4.5 CONTRIBUIÇÃO DO PLURALISMO PARA UM NOVO PARADIGMA
4.5.1 Delineamento de um direito comprometido com a exterioridade do
No presente trabalho, optou-se por apresentar uma proposta de pluralismo que possa contribuir para a formação de um novo paradigma sociojurídico especialmente baseado em modelos de ações práticas empreendidas no cenário latino-americano e que se apresentam como instrumentos capazes de auxiliar no rompimento da ordem jurídica com a práxis da dominação, na qual os interesses hegemônicos ignoram a figura do Outro (oprimidos, explorados, minoritários) e negam suas pretensões, desqualificando-as ou reconhecendo-as como simples
manifestação do Mesmo (de uma totalidade externa que supostamente a todos engloba)71.
Em um contexto marcado pela negação e dominação, a figura do Outro costuma ser silenciada, proibida ou, quando muito, reconhecida como uma manifestação do Mesmo, de modo que suas pretensões e necessidades ou não são atendidas, ou se reduzem a algo distante de ser materializado a partir de um diálogo entre vozes tão diversas. O direito também se colocou distante dessa realidade concreta, inserindo-se em um complexo de relações jurídicas e de poder que, embora chanceladas por leis aprovadas por um órgão legislativo de deliberação e aplicadas por instituições com missão constitucional de promover a justiça, acabaram por se transformar em uma metalinguagem, cujo objeto já não é o direito em si, mas um discurso sobre o direito.
Para justificar essa dominação, a ideia de civilização foi sendo moldada por pensadores europeus do século XVIII em oposição a um suposto barbarismo, vinculado aos povos periféricos, que se constituiria em uma espécie de condição lógica de superação de uma existência tida como selvagem. O conjunto das características culturais presentes no mundo europeu foi proclamado como portador desses valores civilizatórios, marcados, sobretudo, por um racionalismo que relega o homem a uma existência na qual os seus direitos estão diretamente vinculados à medida de sua obediência e utilidade. Para manter essa ordem, fez-se necessário eliminar a ambivalência, a diferença e qualquer outra linha que possa ser entendida como a ordem do Outro.
Contudo, a realidade social, é preciso reconhecer, demonstra que as diferenças e desigualdades não só existem como estão altamente acirradas, sobretudo quando se considera que a ordem jurídica faz eco à retórica da modernidade, pondo-se a serviço de uma totalidade excludente e de um certo padrão cultural que insiste em chancelar a práxis da dominação fundada em esquemas formalistas tradicionais e no direito positivado72. Tais reflexões são
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As expressões ‘o Outro” e “O Mesmo” foram empregadas por Dussel (1993) em conferência proferida em Frankfurt, ao tratar sobre o encobrimento da cultura e do ser pela colonialidade.
importantes, na medida em que se busca delinear outro olhar para superação desse paradigma de dominação, transpondo a função do direito do campo da regulação para o da emancipação.
Nessa esteira, ao falar sobre essa transição do direito e das pontes necessárias para que se possa enxergar o Outro, Almeida D. (2004, p.48) aduz que:
O rosto humano só aparece como rosto do Outro quando se manifesta na exterioridade, isto é, em um âmbito não passível de ser instrumentalizado pelo sistema em que está inserido. Nesse instante, o rosto do Outro deixa de ser entendido como algo para ser reconhecido como alguém, como uma realidade exterior. Evidencia-se uma práxis jurídica da libertação, como resposta afirmativa da Totalidade à manifestação alterativa do Outro. O Direito mostra-se aberto à complexidade do real, capaz de reconhecer na imprevisibilidade essencial do fenômeno social seu indispensável comprometimento com a defesa incondicional da vida.
A ser assim, o ponto de partida para que se possa transcender o sistema é admitir que as normas jurídicas possam de fato revelar a figura do oprimido, do pobre, das minorias, e, com isso, permitir que questione continuamente a estrutura do sistema e daquilo que junto a ele figura como estabelecido, normalizado, cristalizado ou mesmo blindado a contestações. Essa abertura possível faz com que a figura do Outro possa se apresentar como distinta do Mesmo e não como algo nele inserido.
