4. METODOLOGIA E ANÁLISE
4.1 Delimitando o corpus
Nosso interesse acadêmico na escolha do corpus se deu em função de as duas revistas (Gol e Vamos/Latam) representarem as marcas líderes do setor de aviação comercial no Brasil. Do ponto de vista da materialidade, o recorte considera as edições distribuídas nos meses de janeiro e julho, apontados em sucessivas pesquisas da Abear (Associação Brasileira das Empresas Aéreas) como os meses de maior fluxo de passageiros. Para contemplar a
questão da maturidade e estabilidade dos dois projetos editoriais, escolhemos edições com intervalo de dois anos. São, portanto, oito edições, quatro da Revista Gol e quatro de Vamos/Latam, dos meses janeiro e julho, anos 2017 e 2019.
Quadro 1: Objeto de pesquisa Revista Vamos/Latam Edição 9 Janeiro/2017 Edição 15 Julho/2017 Edição 33 Janeiro/2019 Edição 39 Julho/2019 Revista Gol Edição 178
Janeiro/2017 Edição 184 Julho/2017 Edição 202 Janeiro/2019 Edição 208 Julho/2019 Fonte: Elaborado pela autora
Quadro 2: Descrição do objeto empírico
REVISTA GOL VAMOS/LATAM
Formato (cm) 20,6 X 26,5 20, 6 X 26,5
Papel/impressão Couchê 4 x 4 cores Couchê 4 x 4 cores
Padrão de capa Pessoas/retratos Paisagens/destinos
Número de páginas* 140 125,5
Periodicidade mensal mensal
Tiragem/exemplares 110 mil 135 mil
Páginas editoriais por edição* 83% 63%
Páginas comerciais por edição* 17% 37%
Distribuição Aeronaves e mailing Aeronaves e mailing
Idioma Português Port/Esp./Ing.
Assuntos mais enfocados por ordem de prevalência
Perfis, viagem, turismo, sustentabilidade,
empreendedorismo social, gastronomia
Viagem, turismo, história, arte, gastronomia,
tecnologia * média das edições analisadas
Fonte: Elaborado pela autora
Como informações adicionais, fazemos aqui um ligeiro percurso pelo corredor editorial de cada revista. O conteúdo da Gol é divido em quatro cadernos gráficos de perfis bem distintos. Cada qual dispõe de sua própria página de abertura e índice. O signo gráfico que identifica cada caderno é um círculo simbolizando um relógio (apenas para relembrar, o tempo é um mote da Gol em seus aportes de marketing), que se “move” a partir da posição Embarque (notícias curtas de gastronomia, arte e esporte). É parte deste caderno um dos carros-chefes da revista, a seção Em trânsito, que retrata passageiros da Gol em movimento de embarque/desembarque nos aeroportos. O caderno Viagem apresenta roteiros no Brasil e no mundo, em destinos operados pela empresa. Vida, tempo e trabalho traz os perfis jornalísticos e outras reportagens que tratam de temas da vida moderna, empreendedorismo,
inovação e assuntos mais polêmicos, como novas famílias, preconceito, violência. O conteúdo propriamente de marca, que mostra as rotas de voos Gol, detalhes das aeronaves, mapas de aeroportos, programação de bordo, programas de milhagem, e traz entrevistas com gente “da casa”, como pilotos, comissários de bordo e atendentes, é reunido no caderno #Novagol, marcado por um tom corporativo.
Vamos/Latam divide seus temas em três cadernos, marcados por página dupla de abertura. A edição é trilíngue, sendo que os textos em espanhol e português correm as matérias lado a lado. A versão em inglês é condensada no último caderno com algumas fotos adicionais. Apenas parte do conteúdo traz a versão para o inglês. O caderno Vamos conhecer concentra notas curtas, muitas vezes tematizadas: “6 termas para escapar do frio”; “7 mercados gastronômicos para descobrir novos sabores” e outras seleções com o mesmo enfoque. Estão ali também as notícias rápidas sobre pessoas e lugares para se conhecer. Vamos explorar reúne a produção editorial mais robusta, com os roteiros de viagem para pelo menos dois destinos cobertos pelos aviões Latam. Vamos voar trata dos temas mais circunspectos ao universo de atuação da Latam: aeroportos onde atua, programas de milhagem, opções de entretenimento a bordo e empresas coligadas (Latam Travel, Latam Cargo). A seção Da janelinha é parte do caderno e exibe fotografias de viagem enviadas pelos próprios passageiros.
