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Equação 3.8 Equação que representa o modelo 3, de regressão logística

2.3 Gerenciamento de Resultados

2.3.4 Estudos em gerenciamento: de Healy (1985) a Ball e Shivakumar (2006)

2.3.4.2 DeAngelo (1986)

i. Síntese do estudo

DeAngelo (1986) investigou se os administradores praticam gerenciamento no período que antecede a recompra de ações em poder dos acionistas (management buyouts). De acordo com esta autora, a informação do Lucro Líquido correspondia a um dos parâmetros utilizados pelo órgão regulador e pela justiça, em caso de litígio,44 para analisar se o preço pago pelos administradores aos acionistas é justo. Dada a importância da informação do Lucro, os administradores teriam incentivo para praticar o gerenciamento com o objetivo de reduzir o Lucro e, com isso, diminuir o custo da compra das ações em poder dos acionistas. DeAngelo (1986) utilizou uma amostra de 64 empresas listadas nas bolsas New York Stock Exchange e American Stock Exchange, e que propuseram recompra de ações durante o período 1973-1982.

Para testar a hipótese de que os administradores praticaram o gerenciamento com o objetivo de reduzir o lucro em períodos que antecederam a aquisição das ações, a autora estimou as accruals totais (obtidas a partir da diferença entre o Lucro Líquido e o Fluxo de Caixa Operacional) do período no qual esperava-se que o gerenciamento houvesse sido praticado (AC1) e as accruals totais para um período no qual esperava-se que o gerenciamento não tivesse ocorrido (AC0). DeAngelo (1986) testou se a diferença entre estas accruals (AC1-AC0) era significativamente negativa, o que sugeriria a prática do gerenciamento para reduzir o Lucro.45 A diferença entre as accruals totais dos dois períodos foi dividida pelo ativo total.46

44 Que acontecia uma vez que os investidores julgassem que o preço oferecido não era o preço justo.

45 A autora testou se AC1-AC0<0 para quatro situações, correspondentes a três períodos de divulgação das demonstrações financeiras antes do management buyout: AC1= accruals totais do último trimestre (final quarter) anterior ao management buyout e AC0= accruals totais do mesmo trimestre do ano imediatamente anterior; AC1=

accruals totais do último ano (final year) anterior ao management buyout e AC0= accruals totais do ano imediatamente anterior; AC1= accruals totais do ano anterior (year prior) ao management buyout e AC0= accruals totais de dois anos antes do evento; AC1= média das accruals totais dos dois últimos anos (final two years) antes do

management buyout e AC0= accruals totais de três anos antes do evento. DeAngelo (1986) observou valores negativos (accruals negativas) em todos os casos, embora não significativos.

46 A autora também realizou os testes utilizando a receita como denominador e encontrou os mesmos resultados (exceto para os casos nos quais observou-se diferença negativa significativa).

De um modo geral, não foram encontradas diferenças negativas significativas (ao nível de 5%),47 mesmo quando a amostra foi segmentada de acordo com o grau de discricionariedade dos gestores sobre o resultado divulgado48 e quando a análise foi realizada para grupos de empresas com incentivo para reduzir o lucro.49 DeAngelo (1986) argumenta que os resultados encontrados, de que os administradores não praticam o gerenciamento através do uso de accruals em períodos anteriores a management buyout com o objetivo de reduzir o lucro, sugerem que o lucro é uma informação suficientemente importante (e por conseqüência, as demonstrações financeiras) para atrair exame minucioso pelas partes que poderiam ser adversamente afetadas por uma estratégia de manipulação de lucros. Com isso, os administradores não utilizariam este instrumento, pois poderia expô-los a sanções legais e financeiras.

ii. Descrição do modelo de DeAngelo (1986)

DeAngelo (1986), a partir da proposta de Healy (1985), pondera que as accruals geralmente são negativas, e que isso não quer dizer, necessariamente, que existe gerenciamento para reduzir lucro.50 A autora propõe a adoção de um benchmark, ao qual a magnitude das accruals totais (utilizadas como proxies do gerenciamento por Healy, 1985) deve ser comparada. Este benchmark seria o nível das accruals em um período para o qual não se espera que o gerenciamento seja praticado. Com isso, propõe a análise de accruals “anormais” (diferença entre a accrual benchmark e accrual gerenciada). Se não existe gerenciamento, então a diferença entre

47 Com exceção do grupo que realizou a oferta durante um processo de takeover hostil, nos seguintes períodos: AC1= accruals totais do ano anterior (year prior) ao management buyout e AC0= accruals totais de dois anos antes do evento; AC1= média das accruals totais dos dois últimos anos (final two years) antes do management buyout e AC0= accruals totais de três anos antes do evento.

