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Delimitação do setor de atividade analisado

4. Principais aspectos estruturais da indústria petroquímica e seu processo de formação e consolidação no Brasil

4.1. Delimitação do setor de atividade analisado

A indústria petroquímica é uma fase intermediária da cadeia petrolífera. Compreende diversos segmentos a jusante do processamento de matérias-primas orgânicas fósseis.32 A jusante da petroquímica estão atividades como transformação de plásticos e química fina em seus vários segmentos.

As matérias-primas do setor são hidrocarbonetos oriundos do refino de petróleo e separação do gás natural. Dentre os derivados de petróleo, a petroquímica utiliza principalmente nafta, e em menor medida gasóleo, condensados, gases de refinaria e gás liquefeito de petróleo (GLP). No caso do gás natural, os principais derivados utilizados são o etano e propano.

De fato, em geral as definições de indústria petroquímica remetem às matérias- primas, característica comum a outros setores de bens intermediários, em detrimento de uma definição em termos de produtos como a maior parte dos setores de bens de uso final, por exemplo, a indústria alimentícia. Assim:

“A indústria petroquímica é definida basicamente, em função de suas matérias-primas, como a indústria química orgânica sintética, que obtém seus produtos a partir das frações de petróleo e do gás natural”. Suarez (1986)

Essa delimitação equivale à de Spitz (2003), que define a indústria petroquímica como a fabricação de produtos químicos “…made from hydrocarbon feedstocks, wich are

based on natural gas and refinery feedstocks”.

A petroquímica verde, ou seja, usuária de matérias-primas de base vegetal, está mais relacionada à petroquímica tradicional do que dos setores de processamento de grãos e energia renovável, pois é praticamente um espaço natural da diversificação das empresas que atuam na petroquímica de base fóssil.33

Uma das características mais emblemáticas da petroquímica é que constitui, mesmo quando analisada em separado, praticamente uma cadeia produtiva. Isto se deve ao fato de englobar uma sequência de atividades industriais (transformações químicas)

32 O termo orgânico é atribuído à grande família de compostos químicos contendo carbono e hidrogênio. Até o Século XIX,

os cientistas ainda acreditavam que esses componentes existiam somente em materiais derivados de animais ou vegetais, daí o termo orgânico (Burdick e Leffler, 2010, p. 1).

interligadas. Por essa razão costuma-se subdividir esse setor de acordo com o estágio da cadeia.

A terminologia comumente utilizada por empresas e especialistas do setor o subdivide em três etapas sucessivas e interligadas, ou gerações, conforme Figura 11 abaixo. A primeira geração encontra-se imediatamente a jusante do processamento do petróleo e gás natural, compreendendo o processamento das matérias-primas petroquímicas em petroquímicos básicos. A partir da nafta, coproduto obtido pelo refino do petróleo, ou a partir de frações do gás natural, as plantas de primeira geração, chamadas centrais petroquímicas, geram diversos produtos, sendo eteno e propeno os mais importantes em termos de volume.

Figura 11. Representação esquemática da cadeia produtiva da indústria petroquímica

Fonte: Gomes et alli (2005).

A jusante da primeira geração, a segunda geração petroquímica processa petroquímicos básicos em petroquímicos finais ou intermediários. Os produtos intermediários (por exemplo, etilbenzeno e estireno) são consumidos pela própria segunda geração petroquímica, enquanto os petroquímicos finais, como polietileno e polipropileno são consumidos pelo elo seguinte da cadeia.

A chamada terceira geração da petroquímica tem como principais segmentos a transformação de plásticos e a química fina, que abrange diversos segmentos como defensivos agrícolas e produtos fármacos e farmacêuticos. Seus produtos vão desde insumos, partes e peças para a produção nos mais diversos setores industriais, até bens de uso final dos mais diversos tipos e aplicações. Esses segmentos não são tratados como parte do setor petroquímico propriamente dito.

