http://tede.mackenzie.br/jspui/bitstream/tede/3089/2/Eduardo%20Luiz%20de%20Lima%20Assun%C3%A7%C3%A3o
Texto
(2) . Foto de capa (página anterior) – Minhocão na altura da Praça Marechal Deodoro Fonte: Carl Silva -‐ [email protected] (efeito P/B: autor) . .
(3) Eduardo Luiz de Lima Assunção . MINHOCÃO E ARREDORES: construção, degradação e resiliência (1970-‐2016) Dissertação apresentada ao Programa de Pós-‐Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo. . Orientador: Prof. Dr. Abílio Guerra .
(4) AUTORIZO A REPRODUÇÃO E DIVULGAÇÃO TOTAL OU PARCIAL DESTE TRABALHO, POR QUALQUER MEIO CONVENCIONAL OU ELETRÔNICO, PARA FINS DE ESTUDO E PESQUISA, DESDE QUE CITADA A FONTE.. ASSINATURA E-mail: [email protected]. A851m Assunção, Eduardo Luiz de Lima. . Minhocão e arredores: construção, degradação e resiliência (1970-‐2016). / Eduardo Luiz de Lima Assunção -‐ 2016. 364 f. : il.; 30 cm Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) – Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2016. Bibliografia: f. 333 – 352. 1. Elevado Costa e Silva. 2. Minhocão.3. Paisagem Urbana.4. Patrimônio Arquitetônico. 5. História. 6. São Paulo. 7. Avenida . São João. 8. Rua Amaral Gurgel. 9. Mercado Imobiliário. 10. Elevado João Goulart. I. Título. . CDD 711.4.
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(7) . Ao meu querido pai, João Manoel Assunção, saudade e admiração eterna... .
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(9) AGRADECIMENTOS Em primeiro lugar agradeço ao meu orientador Professor Dr. Abilio Guerra, que pacientemente esteve presente na elaboração deste trabalho, compreendendo os momentos de “silêncio” (que foram muitos), com quem muito aprendi e a quem devo, em grande parte, a realização desta dissertação; Agradeço ao prof. Dr. Renato Luiz Sobral Anelli (USP) e à Profa. Dra. Maria Isabel Villac (UPM), que participaram da banca de qualificação e muito contribuíram para este trabalho; Aos professores da Universidade Presbiteriana Mackenzie (UPM), em especial: Nadia Somekh, José Geraldo Simões Jr., Candido Malta Campos Neto, Gilda Collet Bruna, Eunice Helena Sguizzardi Abascal, Rafael Antônio Cunha Perrone, Ana Gabriela Godinho Lima, Célia Regina Moretti Meirelles, Roberto Righi, Charles de Castro Vincent e Carlos Leite de Souza pelas ótimas aulas e pelo estímulo dado aos alunos; Aos colegas da pós, entre eles Paulo Victor Gomes Takimoto, Rodrigo de Andrade Costa Noleto, Karina Diógenes Rodriguez, Maria Isabel Camañes, Bárbara Andrade Barioni, Jorge Antonio Ruis, Agnes Del Comune, Renata Gonçalves Mendes Cosenza, Breno Veiga, Carlos Alberto Requena, Mariana Pinotti, Lucas Feitosa, Andrea Agda e Luciano Abbamonte pelas trocas de conhecimento e incentivo nas aulas; Aos amigos que contribuíram de diversas maneiras durante a realização deste trabalho, em especial os companheiros com quem leciono na Universidade Nove de Julho: Aécio Flávio Lacerda Jr., Karen Yukie Oura, Gerson Moura Duarte, Marcus Vinícius Pereira, Milly Lee, Inês Maria Torres, Maria Eugenia Ximenes, Luciana Lessa Simões, Débora Faim, Eliana Zmyslowski, Soraia Vitiello, Fabiano Monte, Solimar Isaac, Daniela Rosselli, Luiza Martins, Débora Machado e tantos outros que deram alguma dica ou uma palavra amiga; Aos amigos queridos que contribuíram com apoio e presença: Alexis Rene Guzman Palma, Anderson Rogério Souza, Jorge Felix de Souza, Cesar Nunes Marques, Adriana de Carvalho, Leticia Cardoso, Mario Rodrigues de Lima Neto, Leila Neves e todos amigos do Céu Azul; Aos amigos do Candusso Arquitetos, pelos 14 anos de experiência, aprendizado e convívio -‐ muito me ajudaram a refletir sobre os processos e dilemas do mercado imobiliário; Aos amigos Antonio Moraes e Rafaela Gama, por parte da revisão ortográfica do texto; Ao querido Douglas Noldor, pelas caminhadas no Minhocão e fotos feitas sob calor e sol quente – e paciência nesse processo final; À minha querida mãe, Amélia, pelo apoio incondicional, sempre me proporcionando condições para o estudo; à minha madrinha Vina, pelo apoio em horas difíceis; aos meus tios Luiz, Natalícia, Edson e Darci – pela força e presença; ao meu primo Luiz Cláudio e a todos os familiares que de alguma forma me incentivaram; E, por fim, agradeço especialmente a Deus, à mãe Terra e a todas as entidades e seres de luz do Universo. Gratidão! .