O que se viu até aqui no que concerne às relações entre as diversas normatividades sociais, incluindo-se a jurídica, é que o Mesmo e o Outro podem se fechar um ao outro, designando um isolamento em consequência de um idealismo radical; ou, quando possível, que ambos convirjam mutuamente para um diálogo em que se possa firmar um ambiente necessário ao desenvolvimento dessas duas exterioridades, permitindo-se que se encontrem e respeitem na sua individualidade e autonomia. Essa constatação parece conduzir à questão do direito na América Latina, que resiste em assumir o seu papel de instrumento de amparo dos direitos individuais e sociais do homem latino-americano, preferindo manter-se atrelado aos interesses do poder hegemônico, mantendo-se como um sistema fechado,
Dentro dessa perspectiva, Dussel (1993, p. 36) fala de uma ‘Totalidade ocidental’ que se constitui em um sistema axiomático, completo e normalizado, sempre em busca de um princípio justificador da dominação e da conquista, negando a alteridade.
fundamentado em princípios e valores implantados pela modernidade eurocêntrica. (ALMEIDA D., 2004, p. 52-66)
O delineamento de um novo olhar sobre o Direito na América Latina exige que se rompa com esse padrão ético normativo e com o modo de fazer justiça ainda tão distante da alteridade e desvinculado da realidade concreta73. Com efeito, o direito nessas sociedades ainda subordinadas à racionalidade dominadora mantém-se como uma espécie de discurso que faz lei e não como um discurso voltado à efetivação da justiça. Ao que se vê, o preço da absoluta legalidade é proscrever o pensar, reprimir o dizer, dificultar o fazer. Na lição de Warat (1995, p. 18):
O mecanismo de concretização do fenômeno jurídico acaba por privilegiar apenas os sujeitos da fala, deixando de lado as questões referentes aos quadros institucional, político e ideológico, a partir dos quais se produz a enunciação. Nessas circunstâncias, desenvolvem-se um corpo teórico e uma linguagem própria com a finalidade de compensar a fragilidade de uma ciência jurídica, incapaz de assumir e compreender a complexidade do homem e da sociedade, mas mantendo a crença, a fé, na suposta legitimidade normativa. Esse fenômeno linguístico produz o ‘senso comum teórico dos juristas’, espécie de paralinguagem, que está além dos significados, com o objetivo de encobrir a realidade jurídica dominante.
O poder dessa dominação, sem dúvida ainda chancelado pela ordem jurídica e seus simbolismos, continua operando efeitos sobre o cotidiano dos povos latino- americanos, marcados pela submissão, exploração e exclusão. Essas características são incutidas no processo cultural e seguem se reproduzindo sob a vigilância normativa, que assegura a manutenção das estruturas de controle sobre os indivíduos com base em uma crença da legitimidade estatal exclusiva para que se mantenha a ordem e se assegurem direitos básicos. É contra a manutenção desse arcabouço que o pluralismo deve levantar sua voz, servindo como instrumento de uma ação transformadora que subverta a ordem dessa totalidade norte-atlântica, de modo a permitir uma reorganização da América Latina a partir do que ela é, do ambiente vivo em que se insere, transpondo a condição que lhe foi negada.
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Segundo Santos (1999, p.68), “[...] a modernidade eurocêntrica assenta-se em dois pilares fundamentais. Um pilar de regulação, constituído por três princípios: o princípio do Estado, cuja articulação se deve principalmente a Hobbes; o princípio do mercado, dominante na obra de Locke; e o princípio da comunidade, cuja formulação domina a filosofia política de Rousseau. De outro lado, evidencia-se o pilar da emancipação, constituído por três lógicas: uma racionalidade estético- expressiva da arte e da literatura; uma racionalidade moral-prática da ética e do Direito; e uma
Em virtude das ponderações até aqui formuladas, evidencia-se o desenho de uma nova racionalidade para pautar a atuação do direito nos países latino- americanos, amparada por um pensar que nasce a partir da realidade deste continente e das regionalidades tão peculiares de cada um dos países que o integram. Pode ser que os passos dados na formação de um novo constitucionalismo latino-americano não sejam os mesmos para cada um dos países, mas isso de modo algum afasta a inspiração que esse movimento é capaz de gerar quanto aos demais. Se algo é peculiar às questões culturais da Bolívia, Colômbia, ou Equador, ainda que não se repita em um país continental como o Brasil, o fato é que, ainda assim, a inspiração nesse pensar autêntico é que serve como base para as mudanças no direito de cada um, sem mascarar uma realidade ainda não absorvida, ou seja, sua condição de colonizado, de conquistado.
