libero Badaró à Praça Antônio Prado (trecho de aproximadamente 100 metros);
- Na administração Pires do Rio (1926-‐1930): da praça Júlio de Mesquita à Praça dos Pirineus – atual Praça Marechal Deodoro (trecho de alargamento total de aproximadamente 1.200 metros, sendo o novo prolongamento, de 400 metros, entre a Alameda Glette e a Praça Marechal Deodoro).
Este último alargamento e prolongamento foi registrado em fotos, sendo que, através de uma delas, percebe-‐se que ainda estava incompleto em 1930, com algumas casas “no meio do caminho” – talvez por problemas de desapropriação. Não foi possível descobrir o mês em que a foto foi produzida, mas, através de registros da imprensa, a finalização da obra é de autoria do governo Pires do Rio, ainda em 1930 (antes da administração do prefeito Luís Ignácio de Anhaia Mello, em 1931).
Esse último prolongamento da Avenida São João também é registrado em mapas, e aparece com a mesma situação descrita nas fotos (com casas a serem desapropriadas). Em 1930, é publicado o Mappa Topographico do Município de São Paulo, executado pela empreza SARA BRASIL S/A, pelo methodo Nistri de aerophotogrammetria, de accordo com o contracto lavrado em virtude da Lei nº 3208 de 1928, quando Prefeito o Sr. Dr. José Pires do Rio, sendo Director de Obras o engenheiro Arthur Saboya4, com uma riqueza de detalhes até então
4Título completo do mapa, com grafia usada nos mapas originais de 1930.
Fig. 10 (esq.) – Foto de 1930 do prolongamento da Avenida São João (vista da Praça Marechal em direção ao centro, com o Ed. Martinelli ao fundo). Nota-‐se diversas construções ainda “no meio do caminho”. A esquerda é possível ver a torre do “Castelinho da Rua Apa”.
Fonte: PMSP
Fig. 11 (dir.) – Foto de 1929 do alargamento da Avenida São João (vista do centro em direção a Praça Marechal – que na época já possuía uma incipiente verticalização). Fonte: SOMEKH, 2014. MAIA, 1930.
inexistente nos mapas publicados da cidade, e com 82 mapas em escala de 1:5.000 (um para cinco mil), sendo que nas regiões centrais e mais urbanizadas estes mapas foram ampliados e subdivididos em até 23 mapas na escala de 1:1.000 (um para mil), como no caso da Avenida São João.
Esse último trecho de quatrocentos metros da Avenida São João é (talvez) a área menos estudada da avenida, e é parte da área de estudo desta dissertação (o trecho onde o Elevado Costa e Silva foi construído em 1970), além, claro, dos outros trechos compreendidos pela avenida General Olímpio da Silveira e da Rua Amaral Gurgel.
Nos primeiros trinta anos do século XX, essa região foi urbanizada – formada principalmente por construções residenciais unifamiliares ou sobrados de pequeno porte – além de receber construções significativas, como o Teatro São Pedro na esquina da Rua Albuquerque Lins com a rua Barra Funda. Porém, em 1927 é construído um edifício de grande importância para a arquitetura moderna brasileira, quase na esquina da Praça Marechal Deodoro:
No ano em que Gregori Warchavchik iniciava as obras de sua primeira residência modernista, Júlio de Abreu Júnior (nascido em 1895) concluía um edifício de seis pavimentos na avenida Angélica, em São Paulo. Era um prédio de apartamentos cuja fachada era composta apenas pelos vazios dos terraços da sala e pelas paredes lisas de fechamento dos banheiros, mais alguns vãos de ventilação e iluminação. Nenhuma decoração tradicional. Os quartos voltavam-‐se para o fundo do lote, orientados para o sol poente, e a cobertura abrigava as dependências de empregados – num arranjo não usual a época (Xavier et al. 1983; Lemos 1983). Abreu formou-‐se engenheiro na Escola Politécnica de São Paulo em 1914, com posterior estudos na École Speciale des Travaux Publics du Bâtiment et de L’Industrie de Paris. Atuando em São Paulo com edifícios residenciais e industriais, obras residenciais com características formais próximas ao edifício Angélica foram construídas também no Rio de Janeiro. Não era ele, todavia, um arquiteto que adotava a linguagem moderna como princípio. (SEGAWA, 2010, p.57)
Fig. 12 – Fachada do Edifício Angélica (1927) – Arq. Júlio de Abreu Jr.
Fonte: XAVIER, 1983. Fig. 13 – Planta do Edifício Angélica (1927) – Arq. Júlio de Abreu Jr.
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Fig. 14 (acima) – Mapa inteiro (exemplo) SARABRASIL, 1930
Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP
Fig. 15 (esq.) – Trecho ampliado do Mapa SARABRASIL de 1930: nesta colagem de dois mapas vê-‐se o prolongamento da Av. São João até a Praça Marechal Deodoro, ainda com algumas construções “no meio do caminho” – a serem demolidas ou desapropriadas.
