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DO EXERCÍCIO DO PROCEDIMENTO DISCIPLINAR PÚBLICO E LABORAL NA ADMINISTRAÇÃO PÚBLICA

1.2. Procedimento comum:

1.2.3. Defesa do trabalhador:

A lei impõe que “ninguém seja condenado sem ser ouvido”, ferindo de nulidade insuprível o procedimento disciplinar em que tenha sido omitida a audiência do arguido (art. 42.º do EDFA); note-se, porém que, nesta sede, entendemos que o CT peca por defeito, uma vez que, na falta de audiência prévia do trabalhador (n.º 1 do art. 371.º do CT), a entidade patronal sujeita-se a uma contra-ordenação grave (n.º 1 do art. 680.º do CT) (154).

151 Cfr. Ac. STJ, Proc. n.º 3064/03, de 18/01/05. Em sede de inquirição de testemunhas pelo

empregador/instrutor, levantam-se questões interessantes, tais como, a questão da testemunha recusar-se a ser ouvida ou mesmo não comparecer, maxime no caso se aquela for também subordinada. Em jeito de síntese diga-se que, uma solução possível será não considerar aquela testemunha para efeitos de prova e se for subordinada, poder-se-á levantar também a esta um procedimento disciplinar dependendo das circunstâncias em que ocorreram. Para um maior desenvolvimento vide MARECOS, Diogo Vaz, op. cit., pp. 29-30.

152 Tal excepção está ligada à intervenção obrigatória do CITE (Comissão para a Igualdade no

Trabalho e no Emprego), aquando do seu parecer prévio sem o qual o procedimento torna-se inválido (n.º 4 do art. 51.º do CT). Note-se que, se o parecer for desfavorável, o despedimento só poderá ser efectuado após decisão judicial que reconheça a existência de motivo justificativo, o que constitui a única excepção ao princípio de que a iniciativa de submeter qualquer questão relacionada com um procedimento disciplinar a um tribunal cabe ao trabalhador.

153 Cfr. Comissão do Livro Branco das Relações Laborais, op. cit., pp. 109-110.

154 Questiona-se até que ponto é que IGT terá competência para aplicar coimas às Autarquias Locais.

Note-se que, a Lei n.º 23/04 equipara as Autarquias Locais a grandes empresas (n.º 1 do art. 3.º da Lei n.º 23/04 e al. d), n.º 1 do art. 91.º do CT). “A razão de ser desta equiparação dos empregadores públicos a empresas para efeitos da aplicação do CT e apenas aos seus trabalhadores privados, quando existam também funcionários públicos, é permitir a aplicabilidade de muitos dos preceitos do CT que pressupõem uma realidade empresarial ou um interesse de gestão” (Cfr. - RAMALHO, Maria do Rosário & BRITO, Pedro Madeira, Contrato de Trabalho na Administração Pública, Almedina, Coimbra, 2004)

MARCELLO CAETANO, esclarece-nos que a audiência do arguido compreende várias formalidades essenciais a saber (155):

a) A formulação clara e precisa de artigos de acusação (pelo que, a acusação/nota de culpa terá que ser feita em articulado);

b) Notificação desses artigos ao arguido com indicação de prazo razoável para apresentar defesa escrita;

c) Patenteamento do processo, nesse período, ao exame do arguido; d) Recepção da defesa escrita, com os documentos juntos;

e) Inquirição, sob juramento ou declaração, das testemunhas indicadas pelo arguido e que ele apresentar ou que comparecerem à convocação do instrutor, até ao número máximo legal.

Os trâmites destinados à preparação da defesa são os seguintes:

Acusação  Cópia da acusação  Comunicação ao arguido  Defesa

Assim, verificamos que a acusação/nota de culpa deverá ser clara (daí o articulado) e concisa permitindo ao trabalhador compreender exactamente daquilo que vem sendo acusado, de forma a simplificar a sua defesa. Com a acusação, o trabalhador adquire a qualidade de parte no processo.

Seguindo os trâmites do EDFA, uma vez que as formalidades não estão tratadas no CT, no prazo de 48 horas extrai-se a cópia do articulado da acusação, notificando o trabalhador para, no prazo de 10 dias, apresentar a sua defesa por escrito, podendo, nesse mesmo prazo, por si ou por advogado, consultar o processo (devendo, por isso, constar da comunicação o local da consulta, sob pena de falta de audiência do arguido), apresentar o rol de testemunhas, juntar documentos ou requerer quaisquer diligências em ordem à sua defesa, devendo ainda ser advertido que, a falta de resposta dentro desse prazo vale como efectiva audiência do arguido para todos os efeitos legais (n.º 9 do art. 61.º do EDFA) (156), a menos que se alegue e prove justo impedimento (157).

