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2.3 Teoria Social do Discurso

2.3.1 A Teoria Social do Discurso em quatro movimentos

2.3.1.1 Discurso e Mudança Social: o modelo tridimensional

O modelo tridimensional de Fairclough desde sua concepção não é apenas uma metodologia. Na visão do autor, a ADC é uma perspectiva teórico-metodológica que articula de forma interdisciplinar e transdisciplinar linguística e ciência social. O texto de 1992, com tradução nacional em 2001, coloca que “o discurso [é] um modo de ação, uma forma em que as pessoas podem agir sobre o mundo e especialmente sobre os outros, como também um modo de representação” (FAIRCLOUGH, 2001, p. 91). Portanto, o discurso é entendido como prática social “reprodutora e transformadora de realidades sociais” e assim “a língua é uma atividade dialética que molda a sociedade e é moldada por ela” (MELO, 2009, p. 3).

Nesse sentido, Fairclough (2001) já indica que o discurso participa da construção de relações sociais, identidades e modos de ação. Para isso o autor busca na gramática sistêmico- funcional de Halliday macro-funções da linguagem: ideacional, interpessoal (que fica dividida em identitária e relacional) e textual. Nesse momento, Fairclough (2001) propõe um modelo tridimensional de análise: texto, prática discursiva e prática social (conforme Quadro 8).

Quadro 8 - Categorias analíticas propostas no modelo tridimensional.

Texto Prática Discursiva Prática Social

Vocabulário Gramática Coesão Estrutura textual Produção Distribuição Consumo Contexto Força Coerência Intertextualidade Ideologia Sentidos Pressuposições Metáforas Hegemonia Orientações econômicas Políticas, culturais, ideológicas Fonte: Resende e Ramalho (2006, p. 29).

O modelo se pauta em três dimensões analíticas do discurso: textos, prática discursiva e prática social. Na análise dos textos (análise textual) temos as categorias vocabulário (palavras individuais), a gramática (combinação de palavras), a coesão (ligação entre frases) e a estrutura textual (organização do texto). Por sua vez,

Na análise das práticas discursivas, participam as atividades cognitivas de

produção, distribuição e consumo do texto. Analisam-se também as

categorias força, coerência e intertextualidade. A força dos enunciados refere- se aos tipos de atos de fala desempenhados; a coerência, às conexões e inferências necessárias e seu apoio em pressupostos ideológicos; a análise intertextual refere-se às relações dialógicas entre o texto e outros textos (intertextualidade) e às relações entre ordens de discurso (interdiscursividade) (RESENDE; RAMALHO, 2004, p. 187).

São categorias das práticas sociais: ideologia e hegemonia. Sobre a ideologia, Fairclough (2001, p. 123) a considera como “uma concepção do mundo que está implicitamente manifesta na arte, no direito, na atividade econômica e nas manifestações da vida individual e coletiva”.

[...] significações/construções da realidade (o mundo físico, as relações sociais, as identidades sociais) que são construídas em várias dimensões das formas/sentidos das práticas discursivas e que contribuem para a produção, a reprodução ou a transformação das relações de dominação. (FAIRCLOUGH, 2001, p. 117).

Para Thompson a ideologia é uma forma de poder (RESENDE; RAMALHO, 2006). Os modos gerais de operação da ideologia são a legitimação, a dissimulação, a unificação, a fragmentação e a reificação. Assim, para Thompson (1990) a ideologia serve para estabelecer relações de dominação, existindo cinco modos gerais: legitimação, dissimulação, unificação, fragmentação e reificação (RESENDE; RAMALHO, 2004, 2006). Mas a ideologia não é algo estável, fixa. Ela sofre transformações por estar inserida e ser entendida em seu contexto. Na visão de Fairclough (2001; 2003) não temos “a” ideologia, temos “ideologias”.

Para Fairclough (2001; 2003), assim como Thompson (2011, p. 90), “as formas simbólicas são ideológicas somente enquanto servem para estabelecer e sustentar relações sistematicamente assimétricas de poder”10. Importante mencionar que a crítica da ideologia

deve ser para garantir seu caráter emancipatório, um processo dialético sempre aberto: algo que podemos começar, mas nunca terminar (RICOEUR, 1990).

Sobre hegemonia, Fairclough (2001, p. 122) indica que é a liderança em campos como econômico, social, cultural e político, sendo “um foco de constante luta sobre pontos de maior

10 “Pode-se situar esse tópico sugerindo-se que ideologia é mais uma questão de ‘discurso’ que de

‘linguagem’. Isto diz respeito aos usos efetivos da linguagem entre determinados sujeitos humanos para a produção de efeitos específicos. Não se pode decidir se um enunciado é ideológico ou não examinando-o isoladamente de seu contexto discursivo, assim como não se pode decidir, da mesma maneira, se um fragmento de escrita é uma obra de arte literária. [...]. O fato então é que o mesmo fragmento de linguagem pode ser ideológico em um contexto e não em outro; a ideologia é uma função da relação de uma elocução com seu contexto social” (EAGLETON, 1997, p. 22).

instabilidade entre classes e blocos para construir, manter ou romper alianças e relações de dominação/subordinação, que assume formas econômicas, políticas e ideológicas”. Relacionando com a prática discursiva, “a produção, a distribuição e o consumo de textos são uma faceta de luta hegemônica que contribui para a reprodução ou transformação da ordem de discurso existente e das relações sociais e assimétricas constitutivas” (SOUZA, 2012, p.12). Devido a isso, para Arantes (2015, p. 80), com essa visão “reconhece-se o papel do pesquisador- analista como integrante do processo discursivo, no qual ele obtém responsabilidade política pela análise e pela mudança social da realidade pesquisada”, pois essa forma de análise do discurso tem como meta a mudança social e a emancipação.

Finalmente, o modelo tridimensional é uma operacionalização apenas. Já adiantando a visão realista crítica de Fairclough (2003), Arantes (2015, p. 86) coloca:

Vale lembrar que esse movimento de detalhar e dividir as dimensões do discurso (textual, discursiva e prática) é ilusório, pois tem apenas uma função didática (FAIRCLOUGH, 2001), que consiste na operacionalização da análise diante da proposta da interferência discursiva na realidade e para promover as mudanças sociais defendidas por Fairclough (2003). Por se pautar em uma visão ontológica realista (embebida das orientações do Realismo Crítico de Roy Bhaskar), Fairclough (2003) assume que a realidade não pode ser reduzida ao conhecimento que temos dela, de tal modo que a análise do texto nunca é completa, é sempre seletiva e por essa razão, não é objetiva, pois há de se considerar também a subjetividade do analista no processo.

Arantes (2015) coloca que a partir disso temos descrição no nível textual, interpretação no nível da prática discursiva e explicação na prática social.

Figura 8 - Dimensões de análise.

Em geral, o modelo tridimensional apresentado é o mais usado nas pesquisas em gestão e organizações no Brasil (SILVA; GONÇALVES, 2017). Todavia, a partir de Chouliaraki e Fairclough (1999), mudanças importantes na TSD foram realizadas, especialmente, com a discussão que passou a ser focada nas práticas sociais.