Antes do Minhocão
CAPÍTULO 1 – Antes do Minhocão
1.3. O mercado imobiliário (1930 – 1970): protagonismo e abandono
A partir de meados dos anos 1930, o mercado imobiliário também cresceu exponencialmente, e o eixo da Praça Antônio Prado até o Largo Padre Péricles, formado pelas avenidas em estudo (e seus arredores), recebeu diversos edifícios residenciais e comerciais. A cidade estava com cerca de 900 mil habitantes em 1930 (média ponderada entre os censos do IBGE – entre os 579 mil habitantes de 1920 e os 1.326.261 habitantes de 1940, já que em 1930 não foi realizado o censo demográfico) e iria se multiplicar, atingindo quase 6 milhões de habitantes em 1970 (5.924.615 habitantes, segundo o IBGE). Nos anos 1950 e 1960, a Rua Amaral Gurgel também atrairia o mercado de imóveis.
Aqui a pesquisa foi feita em todas as edições da revista de arquitetura Acrópole (do primeiro número, em maio de 1938, ao último número, o 390, em novembro de 1971, coincidentemente, o ano da inauguração do Minhocão) e nas edições de domingo dos classificados de imóveis do jornal OESP, restringindo – devido ao tempo de pesquisa – aos primeiros domingos de cada mês, entre 1930 e 1970.
Além da construção dos cinemas, a Avenida São João transformou-‐se no principal polo de novas construções da cidade, a partir do momento que o centro antigo – o triângulo histórico – não comportava mais o seu crescimento explosivo. A avenida se transforma num grande vetor do mercado imobiliário quando seu prolongamento é findado em 1930. O edifício que marca o início dessa transformação é o edifício Martinelli, inaugurado um pouco antes, em 1929.
Fig. 36 – Reportagem sobre a construção do Martinelli, OESP, 03/01/1929 Fonte: Acervo Estado
Até 1929, embora incipiente, a verticalização se localizava no triângulo histórico (os edifícios mais altos, com uso terciário) e no chamado centro novo, misturando uso terciário com residencial. Ao longo do eixo da avenida São João, a construção verticalizada está na praça Júlio Mesquita, aberta em 1927 e onde se destaca um edifício de 13 andares, na praça Marechal Deodoro [...] (SOMEKH, 2014, p.200)
Porém, “em São Paulo, foi só em 1937, depois da grande depressão de 1929, que os negócios com imóveis começaram a melhorar” (SOMEKH, 2014). Essa data coincide com o início dos anúncios de imóveis nos classificados dos jornais, antes disso as propagandas são quase inexistentes. O “Centro Novo”, formado pelo quadrilátero a oeste do Vale do Anhangabaú (constituído pela Rua Formosa, Avenida São Luiz, Avenida Ipiranga e Avenida São João),também se torna o foco do mercado imobiliário nesse período. Este foco será mantido até o início dos anos 1960, quando a região da Avenida Paulista e Jardins começará a ganhar o protagonismo de novas construções na capital.
Esse período áureo da verticalização da Avenida São João coincide com os dois primeiros períodos definidos nos estudos da professora Nadia Somekh, principalmente, entre:
1940 a 1956, segundo período, a verticalização norte-‐americana, de características ascendentes, que começa com a implantação do registro de elevadores e vai até antes da primeira limitação do coeficiente de aproveitamento dos terrenos. O padrão de construção valorizado passa a ser o norte-‐americano. É desse período a maioria dos quitinetes existentes na cidade. Os índices de aproveitamento permanecem altos [...], mas há características distintas quanto ao uso, que passa a ser predominantemente residencial. (SOMEKH, 2014, p.34)
Fig. 37 – Foto da construção do Martinelli, anos 1920. Fonte: Acervo Estado
Na década de 1930, diversos edifícios são anunciados em jornais e revistas, a maioria ainda influenciados pelo movimento art déco. Um exemplo é o Edifício Lívia Maria, no número 755 da Avenida São João, esquina com a Rua dos Timbiras. Seu projeto foi publicado na edição número 11 da revista Acrópole, em março de 1939, assim descrito: “O prédio Lívia Maria, eleva-‐ se em ponto bastante movimentado da Avenida São João, ficando próximo à diversas casas de diversões, assim como, de uma ampla e agradável praça pública, que é a Praça da República”.
