6 AÇÃO CIVIL PÚBLICA
6.1.4 Decisão Interlocutória do MM. Juiz de Direito da VEMAQA
O Meritíssimo Juiz de Direito da VEMAQA manifestou-se no sentido de que, não obstante a inicial levantar a questão da necessidade do tratamento dos efluentes oriundos do IPAT, deve-se reconhecer que a questão principal da indigitada ação civil pública é a manutenção de uma instalação prisional, atividade que é de competência do juízo de execução da pena, conforme disposto na Lei nº 7.210/84 (dispõe sobre a Lei de Execuções Penais - LEP).
Nos termos do art. 66 da LEP:
Art. 66. Compete ao Juiz da execução:
Omissis
VII – inspecionar, mensalmente, os estabelecimentos penais, tomando providências para o adequado funcionamento e promovendo, quando for o caso, a apuração de responsabilidade;
VIII – interditar, no todo ou em parte, estabelecimento penal que estiver funcionando em condições inadequadas ou com infringência aos dispositivos desta Lei; (BRASIL, 1984).
Destacando que o pedido da inicial refere-se à determinação liminar de interdição do Instituto Penal Antônio Trindade com a paralisação de todas as atividades desenvolvidas no local, em obediência às normas de segurança e com as cautelas de praxe, a transferência provisória de todos os internos para outro local até a readequação do sistema de tratamento de efluentes daquele empreendimento, o Juiz entendeu ser evidente a competência da apreciação do feito pela Vara de Execuções Penais - VEP, por razão da matéria (AMAZONAS, 2014, p. 358).
Nesse sentido, declarou a incompetência absoluta da VEMAQA para processar e julgar o feito e determinou a remessa dos autos da ação civil pública nº 0608506-71.2013.8.04.0001 à Vara de Execuções Penais da capital, na forma do art. 66, inciso VIII, da LEP (AMAZONAS, 2014, p. 359).
Em 08 de agosto de 2013, o MM. Juiz de Direito da Vara de Execuções Penais abriu vistas dos autos ao representante do Ministério Público Estadual da VEP para se manifestar na ACP, sendo este o último ato do processo até a conclusão deste trabalho.
150 6.2 AÇÃO CIVIL PÚBLICA AJUIZADA CONTRA A UNIDADE PRISIONAL DO PURAQUEQUARA – UPP
O Ministério Público do Estado do Amazonas ajuizou a ação civil pública nº 0618062-97.2013.8.04.0001 contra o Estado do Amazonas e o Instituto de Proteção Ambiental do Estado do Amazonas - IPAAM a respeito da irregular disposição final de resíduos sólidos e lançamento de rejeitos hidrossanitários da unidade prisional do Puraquequara - UPP.
Em 04 de março de 2011, o MPE instaurou o Inquérito Civil nº 022/2011/50ª
PRODEMAPH com base em uma notícia veiculada no jornal A Crítica, página A 13, de 17
de janeiro de 2011, sob o título “Dejetos de UPP destroem igarapé”, relatando que estaria ocorrendo despejo irregular de esgoto bruto no igarapé Castanheira, proveniente da UPP.
Na primeira fiscalização realizada na UPP para a instrução do inquérito civil referido, o IPAAM constatou a ocorrência de infração administrativa ambiental na unidade prisional por não possuir licenças ambientais, além de inexistir no local estação de tratamento de efluentes - ETE instalada, infringindo desta forma os artigos 1º e 3º da Resolução Municipal nº 131/2006 do CONDEMA (dispõe sobre a regulamentação dos empreendimentos multifamiliares residenciais e comerciais):
Art. 1º Os empreendimentos privados ou públicos potencialmente poluidores, em processo de licenciamento ambiental ou a licenciar-se, ficam obrigados a instalar um sistema de tratamento de efluentes de características domésticas e sépticas, composto de pré-tatamento, tratamento primário e desinfecção.
Omissis
Art. 3º Os empreendimentos já instalados ficam obrigados a atender os parâmetros de tratamento de efluentes, seja qual for o método de tratamento, a fim de obterem a renovação de sua licença ambiental. (CONDEMA, 2006).
Sobre a gravidade dos fatos relatados, o IPAAM informou em seu laudo técnico que “a ausência de tratamento adequado do esgoto gerado pela unidade pode estar afetando a qualidade da água do corpo hídrico receptor, bem como pode estar poluindo o solo gerando poluição do lençol freático” (AMAZONAS, 2014, p. 04).
Naquela oportunidade, a fiscalização do IPAAM concluiu pela necessidade de notificação à SEJUS para regularização das licenças ambientais e para instalação de Estação de Tratamento de Efluentes adequada às necessidades da unidade prisional.
O resultado da análise de amostras de águas coletadas do igarapé das Castanheiras realizada pela Universidade Federal do Amazonas, por meio da Drª Rita Mileni de Souza
151 Lima, constatou o comprometimento do referido corpo hídrico, pois “caracteriza despejo de efluentes sanitários sem tratamento com resultados negativos à saúde humana e ao meio ambiente em função do processo de eutrofização” (AMAZONAS, 2014, p. 11).
Na ação civil pública nº 0618062-97.2013.8.04.0001 o MPE entendeu que o órgão estadual de fiscalização ambiental deveria ter tomado providência eficaz, tendo falhado em seu dever constitucional de proteção ao meio ambiente, pois permitiu que o Estado instalasse e fizesse funcionar um empreendimento de excepcional potencial poluidor sem o cumprimento das medidas de precaução e prevenção necessárias para a minimização dos riscos da atividade ao meio ambiente.