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(11) RESUMO Rua Amaral Gurgel, Avenida São João, Praça Marechal Deodoro e Avenida General Olímpio da Silveira: sobre essas vias e áreas verdes foi construído, em 1970, o Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido como “Minhocão” – via elevada que provocou uma profunda mudança na paisagem urbana dessas ruas e seus arredores. Edifícios se degradaram, edifícios foram construídos, grande parte da população, que ali vivia, abandonou seus apartamentos, substituídos por uma população mais pobre. Novos moradores foram atraídos nos últimos anos. Áreas verdes e vazios que abriam perspectivas visuais para paisagens importantes da cidade foram bloqueados. São Paulo recebeu seu primeiro zoneamento em 1972, um novo em 2004 e o último – aprovado recentemente – em março de 2016. Esta dissertação analisará a mutação da paisagem urbana pela qual passou essa região nos últimos 45 anos, após a construção do elevado, comparando o patrimônio construído (o estado de conservação de edifícios antigos importantes e a construção de dezenas de novos empreendimentos no recente boom imobiliário), o desenho urbano (ruas, praças, implantação do metrô, corredor de ônibus, ciclovias etc.), as transformações sociais (população moradora, frequentadores e ativistas) e as mudanças administrativo-‐legais (legislação urbanística e descontinuidade administrativa). Para que este comparativo seja mais relevante, também mostrará, resumidamente, os 45 anos anteriores à construção do Minhocão, assim como um breve histórico das ruas e suas construções. Palavras-‐chave: Elevado Costa e Silva; Minhocão; Paisagem Urbana; Patrimônio Arquitetônico; História; São Paulo; Avenida São João; Rua Amaral Gurgel; Mercado Imobiliário; Elevado João Goulart; .
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(13) ABSTRACT Rua Amaral Gurgel, Avenida São João, Praça Marechal Deodoro and Avenida General Olímpio da Silveira: above these roads and green areas was built in 1970 the Elevado Costa e Silva, popularly known as "Minhocão" -‐ an elevated highway that caused a profound change in the urban landscape of these streets and their surroundings. Buildings got deteriorated, others were built. Much of the population who lived there abandoned their apartments, bringing poorer people moving in. New residents were attracted over the last few years. Green and empty areas that opened visual perspectives to important landscapes of the city were blocked. Sao Paulo received its first zoning in 1972, a new one in 2004 and the last -‐ recently approved -‐ in March 2016. This thesis will examine the changing of the urban landscape which the region has passed through in the last 45 years after the construction of this elevated highway, comparing the patrimony built (the conservation state of important old buildings and the construction of dozens of new developments in the recent housing boom), the urban design (streets, squares, subway implementation, bus and bike lanes), social modifications (resident population, regular visitors and activists) and the administrative and legal changes (planning legislation and administrative discontinuity). In order to show a more relevant comparison, it will shortly show the 45 years prior to the construction of Minhocão, as well as a brief history of the streets and their constructions. Keywords: Elevado Costa e Silva; Minhocão; Urban Landscape; Architectural Heritage; History; São Paulo; Avenida São João; Rua Amaral Gurgel; Real Estate Market; Elevado João Goulart; .