155 CAETANO, Marcello, Manual de Direito Administrativo, 10.ª Ed., Coimbra Editora, p. 854. 156 O arguido não pode pura e simplesmente alegar que não teve tempo para consultar o processo se

dentro do prazo que foi fixado para a defesa não pediu a sua prorrogação; mas se o tiver feito e sido indeferida a sua pretensão já aquele argumento poderá ser relevante.

157 Evento normalmente imprevisível, estranho à vontade do arguido que o impossibilitou de praticar o

Tendo, porém, o arguido constituído Advogado no processo, é obrigatória a notificação deste para, na fase do contraditório, participar e assistir, querendo, às diligências requeridas pela defesa.

Embora o EDFA não o imponha, a resposta deverá ser igualmente articulada tal como sucede com a acusação (158), podendo ser feita por impugnação (159) como por excepção (160), desde que a faça dentro do prazo, sob pena de valer como efectiva audiência para todos os efeitos legais (n.º 9 do art. 61.º do EDFA e art. 413.º do CT).

Por fim, em matéria de produção de prova, dir-se-á que em matéria de audição de testemunhas, esta é uma formalidade essencial cuja inobservância acarreta quase sempre a diminuição das garantias de defesa do arguido (daí a nulidade insuprível). Nada impede que o arguido arrole na defesa as mesmas testemunhas que foram já ouvidas na fase de instrução. Note-se porém, sendo de especial importância realçar que, as testemunhas devem ser inquiridas, não quanto à matéria constante na acusação, mas antes quanto à matéria alegada na defesa.

1.2.4. Decisão:

Depois da fase de instrução e de defesa segue-se a fase de decisão, que tomada pelo órgão executivo (v.g., Câmara Municipal (161)), e que terá por base o relatório final do instrutor (162), uma vez que, na maior parte das vezes, a entidade decisória a ele

adere, pelo o que se justifica o maior cuidado na elaboração e fundamentação da proposta, pois de outro modo todos os seus vícios repercutir-se-ão na decisão.

Se a decisão for concordante com a proposta apresentada pelo instrutor não há necessidade de fundamentar o despacho já que este avoca as razões naquele referidos; a

158 De contrário, nunca poderá o arguido na sua defesa oferecer mais que três testemunhas, quando a

lei impõe esse limite para cada facto (n.º 4 do art. 61.º do EDFA).

159 A defesa por impugnação consiste em contradizer os factos articulados na acusação ou em

demonstrar que tais factos não têm os efeitos infraccionais que a acusação deles pretende tirar.

160 A defesa por excepção acontece quando se alegam factos que obstam à apreciação do mérito da

acção disciplinar ou que, constituindo causa impeditiva, modificativa ou extintiva dela, determinam a improcedência total ou parcial da acusação.

161 Note-se que, se for de repreensão escrita pode ser o Presidente da Câmara a aplicar.

162 O relatório final é uma peça que deve, pela sua estrutura e conteúdo, dar a conhecer toda a história

do processo. Deve começar pela identificação do trabalhador, factos autuados ou participados, factos de que foi acusado, provas recolhidas, factos provados e não provados e terminar com a qualificação jurídica dos factos provados e da lei que os prevê e pune e a medida da pena proposta face à gravidade da infracção, às circunstâncias atenuantes e agravantes e ao grau de culpa do agente, isto é óbvio, se não houver razões para a proposição do arquivamento dos autos.

necessidade de fundamentação só existe quando a decisão não seja concordante com a proposta do instrutor (163).

Não obstante, o relatório final pode concluir pelo arquivamento do processo, pelo o que este deve ser remetido à entidade competente que mandou instaurar o procedimento (art. 39.º do EDFA) (164), propondo que se arquive (n.º 1 do art. 57.º do EDFA).

Note-se que, no que respeita à notificação da decisão, apesar de n.º 1 do art. 59.º do EDFA fazer a ela alusão, o art. 69.º parece indicar para uma maior transparência do procedimento, uma vez que, embora, na maior parte das vezes, a decisão coincida com o relatório do instrutor, o que é certo é que acautela melhor os interesses do sancionado que pretenda instaurar recurso hierárquico ou contencioso, uma vez que, leva ao seu conhecimento não apenas as conclusões do procedimento, mas, sobretudo, os fundamentos em que tais conclusões se baseiam (165).

Por fim, da decisão proferida cabe recurso contencioso (art. 73.º do EDFA) (166), sendo ainda admitida a revisão do procedimento disciplinar (a todo o tempo), desde que se verifiquem circunstâncias ou meios de prova susceptíveis de demonstrar a inexistência dos factos que determinaram a condenação e que não pudessem ser utilizados pelo trabalhador no procedimento disciplinar, podendo conduzir à revogação ou alteração da decisão proferida, desde que a pena não seja agravada (n.ºs 1 e 2 do art. 78.º do EDFA).