Além desses produtos consumidos na terceira geração, a petroquímica fornece diversos produtos para setores de outras cadeias produtivas. Nessa condição os produtos petroquímicos como especialidades não são matérias-primas principais, e sim insumos consumidos nos processos produtivos.

Em outro critério de classificação, os produtos petroquímicos são organizados de acordo com o tipo de molécula básica que os compõe. São dois principais segmentos: olefinas e aromáticos. Olefinas são os produtos na linha do eteno, buteno e propeno, na primeira geração, e, portanto, na segunda geração, sobretudo polietilenos e polipropileno. Aromáticos34 são produtos da cadeia do benzeno, tolueno, oxileno, paraxileno, na primeira geração, e que na segunda geração abrange ácido tereftalático, acrinolitrila, estireno, etilenoglicol e fenol, entre outros.

Na literatura especializada do setor, também é frequente a classificação dos produtos de acordo com um critério híbrido de preço e grau de diferenciação, criada pela empresa de consultoria da área química Kline & Company. Dessa forma, os produtos petroquímicos são subdivididos em quatro categorias (Spitz, 2003, p. 86):

o Commodities: produzidos em grandes escalas, abarcam a maior parte da produção setorial, e têm o menor nível de preço do setor e de diferenciação de produto. São definidos em termos da sua composição química e abrangem produtos da primeira e segunda geração na classificação anterior;

o Pseudocommodities: também são produzidos em grandes escalas, mas contam com algum grau de diferenciação. O desempenho é uma variável determinante em sua demanda;

o Nos produtos classificados no ramo da química fina o valor adicionado é mais elevado e as escalas de produção bem menores do que dos dois segmentos precedentes;

o Os produtos chamados de especialidades têm nível de preço e diferenciação altos. Assim como produtos da química fina, são produzidos em quantidades menores por unidades de porte inferior em relação às commodities.

Fonte: Spitz (2003, p. 86).

Já na classificação dos organismos estatísticos oficiais, como IBGE no Brasil, que segue o padrão estabelecido pelo International Standard Industrial Classification of All Economic Activities (ISIC), a indústria petroquímica não é especificada de maneira precisa. As diversas atividades referentes à petroquímica estão inseridas no universo da indústria química. Na nomenclatura CNAE 2.0 (Classificação Nacional das Atividades Econômicas, adotada na Pesquisa Industrial Anual) do IBGE, podem ser destacadas as seguintes principais atividades do setor petroquímico:

Figura 12. Classificação da Kline & Company para os produtos petroquímicos:

A área dos círculos representa a escala do mercado dos produtos

Figura 13. Setor petroquímico nos grupos e classes de atividade na classificação do IBGE

Fonte: elaboração própria com base no IBGE.

Dentre as diversas possibilidades de classificação do setor petroquímico, no decorrer do trabalho foi adotada a segmentação em gerações. Trata-se do critério mais compatível com a lógica de cadeia, empregada na organização da estrutura produtiva e empresarial dessa indústria no país, com a trajetória das estruturas empresariais no período estudado, análise desenvolvida na Seção 5.1.

Vale ressaltar que o trabalho trata fundamentalmente do segmento de produtos commoditizados ou pseudocommoditizados da petroquímica, em função da disponibilidade de dados e outras informações (conforme Seção 5.1). Do ponto de vista da importância econômica, essas atividades acima representam aproximadamente 23,5% do valor adicionado do setor químico em 2014, ou 1,7% do valor adicionado da indústria de transformação no mesmo ano (PIA/IBGE). Esses dados podem não representar adequadamente a relevância do setor, uma vez que a dinâmica da indústria petroquímica é ditada pelo segmento de commodities e pseudocommodities, por ser o mais representativo em termos de volume de produção (Gomes, Monteiro e Montenegro, 1999, p. 5), além de ser o mais intensivo em capital.

Grupos e classes de atividade da petroquímica destacados em azul