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(15) LISTA DE ABREVIATURAS E SIGLAS AVC – Associação Viva o Centro BID – Banco Interamericano de Desenvolvimento BNH – Banco Nacional de Habitação CA – Coeficiente de Aproveitamento CET – Companhia de Engenharia de Tráfego COGEP– Coordenadoria Geral de Planejamento DSV – Departamento do Sistema Viário EMBRAESP – Empresa Brasileira de Estudos do Patrimônio EMPLASA – Empresa Paulista de Planejamento Metropolitano S.A. FEBRABAN – Federação Brasileira de Bancos FIAM-‐FAAM – Centro Universitário FIAM-‐FAAM FIPE – Fundação Instituto de Pesquisas Econômicas FSP – Folha de São Paulo GEGRAN – Grupo Executivo da Grande São Paulo GEP – Grupo Executivo de Planejamento IBGE – Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística JT – Jornal da Tarde LUOS – Lei de Uso e Ocupação do Solo .
(16) METRÔ – Companhia do Metropolitano de São Paulo OESP – O Estado de São Paulo OUC – Operação Urbana Centro PDDI – Plano Diretor de Desenvolvimento Integrado PDE – Plano Diretor Estratégico PMSP – Prefeitura do Município de São Paulo PSDB – Partido da Social Democracia Brasileira PT – Partido dos Trabalhadores PUB – Plano Urbanístico Básico RAIS – Relação Anual de Informações Sociais SECOVI – Sindicato das Empresas de Compra, Venda, Locação e Administração de Imóveis (Sindicato da Habitação) SEMPLA – Secretaria Municipal de Planejamento SMDU – Secretaria Municipal de Desenvolvimento Urbano TO – Taxa de Ocupação UPM – Universidade Presbiteriana Mackenzie USJT – Universidade São Judas Tadeu USP – Universidade de São Paulo ZEIS – Zona Especial de Interesse Social .
(17) EPÍGRAFE . Não sabemos para onde estamos indo. Só sabemos que a história nos trouxe até este ponto [...]. Contudo, uma coisa é clara. Se a humanidade quer ter um futuro reconhecível, não pode ser pelo prolongamento do passado ou do presente. Se tentarmos construir o terceiro milênio nessa base, vamos fracassar. E o preço do fracasso, ou seja, a alternativa para uma mudança da sociedade, é a escuridão. Hobsbawn .
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(19) . SUMÁRIO .
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(21) 15 . INTRODUÇÃO – Objetivos e delimitação da área . . . 25 . CAPÍTULO 1 – ANTES DO MINHOCÃO . 29 48 58 . 1.1. De rua a avenida: prolongamentos e alargamentos 1.2. A “Cinelândia Paulistana”: de ponto de encontro ao abandono 1.3. O mercado imobiliário (1930-‐1970): protagonismo e abandono . 89 . CAPÍTULO 2 – O MINHOCÃO E A TECNOCRACIA . 93 134 162 . 2.1. Degradação: a construção e seu impacto 2.2. A mutação da paisagem e a transformação da sociedade 2.3. O planejamento urbano: o embate entre sociedade e mercado . 197 . CAPÍTULO 3 – O MINHOCÃO E O MERCADO . 200 218 298 . 3.1. Resiliência: o boom imobiliário e a redescoberta do Centro (2000-‐2016) 3.2. Novas construções: do elevado camuflado ao elevado como chamariz 3.3. Futuras construções: perspectivas de adensamento . 315 . CONSIDERAÇÕES FINAIS . 325 . GALERIA DE FOTOS . 333 . REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS . 353 . LISTA DE FIGURAS .
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(23) INTRODUÇÃO 15 .
(24) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 16 .