Em 1935, Paulo de Barros Whitaker pede aprovação para construir um prédio residencial8 de 11 pavimentos na praça Marechal Deodoro, com elementos art déco. O edifício era um precursor das quitinetes, pois, além dos apartamentos de um e dois dormitórios, dispunha de apartamentos com uma única sala de 7,50 m x 2,80m, evidentemente a ser dividida para uso, sem a necessária iluminação. A Divisão de Censura Estética, instituída pelo Ato nº 58, de 15 de janeiro de 1931, por Anhaia Mello, recomendava um revestimento mais rico do que argamassa de cal e areia proposta, além de um melhor tratamento de mármore ou granito, no embasamento. (SOMEKH, 2014, p.209)
Em 1940 começa a construção do edifício Porchat, projetado por Rino Levi na esquina da São João com a Rua Apa, finalizado em 1942.Constituído por um único corpo e quatro edifícios independentes, cada um com 1 apartamento por andar, torna-‐se um marco na paisagem da Avenida São João, nas proximidades da Praça Marechal Deodoro.
8Edifício Pirineus na esquina da Rua Pirineus com a praça Marechal Deodoro, ver imagens na próxima página.
Fig. 38 – Fachada do Prédio Lívia Maria na Av. São João esquina com a Rua dos Timbiras. Características art déco (março de 1939). Fonte: Acrópole
Fig. 39 (esq.) – Desenho da fachada do Edifício Pirineus na esquina da Av. São João com a Rua dos Pirineus. Fonte: SOMEKH, 2014
Fig. 40 (dir.) – Planta do Edifício Pirineus. Fonte: SOMEKH, 2014
Levi aproveita a forma trapezoidal do lote para deslocar cada uma das unidades em relação à outra, entrelaçando-‐as com um balcão curvo em frente à sala de estar. [...] Também o alinhamento das lojas do térreo e a marquise linear remetem à continuidade do conjunto, contrapondo-‐se à divisão que rege as plantas e fachadas. (ANELLI, 2001, p.117)
Fig. 41 (esq.) – Fachada do Edifício Porchat. Fonte: ANELLI, 2001.
Fig. 42 (dir.) – Planta do Edificio Porchat na esquina da Av. São João com a Rua Apa. Fonte: ANELLI, 2001
Fig. 43 (abaixo) – Propaganda de fogões elétricos no Edificio Porchat (anos 1940). Fonte: https://quandoacidade.wordpress.com
O Edifício Porchat ainda segue as características iniciais da sua arquitetura “pré-‐ moderna”, ou, como define SOMEKH (2014), em relação aos pedidos de aprovação na Prefeitura de São Paulo: um derivativo do modernismo – um estilo modernizado e sem ornamentação, constatadas também em outros projetos espalhados pela cidade, como o Edifício Columbus (1934), o Edifício Higyenópolis (1935) e o Edifício Guarani (1936).
Fig. 44 (esq.) – Edifício Columbus (1934) na Av. Brig. Luiz Antônio (demolido em 1969). Fonte: ANELLI, 2001 Fig. 45 (centro) – Edifício Higyenópolis (1935) na Rua Conselheiro Brotero. Fonte: ANELLI, 2001
Fig. 46 (dir.) – Edifício Guarani no Parque Pedro II. Fonte: Revista LIFE
Inicialmente, a arquitetura de Levi é caracterizada por aberturas na forma de janelas e varandas com balcões. Seu projeto explora o ritmo da distribuição pelo volume construído, reflexo da orientação clássica na formação do arquiteto. Percebe-‐se certa harmonia de proporções entre cheios e vazios para acentuar a integridade do volume geométrico e a impressão da sua solidez. (ANELLI, 2001, p.50)
Outros edifícios, numa fase de transição para a arquitetura moderna, com muitas características ainda do movimento art déco, são construídos nas redondezas da Avenida São João nos anos 1940. Abaixo foram levantados alguns edifícios desse período, com essas características em ordem cronológica.
