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Decisão de reconhecimento ou não de repercussão geral em recurso

4. ASPECTOS PROCESSUAIS E PROCEDIMENTAIS PARA A SUPERAÇÃO

4.4 Especificidades da superação nos precedentes vinculantes

4.4.2 Decisão de reconhecimento ou não de repercussão geral em recurso

Expusemos no item 1.4 deste trabalho que, a despeito de não estar inserida no rol do art. 927 do Código de Processo Civil, a decisão que reconhece ou não a repercussão geral no recurso extraordinário é um precedente vinculante.

Como já exposto, os comandos normativos que fundamentam a vinculação das decisões dessa natureza são os arts. 1.035, §§ 5º e 8º, e 1.039, interpretados sistematicamente com o art. 988, § 5º, II, todos do Código de Processo Civil.

Convém também relembrar que há precedente do Supremo Tribunal Federal pela superação do entendimento que, em um primeiro momento, afastou a repercussão geral da questão constitucional discutida e, posteriormente, passou a reconhecê-la, como no Tema 134 (“Direito a honorários advocatícios quando a Defensoria Estadual representa vencedor em demanda ajuizada contra o Estado ao qual é vinculada”), matéria hoje reconhecida no Tema 1.002.282

O trâmite para a análise da repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal está previsto nos arts. 1.030, I, e 1.035 do Código de Processo Civil, que assim determinam:

Art. 1.030. Recebida a petição do recurso pela secretaria do tribunal, o recorrido será intimado para apresentar contrarrazões no prazo de 15 (quinze) dias, findo o qual os autos serão conclusos ao presidente ou ao vice-presidente do tribunal recorrido, que deverá:

I – negar seguimento:

a) a recurso extraordinário que discuta questão constitucional à qual o Supremo Tribunal Federal não tenha reconhecido a existência de repercussão geral ou a recurso extraordinário interposto contra acórdão que esteja em conformidade com entendimento do Supremo Tribunal Federal exarado no regime de repercussão geral.

Art. 1.035. O Supremo Tribunal Federal, em decisão irrecorrível, não conhecerá do recurso extraordinário quando a questão constitucional nele versada não tiver repercussão geral, nos termos deste artigo.

§ 1º Para efeito de repercussão geral, será considerada a existência ou não de questões relevantes do ponto de vista econômico, político, social ou jurídico que ultrapassem os interesses subjetivos do processo.

(...)

§ 5º Reconhecida a repercussão geral, o relator no Supremo Tribunal Federal determinará a suspensão do processamento de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que versem sobre a questão e tramitem no território nacional.

(...)

§ 8º Negada a repercussão geral, o presidente ou o vice-presidente do tribunal de origem negará seguimento aos recursos extraordinários sobrestados na origem que versem sobre matéria idêntica.

Não podemos desconsiderar que, com a negativa de reconhecimento da repercussão geral pelo Supremo Tribunal Federal, todos os recursos extraordinários que versem sobre a matéria serão inadmitidos. Desse modo, como ter acesso ao Supremo Tribunal Federal, se o recurso que poderia demonstrar os pressupostos materiais para a superação sequer terá alcançado a admissibilidade no tribunal a

quo?

Este mesmo problema, como veremos, também repercute no trâmite dos recursos especiais e extraordinários repetitivos, já que, nos termos do art. 1.040, I, do CPC, presidente ou o vice-presidente do tribunal de origem negará seguimento aos recursos especiais ou extraordinários sobrestados na origem, se o acórdão recorrido coincidir com a orientação do tribunal superior.

Da decisão que negar seguimento ao recurso, caberá agravo interno, nos termos do art. 1.030, § 2º e 1.021, ambos do CPC, que será julgado pelo próprio tribunal local. Isso evidencia a inacessibilidade ao tribunal superior, uma vez que a superação do entendimento firmado no regime da repercussão geral necessariamente teria de passar pela interposição de um recurso extraordinário em face do acórdão proferido no julgamento deste agravo, o que – sob uma ótica verdadeiramente realista – seria dificilmente admitido, pelas próprias limitações processuais dos recursos excepcionais, em especial, o prequestionamento.

Como dito, o interesse social e coletivo presente em todos os precedentes vinculantes deve ser prestigiado neste momento.

Se pararmos para pensar, os recursos que visam firmar precedentes não vinculantes, a exemplo de um recurso extraordinário ou um recurso especial cujo tema não foi afetado na sistemática da repercussão geral ou dos recursos repetitivos, alcançarão o crivo dos tribunais superiores, se preenchidos os respectivos pressupostos de admissibilidade.