(25) São Paulo – 2016 – uma cidade de 11 milhões de habitantes, uma metrópole em constante e contínuo processo de transformação de sua paisagem. O Centro de São Paulo, sua região central, voltou a atrair novos empreendimentos, novos prédios e novos moradores, mas grandes áreas continuam decadentes, esvaziadas e com seu patrimônio arquitetônico e . . urbanístico deteriorados. Edifícios de fundamental importância para a história da cidade estão . . decrépitos e descaracterizados. Praças se transformaram em território de “ninguém” – ilhas . . verdes cercadas ou abandonadas. São Paulo – 1970 – uma cidade de 6 milhões de habitantes, uma metrópole em constante e contínuo processo de transformação de sua paisagem. O Centro de São Paulo, sua região central, acumula um verdadeiro congestionamento de funções, incentivado . . principalmente pelo Plano Radiocêntrico de Avenidas, planejado e iniciado nos anos 1930 por . . Prestes Maia. Os terrenos estão cada vez mais escassos. A população continua crescendo de . . forma acelerada, “amontoando-‐se” em pequenos apartamentos e em cortiços. Desde a década anterior (1960), o Centro estava perdendo sua importância econômica e seu poder de atração . . de novos empreendimentos, de novas construções. Em 1969 toma posse como prefeito Paulo . . Salim Maluf, que dá ênfase em obras viárias. Em janeiro de 1971, depois de 14 meses de . . trabalhos ininterruptos, é inaugurado o Elevado Costa e Silva, popularmente conhecido como “Minhocão”, ligando as zonas leste e oeste da cidade. De caráter rodoviarista, causou uma grande cicatriz na região central (ou seria fratura exposta?). Ajudou a degradar grande parte dos . . bairros de Vila Buarque e Santa Cecília, além da tradicional Avenida São João. 17 .
(26) A importância econômica do Centro foi deslocada ao longo do tempo para o setor . . sudoeste da cidade. Primeiro para a região da Avenida Paulista (anos 1960 e 1970), depois para . . a Avenida Brigadeiro Faria Lima (anos 1970 e 1980), em seguida para a região da Avenida Luís . . Carlos Berrini (anos 1980 e 1990) e hoje para todos os arredores da Marginal Pinheiros. . . Desde sua construção, o Minhocão provoca acalorados debates: de um lado estão os que . . sugerem sua derrubada, como forma de recuperar a região, e, de outro, os que utilizam o . . elevado apenas como passagem e usufruem das vantagens que ele proporciona ao trânsito. Há . . moradores que desejam sua destruição como forma de melhorar suas condições de vida ou . . valorizar seu patrimônio. Outros acreditam que a recuperação da área e a valorização dos imóveis representarão a expulsão dos moradores de menor poder aquisitivo da região. Em suma, há propostas de todos os tipos: derrubar o elevado; utilizá-‐lo como corredor de . . transporte coletivo; transformá-‐lo em jardim suspenso; manter o elevado, mas melhorar as . . condições de urbanização da área, reduzindo o nível de ruído e de poluição. . . Hoje, passados mais de 45 anos de sua construção, o Elevado Costa e Silva volta às manchetes dos jornais, depois que sua desativação foi incluída no novo Plano Diretor do município de São Paulo – aprovado em julho de 2014 – obrigando o poder público a criar uma . . solução viária ao seu desmonte ou à sua reconversão em parque elevado, e também . . recentemente, em julho de 2016, quando foi rebatizado pela prefeitura de São Paulo como . . “Elevado João Goulart”. . . Conforme bem sintetizado por Luiz Eduardo de Assis Lefèvre (2006, p.xiii): 18 .
(27) (...) Hoje se discute em São Paulo a questão da recuperação, requalificação ou revitalização de sua área central. Em que termos essa discussão se coloca e com que propriedade? A quem interessa essa questão? Por que e para quem recuperar, requalificar ou revitalizar? Basta andar pelo centro para se perceber que vitalidade não é o que falta ali, embora haja muitas áreas mortas em prédios vazios. Entre tudo o que foi perdido no centro, o que é possível ou tem cabimento recuperar? Não é possível retroceder o relógio do tempo, de maneira que todas as ações devem estar voltadas para o futuro, mas isso não significa eliminar o passado, o que também é impossível. Enfim, que qualidades se pretende restaurar no centro? A apreciação de qualidades está longe da universalidade, e o que é positivo para uns é negativo para outros. . . O recorte desta dissertação será a linha do Elevado João Goulart – ou simplesmente . . “Minhocão”, forma pela qual será denominado nesta dissertação – seu perímetro imediato e . . seus arredores, cerca de duas quadras para cada lado de suas margens. Será analisado, através do patrimônio ambiental urbano – arquitetura, áreas verdes, vazios e perspectivas – comparando as transformações que ocorreram na área nos 45 anos anteriores à construção do . . elevado (1925-‐1970) às transformações nos últimos 45 anos, posteriores à construção (1971-‐. . 2016), sendo o período recente objeto de estudo mais aprofundado, incluindo-‐se também as . . transformações da sociedade: a vizinhança (moradores), os usuários (que circulam com automóveis pelo elevado) e os frequentadores (que utilizam o viaduto como uma alternativa de lazer à noite e aos finais de semana). . . 19 .
