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3. OFERTA PÚBLICA DE CRIPTOATIVOS À LUZ DA LEI N.º 6.385/1976

3.2. O FERTA P ÚBLICA DE C RIPTOATIVOS

3.2.3. Decisões da CVM

A Comissão de Valores Mobiliários tem se mostrado bastante ativa na busca por uma compreensão técnica e jurídica a respeito das ofertas públicas de criptoativos. Neste particular, portanto, é de suma relevância verificar-se as notas e instruções emitidas à público, por esta autoridade, a respeito do tema dos criptoativos, bem como algumas das suas deliberações quanto a casos concretos que enfrentou.

A oferta pública de valores mobiliários sem prévio registro ou dispensa de registro na CVM autoriza a autarquia a determinar a suspensão da oferta. O fundamento legal encontra-se no art. 20, Lei nº 6.385/1976. Há, ainda, a possibilidade de aplicação das sanções

453 TEIXEIRA e RODRIGUES, Blockchain e Criptomoedas... p. 55.

454 TEIXEIRA e RODRIGUES, Blockchain e Criptomoedas... p. 55-56.

455 REVOREDO e BORGES, Criptomoedas no Cenário Internacional... Edição Kindle, Loc 1406 e 1409.

administrativas cabíveis, além disso, é possível haver configuração dos crimes previstos no art. 7º, inciso II, da Lei nº 7.492/1986.

Com essas premissas, a CVM deliberou a respeito do caso “Grupo de Investimento Bitcoin”, em 24/07/2012 (Deliberação CVM n.º 680/2012). O Colegiado da CVM determinou imediata suspensão da veiculação, no Brasil, de qualquer forma de investimento ou qualquer outro valor mobiliário pelo “Grupo de Investimento Bitcoin”, dado que não preenchia os requisitos previstos na regulamentação da CVM. A empresa não poderia ofertar publicamente, constituir, nem administrar fundo de investimento ou qualquer outro tipo de investimento de valores mobiliários. Segundo a CVM, “a oferta pública de fundos de investimento só poder ser realizada por entidades integrantes do sistema de distribuição de valores mobiliários. Da mesma forma, a administração profissional de carteira de valores mobiliários requer prévia autorização da CVM”.

Já quanto ao caso “Hashcoin Brasil”, verificou-se a oferta, via internet, de oportunidade de investimento por meio de aquisição de quotas em grupo de investimentos relacionado à mineração de bitcoins. Na deliberação ocorrida em 19/12/2017 (Deliberação CVM n.º 785/2012), o colegiado da CVM determinou à Hashcoin Brasil a imediata suspensão, no Brasil, de oferta de títulos ou contratos de investimento coletivos relacionados à oportunidade de investimento em cotas de grupo de investimento em mineração de Bitcoin.

Na Deliberação CVM n.º 790/2018, de 28/02/2018, classificou-se como um caso de contrato de investimento coletivo, isto é, como um valor mobiliário nos termos da legislação em vigor, pois a empresa concedia direitos à participação societária. Segundo o entendimento da CVM, a conduta da empresa incorreu na infração aos artigos 19 e 21, § 1º, da Lei n.º 6.385/1976, e art. 4º, § 1º, da Lei n.º 6.404/1976. Na ementa constou a seguinte redação:

Colocação irregular de contratos de investimento coletivo no mercado de valores mobiliários sem os competentes registros previstos na Lei n.º 6.385, de 7 de dezembro de 1976, na Instrução CVM n.º 400, de 29 de dezembro de 2003 e na Instrução CVM n.º 480, de 7 de dezembro de 2009.456

Outra deliberação foi o caso “Niobium”. A CVM entendeu, em decisão de 2018,457 que o ativo ofertado pela plataforma Niobium458 (cujo token é chamado de Niobium Coin,

“NBC”) se limitava a um utility token, afastando-se a competência da autarquia.