Fig. 47 (esq.) – Edifício Gonçalves Biar (abril de 1939) na Av. São João, 1430 Fonte: Acrópole
Fig. 48 (centro) – Edifício Santa Marina (agosto de 1940) na Rua General Olympio da Silveira, 83. Fonte: Acrópole
Fig. 49 (dir.) – Prédio Zena (março de 1940) à Rua Frederico Abranches esquina com a Rua Sebastião Pereira. Fonte: Acrópole
Fig. 50 (esq.) – Edifício Marília (fevereiro de 1941) na Av. Angélica esquina com a Praça Marechal Deodoro. Fonte: Acrópole
Fig. 51 (centro) – Inca Hotel (fevereiro de 1943) na Av. São João esquina com a Rua dos Timbiras. Fonte: Acrópole
Fig. 52 (dir.) – Edifício Abreu Sodré (dezembro de 1941) – (foto superior). Na Avenida São João com a Alameda Nothman. Fonte: Acrópole
Fig. 53 (esq.) – Propaganda do Condomínio Antonio Egidio no OESP 02/06/1946. Na Praça Marechal Deodoro, 113 (vizinho do Ed. Marília). Fonte: Acervo Estado
Fig. 54 (centro) – Propaganda do Edifício Bento Ferraz no OESP 09/05/1948. Na Av. São João esquina com a Rua dos Timbiras. Fonte: Acervo Estado
Fig. 55 (dir.) – Propaganda no OESP 05/03/1950. Na Praça Marechal Deodoro esquina com Av. Angélica (edifício já aparece em fotos de 1942). Fonte: Acervo Estado
Em 1941 é projetado, também por Rino Levi, o Edifício Trussardi, no número 1050 da Avenida São João, esquina com a Praça Júlio de Mesquita. Em 1948, após a conclusão das obras, é publicado nos classificados de imóveis do jornal OESP o seguinte anúncio em 01 de agosto: “90% financiado em dez anos! [...] Prédio aristocrático e distinto, com salão nobre de espera. Apartamentos modernos e confortáveis, todos com frente para a Avenida. Gaz e água quente corrente em todos os apartamentos. Portaria dia e noite. Telefone interno. 3 elevadores rápidos. Hall de serviços separado. Ponto central, na Cinelândia, junto a inúmeros restaurantes, lojas, mercearias, feiras. Localização Esplêndida. Edifício Trussardi.”
O edifício Trussardi, apesar de ter sido projetado apenas um ano após o edifício Porchat, tem a arquitetura totalmente diferente da primeira fase da carreira do arquiteto, agora, com características modernas e fachada em grelha. Coincidentemente, ou não, 1941 é o ano que o arquiteto Roberto Cerqueira César entra para o escritório:
A fachada principal do volume, voltada para a Avenida São João, recebe um conjunto de terraços em balanço situados num plano destacado que acompanha suavemente a curvatura da esquina. Distintamente dos projetos anteriores, esse plano destacado é concebido como uma grelha geométrica, que controla as aberturas e cria uma ordenação visual do espaço urbano. A ordem da grelha estrutura os espaços da faixa de ambientes servidos, todos voltados para a avenida, mas não consegue se manter na faixa mais interna dos serviços, em que a acomodação à geometria da curva se realiza de maneira irregular. Enquanto os vãos da fachada correspondem ao dos dormitórios e salas, os serviços, todos de tamanhos diferentes, se acotovelam no setor posterior. A suavidade da curvatura da fachada não avança para o interior, onde não existe uma preocupação com uma concordância geométrica das paredes com o seu raio. (ANELLI, 2001, p.51)
Fig. 56 – Fachada do Edifício Trussardi (1941). Fonte: ANELLI, 2001
Em setembro de 1946, é publicado no jornal OESP o primeiro anúncio de vendas do Edifício Pacaembu, primeiro projeto de grande porte de João Artacho Jurado (lançado simultaneamente com outros dois edifícios: Duque de Caxias e Piauí), na Avenida General Olímpio da Silveira, número 386. Logo em seguida, em dezembro do mesmo ano, aparece outro anúncio no mesmo jornal, com o projeto totalmente modificado e com o seguinte slogan: “Arquitetura... Êxito... Vitória... Edifício Pacaembu – o condomínio de um bairro aristocrático!”, e logo abaixo a justificativa: “Após o seu sensacional êxito de lançamento, afim de atender a maior número de adquirentes, com a anexação dos terrenos vizinhos, foi ampliada a sua área, permitindo a construção de novos tipos de apartamentos!”, e a descrição continua exaltando a localização privilegiada. O prédio possui doze andares tipo e cinquenta apartamentos. (FRANCO, 2008). O edifício foi publicado na revista Acrópole em novembro de 1950, na edição número 151, assim que as obras foram finalizadas.