(28) O estudo foi dividido em três capítulos. O primeiro capítulo recupera, através de revisão . . histórica, o processo de transformação que a região em estudo passou, principalmente nos 45 . . anos anteriores a construção do elevado (1925-‐1970). Inicia-‐se um pouco antes, mostrando os prolongamentos da Avenida São João, através de análises de mapas do século XIX, quando ainda . . era uma rua estreita, até o prolongamento (e alargamento) final executado entre 1926 e 1930. . . A Rua Amaral Gurgel só foi alargada quarenta anos depois, em 1966. . . Em seguida, mostra a importância da Avenida São João como ponto de encontro da população, depois da finalização das obras de prolongamento, quando passou a ser chamada de “Cinelândia Paulistana”. Esse período vai de 1930 a 1970, aproximadamente. Somente no trecho hoje afetado pelo Minhocão existiam três importantes salas de cinema: o Cine Santa . . Cecília, o Cine Plaza e o Cine Esmeralda. Nesses quarenta anos, a avenida vai do auge como . . símbolo de uma cidade pulsante – local de cinemas, restaurantes, hotéis e festas de rua – ao . . abandono. O mercado imobiliário que constrói centenas de edifícios nos arredores, também vai abandonar a área. Este abandono visto como perda da cidade plural de antes. A classe média e . . as elites abandonam a área. E inicia-‐se um processo de popularização de todo centro de São . . Paulo. . No segundo capítulo foram levantados dados sobre o projeto e a construção do . . Elevado. E principalmente, a degradação que a via expressa causou na região. O impacto da . . obra. Nele são mostradas a mutação da paisagem e a transformação que a população do 20 .
(29) entorno passou desde a sua construção até os dias de hoje, usando, principalmente, a imprensa escrita como referência. São identificados, também, os planos e leis urbanísticas que afetaram a região. A região que já estava se degradando antes da construção do Minhocão, passará por pelo menos trinta anos (até o início da década de 2000) por um processo acelerado de esvaziamento populacional e de intensificação da degradação do patrimônio construído. . . No terceiro capítulo foi identificada a recente redescoberta do Centro de São Paulo . . (2000-‐2016) e do entorno do Minhocão. Nesse período a população da região volta a crescer e o . . mercado imobiliário volta a lançar novos empreendimentos – depois de trinta anos de esquecimento da área. Este período que será visto de maneira positiva, como uma fase onde a resiliência1se sobrepõe à decadência da área. Neste capítulo foram levantados as construções . . recentes e os novos lançamentos imobiliários, através de visitas aos prédios ou aos estandes de . . vendas. Foram coletados materiais de vendas (folders) e consultados sites dos . . empreendimentos. O Elevado que numa primeira fase de lançamentos (2006-‐2011) é camuflado no material de vendas, passa a ser o chamariz (devido a sua aceitação como equipamento de lazer da população) nos empreendimentos mais recentes (2011-‐2016). . . 1. Resiliência aqui identificada como resistência da população moradora e dos edifícios antigos (muitos degradados), que “sobreviveram” aos anos de esquecimento da área e presenciam, atualmente, a aceitação do Elevado (pelo menos como objeto de lazer e esportes). Resiliência = “capacidade de se recuperar de situações de crise e aprender com ela”. Dicionário Michaelis, Resiliência = “capacidade de rápida adaptação ou recuperação”. . 21 .