Nesse sentido, o MPE fundamentou a referida ação civil pública – dentre outros instrumentos legais, como as Resoluções nº 305/2002 e 430/2011 do CONAMA, Lei federal nº 6.938/81, Lei municipal nº 1.192/2007 – no art. 225 da Constituição Federal de 1988 e no art. 927 do Código Civil:
Art. 225. Todos têm direito ao meio ambiente ecologicamente equilibrado, bem de uso comum do povo e essencial à sadia qualidade de vida, impondo-se ao Poder Público e à coletividade o dever de defendê-lo e preservá- lo para as presentes e futuras gerações.
[…]
§ 3º - As condutas e atividades consideradas lesivas ao meio ambiente sujeitarão os infratores, pessoas físicas ou jurídicas, a sanções penais e administrativas, independentemente da obrigação de reparar os danos causados. (BRASIL, 1988)
Art. 927. Aquele que, por ato ilícito (arts. 186 e 187), causar dano a outrem, fica obrigado a repará-lo.
Parágrafo único. Haverá obrigação de reparar o dano, independentemente de culpa, nos casos especificados em lei, ou quando a atividade normalmente desenvolvida pelo autor do dano implicar, por sua natureza, risco para os direitos de outrem. (BRASIL/2002).
Os pedidos da ação civil pública, tanto para o Estado do Amazonas quanto para o IPAAM, foram:
I – a determinação liminar de interdição da Unidade Prisional do Puraquequara, com a paralisação de todas as atividades desenvolvidas no local, e, obedecidas as normas de segurança e com as cautelas de praxe, a transferência provisória de todos os internos para outro local até a readequação do sistema de tratamento de efluentes daquele empreendimento, de forma a contemplar o que a legislação ambiental preceitua, mormente a Lei 1192/07 (PRO - AGUAS) e as Resoluções 303 (limites de APP), 305 (licenciamento ambiental) e 357 (lançamento de efluentes nas águas) do CONAMA. (fl. 19);
II – no mérito, a confirmação da liminar, e a condenação dos requeridos em obrigação de fazer consistente em instalar e fazer funcionar um sistema de tratamento de efluentes naquele empreendimento, de forma a contemplar o que a legislação ambiental preceitua, mormente a Lei 1192/07 e as Resoluções 303, 305 e 357 do CONAMA; [...]. (AMAZONAS, 2014, p. 20).
152 Os pedidos específicos da ação civil pública em relação ao Estado do Amazonas foram:
a) Obrigação de fazer, consistente em elaborar e executar um Projeto de Revitalização do Igarapé atingido, de forma a restabelecer o equilíbrio ambiental e prover condições sanitárias adequadas à vida humana, tomando as providências necessárias para tanto;
b) Obrigação de fazer, consistente em, através de seus órgãos ambientais e sanitários, fiscalizar periodicamente o lançamento de efluentes no Igarapé, tomando as necessárias providências, inclusive punitivas, para coibir a disposição inadequada dos dejetos hidrossanitários no leito do Igarapé;
c) Obrigação de fazer, consistente em apresentar e executar um projeto técnico de um sistema de disposição adequada dos rejeitos hidrossanitários da UPP, o qual deverá ser submetido aos Órgãos Ambientais do Estado, competentes para licenciar, analisar, aprovar e monitorar tal atividade, com cronograma físico e financeiro a ser cumprido, que aborde o aprimoramento ou desfazimento do atual sistema, de forma a viabilizar a restauração da área afetada ao estado primitivo, principalmente o corpo d´água e a paisagem afetada, com fixação de prazo para o cumprimento desta obrigação e cominação de multa pecuniária em caso de descumprimento;
d) pagamento de indenização, em quantia a ser prudentemente arbitrada pelo Juízo, correspondente aos danos ambientais que se demonstrarem técnica e absolutamente irrecuperáveis na área de preservação permanente degradada, corrigida monetariamente a ser recolhida ao Fundo Estadual de Meio Ambiente, sem prejuízo da condenação dos outros requeridos;
e) pagamento das custas e despesas processuais, bem como, honorários periciais. (AMAZONAS, 2014, pp. 20-21).
Em relação ao Instituto de Proteção do Estado do Amazonas, os pedidos específicos da ACP foram:
a) obrigação de fazer, consistente em fiscalizar periodicamente o lançamento de efluentes no Igarapé, tomando as necessárias providências, inclusive punitivas, para coibir a disposição inadequada dos dejetos hidrossanitários no leito do igarapé; b) pagamento de indenização, em quantia a ser prudentemente arbitrada pelo Juízo, correspondente aos danos ambientais que se demonstrarem técnica e absolutamente irrecuperáveis na área de preservação permanente degradada, corrigida monetariamente a ser recolhida ao Fundo Estadual de Meio Ambiente, sem prejuízo da condenação dos outros requeridos;
c) pagamento das custas e despesas processuais, bem como, honorários periciais. (AMAZOANS, 2014, p. 22).
Assim, em razão da constatação dos crimes ambientais tipificados nos artigos 54 e 60 da Lei nº 9.605/98, buscou o MPE, por meio da indigitada ação civil pública, a minimização dos danos ao meio ambiente com a regularização das licenças ambientais para adequação da obra pública às normas pertinentes.