2.3 TAXA DE RETORNO: CONSTRUÇÃO DO CHOQUE
2.3.1 Definições para o investimento estrangeiro direto (IED)
Os países registram suas transações entre residentes e não residentes por meio do Balanço de Pagamentos (BP) e, em geral, adotam as orientações e recomendações do Fundo Monetário Internacional (FMI) contidas no Balance of
Payments Manual, 6ºed. (BPM6). O referido manual contém normas e padrões
internacionais para levantamento dos fluxos de ativos, para o Balanço de Pagamentos, e do estoque de ativos, para a Posição Internacional do Investimento, de acordo com o Sistema de Contas Nacionais da Organização das Nações Unidas.
O Balanço de Pagamentos divide-se em três grandes grupos: a) Transações Correntes; b) Conta Capital; c) Conta Financeira. No primeiro grupo estão Bens e Serviços, Renda Primária, Renda Secundária. Na Conta Capital estão as transações de ativos não financeiros não produzidos e transferências de capital. Já o grupo Conta Financeira agrega os investimentos diretos, os investimentos em carteira, e outros investimentos. É, pois, na Conta Financeira que está registrado o investimento estrangeiro direto (IED)21.
Pela definição do BPM6, o IED representa o objetivo de um investidor residente numa economia de obter interesse de mais longo prazo num empreendimento
estabelecido em outra, e certo grau de influência administrativa. O critério para se estabelecer o investimento direto é a proporção de 10% ou mais de participação ordinária ou poder de voto, ou equivalente, em entidades de outro país22. A Conta Financeira de Investimento Direto Estrangeiro subdivide-se em Participação no Capital do Investimento Direto e Empréstimos Intercompanhias. Ao passo que a renda decorrente desse investimento internacional é registrada na subconta Renda Primária da Conta Corrente do Balanço de Pagamentos (BRASIL, 2001).
A Figura 2.3. reúne a trajetória dos fluxos de recebimento e envio de investimento estrangeiro direto líquido, entre 2002 e 2017, para as economias regionais. Cada um dos painéis mostra o comportamento do recebimento de investimento direto estrangeiro (linha sólida) e do envio de investimento direto (linha tracejada).
Anualmente o Brasil, Índia, China e África do Sul receberam mais investimento direto estrangeiro do que enviaram ao exterior, a maior parte daquele período, indicando que sejam importadores de investimento estrangeiro. Ao passo que União Europeia e Rússia mantêm comparativamente mais próxima a relação entre o montante de investimento recebido e enviado.
A China realiza e recebe relativamente mais investimento direto, se comparado aos demais países do BRICS. Em média, entre 2002 e 2017, 66,09% do total de ativos líquidos de investimento direto (investimento adquirido no exterior) do grupo pertencia à China, e 68,33% do total de passivo líquido (investimento recebido do exterior).
22 Para o investimento em carteira registra o fluxo de ativos e passivos caracterizados pela emissão de
títulos de crédito negociados em mercado de papéis específico (incluindo ações e títulos de dívida, na forma de bonds e notes negociados em mercados financeiros específicos, instrumentos do mercado monetário e derivativos financeiros como opções). O grupo Derivativos registra as liquidações de haveres e obrigações resultantes de swaps, opções e futuros, e prêmios de opções. Outros investimentos registram os não enquadrados nas contas anteriores como empréstimos e financiamentos diretos, movimentação de depósitos, a disponibilidade de moeda depositados, outros depósitos do tipo caução e garantias. (OCDE, 2005 p.48)
África do Sul é o país menos representativo entre os BRICS, enquanto a parcela média do Brasil foi de 14,02% de passivo e 6,67% do total do fluxo de ativos dos BRICS. A Figura 2.4 ilustra as participações médias, entre 2002 e 2017, de cada país no total do fluxo líquido de ativos e passivos de IED dos BRICS.
Figura 2.3 – Investimento direto estrangeiro
Fonte: Elaborado pela autora a partir de informações do FMI (2018).
Nota: Valores em milhares de dólares correntes. Linha sólida - investimento estrangeiro
Figura 2.4 – Participação no ativo e passivo líquidos do IED dos BRICS (%)
Fonte: Elaborado pela autora a partir de informações do FMI (2018).
No painel (a) da Figura 2.4, encontra-se a participação dos países no total que o grupo BRICS realizou de investimento estrangeiro direto no exterior (ativo), em média para o período de 2002 a 2017. Enquanto no painel (b) tem-se a participação no total de investimento estrangeiro direto que o BRICS recebe (passivo). Os painéis evidenciam a expressiva participação da China na movimentação de investimento direto internacional dos BRICS. Para o investimento direto existe uma taxa de retorno que pode ser obtida com base no estoque de passivo desse investimento e no fluxo de renda. A próxima seção mostra essa taxa de retorno do investimento estrangeiro direto para o período de 2002 a 2011 para os países desagregados do modelo, quais sejam: Brasil, Rússia, Índia, China, África do Sul, União Europeia e Estados Unidos, sendo este último o país de referência para apuração risco.
Cabe destacar que o investimento estrangeiro direto não circula entre as nações exclusivamente pelo diferencial de taxa de retorno. Evans (2002) argumenta que há uma diferenciação entre o investidor direto e de portfólio (ou de carteira). Para o autor o investidor direto está interessado na obtenção de lucros nas operações sobre as quais tem controle, enquanto o portfólio busca o maior retorno dado um risco associado. O autor destaca que a diferenciação não deve ter o objetivo exaltar o
investimento direto ou o investimento em carteira. Ambos têm benefícios e peculiaridades que os diferenciam e merece atenção específica dos formuladores de política. As políticas que atingem concomitante e favoravelmente ao investimento direto e ao de carteira seriam: o ambiente macroeconômico estável, o estado de direito que preze pelo crescimento econômico estável, os direitos de propriedade assegurados, liberdade de capital, entre outros.
Outros pontos que interferem na decisão do investidor estrangeiro são os indicadores institucionais e de risco político, como concluem Busse e Hefeker (2007) em seus estudos. Além disso, as diferenças nos fundamentos econômicos, a força das reformas econômicas e o compromisso com a disciplina macroeconômica são importantes para explicar as variações entre países nos benefícios de crescimento do IDE são argumentos, que também afetam o fluxo de investimento estrangeiro, apontados por Rafat e Farahani (2019).