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Declaração Universal dos Direitos Humanos

2 DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE

2.1 BREVE HISTÓRICO SOBRE DIREITOS HUMANOS E MEIO AMBIENTE

2.1.5 Declaração Universal dos Direitos Humanos

46 O marco do resgate dos direitos humanos ensejou a elaboração da Declaração Universal dos Direitos Humanos, adotada pela resolução número 217 da Assembleia Geral das Nações Unidas, em 10 de dezembro de 1948.

A Declaração Universal dos Direitos do Homem pode ser acolhida como a maior prova histórica até hoje dada do consensus omnium gentium sobre um determinado sistema de valores. [...] mas agora esse documento existe: foi aprovado por 48 Estados, em 10 de dezembro de 1948, na Assembleia Geral das Nações Unidas; e, a partir de então, foi acolhido como inspiração e orientação no processo de crescimento de toda a comunidade internacional no sentido de uma comunidade não só de Estados, mas de indivíduos livres e iguais. [...] pela primeira vez, um sistema de princípios fundamentais de conduta humana foi livre e expressamente aceito, através de seus respectivos governos, pela maioria dos homens que vive na Terra. Com essa declaração , um sistema de valores é – pela primeira vez na história – universal, não em princípio, mas de fato, na medida em que o consenso sobre sua validade e sua capacidade para reger os destinos da comunidade futura de todos os homens foi explicitamente declarado. [...] Somente depois da Declaração Universal é que podemos ter a certeza histórica de que a humanidade – toda a humanidade – partilha alguns valores comuns; e podemos, finalmente, crer na universalidade dos valores, no único sentido em que tal crença é historicamente legítima, ou seja, no sentido em que universal significa não algo dado objetivamente, mas algo subjetivamente acolhido pelo universo dos homens. (BOBBIO, 2004, pp. 27-28).

O preâmbulo da Declaração Universal dos Direitos Humanos de 1948 estabelece sete considerações, dentre as quais reconhece que a “dignidade inerente a todos os membros da família humana e de seus direitos iguais e inalienáveis é o fundamento da liberdade, da justiça e da paz no mundo”.

Dentre os trinta artigos do referido documento, os vinte e um primeiros arrolam os direitos civis e políticos do indivíduo. Os artigos 22 a 28 enunciam os direitos econômicos, sociais e culturais. O artigo 29 dispõe sobre a responsabilidade do indivíduo em relação a sua comunidade e as condições de exercício de seus direitos. É vedada qualquer interpretação da Declaração de modo a “destruir” os direitos e liberdades nela estabelecidos, nos termos do artigo 30 da Declaração.

O cerne da Declaração de 1948 consiste no reconhecimento de que compõem o âmbito dos direitos humanos todas as dimensões que disserem respeito à vida com dignidade – portanto, em direito, deixam de fazer sentido qualquer contradição, ou hierarquia, ou “sucessão” cronológica ou supostamente lógica entre os valores da liberdade (direitos civis e políticos) e da igualdade (direitos econômicos, sociais e culturais). Sob o olhar jurídico, os direitos humanos passaram a configurar uma unidade universal, indivisível, interdependente e inter-relacionada. (TRINDADE, 2011, p. 193).

47 A Declaração de 1948 configura-se como uma “recomendação” da Assembleia Geral da ONU aos Estados, não tendo, consequentemente, a exequibilidade de uma lei. Por este motivo, após dezoito anos de debates, a ONU elaborou dois pactos para regulamentar os direitos estabelecidos pela Declaração de 1948, tendo os aprovado em sua Assembleia Geral, realizada em 16 de dezembro de 1966: o Pacto Internacional dos Direitos Civis e Políticos e o Pacto Internacional dos Direitos Econômicos, Sociais e Culturais.