456 COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Deliberação CVM n.º 790, de 28 de fevereiro de 2018.

Disponível em: <http://www.cvm.gov.br/export/sites/cvm/legislacao/deliberacoes/anexos/0700/deli790.pdf>.

Acesso em 10/10/2019.

457 Deliberação a respeito da caracterização de ICO como oferta de valor mobiliário (PROC. SEI 19957.010938/2017-13). Cf. COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Decisão do Colegiado de

A BOMESP (Bolsa de Moedas Virtuais Empresariais de São Paulo) é a idealizadora da plataforma Niobium, que apresenta uma estrutura que se alça à condição de uma espécie de bolsa de valores para negociação de ativos virtuais. O investidor que adquire o token Niobium não tem a si prometido nenhum ganho, lucro ou participação societária. Não há remuneração ao detentor, a qualquer título, nem mesmo sob a forma de dividendos. Nos termos do parecer do Memorando n.º 7/2018 da CVM, com o Niobium Coin adquire-se “um ativo que poderá ter uma utilidade específica quando da implementação futura da BOMESP”.459 É um token que possui utilidade dentro da própria plataforma, assim com o ether (ETH), da plataforma Ethereum.

Houve parecer da Procuradoria Federal Especializada da CVM, que concordou com o sentido de que o token da referida organização não possuía natureza jurídica de valor mobiliário.460 Constou no parecer o seguinte entendimento:

Corrobora-se o entendimento da SRE, (...) no sentido de que o Niobium constitui um utility token e, portanto, não possui a natureza jurídica de valor mobiliário na feição de Contrato de Investimento Coletivo. Face ao exposto, sua oferta pública não atrai a competência da CVM de sorte a gerar a edição de uma stop order, cabendo ao público investidor avaliar os riscos acentuados de aquisição de um ativo que não encontra correspondência no PIB, carecendo de regulamentação quer por parte da CVM, quer pelo Banco Central do Brasil – BACEN, nos termos do Comunicado Nº 31.379, de 16 de novembro de 2017 e da Nota divulgada pela CVM em 11.10.2017.

Diante de tais deliberações, conclui-se que a autarquia federal vem fazendo análises casuísticas dos tokens ofertados, entendendo ora pela existência de valor mobiliário, ora não.

Os critérios têm se pautado no howey test americano, mas também na legislação pátria, consolidada na Lei n.º 6.385/1976. Sendo assim, nota-se que não existe impedimento legal para que haja uma fiscalização das ofertas públicas por meio de criptoativos. Da mesma forma, muito embora inexista um marco legal específico para os criptoativos, a autoridade brasileira vem focando-se no conteúdo do bem ofertado, e não na forma (via IEO, STO, ICO etc.).

30/01/2018. [online] Disponível em:

<http://www.cvm.gov.br/decisoes/2018/20180130_R1/20180130_D0888.html>. Acesso em 10/10/2019.

458 Whitepaper disponível em: <https://niobiumcoin.io/>. Acesso em 10/10/2019.

459 COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Memorando n.º 7/2018-CVM/SRE/GER-3, de 17 de janeiro de

2018. [online] Disponível em:

<http://www.cvm.gov.br/export/sites/cvm/decisoes/anexos/2018/20180130/088818_ManifestacaoSRE.pdf>.

Acesso em 10/10/2019.

460 Parecer n.º 00151/2017/GJU – 2/PFE-CVM/PGF/AGU, integrante do Memorando n.º 19/2017 da Superintendência de Registro de Valores Imobiliários (SRE) da CVM. Cf. COMISSÃO DE VALORES MOBILIÁRIOS. Memorando n.º 19/2017 CVM/SRE, de 27/12/2017. [online] Disponível em:

<http://www.cvm.gov.br/export/sites/cvm/decisoes/anexos/2018/20180130/088818_ManifestacaoSRE.pdf>.

Acesso em 10/10/2019.