Na fachada, varandas ainda tímidas e presas ao alinhamento insinuam apartamentos pequenos, destinados a um público modesto ou a grandes investidores do setor imobiliário que tinham nessa mercadoria sua fonte de renda, investimento e lucro. Mas fazem-‐se presentes e mostram personalidade, porque, assim como o piso na entrada, são revestidas de pastilhas coloridas. (FRANCO, 2008, p.138)
Fig. 57 – Propaganda do Ed. Trussardi no OESP em 01/08/1948. Fonte: Acervo Estado
Fig. 58 (esq.) – Propaganda da primeira versão do Edifício Pacaembu, no OESP 01/09/1946. Situado na Av. General Olimpio da Silveira. Fonte: Acervo Estado
Fig. 59 (centro) – Propaganda da versão construída do Edifício Pacaembu, no OESP 01/12/1946. Fonte: Acervo Estado Fig. 60 (dir.) – Propaganda da entrega do Edifício Pacaembu, no OESP 01/10/1950. Fonte: Acervo Estado
Fig. 61 (esq.) – Imagens do Edifício Pacaembu (novembro de 1950). Fonte: Acrópole
Em 1947 é projetado o Edifício Leon Kasinsky, pelo arquiteto Henrique Mindlin, no número 1072 da Avenida São João, vizinho ao Edifício Trussardi, de Rino Levi. Depois de finalizado, o prédio é publicado na edição número 170 de junho de 1952 da revista Acrópole.
Ainda em 1947, com o aval dado anos antes pelo então prefeito Prestes Maia (1938-‐ 1945), que tinha projetado uma das versões do Paço Municipal de São Paulo (nunca construído), de maneira a ser um marco monumental que identificasse o início da Avenida, o edifício Altino Arantes, popularmente conhecido como “Banespão” (por ter sido a sede do Banco do Estado de São Paulo até sua privatização, nos anos 1990) foi inaugurado. O projeto foi feito no ano de 1939, mas suas obras levaram oito anos até sua finalização. Sendo sua implantação no eixo visual (linha reta) da Avenida São João, de quem avistava desde a curva da Avenida General Olímpio da Silveira, 3 quilômetros adiante. Na edição número 116, de dezembro de 1947, o projeto foi publicado em longa reportagem na revista Acrópole, com a seguinte descrição, em resumo: “O fato de estar o terreno do Banco do Estado localizado no eixo da Avenida São João, e poder a edificação aí erguida constituir remate condigno para essa Avenida, aliado à necessidade de ordem urbanística de dever-‐se estabelecer nesse ponto uma massa arquitetônica, que equilibrando os maciços do Edifício Martinelli e do futuro Banco do Brasil, lhes fosse predominante, foram felizes circunstâncias, que concorreram para que a Prefeitura, após minuciosos estudos de apreciação dos efeitos arquitetônicos de conjunto, concordasse em conceder licença para que o Edifício do Banco do Estado se erguesse com as dimensões com que fora projetado”.
Fig. 63 – Imagens do Edifício Leon Kasinsky (junho de 1952). Fonte: Acrópole
Prestes Maia elaborou uma cuidadosa regulamentação arquitetônica visando garantir uma ocupação homogênea e de qualidade a exemplo do que já ocorria nas ruas Marconi e Xavier de Toledo. [...] Ao contrário das alturas máximas estipuladas, a nova legislação impunha uma altura mínima de 39 metros no alinhamento e, por uma sequência de escalonamentos, até 115 metros. Incentivava a substituição dos prédios existentes por prédios com 39 metros de altura no alinhamento [...] Alturas maiores que 80 metros poderiam ser atingidas por meio de corpos escalonados em “pontos focais ou de interesse arquitetônico a juízo da prefeitura”. É o caso do edifício do Banco do Estado de São Paulo que tirou partido dessa resolução situado no eixo da Avenida São João [...], reforçado pelo coroamento com 120 metros de altura. (SANTOS, 2013, p.52-‐53).
