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2.2 O amplo campo da democracia deliberativa

2.2.1 Deliberacionismo e democracia deliberativa

Existem diversos modelos de democracia que emergiram em contexto sócio-históricos diversos e com perspectivas divergentes e convergentes. A partir de Bobbio (1987), Habermas (1995) e Ferraz (2005) observamos algumas denominações como: democracia direta, liberal, representativa, participativa, deliberativa, social, substancial e formal – “A agregação de adjetivos ao substantivo ‘democracia’ parece não ter fim” (FERRAZ, 2005, p. 21). Desde o final do último século são comuns as discussões sobre democracia deliberativa, democracia agonística e democracia adversativa. Especialmente, os dois últimos modelos são críticos do modelo deliberativo e dão ênfase ao conflito, ao poder e às assimetrias que perpassam a democracia.

Todavia, esse processo de adjetivação (e substantivação) da democracia não é consensual, mas parte de amplos debates e práticas em torno da democracia: “O movimento de adjetivação da democracia é simultaneamente político e teórico” (FERRAZ, 2005, p. 21). Além de que “põe em evidência as restrições e ausências do modelo liberal-representativo vigente nas democracias do mundo inteiro” (FERRAZ, 2005, p. 22). Nesse escopo reside a adjetivação “deliberativa” que consiste o amplo campo do deliberacionismo que emerge desde a década de 1980 e ganha forma com a publicação da obra “Direito e Democracia: Entre Facticidade e Validade” do filósofo alemão Jürgen Habermas em 1992 com sua proposta procedimentalista de “política deliberativa” e também com as discussões de John Rawls em sua versão mais liberal. Vale nota que antes deles as discussões sobre democracia deliberativa (como um campo em emergência) já existiam como no texto Cohen (1989), The Economic Basis of Deliberative

Political Deliberation publicado no Political Theory de Manin (1987). No entanto, é provável

que a origem da expressão “democracia deliberativa” surgiu em 1980 com o texto Deliberative

democracy: the majority principle in republican government de Joseph Bessette. Para nós, vale

notar a passagem de Cohen (1989):

The notion of a deliberative democracy is rooted in the intuitive ideal of a form of social order in which the justification of the terms of association proceeds through public argument among equal citizens. A deliberative democracy is a social order whose basic institutions embody that ideal. The members of a deliberative democracy share a commitment to the resolution of problems of collective choice through public reasoning, and regard their basic institutions as legitimate insofar as they establish a framework for free public deliberation. (COHEN, 1989, p. 30).

A democracia deliberativa assim como outros modelos (especialmente, o participativo, salvo as diferenças que geram controvérsias entre ambos) foram desenvolvidos em contraste com o modelo representativo de democracia. Em síntese, o modelo normativo deliberacionista busca avançar também em diversos elementos dos modelos participacionistas de democracia (ALCÂNTARA et al., 2014), especialmente, pelo foco nas discussões sobre argumentação, deliberação pública, debate racional e diálogo (COHEN, 1989; HABERMAS, 1995; 1997b; BOHMAN, 1998). Daí ser lembrado, pelos giros/viradas deliberativa, argumentativa e comunicativa. São autores que influenciaram essa perspectiva: John Rawls, James Bohman, Joshua Cohen e Jürgen Habermas (GARCIA et al., 2016). Outros pesquisadores importantes e com trabalhos mais recentes são: Dennis Thompson, Maeve Cooke, Denis Thompson, John Dryzek e Simone Chambers (MARQUES, 2008). No Brasil, a vertente habermasiana da democracia deliberativa influenciou a construção do campo da Gestão Social, especialmente por meio dos conceitos de ação comunicativa, esfera pública e deliberação (TENÓRIO, 1998; CANÇADO; PEREIRA; TENÓRIO, 2015). De forma ampla, esse referencial foi utilizado para estudar arranjos institucionais participativos, legitimidade das instituições, experiências deliberativas e relações Estado-sociedade (ALCÂNTARA et al., 2014; PAES DE PAULA, 2005; ANDREWS, 2011; AVRITZER, 2012; GARCIA et al., 2016).

São temas comuns nessa vertente legitimidade, bem comum, igualdade, esfera pública e deliberação pública (ALCÂNTARA et al., 2014). Todavia, este campo também não é consensual, sendo formado por abordagens, gerações e diferentes perspectivas. Temas como “consenso”, “razão”, influência comunicativa, entre outros, não são mais unanimidade entre seus principais teóricos. Ao tratar da discussão de Dryzek (2016) sobre sistema deliberativo, um de seus temas mais recentes, nos atentaremos à crítica de Parkinson: “teóricos têm atribuído

o rótulo de deliberativo para tudo – fóruns, conselhos, assembleias, esfera pública, representantes, pequeno grupo de juristas, entre outros” (GARCIA et al., 2016, p. 2).