(30) . . A área central da cidade de São Paulo pode ser definida e delimitada de diversas formas. . . Quando se usa a palavra centro, qual perímetro da cidade está sendo considerado? Nesta . . dissertação, como forma de esclarecer e distinguir possíveis imprecisões, usando como base . . mapas e algumas definições oficiais, foi criado o seguinte critério: . . -‐. Centro Antigo: o “triângulo histórico”, é aquele formado pela colina histórica – onde a zona urbana da cidade de São Paulo permaneceu da fundação em 1554 até a primeira metade do século XIX. Podemos ampliá-‐lo um pouco e neste caso, o definimos como: a região delimitada pelo Vale do Anhangabaú a leste (divisa com o Centro Novo), pelo Parque Pedro II a oeste (divisa com o bairro da Brás), pela rua Tabatinguera ao sul (divisa com o bairro da Liberdade) e pela Avenida Senador Queirós ao norte (divisa com o bairro da Luz); . -‐. Centro Novo: quadrilátero a leste do Vale do Anhangabaú, parte da cidade que cresceu e ganhou impulso principalmente depois da construção do Viaduto do Chá em 1892. Região formada entre as seguintes vias: Vale do Anhangabaú a leste, Avenida São João ao norte, Avenida Ipiranga e Avenida São Luiz a oeste e Rua da Consolação e Ladeira da Memória ao sul (onde se conecta novamente ao Vale do Anhangabaú); . -‐. Centro (ou Centro Atual): formado pela totalidade dos distritos República e Sé (região que está contida dentro do “segundo perímetro de irradiação”, sistema viário atualmente chamado de contrarrótula). Neste caso, o centro atual, que engloba o . 22 . .
(31) “Centro Antigo”, o “Centro Novo” e áreas circundantes como a região de Santa Efigênia, de parte do bairro da Luz (trecho ao sul da linha férrea), parte da Vila Buarque (área a leste da Rua Amaral Gurgel e do Minhocão), arredores do Largo do Arouche e praça da República, parte do bairro do Bexiga (entre o Anhangabaú e a Radial Leste-‐oeste, que dividiu em dois este bairro histórico em 1969) e a baixada do Glicério (entre a rua Tabatinguera ao norte e, também, a Radial Leste-‐oeste a sul); -‐. Região Central: área oficial formada pelos distritos da Subprefeitura da Sé (República, Sé, Santa Cecília, Consolação, Bela Vista, Liberdade, Cambuci e Bom Retiro). O Minhocão está dentro da região central e, no trecho que ele passa sobre a Rua Amaral Gurgel, chega ao limite oeste do Centro Atual – e também da Operação Urbana Centro. . 23 .
(32) . 24 .
(33) CAPÍTULO 1 Antes do Minhocão 25 .
(34) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 26 .
(35) CAPÍTULO 1 – Antes do Minhocão . . . . O foco deste trabalho está na história e nas transformações urbanas e sociais que . . ocorreram após a construção do Minhocão, em 1971, na sua linha (testadas defronte ao . . elevado) e nos seus arredores, portanto, o foco está nos últimos 45 anos. Porém, faz-‐se . . necessário um breve capítulo dos antecedentes históricos dessa região, com análise das . . seguintes vias: Rua Amaral Gurgel, Avenida São João, Praça Marechal Deodoro e Avenida General Olímpio da Silveira – e também, quando necessário, algumas ruas paralelas e importantes, como a Rua das Palmeiras e o Largo do Arouche. . . Este capítulo se restringirá às principais transformações que essas vias e praças passaram . . ao longo do século XX, diferenciando-‐as na importância que cada uma teve (e ainda têm) na . . história da cidade. Não será abordada a história da cidade de São Paulo desde sua fundação, em 1554, até meados do século XIX, quando sua área se restringia ao perímetro do chamado “triângulo histórico”, a leste do Anhangabaú, já que fugiria do tema e prolongaria esta dissertação, além de repetir uma história bastante difundida em outros estudos. . . Como reflexão inicial, usarei as palavras do professor Benedito Lima de Toledo, contidas . . no prefácio do livro de José Eduardo Lefèvre2, sobre a história da Avenida São Luiz em São . . Paulo: 2. . Livro “De Beco a Avenida. A História da Rua São Luiz” (2006). 27 .
(36) As singularidades da cidade de São Paulo fazem dela um riquíssimo documento para o estudo da história. Sua permanente mutação tem levado à destruição de cenários que a cada momento tiveram particular expressão na cultura da cidade. As relações espaciais se alteram e a paisagem se consome face à voracidade da intensificação do uso de todos os espaços. O estudo do mecanismo desse fenômeno pode concorrer para explicar o quadro que a cada momento caracterizou a vida da cidade e ser instrumento para fazer face a novas situações. Não se trata, portanto, apenas de evocações e registro de situações por que vem passando a metrópole, mas instrumento para a sua compreensão e fundamento para intervenções futuras. (TOLEDO apud LEFÈVRE, 2006, p.XI) . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . 28 .