Nadia Somekh comenta:
[...] edifício do Banco do Estado de São Paulo, no início da avenida São João [praça Antonio Prado], é típico desse período. É o primeiro, em São Paulo, a utilizar o revestimento de pastilhas, cujo uso se disseminou a partir de então, principalmente após 1947, quando duas fábricas de pastilhas de porcelana se instalaram em São Paulo. (SOMEKH, 1987, p.81)
Em 1949, o edifício do Banco do Brasil, concorrente em altura com o Edifício Altino Arantes, tem suas obras iniciadas em frente ao Edifício Martinelli, criando uma sombra permanente neste, já que o novo edifício foi construído em sua face norte. E é neste período que o Martinelli, já desapropriado pela prefeitura – pertencia a União desde 1943, começa a entrar em decadência. Atingindo a degradação máxima nos anos 1960 e início dos anos 1970, quando se tornou sinônimo de cortiço vertical e prostituição (sua reforma só seria executada
Fig. 64 – Edifício Sede do Banco do Estado de São Paulo -‐ BANESPA (dezembro de 1947). Fonte: Acrópole
entre 1975 e 1979, na administração de Olavo Setúbal, quando foi reinaugurado como sede de diversas secretarias da prefeitura).
No mesmo ano, é anunciado em maio na revista Acrópole – edição número 133 – o lançamento do sinuoso Edifício Washington, na Avenida General Olímpio da Silveira. Na edição 172 da mesma revista, em agosto de 1952, é publicado o edifício já concluído, com projeto de Bernardo Rzezak.
Na década seguinte, os anos 1950, o ritmo de construção na Avenida São João continua a atrair o mercado de grandes edifícios – principalmente de 1 dormitório e quitinetes, porém é nesta década que a avenida começa a dividir a atenção com uma grande concorrente (principalmente na segunda metade da década), que começará a se transformar no novo eixo do mercado imobiliário e ajudará no desinteresse pela Avenida São João, em meados dos anos 1960: a Avenida Paulista (além de todo bairro de Higienópolis, que muda os parâmetros dos edifícios de apartamentos, até então concentrados no mercado mais popular e de classe média rentista, e começa a priorizar edifícios para a elite e a classe média alta).
Ou seja, a São João ficará marcada como a avenida dos apartamentos mais populares, rentistas, em oposição à Avenida Paulista e Higienópolis, voltados para uma população mais abastada e que tinha como objetivo morar em apartamentos amplos, próprios e que substituíssem as casas confortáveis que estavam acostumados.
Fig. 65 – Nova Sede do Banco do Brasil em São Paulo (maio de 1949). Fonte: Acrópole
Fig. 66 (esq.) – Perspectiva do Edifício Washington (maio de 1949). Fonte: Acrópole
Em 06 de setembro de 1953, é anunciado no jornal OESP o lançamento do Edifício Araraúnas, do arquiteto Franz Heep, com a seguinte descrição, em resumo: “Na artéria vital da cidade, Edifício Araraúnas, Avenida São João esquina com a Alameda Glette. Apartamentos de luxo, fachada ultramoderna, todos os apartamentos de frente com belíssimos terraços, localização sem igual com possibilidade de grande valorização”. Em abril de 1958, o projeto é publicado na revista Acrópole (ed. 234/ de abril): “[...] A fachada da av. São João é exposta ao sol intenso. Cada elemento da fachada representa um apartamento. O caixilho que divide a sala da ‘loggia’ tem uma porta plana de madeira e a outra parte envidraçada. [...]”. As plantas dos apartamentos são do tipo quitinete, com cozinha, banheiro, terraço e uma grande sala que divide espaço com o dormitório.