Desse modo, o jurisdicionado terá total condição de propor (provocar) a superação de um precedente não vinculante, desde que demonstre os pressupostos materiais, ou seja, as causas determinantes para a revisão do entendimento.

Seria uma inaceitável incoerência vedar o acesso ao jurisdicionado para a superação de uma decisão proferida em repercussão geral, justamente porque o rito processual não permite esse acesso. É imperioso que olhemos para esse problema, sem desconsiderar, entretanto, o real e imenso quantitativo processual que abarrota os tribunais superiores.

Comparativamente, no incidente de resolução de demandas repetitivas, que abordaremos adiante, o art. 977 expressamente prevê os legitimados para sua instauração: i) juiz ou relator, por ofício; ii) partes, por petição; iii) Ministério Público ou Defensoria Pública, por petição.283

Se o juiz de 1º grau é um canal de proposição para a criação de um precedente e, portanto, para a sua superação, este mesmo raciocínio pode ser válido para a proposição da superação dos precedentes em repercussão geral e também na sistemática dos recursos extraordinários e especiais repetitivos. O tribunal de origem pode ser uma importante ponte entre o jurisdicionado e o tribunal superior.

Nesse caso, uma proposta realista seria permitir que a superação de um precedente firmado no regime da repercussão geral seja proposta pelo jurisdicionado ao tribunal de origem, por meio de uma petição fundamentada, mediante comprovação, na existência dos pressupostos materiais para a superação: i) obsolescência do precedente por alteração do contexto jurídico, político, social ou econômico; ou ii) erro do precedente.

O tribunal de origem, após a análise dos fundamentos apresentados pelo requerente, tem legitimidade para propor a superação do precedente, mediante ofício ao tribunal superior. Frise-se que o tribunal de origem é também legítimo para fazer a proposição de ofício, independentemente da iniciativa do jurisdicionado.

O raciocínio segue a mesma teleologia do art. 1.036, § 1º, do Código de Processo Civil, que remete ao presidente ou vice-presidente do tribunal a competência para selecionar dois ou mais recursos representativos da controvérsia,

283 Enunciado n. 345 do FPPC: O incidente de resolução de demandas repetitivas e o julgamento dos

recursos extraordinário e especial repetitivos formam um microssistema de solução de caos repetitivos, cujas normas de regência se complementam reciprocamente e devem ser interpretadas conjuntamente.

que serão encaminhados ao Supremo Tribunal Federal ou ao Superior Tribunal de Justiça para fins de afetação, determinando a suspensão do trâmite de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitem no Estado ou na região, conforme o caso.284-285

Da mesma forma que ao tribunal de origem é conferida a competência para a seleção dos representativos da controvérsia, por estar diretamente em contato com a realidade jurídica, política, social e econômica do estado ou região, também ao tribunal deve ser atribuída a competência de provocar a superação, de ofício ou a requerimento do jurisdicionado.

Com isso, não haveria impedimento ao acesso da parte (ou qualquer jurisdicionado) ao pedido de superação, mas haveria um necessário filtro antes do trâmite processual do requerimento no Supremo Tribunal Federal e no Superior Tribunal de Justiça.

Nesse filtro, o tribunal local deverá verificar a existência de interesse e legitimidade da parte postulante (jurisdicionado). Não se desconhece que a lei não

284 Art. 1.036. Sempre que houver multiplicidade de recursos extraordinários ou especiais com

fundamento em idêntica questão de direito, haverá afetação para julgamento de acordo com as disposições desta Subseção, observado o disposto no Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal e no do Superior Tribunal de Justiça. § 1º O presidente ou o vice-presidente de tribunal de justiça ou de tribunal regional federal selecionará 2 (dois) ou mais recursos representativos da controvérsia, que serão encaminhados ao Supremo Tribunal Federal ou ao Superior Tribunal de Justiça para fins de afetação, determinando a suspensão do trâmite de todos os processos pendentes, individuais ou coletivos, que tramitem no estado ou na região, conforme o caso.

285“Não se deve olvidar que em face da Lei 13.256/2016 a admissibilidade dos recursos

extraordinários será dividida entre o órgão a quo e ad quem (tribunais superiores).

Constatada a multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica questão de direito, de imediato, se promoverá a escolha inicial de dois ou mais recursos representativos da controvérsia (causas piloto) que induzirá maior amplitude de argumentos a serem levados em consideração na formação do julgado padronizador (precedente, com determinação clara das ratione decidendi – fundamentos determinantes). Sem olvidar que, em consonância com o § 5º, o relator no tribunal superior poderá selecionar dois ou mais recursos representativos da controvérsia para julgamento da questão de direito, independentemente da iniciativa do presidente ou vice-presidente do tribunal de origem.