Segundo Elstub (2010), é possível destacar três gerações, das quais autores Jürgen Habermas e John Rawls fazem parte da primeira marcadamente caracterizada pelos modelos normativos. A segunda geração apresenta autores como James Bohman, Amy Gutmann e Dennis Thompson – estes iniciam discussões mais profundas sobre diversidade, pluralidade e outros tipos de comunicação e trocas (destacadas por Iris Marion Young, Lynn Sanders e outros) se distanciando da ideia central de consenso da primeira geração. Por fim, a terceira geração foca no desenho institucional da democracia como John Parkinson e Jane Mansbridge. Como nosso foco é sistema deliberativo, a política deliberativa de Habermas será apresentada de forma rápida, dado que existem leituras recentes dele na Gestão Social em Alcântara (2015), Garcia (2016), Cruz (2017) e na crítica de Persson (2016), os três com foco na esfera pública. No ver de Habermas (1995), o modelo normativo da democracia deliberativa diferencia-se do liberalismo político (do modelo liberal) e também das abordagens republicanas (comunitaristas. Apesar de críticas a simplificação feita por Habermas no estudo dos “Três Modelos Normativos de Democracia” (HABERMAS, 1995) ele nos ajuda a compreender como o autor situa sua proposta procedimentalista. O modelo deliberativo de Habermas (1995, p. 45) “[...] apoia-se precisamente nas condições de comunicação sob as quais o processo político pode ter a seu favor a presunção de gerar resultados racionais, porque nele o modo e o estilo da política deliberativa realizam-se em toda a sua amplitude”.

A visão de Habermas (1995; 1997a; 1997b) destaca a sociedade civil (como separada do mercado e do Estado) e sua importância formação das decisões políticas por meio das esferas públicas. Para Habermas (2008, p. 11), o importante é que o processo democrático tenha certas características, especialmente, o poder causal de mudanças que seria inerente a argumentação:

[...] deveria gerar a legitimidade através de um procedimento de formação da opinião e da vontade que garante (a) publicidade e transparência para o processo deliberativo, (b) inclusão e igual oportunidade para a participação, e (c) uma pretensão justificada para resultados obtidos através da troca de argumentos (principalmente em vista do impacto dos argumentos nas mudanças racionais de preferências) [...].

Como a apresentação aqui será rápido para focar na discussão de sistema deliberativo, segue no Quadro 7 pontos centrais da concepção deliberativa de Habermas.

Quadro 7 - Dez elementos da democracia deliberativa de Habermas.

1. Seu modelo normativo (discursivo, procedimental, deliberativo) é desenvolvido avançando e apontando as falhas dos modelos liberal e republicano de democracia;

2. Dentre as características da deliberação temos que observar: justificação, razões públicas, provisoriedade; reciprocidade; legitimidade, igualdade, dentre outras;

3. Por meio da deliberação, diferente da agregação, os indivíduos podem mudar de opinião por meio da comunicação e da troca livre de argumentos;

4. As pessoas são sujeitos dos processos e todo cidadão possui competência para agir democraticamente;

5. O processo deve ser contínuo e não termina com a “deliberação formal”; 6. A esfera pública (democrática) é condição essencial da democracia deliberativa;

7. A sociedade civil (nela os movimentos sociais) é ator central para que os problemas públicos sejam solucionados;

8. O direito é médium pelo qual em um Estado Democrático de Direito as demandas enfeixadas nas esferas públicas podem ser “generalizadas”;

9. As relações entre esfera pública, mundo-da-vida, sistema, opinião pública, direito e democracia são categorias que edificam o modelo habermasiano;

10. A razão pública é um determinante da concepção deliberativa (BOHMAN, 1998) e a característica central é exigência de justificação (GUTMANN; THOMPSON, 2007).

Fonte: Do autor (2018).

As críticas centrais enfrentadas pelo campo, especialmente, na versão habermasiana são sintetizadas em: problema de escala, capacidade real de reciprocidade e cooperação do indivíduo, sociedades divididas por diferentes conflitos como políticos (o Brasil é um desafio), assimetrias econômicas, conflitos religiosos, desconsideração do poder e dos antagonismos das relações sociais e desconsideração das desigualdades e assimetrias, além de foco apenas no discursivo (GARCIA et al., 2016). Alguns avanços e respostas à essas críticas foram discutidas em Mendonça (2011; 2016) e no campo da gestão social em Garcia (2016) e Alcântara e Pereira (2017). Todavia, essas críticas ainda permanecem muito pouco exploradas e discutidas pelos autores do campo da gestão social. Lembrando que o próprio Habermas também reconhece parte dessas questões.