(37) 1.1.. De rua a avenida: prolongamentos e alargamentos . . . São Paulo possui um grande número de mapas, plantas e cartas nas mais diversas escalas, técnicas de impressão, temas e estados de conservação. Muitas informações, que explicam fatores importantes para a compreensão do contexto de alguns mapas, foram analisadas nas seguintes obras: São Paulo: Vila Cidade Metrópole, de Nestor Goulart Reis Filho e Desenhando São Paulo: Mapas e Literatura – 1877-‐1954, de Maria Lúcia Perrone Passos e Teresa Emídio. Também foram analisados os mapas divulgados em 1954 pela Comissão do IV Centenário de São Paulo. Esses mapas são essenciais para a compreensão dos prolongamentos e alargamentos da Rua de São João – e da implantação e crescimento dos bairros e arredores. A Rua de São João aparece com o mesmo comprimento ao fazermos um comparativo entre os mapas do IV Centenário, de 1810 – intitulado Planta da Imperial Cidade de São Paulo –, e o de 1877 (de Francisco de Albuquerque e Jules Martin). Iniciava-‐se no antigo Largo do Rosário . . – atual Praça Antônio Prado – e terminava na altura do atual Largo do Arouche, entre as ruas . Fig. 01 – Mapa de 1877 – Mappa da Capital da Província de São Paulo (Francisco de Albuquerque e Jules Martin) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP . Vitória e General Osório, com aproximadamente 1.200 metros. No mapa da Companhia Cantareira – levantado pelo engenheiro Henry Joyner, em 1881 – a Rua de São João aparece prolongada até a atual Avenida Duque de Caxias – na época uma rua estreita – duas quadras adiante do que aparecia no mapa anterior, de 1877, com . . 29 .
(38) Fig. 02 – Mapa de 1810 – Planta da Imperial Cidade de São Paulo – com a Rua de São João no sentido vertical (norte girado) e (1.200 metros de extensão) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP . 30 .
(39) Fig. 03 – Trecho ampliado do Mapa de 1881, com a Rua de São João (1.400 metros de extensão) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP . 31 .
(40) aproximadamente 1.400 metros de comprimento e com a demarcação, em tracejado, de um futuro prolongamento. Em 1897, no mapa de Gomes Cardim, a rua estende-‐se até a altura da Alameda Glette, com aproximadamente 1.800 metros, continuando em bifurcação: à direita segue pela rua Barra Funda e à esquerda segue pela rua das Palmeiras. Este traçado se manteria o mesmo até 1930, quando completa-‐se o prolongamento até a praça Marechal Deodoro. Na gestão do prefeito Raimundo Duprat (1911-‐1913), (...) tem início o alargamento da rua de São João, para 30 metros de largura, conforme plano de Bouvard. Passava a ser uma avenida, com canteiro central arborizado, por onde trafegariam os bondes da Light. Foram demolidos os prédios do lado norte, face direita da rua. (PORTO, 1992, p.109) . Fig. 04 –Mapa (inteiro) de 1881 Fonte: Mapas do IV Centenário – PMSP . Em 1926, a praça Marechal Deodoro aparece pela primeira vez em mapas oficiais. A praça, com forma triangular, surge como um alargamento da Rua das Palmeiras e tem esse formato prevendo o futuro alinhamento da Avenida São João. Esse mapa, intitulado Planta da Cidade de São Paulo Mostrando Todos os Arrabaldes e Terrenos Arruados, foi desenvolvido pelo escritório técnico de Luiz Strina. Em 4 de maio de 1929, é publicado no jornal O Estado de São Paulo (OESP) a inauguração do monumento dedicado ao médico Luiz Pereira Barretto, de . . autoria do escultor Galileu Emendabile, implantado em ponto central da praça. 32 . Fig. 05 –Mapa (inteiro) de 1897 Fonte: Mapas do IV Centenário – PMSP .