Somente na administração Prestes Maia (1938-‐1945) é que ocorre o alargamento da Rua das Palmeiras entre a Praça Marechal Deodoro e o Largo do Padre Péricles, em Perdizes. Este trecho passa a ser chamado Avenida General Olímpio da Silveira. Nesse período, o eixo formado por essa nova avenida e pela Avenida São João torna-‐se a principal avenida de ligação entre a região central e a zona oeste da cidade, conectando-‐se com a Avenida Água Branca (atual Avenida Francisco Matarazzo) e chegando até a Lapa.
Maia deu continuidade ao prolongamento da São João até o largo das Perdizes, com viaduto sobre a Avenida Pacaembu ligou-‐a ao Arouche pela Avenida Vieira de Carvalho, alargou a Rio Branco, a Barão de Limeira e a Conceição (atual Cásper Líbero), e, quando saiu da Prefeitura em 1945, além de deixar quase pronta a rótula central, na qual o maior destaque foi dado à Avenida Ipiranga, já havia iniciado a abertura do segundo circuito perimetral de seu esquema viário – passando agora pelo alargamento das ruas Mauá, Duque de Caxias e Amaral Gurgel e pela abertura da Praça Roosevelt. (CAMPOS apud ARTIGAS, 2008, p.38)
Na edição do dia 20 de março de 1940, o jornal OESP publicou a notícia do alargamento com a manchete: Prolongamento da Avenida São João até a Avenida Água Branca, em seguida o texto comenta a importância da avenida naquele momento:
A avenida São João, além de ser uma das mais movimentadas artérias de São Paulo é também a preferida pela iniciativa particular para construcções de prédios de apartamentos. O número de edifícios desse gênero existente na bella avenida supera o de qualquer outra via pública da cidade. Poucos sabem, entretanto, é que ha cerca de vinte e oito annos é que foram feitas as primeiras
Fig. 16 – Foto da Praça Marechal Deodoro (1942) com o edifício Angélica à direita.
Fonte: Benedito Junqueira Duarte, acervo da Casa da Imagem.
Fig. 17 – Cartão Postal da Praça Marechal Deodoro com o edifício Angélica à direita (década de 1940)
transformações que deram em resultado a abertura dessa bella avenida. Três transformações se realizaram na antiga rua de São João, no trecho inicial da actual avenida, isto é, até o largo Paysandú. Da rectificação do alinhamento da rua de São João é que surgiu a ideia da abertura de uma avenida, pelo alargamento da antiga rua, afim de se assegurar meio fácil de acesso para o sector oeste da cidade. [...] Muitas foram as administrações que emprestaram a sua colaboração ao prosseguimento das obras. Até 1926, porém, tudo caminhou muito devagar [...] O grande impulsionador das obras foi o prefeito Pires do Rio, que [...] determinou o prosseguimento da construcção da avenida que foi, então, estendida até a praça Marechal Deodoro. [...] De 1930 a 1938 nada se fez mais, digno de nota [...] Em fins do anno passado, o actual prefeito – sr. Dr. Prestes Maia, mandou colocar os postes ornamentais inaugurando, no trecho compreendido entre a rua Duque de Caxias e a praça Marechal Deodoro iluminação semelhante à existente no trecho inicial da avenida, melhoramento esse caríssimo. A avenida, entretanto, não está concluída, pois de acordo com o plano da Prefeitura, ella prosseguirá até encontrar a avenida Água Branca. Por esse motivo, a ponte que se constrói atualmente na rua General Olympio da Silveira foi projectada de acordo com o futuro melhoramento, trazendo importante contribuição para o término da abertura da avenida. Em virtude de estar a Prefeitura empenhada na solução de outros problemas mais sérios, o sr. Dr. Prestes Maia não cogita, no momento, de alargar a rua General Olympio da Silveira, melhoramento que, como é notório, poderá ser contemporizado sem prejuízo para a cidade e cuja execução está assegurada por disposição de lei. (OESP, 20/03/1940, grifo nosso)
Depois dos mapas desenvolvidos pela empresa SARA BRASIL, em 1930, os próximos mapas consultados foram elaborados pelas empresas VASP Aerofotogrametria S.A. e pela Serviços Aerofotogramétricos CRUZEIRO DO SUL S.A., hoje conhecidos simplesmente como Mapas VASP CRUZEIRO, realizados em 1954, na gestão do prefeito Armando de Arruda Pereira e autorizados pela lei 4.104/51. Neles, a Rua Amaral Gurgel ainda não está alargada, porém, como
Fig. 18 – Cartão Postal da Praça Marechal Deodoro com o Monumento a Pereira Barretto ao centro (1942). Avista-‐se a torre da Igreja de Santa Cecília ao fundo.