Essa “diferenciação funcional [entre esferas formais e informais de deliberação] de tipos de ação e da prática discursiva, que é dependente do lugar que a deliberação e a decisão ocupam no interior de um contexto mais amplo do sistema político como um todo”, possibilita, segundo o próprio Habermas (2005, p. 390), construir hipóteses mais específicas sobre a permeabilidade desses espaços aos diferentes tipos de deliberação e/ou negociações em função da diferença nos tipos de conflitos produzidos nesses espaços. Ou seja, o autor reconhece a diferenciação funcional nos tipos de ação e nas práticas discursivas como decorrência das diferenças de conflitos gerados em espaços diferentes. (FARIA, 2012, p. 77).

Vale lembrar ainda que, na versão “clássica” [Habermasiana] da deliberação, a troca de argumentos bem como a demanda por justificação pública, mais do que as outras formas de comunicação, podem ensejar a revisão de posições,

interesses e preferências, forjando uma perspectiva mais pública dos mesmos, sem, com isso, precisar descartar interesses e conflitos derivados de sua coordenação. (FARIA, 2012, p. 78).

Para Ferraz (2006, p. 187), uma crítica central levantada por diversos pesquisadores é que o modelo deliberacionista toma “[...] como fato dado a igualdade. Há uma pressuposição de uma igualdade substancial, pois os processos de comunicação na esfera pública são tomados como discussão racional entre indivíduos iguais”. Miguel (2014) sintetiza outras críticas existentes:

(1) a relativa insensibilidade ao impacto das assimetrias sociais na produção das competências discursivas dos indivíduos, já que apenas se postula que todos devem ser “livres e iguais” [...] (2) o apego a um ideal decalcado da comunicação face a face, que encontra dificuldades em lidar com os problemas de escala, centrais nas democracias contemporâneas e com as necessidades de mediação daí decorrentes – em particular, a representação política e os meios de comunicação de massa; e (3) [...], a negligência em relação ao caráter conflitivo da política, reverso da valorização do consenso. (MIGUEL, 2014, p. 21-22).

Tais críticas se pautam em geral em dicotomias que foram reproduzidas no campo deliberacionista e também na sua recepção nacional: emoção x razão, mundo-da-vida x sistema, conflito x consenso, coerção x espaço livre de fala, público x privado, argumentação x negociação, local x global, Estado x sociedade, normativo x descritivo, fatos x valores, fala x ação, enfim, uma série de dicotomias que reduziram o poder explicativo do deliberacionismo (ALCÂNTARA, 2015; GARCIA, 2016; ALCÂNTARA et al., 2017) e que tem impactos nas teorizações. Devido a isso, essas dicotomias precisam ser enfrentadas e superadas (dialeticamente para evitar qualquer unilateridade) – algumas delas podemos ser superadas a partir do retorno ao próprio Habermas (1997a; 1997b; 2012a; 2012b). Apesar de não ser exclusividade, é visível que os deliberacionistas historicamente enfatizaram as dimensões: consensual, normativa, comunicativa, racional e argumentativa. Diante das críticas e das assimetrias teóricas, gerações mais recentes de teóricos deliberacionistas foram ampliando e buscando superar as críticas aos modelos marcados pela visão de Jürgen Habermas e de John Rawls (ou reconstruir seus fundamentos) – nesse processo surgiu as discussões sobre sistemas deliberativos a partir da proposta inicial de Mansbridge (1999).

Outra questão que visamos avançar é superar a unilateralidade da concepção apenas discursiva que reduz o poder explicativo ao não estudar a relação entre discurso e outras práticas sociais – o que é central para a Teoria Social do Discurso de Norman Fairclough. Para conferir essa unilateridade basta ir as definições de deliberação. Em Habermas (1997b) é notada a ênfase

na linguagem, sendo a esfera pública uma entidade discursiva, rede de comunicações e uma estrutura comunicativa. Na abordagem dialógica, para Bohman (2009, p. 36), a deliberação pública é o “processo dialógico de troca de razões com o propósito de solucionar situações problemáticas”.

Para Cooke (2009, p. 144), é “uma troca de argumentos livre de constrangimentos” e sintetizando, para Marques (2009, p. 13), é “atividade discursiva capaz de conectar esferas comunicativas formais e informais, nas quais diferentes atores e discursos estabelecem um diálogo, que tem por principal objetivo a avaliação e a compreensão de um problema coletivo ou de uma questão geral”. Percebemos a possibilidade de ampliar as discussões considerando, assim como Persson (2016), no caso das esferas públicas, a necessidade de elementos sociomateriais e outras práticas sociais que estão interagindo nesse processo – mesmo que os pesquisadores as desconsiderem.

A seguir, passamos para a discussão da visão deliberacionista utilizada nesta tese: sistemas deliberativos. Vale considerar que a proposta de Habermas apresentada em 1992,

Direito e Democracia, não é descartada, mesmo com críticas, pois, para Mansbridge et al.

(2012), o modelo do autor se encaixa em uma visão ampla de sistema deliberativo.