Perceba-se, neste ponto, a clara preocupação em se melhorar a amplitude do debate para a forma- ção das decisões nos tribunais superiores, em conformidade com o princípio do contraditório como influência e não surpresa, posto como fundamento interpretativo de todo o CPC/2015 no art. 10. Pontue-se que a ampliação objetiva do número de recursos auxilia no cumprimento do disposto no art. 489, § 1º, IV, que determina que, no julgamento, deverá ocorrer o enfrentamento de todos os argumentos deduzidos no processo capazes de, em tese, infirmar a conclusão adotada pelo julgador. Se em julgamentos de litígios individuais esta já é uma obrigação essencial, nos julgamentos repetitivos ela se torna ainda mais relevante. Em assim sendo, se evitará o atual julgamento de macrolides em ‘fatias’ (com análise parcial de argumentos e indução de divergências interpretativas), que promove a instabilidade decisória e a superficialidade dos julgados” (NUNES, Dierle. Art. 1.036. In: WAMBIER, Teresa Arruda Alvim et al. (coord.). Breves comentários ao novo Código de Processo Civil. 2. ed. rev. e atual. São Paulo: RT, 2016. p. 2431- 2432).

estabeleceu expressamente essa possibilidade. Por isso, o importante papel da doutrina em analisar de onde ressai o interesse do jurisdicionado para esse pedido.

Demonstrado pelo jurisdicionado ao tribunal local, por meio de petição fundamentada, que há causa em curso na qual a aplicação do precedente vinculante lhe afetará diretamente, há que se reconhecer seu interesse processual para a proposição do pedido de superação do precedente vinculante firmado pelos tribunais superiores.

Apresentadas as necessárias reflexões, a superação do entendimento fixado em repercussão geral (precedente vinculante):

i) é cabível mediante requerimento devidamente fundamentado com a demonstração específica dos pressupostos materiais para a superação: obsolescência do precedente, em virtude da alteração do contexto político, jurídico, social ou econômico ou, ainda, em virtude do erro do precedente;

ii) o pedido de superação do precedente pode ser instaurado perante o tribunal superior: a) pelo tribunal de origem (representado pelo presidente ou vice- presidente da corte, de ofício ou a requerimento, neste último caso, após análise dos argumentos apresentados pelo pleiteante; b) por ministro do tribunal superior; c) pelo Ministério Público; d) pela Defensoria Pública;286

iii) a admissibilidade do requerimento de superação ao tribunal de origem pressupõe a comprovação da legitimidade e do interesse do peticionante (item 3.6.7 deste estudo), bem como impõe-lhe o duplo ônus argumentativo, que deve motivar os pressupostos materiais para a superação para a posterior análise meritória do entendimento a ser revisto pelo tribunal superior;

iv) o mesmo órgão criador do precedente ou órgão de hierarquia superior é competente para sua superação;

v) o contraditório deve ser amplo e efetivo, com a designação de audiências públicas e admissão de amicus curiae;287-288

286 Intepretação em consonância com os legitimados previstos no art. 977 do CPC.

287 Art. 983. O relator ouvirá as partes e os demais interessados, inclusive pessoas, órgãos e

entidades com interesse na controvérsia, que, no prazo comum de 15 (quinze) dias, poderão requerer a juntada de documentos, bem como as diligências necessárias para a elucidação da questão de direito controvertida, e, em seguida, manifestar-se-á o Ministério Público, no mesmo prazo. § 1º Para instruir o incidente, o relator poderá designar data para, em audiência pública, ouvir depoimentos de pessoas com experiência e conhecimento na matéria.

288 Art. 138. O juiz ou o relator, considerando a relevância da matéria, a especificidade do tema objeto

da demanda ou a repercussão social da controvérsia, poderá, por decisão irrecorrível, de ofício ou a requerimento das partes ou de quem pretenda manifestar-se, solicitar ou admitir a participação de pessoa natural ou jurídica, órgão ou entidade especializada, com representatividade adequada,

vi) o procedimento deve garantir a participação do Ministério Público, a participação dos interessados na rediscussão da tese jurídica e a supremacia do interesse social;

vii) a decisão de superação demanda um duplo ônus argumentativo: além da fundamentação específica sobre a necessidade contemporânea da superação, demonstrados os pressupostos materiais (causas determinantes), a decisão deve abordar a fundamentação relativa à matéria jurídica do caso em análise;

viii) a decisão de superação deve materializar a segurança jurídica na acepção vedação à decisão surpresa, mediante a modulação dos efeitos da decisão.

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