Fonte: https://quandoacidade.wordpress.com
Fig. 19 – Notícia do dia 20/03/1940 no OESP Fonte: Acervo Estado
Fig. 20 – Trecho ampliado do Mapa VASP-‐CRUZEIRO de 1954: nesta colagem de dois mapas vê-‐se a Av. São João com poucos terrenos livres e a Rua Amaral Gurgel ainda não tinha sido alargada (abaixo).
Fonte: PMSP
Fig. 21 – Mapa VASP-‐CRUZEIRO (1954) (inteiro) Fonte: PMSP
trata-‐se de um levantamento aerofotogramétrico, podemos observar diversos edifícios que foram construídos nos arredores e identificá-‐los – pelo menos parcialmente. Essa base ajudou na pesquisa sobre o patrimônio arquitetônico construído, descrito no subcapítulo 1.3.
Porém, na edição do dia 16 de outubro de 1954, é noticiado no jornal OESP a decisão da prefeitura em abrir a “Nova Avenida Perimetral” – já que a primeira perimetral já estava concluída (hoje chamada de rótula central) e o projeto da segunda perimetral não constava no Plano de Avenidas de 1930 (hoje chamada de Contrarrótula). A manchete dizia: “O Plano de abertura da Nova Perimetral: a Comissão de Justiça da Câmara apoiou a iniciativa do Executivo determinando a abertura da segunda avenida circular da Capital à divisão das obras e vias expressas para desafogar o trânsito”. Em seguida o texto descreve em detalhes todas as ruas que seriam alargadas e todos os quarteirões que seriam divididos para a passagem da nova via, entre elas a Rua Duque de Caxias e a Rua Amaral Gurgel – que seriam alargadas e virariam avenidas com largura de 49 metros– e a abertura da praça Roosevelt. Além da via que, no futuro, viria a se transformar na radial Leste-‐Oeste, que dividiu ao meio o bairro do Bexiga e que, hoje em dia, é a ligação entre o Minhocão e a Radial Leste.
Na segunda gestão do Prefeito Prestes Maia, novo traçado foi elaborado para a sua continuação e a Lei 6.061/62 explicitamente determinou que ‘fica aprovado o plano de abertura de uma via expressa, em direção Leste-‐Oeste da cidade, ligando a avenida Alcântara Machado à rua Amaral Gurgel. (ZMITROWICZ, 2009, p.78)
Fig. 22 – Notícia do dia 16/10/1954 no OESP Fonte: Acervo Estado
O alargamento da Rua Amaral Gurgel demorou anos para ser iniciado e só foi concluído em 1966, na administração Faria Lima. Conforme publicado no jornal OESP, em 01 de junho de 1965, além da conclusão da Avenida 23 de Maio (até então chamada de Avenida Itororó), o prefeito determinou a finalização das obras da nova perimetral, descrito a seguir em resumo:
[...] Determinou ainda o apressamento das obras de alargamento e pavimentação da rua Amaral Gurgel, informando existirem recursos da ordem de um bilhão de cruzeiros para a abertura da avenida Leste-‐Oeste [...]”. Em 1966, na edição de 26 de fevereiro, pelo mesmo jornal é noticiado: “[...] O prefeito Faria Lima, ao inspecionar ontem as obras de alargamento da rua Amaral Gurgel, determinou que o secretário de Obras apure pessoalmente porque parte do trecho recentemente pavimentado já se encontra esburacado, em consequência de trabalhos do Departamento de Águas e Esgotos[...] (OESP, 01/06/1965)
A Rua Amaral Gurgel só apareceria alargada em mapas oficiais em 1974, data da publicação do Sistema Cartográfico Metropolitano da Grande São Paulo (GEGRAN), já com o Minhocão implantado. Desenvolvido ao longo do ano de 1973, pelo governo do Estado de São Paulo, o GEGRAN também foi desenvolvido pelo Consórcio VASP CRUZEIRO, através de levantamento aerofotogramétrico na escala 1:2.000 (um para dois mil).
A Avenida São João integrava, nas décadas de 1940 a 1960, uma área com características especiais: na região mais central – entre a Praça Antônio Prado e o Largo do Paissandu – grandes edifícios comerciais, órgãos públicos e hotéis; na sequência – entre o Paissandu e a
Fig. 23 – Notícia do dia 01/06/1965 no OESP Fonte: Acervo Estado
Avenida Duque de Caxias – a região conhecida como “Cinelândia Paulistana”, com edifícios comerciais, cinemas e uso intenso da calçada por transeuntes; e por fim, o último trecho – entre a Avenida Duque de Caxias e a Praça Marechal Deodoro, área mais recente dos prolongamentos sofridos pela via– era composto por edifícios residenciais com comércio no térreo.