(41) Fig. 06 – Trecho ampliado do Mapa de 1897, de Gomes Cardim – a Rua de São João estende-‐se até a Alameda Glette (1.800 metros de extensão) Fonte: Mapas do IV Centenário -‐ PMSP . 33 .
(42) Fig. 07 – Trecho ampliado do Mapa de 1916, da “Directoria de Obras e Viação da PMSP”. A Praça Marechal Deodoro ainda não existia. Fonte: PMSP -‐ SMDU . . 34 .
(43) Fig. 08 – Trecho ampliado do Mapa de 1926, “projeto preliminar de iluminação pública de São Paulo”. A Praça Marechal Deodoro aparece pela primeira vez em mapas oficiais. E o prolongamento final da Avenida São João, construído entre 1926 e 1930, aparece tracejado. Fonte: PASSOS; EMÍDIO, 2009. . 35 .
(44) . Fig. 09 – Notícia do dia 04/05/1929 no OESP, inauguração do Monumento a Luiz Pereira Barretto. Fonte: Acervo Estado . . . Conforme os mapas descritos no livro Os Rumos da Cidade: urbanismo e modernização . . em São Paulo, de Candido Malta Campos Neto3, pode-‐se elencar a sequência dos alargamentos . . que a Avenida São João passou, através das sucessivas administrações municipais. São eles: -. Na administração Raimundo Duprat (1911-‐1913): da Rua Libero Badaró ao Largo do Paissandu (trecho de aproximadamente 400 metros); . -. Na administração Washington Luís (1914-‐1919): do Largo do Paissandu à Praça Júlio de Mesquita (trecho de aproximadamente 500 metros); . . 3. Livro lançado em 2002. . 36 .
(45) -. -. Na administração Firmiano Pinto (1920-‐1925): da Rua Libero Badaró à Praça Antônio . . Prado (trecho de aproximadamente 100 metros); . . Na administração Pires do Rio (1926-‐1930): da praça Júlio de Mesquita à Praça dos . . Pirineus – atual Praça Marechal Deodoro (trecho de alargamento total de aproximadamente 1.200 metros, sendo o novo prolongamento, de 400 metros, entre a Alameda Glette e a Praça Marechal Deodoro). . . Este último alargamento e prolongamento foi registrado em fotos, sendo que, através de . . uma delas, percebe-‐se que ainda estava incompleto em 1930, com algumas casas “no meio do . . caminho” – talvez por problemas de desapropriação. Não foi possível descobrir o mês em que a foto foi produzida, mas, através de registros da imprensa, a finalização da obra é de autoria do governo Pires do Rio, ainda em 1930 (antes da administração do prefeito Luís Ignácio de Anhaia Mello, em 1931). . . Esse último prolongamento da Avenida São João também é registrado em mapas, e aparece com a mesma situação descrita nas fotos (com casas a serem desapropriadas). Em 1930, é publicado o Mappa Topographico do Município de São Paulo, executado pela empreza SARA BRASIL S/A, pelo methodo Nistri de aerophotogrammetria, de accordo com o contracto lavrado em virtude da Lei nº 3208 de 1928, quando Prefeito o Sr. Dr. José Pires do Rio, sendo Director de Obras o engenheiro Arthur Saboya4, com uma riqueza de detalhes até então . 4. Título completo do mapa, com grafia usada nos mapas originais de 1930. . 37 .
(46) . . Fig. 10 (esq.) – Foto de 1930 do prolongamento da Avenida São João (vista da Praça Marechal em direção ao centro, com o Ed. Martinelli ao fundo). Nota-‐se diversas construções ainda “no meio do caminho”. A esquerda é possível ver a torre do “Castelinho da Rua Apa”. Fonte: PMSP Fig. 11 (dir.) – Foto de 1929 do alargamento da Avenida São João (vista do centro em direção a Praça Marechal – que na época já possuía uma incipiente verticalização). Fonte: SOMEKH, 2014. MAIA, 1930. . . . inexistente nos mapas publicados da cidade, e com 82 mapas em escala de 1:5.000 (um para . . cinco mil), sendo que nas regiões centrais e mais urbanizadas estes mapas foram ampliados e . . subdivididos em até 23 mapas na escala de 1:1.000 (um para mil), como no caso da Avenida São João. 38 .
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