CAPÍTULO III DOS TÍTULOS DE CRÉDITO ELETRÔNICOS
3.2 Definição
A definição de títulos de crédito elaborada por Vivante é tão precisa que é aceita até hoje pela doutrina comercialista. Agora será conceituado o título de crédito eletrônico, o que não é uma tarefa fácil.
Para conceituar e definir o que são títulos de crédito eletrônicos, deve- se primeiramente entender o que são documentos eletrônicos.
Nas últimas décadas, o computador propiciou enormes benefícios a todos os ramos e a todas as atividades, num processo evolutivo irreversível. É o único instrumento capaz de satisfazer às mais sofisticadas exigências, em todos os níveis, e em todos os grupos sociais e econômicos. Não é necessário ser um futurólogo para prever que num breve espaço de tempo os documentos tidos como manuais, elaborados de forma tradicional, serão totalmente substituídos pelos eletrônicos, obtidos de forma automatizada.
O computador, ao produzir um documento eletrônico, não se limita apenas a formatar a vontade já definida do usuário, mas constitui o elemento condutor e documentador de seu desejo, editando através da linguagem eletrônica a vontade expressa na forma tradicional.
O documento eletrônico vem substituindo os manuscritos. Formulários, boletos, contratos via internet, e-mails, declarações etc. tornaram-se atividades corriqueiras, todas geradas via computador, de forma digital.
Juridicamente falando, o termo documento apresenta várias acepções, mas amplamente é toda e qualquer representação material destinada a reproduzir uma manifestação de vontade. Já documento eletrônico é toda e qualquer manifestação de vontade traduzida por um determinado programa de computador, que seja representativo de um fato, ou como é definido em projeto de lei, que disponha sobre a elaboração, o arquivamento e o uso de documento eletrônico. Em tramitação no Congresso Nacional, o projeto de lei define o documento eletrônico como: “todo documento, público ou particular, originado por processamento eletrônico de dados e armazenamento em meio magnético, optomagnético,
eletrônico ou similar”. O que se discute, no entanto, não é sua conceituação, mas sua eficácia probatória e autenticidade.
A validade jurídica do documento, tanto o materializado como o eletrônico, está condicionada ao preenchimento de certos requisitos, tais como integridade, autenticidade e tempestividade. Mas a forma de aferição desses requisitos são diferentes nas duas espécies de documentos: para os tradicionais, a autenticidade e a tempestividade são identificadas não só pelo exame do documento em si, quando se verificam todas as informações ali constantes, mas também pela assinatura de próprio punho que é o bastante para a identificação do autor frente à obra. Já nos documentos eletrônicos, a autenticidade é verificada pelo uso da tecnologia. Da mesma forma que se pode alterar um documento digital sem deixar vestígios, é possível garantir a autenticidade e a veracidade a um documento emitido de forma eletrônica, atribuindo-lhe segurança jurídica e força probante.
Como meio de prova atípico que é, e pelo fato de ser realizado totalmente em ambiente virtual, o documento eletrônico carece de maiores cuidados. A volatilidade desse ambiente está propícia a ataques e intervenções indesejadas durante o longo caminho percorrido pela informação.
O documento eletrônico representa um fato produzido, portanto deve ser o mesmo reconhecido juridicamente como uma prova válida, desde que obtido de forma legítima e moralmente lícita. Ao analisar que o contrato verbal é admitido no ordenamento jurídico brasileiro e o silêncio é manifestação legítima da vontade, não se pode falar que o documento eletrônico é inadmissível como prova de um negócio jurídico.
Pelo princípio do livre convencimento, não há nenhum impedimento em ser acolhido como meio probatório um documento emitido de forma eletrônica. Esse princípio é garantido pelo art. 131 do Código de Processo Civil.9
Porém, temos que salientar que os cuidados mencionados anteriormente na preparação de um documento eletrônico são de fundamental importância para sua validade jurisdicional. Uma prova documental, emitida de forma eletrônica como já foi mencionado, necessita de cuidados especiais para garantia de sua veracidade, portanto, para sua verificação é necessária a presença de um perito em informática para dar maior segurança quanto ao seu valor probante.
Após essas considerações acerca de documento e documentos eletrônicos, será apresentada uma definição mais apropriada para conceituar títulos de crédito eletrônicos.
Embora seja uma tarefa árdua, a proposta de conceituar os títulos de crédito eletrônicos não possui nenhuma novidade, pois são títulos de crédito, mesmo que se encontrem revestidos de uma nova roupagem. Apesar de todo o processo de desmaterialização implicar no cancelamento do princípio da cartularidade, ele é um documento creditório; os títulos de crédito eletrônicos representam apenas uma modernização do tradicional direito cambiário, apenas com ampliação de alguns conceitos, visando se adequar a essas inovações.
Com vista a toda essa modernização é que serão conceituados os títulos de crédito eletrônicos, ampliando o tradicional conceito elaborado por Vivante – o documento.
O documento não é mais representado apenas pelo suporte físico, aquele suscetível de ser possuído materialmente, mas também pelo eletrônico e
9 Art. 131. O juiz apreciará livremente a prova, atendendo aos fatos e circunstância constantes dos
autos, ainda que não alegados pelas partes, mas deverá indicar, na sentença, os motivos que lhe formaram o convencimento.
virtual. O conceito de documento ultrapassa o limite da cartularidade, chegando à imaterialidade, o que permite o exercício de um direito que está representado por um documento eletrônico.
O título de crédito desmaterializado pode parecer um sistema extremamente complexo, o que é normal em qualquer novidade, mas com o passar do tempo e a sua utilização mais freqüente, aliada ao aperfeiçoamento que ocorrerá, esse será revestido de toda confiança e credibilidade da qual é merecedor.
Ao conceito de título de crédito tradicional será incorporada a idéia de documento eletrônico, que irá assegurar o exercício do direito nele constante. Mas o documento eletrônico, embora seja obtido via computador, deve ser dividido em dois tipos: os documentos em sentido estrito e os documentos em sentido amplo.
Os documentos em sentido estrito são aqueles que podem ser formados tanto pelo próprio computador como os obtidos pelo seu uso. No primeiro caso é o próprio computador que cria o documento, através de programas que permitem o lançamento dos dados e a elaboração do documento pela própria máquina; é a vontade externa determinada pelo computador. Naqueles obtidos pelo uso do computador, o documento já existe. Neste caso a máquina apenas documenta a vontade do seu criador, o computador comprova um fato que já existe e armazena o documento.
A leitura destes documentos está condicionada ao uso de equipamentos apropriados a traduzir as manifestações da vontade. Como exemplo de documento eletrônico em sentido estrito podem ser citados os cartões magnéticos.
O documento em sentido amplo ou informático é aquele que dispensa o uso de equipamentos de tradução. Esse documento é formado através de
memorização pelo computador, ou por um ato humano, onde o indivíduo, com o seu conhecimento em informática, reproduz o documento original e o grava no computador, ou pelo uso de um equipamento denominado scanner, que apenas copia o documento original e o envia para a memória do computador. Nestes dois casos não se pode falar em um novo documento, e sim na sua reprodução ou cópia do original.
Após essas considerações sobre documentos eletrônicos, é possível apresentar uma definição de títulos de crédito eletrônicos como toda e qualquer manifestação de vontade traduzida por um determinado programa de computador, e que seja representativo de um fato, necessário para o exercício do direito literal e autônomo nele mencionado. Como se pode verificar a definição de Vivante é mantida apenas com alguns acréscimos.