Como material empírico, este estudo foca nas seguintes cenografias de cada uma dessas edições. Vejamos quais e por quê:
- Capa - Editorial - Matéria de capa
Por uma simples razão de hierarquia na escala de relevância que baliza editores, jornalistas, fotógrafos e leitores, a capa é a primeira cena genérica a ser analisada neste estudo. É a porta de entrada para que se firme o contrato de comunicação, previsto por Charaudeau (2015). Em um estudo sobre o poder de atratividade das capas de revistas, Vaz, Trindade e Costa (2013, p. 221) pontuam: “Sua concepção prevê alguém que, em um simples vislumbre, se apaixone por ela e atribua-lhe sentidos. Sendo assim não podemos falar em capa de revista sem considerar esse sujeito que se relaciona com ela e que lhe atribui vida”.
Do ponto de vista de sua materialidade, a capa é um dos elementos fundantes do formato revista e da identidade dos projetos editoriais que escolhem esse suporte, definidora daquilo que se chama “conceito” da publicação.
Para proceder a análise das capas vamos considerá-las como um texto, que abarca aspectos verbais e não verbais e que representa outros textos a serem descortinados com um simples folhear de páginas e ainda estabelecem relação com uma coleção de outros textos, colocados numa perspectiva de tempo e representados pelas edições anteriores e posteriores. Ao contextualizar a função da capa para o sucesso de uma revista, Scalzo (2011) oferece uma trajetória de análise bastante apropriada, que coloca a capa como um fator de identidade da revista. É o principal elemento a ligar uma determinada edição ao conjunto dos enunciados do qual ela é parte e representa.
Em qualquer situação, uma boa imagem será sempre importante e é ela o primeiro elemento que merecerá atenção do leitor. O logotipo da revista também é fundamental, principalmente quando ela é conhecida e já detém uma imagem de credibilidade junto ao público (SCALZO, 2011, p. 63).
É na capa, principalmente, que elementos cênicos, semânticos e estéticos se agrupam para formar um texto uno e persuasivo, que só ganha sentido na recepção, dentro da moldura do contrato de comunicação. Mas não é por conter poucos elementos que o desafio de observar e analisar uma capa é menor. Ao contrário, justamente pela necessidade de expressar um conceito, uma edição de mundo, uma opinião, uma perspectiva de diálogo, um jogo de significações, ela impõe doses elevadas de atenção do observador. Nas revistas de marca considera-se ainda o quanto o tema é aderente ao propósito de significação da marca.
Pelo mesmo caráter identitário da capa, o editorial constitui um enunciado fértil para a construção de uma imagem de si. É onde a publicação se define, se posiciona institucionalmente e procura diálogo com o leitor. Boff (2013) contextualiza que essa função se cristaliza no fazer revistativo:
... o que se pretende é personalizar a opinião, aproximar-se do leitor. Algumas revistas informativas publicam inclusive a fotografia do autor do texto, explicitando graficamente esse objetivo. Outro modo de personalizar o editorial, é não chamá-lo mais de editorial, mas de carta ao leitor ou carta do editor (BOFF, 2013, p. 192) [grifos do autor].
Escolhemos como escopo desta análise também a matéria de capa, por entender que a matéria jornalística eleita pelos editores para estampar a capa de uma revista, é, via de regra, a principal da edição, tanto pela relevância quanto pela oportunidade do tema. Nela são investidos os melhores recursos de tempo, apuração, imagens, recursos gráficos e até eventuais conexões com outros temas. Ali se engendram os discursos, as tessituras persuasivas, os efeitos de sentido. É, portanto, um bom caminho para que se buscar as marcas
da personalidade e da expressão discursiva da publicação. Por isso, é material empírico muito valorizado nas pesquisas acadêmicas, já que sintetizam a maneira de narrativizar e de “prender” a atenção do leitor. Convoca-se para a capa assuntos atrelados aos interesses dos leitores, algo que é geralmente balizado pelas pesquisas, ou que os editores por seus pretensos saberes entendem como novo, relevante, inédito, emocionante, curioso, apropriado, enfim, à construção do ethos num determinado contexto histórico.
Temos aqui a intenção de apreender, a partir do que se apresenta nos enunciados das duas revistas, aquilo que é sugerido em uma leitura que tem como propósito identificar o discurso enquanto manifestação das marcas, considerando-se seus lugares de fala e as formações discursivas que lhes são autorizadas. Entendemos a composição do corpus como uma seleção subjetiva e inevitavelmente arbitrária, determinada pelo analista.
Para promover o recorte do presente estudo, entendendo que tanto o pathos quanto o ethos orbitam na esfera dos afetos, como se vê na teoria de Aristóteles, nos guiamos também pelas questões do sensível, apontadas por Muniz Sodré (2006), não apenas pela proximidade do tom geral das revistas com os materiais de propaganda, mas principalmente pelo contexto simbólico que elas articulam, ativando imaginários e atuando na individuação do sujeito.