Dois anos depois, em 1955, é projetado um dos últimos grandes edifícios residenciais da Avenida São João (pelo menos até os anos 2000), o Edifício Racy, projetado pelo arquiteto Aron Kogan e executado pelo engenheiro Waldomiro Zarzur, a dupla de sócios proprietários da Construtora Zarzur&Kogan. Conhecido popularmente como “Copanzinho” da São João, devido à sua planta sinuosa em forma de “S”, o edifício fica localizado na esquina da Rua Helvétia, no número 1588 da São João. É formado por uma única grande massa sinuosa e envidraçada, dividida em 5 blocos, cada um com 2 apartamentos por andar, possuindo 2 dormitórios cada. São 14 pavimentos tipo, totalizando 140 apartamentos. Mais 5 pavimentos no embasamento, com uso comercial. Possui um hall de entrada monumental, com 18 metros de pé-‐direito e uma
Fig. 68 – Propaganda do Edifício Araraúnas, no OESP 06/09/1953. Situado na Av. São João esquina com a Alameda Glette. Fonte: Acervo Estado
Fig. 69 (esq.) – Fachada do Edifício Araraúnas (abril de 1958). Fonte: Acrópole. / Fig. 70 (dir.) –Plantas do Edifício Araraúnas (abril de 1958). Fonte: Acrópole
das mais belas escadas da cidade. Em 1962 é anunciada uma pequena propaganda no jornal OESP, na edição do dia 07 de janeiro com um aviso: “vendem-‐se os últimos apartamentos”.
Em 1955, aproveitando-‐se do projeto da segunda avenida perimetral, difundido por Prestes Maia e que seria oficialmente publicado em 1956 (que abrangeria o alargamento da Avenida Duque de Caxias e da Rua Amaral Gurgel, além de uma nova avenida a ser construída cortando a Bela Vista, passando pelo Parque Dom Pedro II e contornando a linha férrea até juntar-‐se novamente na Duque de Caxias– este projeto não constava no Plano de Avenidas de 1930), é lançado o Edifício Nova Ipiranga, na Rua Amaral Gurgel, assim anunciado no dia 03 de abril no jornal OESP: “Será a segunda artéria da capital e você seu primeiro proprietário! Segunda Perimetral de São Paulo, Verdadeira Nova Avenida Ipiranga. Resultará da retificação de diversas vias públicas, entre as quais a Rua Amaral Gurgel – já em alinhamento. Avenida de amplo descortínio, com 4 pistas, largura variável de 45 a 80 metros – Inaugurará entre nós a linha das grandes Avenidas Residenciais centrais, como a Park Avenue de New York, a Alvear de Buenos Aires, o Wilshire Boulevard de Los Angeles. Nessa magnífica Avenida, iniciamos as reservas de apartamentos nos Edifícios Nova Ipiranga à Rua Amaral Gurgel esquina de Major Sertório, em plena segunda Perimetral de São Paulo!”.
Prestes Maia atende ao convite da Prefeitura e elabora em 1956 o “Anteprojeto de um Sistema de Transporte Rápido Metropolitano”. Ainda que apresente nele uma proposta de rede de metrô, Maia defende que a prioridade seja dada à continuidade do seu Plano de Avenidas. Aquela seria a hora para a implantação do segundo anel perimetral. A análise da proposta de Maia mostra a ênfase na
Fig. 71 – Edifício Racy em construção (anos 1950). Fonte: Acervo Estado
ligação Leste-‐Oeste e na Avenida Anhangabaú (atual Av. 23 de Maio). O primeiro anel implantado por ele para o contorno do centro não tinha mais capacidade para suportar o deslocamento nessa direção. A expansão periférica de fábricas e habitação popular a Leste gerava seus reflexos no centro. Surgiria aqui o traçado da ligação Leste-‐Oeste, iniciando no Largo do Arouche passando pela Amaral Gurgel, atravessando a Liberdade em cota rebaixada e cortando o extremo sul do Parque D. Pedro II em cota elevada para Leste. (ANELLI, 2007, sem num. pg.)
Em 1957 é inaugurado tardiamente o Edifício General Jardim, na esquina da rua de mesmo nome com a Rua Amaral Gurgel (do seu lado oeste – trecho que não foi alterado pelo alargamento desta via na década seguinte), um dos primeiros projetos de João Artacho Jurado, de 1950, com 15 pavimentos tipo e em destaque sua cobertura em terraço-‐jardim, com um grande pergolado (FRANCO, 2008).Os coroamentos seriam parte da identidade dos seus