A noção de direitos humanos universais conduziu igualmente à ponderação de que o próprio indivíduo, como sujeito de direitos, deve ter os seus direitos humanos protegidos também na esfera internacional, e não apenas por tribunais e aparelhos nacionais. Assim, de meados do século XX para cá, além de cerca de uma centena de instrumentos internacionais (entre declarações e tratados mais específicos), surgiram também instituições e mecanismos internacionais de proteção dos direitos humanos, quase sempre criados por tratados internacionais. No início deste século, já passavam de quarenta. Merecem destaque, por sua importância, a Corte Europeia e a Corte Interamericana de Direitos Humanos. (TRINDADE, 2011, p. 195 e 196)

Ao longo da segunda metade do século XX, a maioria dos países aderiu aos instrumentos internacionais de proteção dos direitos humanos, celebrando pactos e convenções regionais (Europa, África, América etc.), bem como incorporando em suas Constituições e disposições infraconstitucionais normas sobre o assunto.

Segundo Zaffaroni e Pierangeli (2009, p. 64), a Declaração Universal de 1948 se complementa com outros instrumentos internacionais que contribuem para o aperfeiçoamento de sua função de limite ideológico: o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos de 16 de dezembro de 1966 (em vigência desde 23 de março de 1976); a Carta de Direitos e Deveres Econômicos dos Estados de 12 de dezembro de 1974; a Declaração Americana de Direitos e Deveres do Homem, de Bogotá, 1948; a convenção Americana sobre Direitos Humanos, conhecida como pacto de San José da Costa Rica de 1969, etc. Estes documentos têm criado, mediante uma base positiva, uma “consciência jurídica universal”.

Uma vez ratificados pelos países membros da ONU, esses instrumentos devem ser levados em consideração em toda e qualquer interpretação sobre o direito penal positivo interno, não podendo haver contradição entre estas normas e aquelas.

Em 1948, a ONU descreveu o significado de direitos humanos na Declaração Universal de Direitos Humanos, que foi adotada sem discordância, mas com abstenções por parte das Nações do bloco soviético, África do Sul e Arábia Saudita. [...] Nos anos seguintes, foram promovidos vários acordos internacionais, entre eles a Convenção Europeia de Direitos Humanos (1950); o Pacto Internacional de Direitos Civis e Políticos (1966) a Convenção Interamericana de Direitos Humanos (1969); os Acordos de Helsinque (1975); e a Carta dos Povos Africanos e Direitos Humanos (1981) (GUERRA, 2012, p. 94)

48 Piovesan (2013, p. 71) esclarece que os tratados internacionais voltados à proteção dos direitos humanos, ao mesmo tempo em que afirmam a personalidade internacional do indivíduo e endossam a concepção universal dos direitos humanos, acarretam obrigações no plano internacional aos Estados que os ratificam. Assim, a violação de direitos humanos constantes dos tratados, por significar desrespeito a obrigações internacionais, enseja, inclusive, a flexibilização da noção tradicional de soberania nacional.

A Carta Internacional dos Direitos Humanos inaugura o sistema normativo global de proteção desses direitos, ao lado do qual já se delineava o sistema regional de proteção. A sistemática normativa de proteção internacional dos direitos humanos faz possível a responsabilização do Estado no domínio internacional quando as instituições nacionais se mostram falhas ou omissas na tarefa de proteção dos direitos humanos. A sistemática internacional é, portanto, sempre adicional e subsidiária, já que cabe ao Estado a responsabilidade primária de proteger os direitos humanos em seu território. (PIOVESAN, 2013, p. 461).

Bobbio (2004, pp. 15 e 26) aponta serem os direitos do Homem “direitos históricos, que emergem gradualmente das lutas que o homem trava por sua própria emancipação”. São eles “o produto não da natureza, mas da civilização humana”. Assim, “os direitos elencados na Declaração (universal) não são os únicos e possíveis direitos do Homem: são os direitos do Homem histórico” (sic).

É fato notório que a industrialização em massa contribuiu para expandir mundialmente a miséria humana e a exploração da mão de obra, comprometendo as condições mínimas de dignidade da pessoa humana.