Nesse último trecho, durante quarenta anos (1930-‐1970), foram construídos diversos edifícios de alto valor arquitetônico. Alguns deles foram projetados por arquitetos bastante conhecidos e atuantes na época: Jacques Pilon, Franz Heep, Rino Levi, João Artacho Jurado, Aron Kogan, Telésforo Cristófani, entre outros (como será analisado adiante).
No início dos anos 1930, a Avenida São João – depois do término do seu último prolongamento, quando enfim atingiu 2.200 metros, conectando a leste a Praça Antônio Prado, no triângulo histórico, à Praça Marechal Deodoro, em Santa Cecília, a oeste – torna-‐se paulatinamente a avenida de maior relevância da cidade de São Paulo (algo similar à Avenida Paulista nos dias de hoje para os paulistanos e visitantes, como símbolo da metrópole que crescia, ponto de encontro, diversão etc.), pelo menos até os anos 1950. E também, torna-‐se o principal eixo viário entre o Centro e a Zona Oeste da cidade.
Ao afirmar a importância temporal dessa avenida, esta pesquisa levou em consideração alguns fatos e transformações importantes, sendo aqui selecionados alguns deles: a) principal avenida dos cinemas e teatros da cidade, chamada popularmente, e na mídia escrita, de “Cinelândia”; b) foco do mercado imobiliário nas três décadas seguintes (dos anos 1930 até início dos anos 1960); c) avenida “dos cartões-‐postais” da cidade; d) avenida dos carnavais de
rua (de desfiles de blocos e escolas de samba, e os antigos corsos de veículos que subiam até a avenida Paulista; e) local onde se instalou o Conservatório Dramático, em 1909; f) a Delegacia Fiscal, em 1916; g) a Agência Central dos Correios, em 1922; h) inauguração do edifício Martinelli, em 1929; i) local das principais linhas de bonde e ônibus da cidade; j) ápice com a construção do edifício Altino Arantes – o “Banespão” – em 1947, como marco monumental na paisagem urbana da avenida, visto do seu eixo a partir da Barra Funda. Esses fatos e transformações serão descritos nos próximos parágrafos.
É relevante mostrar através de fatos históricos as diferenças entre a Avenida São João (incluindo todo seu eixo –a Praça Marechal Deodoro e a Avenida General Olímpio da Silveira – e a sua importância para a cidade de São Paulo desde o século XIX, que cresce a partir da terceira década do século passado) e a Rua Amaral Gurgel, que até meados dos anos 1960, para ser exato, cinco anos antes da construção do Minhocão, em 1966, era uma rua estreita da Vila Buarque e sem grande importância para a cidade. Esta diferença pode ser vista como de fundamental importância ao abordar as propostas sobre o futuro do Minhocão (que serão mencionadas na conclusão desta dissertação).
Fig. 24 (acima) – Mapa com o trajeto do Corso de Carnaval de 1940, OESP, 04/02/1940. Em sentido horário: Av. Angélica, Av. São João, Av. Anhangabaú, Av. Brigadeiro Luiz Antônio e Av. Paulista. Fonte: Acervo Estado
Fig. 25 (esq.) – Notícia do Carnaval de 1940, OESP, 04/02/1940.
1.2. A “Cinelândia Paulistana”: o ponto de encontro e o abandono
Na segunda metade dos anos 1930, começam a ser inauguradas diversas salas de cinema na Avenida São João, chamadas à época de grandes palácios cinematográficos (SIMÕES, 1990, p.34). Até então, as salas de cinema dividiam o seu próprio espaço com o teatro ou eram simplesmente adaptações de antigos teatros, de rinques de patinação ou galpões construídos para finalidades diversas (SIMÕES, 1990, p.22). Eram chamadas de cineteatros e se concentravam principalmente no triângulo histórico (exemplos: Cineteatro São Paulo, de 1914, e o Cineteatro Santa Helena, de 1925, na região da Sé),dentro de antigos teatros adaptados ao novo uso, como o Cineteatro Central, no térreo da Delegacia Fiscal – na própria Avenida São João – e o Cineteatro São Pedro, na Barra Funda. Existiam também salas espalhadas por diversos bairros em pequenos espaços – à exceção dos grandes Cine Colombo e Cine Oberdan, no Brás (anos 1920), do Cine Paramount, na Avenida Brigadeiro Luiz Antônio (1929), e do Cine Odeon, na Rua da Consolação (início dos anos 1930).
Um pouco antes, em outubro de 1929, foi inaugurado no edifício Martinelli o Cine Rosário, considerado até então o mais luxuoso da cidade, mas, ainda assim, dentro de outro edifício e sem fachada voltada para a rua.
Em 1936, com projeto de Rino Levi, é inaugurado o Cine UFA-‐Palácio (mais tarde,