48 Os testes foram realizados novamente para a amostra subdividida em três grupos: empresas que eram controladas pelos administradores antes do management buyout (maior grau de discricionariedade sobre o resultado divulgado), empresas que propuseram a recompra das ações durante um processo de takeover hostil (menor discricionariedade dos administradores), e empresas não classificadas em algum destes dois grupos (grau de discricionariedade intermediário).

49 Grupo formado pelas empresas com necessidade de disclosure após o management buyout, pelo fato de ainda possuírem títulos negociados no mercado (ações preferenciais e títulos de dívida); grupos de empresas nas quais os administradores tornaram-se os únicos acionistas após o management buyout; grupos de empresas com alta relação Preço/Lucro e grupo de empresas que aumentaram o preço de oferta pelas ações.

50 De acordo com Healy (1985), se ACC=LL-FCO, e considerando que o FCO é o que o lucro deveria ser na ausência de manipulação, então se ACC=0, não há manipulação; se ACC<0, há manipulação para reduzir lucro e se ACC>0, há manipulação para aumentar o lucro. Mas, como ACC = DA + NA, se NA é significativo e negativo, e

as accruals entre dois períodos (entre o período “suspeito” e o período de referência ou benchmark) não é significativamente diferente de zero. O modelo de DeAngelo é representado pela Equação 2.3:

TA1-TA0=(DA1-DA0)- (NA1-NA0) (2.3) Na qual,

TA1é a accrual total na data t=1, período “suspeito” de gerenciamento, accrual supostamente “manipulada”. Calculada através da diferença entre o Lucro Líquido e o Fluxo de Caixa Operacional em t=1.

TA0 é a accrual total na data t=0, benchmark para o que a accrual deveria ser, na ausência de manipulação do lucro. Calculada através da diferença entre o Lucro Líquido e o Fluxo de Caixa Operacional em t=0 (período no qual espera-se que não haja manipulação do lucro).

TA1-TA0 é a accrual anormal, a qual é testada se é significativamente negativa (o que, se confirmado, é proxy de gerenciamento para reduzir lucro). Se TA1-TA0=0, então TA1=TA0, o que significa que as accruals totais são constantes de um período para o outro, então não há gerenciamento.

DA é o componente discricionário (não-observável) das accruals totais

DA1-DA0 é a diferença entre o componente discricionário da accrual no período no qual espera-se não haver manipulação e o componente discricionário da accrual no período suspeito de manipulação.

NA é o componente não-discricionário (não-observável) das accruals totais

NA1-NA0 é a diferença entre o componente não-discricionário da accrual no período no qual espera-se não haver manipulação e o componente não-discricionário da accrual no período suspeito de manipulação. DeAngelo (1986) assume que esta diferença é igual a zero, ou seja, que as accruals não-discricionárias são constantes de um período para o outro.51

Trabalhar com um período de referência contorna, de certa forma, as limitações do modelo de Healy (1985), originadas pelo uso da accrual total como proxy de gerenciamento. O não está associado à prática do gerenciamento, então não pode-se dizer com certeza que ACC<0 está associado ao gerenciamento para reduzir lucro.

51 Conforme explica DeAngelo (1986), se AC1-AC0<0 implica presença de gerenciamento para reduzir lucro, sob a hipótese de que NA1-NA0=0, têm-se que AC1-AC0<0 deve-se exclusivamente à diferença entre as accruals

modelo não contempla ajustes para a influência do contexto econômico sobre o negócio da empresa, o que faz com que a suposição de NA1-NA0=0 seja frágil. Sobre isso, Jones (1991) ressalta a observação realizada por Kaplan (1985), de que variações nas accruals dependem de circunstâncias econômicas da empresa, assim, por exemplo, se as accruals não-discricionárias são uma função das receitas, uma mudança negativa nas accruals pode simplesmente dever-se a variações nas accruals não-discricionárias do que às accruals discricionárias.

A suposição de NA1-NA0, na prática, faz com que o modelo assuma, como no modelo de Healy (1985), as accruals totais como proxy de gerenciamento. Como decorrência disso, também incorre no problema de não conferir tratamento às condições econômicas, que irão influenciar as accruals não-discricionárias. A escolha do período no qual se espera que não haja gerenciamento do lucro, e partir do qual as accruals não-gerenciadas (benchmark) são calculadas, é arbitrária, podendo e pode conduzir a erro do tipo II, se o benchmark escolhido houver sido objeto de gerenciamento.