Atualmente, ainda não foi possível superar essa contradição e de fato converter o passado em passado. Mesmo no tocante à ordem jurídica, embora dirigida às populações locais, suas interpretações e supostas tentativas de transposição quase sempre são desenvolvidas a partir de instrumentos gestados pelos próprios conquistadores, mesmo que substituídos por uma burguesia local semelhante à europeia. Mesmo quando tentou libertar-se das amarras da dominação e da exclusão, a América Latina o fez não partir de uma lógica dialética, de um processo histórico de um povo que se torna capaz de desenvolver seu espírito, negando um passado que já não lhe é próprio, mas de uma lógica formal, que não admite contradição. (ZEA, 1980, p. 15)
Com efeito, os aparentes movimentos de transformação que se desencadeiam em países latino-americanos, como é o caso do Brasil, referem-se a um fenômeno político que não fez outra coisa a não ser atuar com o mesmo espírito com que os conquistadores haviam atuado. Transformações reais não se efetivaram e antigos privilégios seguiram existindo, em regra como frutos da ação de uma elite interna que soube se beneficiar da emancipação política das colônias, mas que manteve a imensa maioria das populações locais relegadas à condição de exclusão. Isso, sem olvidar, é claro, a vinculação das leis à íntima ligação entre o Estado e essas classes dominantes e aos seus interesses.
Como discurso de poder, o Estado é visto como única fonte de produção normativa e de exercício da atividade jurisdicional, detentor do monopólio da violência legítima; a completude do sistema, a retórica da imparcialidade e a não
contradição apresentam-se como valores fundamentais a partir de uma perspectiva dogmática; finalmente, a identificação do direito com o Estado permite a proliferação da ideia de que todo Estado é Estado de direito, pulverizando as pretensões emancipatórias de outras fontes em nome da manutenção da ordem e da eliminação de ambivalências. Acerca dos efeitos desse modelo formalista e juspositivista, Almeida D. (2004, p. 77) explica que:
A partir do paradigma da extremada separação dos poderes estatais, instala-se uma concepção onde todas as soluções estão na lei, cabendo ao julgador, sem margem de arbítrio, retirar dela as saídas concretas. Além do que, os conceitos jurídicos passam a constituir formas de redução simplificativas da realidade, ou seja, impõe-se uma inversão metodológica onde se passa do conceito para a realidade, abandonando a riqueza desta última. Implanta-se um positivismo dogmático-estético, comprometido exclusivamente com os interesses de uma elite bem relacionada com o poder, onde sua legitimidade mais do que nunca depende da manipulação da crença da sociedade em uma suposta autoridade racional-legal.
Consequentemente, o delineamento de uma alternativa a esse modelo de direito violentamente excludente começa por abandonar essa inversão metodológica, que subverte o fenômeno jurídico, para, então, partir rumo a uma reformulação epistemológica que rompa com o paradigma clássico-moderno. Se a dogmática moderna parte do conceito para a realidade, o desenho das práticas plurinormativas fundadas na ação e no poder da comunidade indica exatamente uma reinversão da ordem metodológica, apoiando-a na realidade rumo ao conceito, na práxis rumo à teoria, nas peculiaridades culturais, regionais e nos interesses e necessidades dos grupos envolvidos frente à norma genérica e abstrata da lei.
Nesse sentido, não basta mais a mera reinterpretação ou descoberta de espaços de ação dentro da lei, impondo-se a sincera disposição de todos os atores da justiça para que se criem novos pressupostos para sua aplicação. A partir disso, propõem-se aqui três linhas para contribuir com o delineamento desse direito comprometido com a exterioridade do Outro e com o alcance de sua emancipação em alta intensidade: primeiramente, a superação do obstáculo referente ao formalismo juspositivista tradicional, a partir de uma inversão metodológica na concepção e aplicação das normas, que permita estabelecer uma prevalência da ação sobre o conceito; em segundo lugar, a sobreposição do pilar da emancipação relativamente ao marco de regulação imposto pela modernidade; por fim, a adoção
de uma linguagem jurídica, em sentido amplo, que se distancie de qualquer contexto que negue a exterioridade do Outro, suas necessidades e seus valores culturais.
A transposição do formalismo juspositivista tradicional pelo pluralismo jurídico consiste, antes de mais nada, em permitir que a realidade fática que circunda o fenômeno social inspire o conceito e atue sobre o seu campo de aplicação. Inúmeras práticas jurídicas são empreendidas por grupos à margem do direito denominado direito oficial. Seja por questões referentes ao acesso à jurisdição, seja em razão da compreensão de que a norma estatal não é perfeitamente capaz de apaziguar os conflitos em razão das suas peculiaridades, ou das reais necessidades dos envolvidos, o fato é que soluções de pacificação do conflito são tomadas a despeito do Estado, ou mesmo entram em rota de colisão com aquilo que a ordem estatal preconiza. Esse distanciamento demonstra, portanto, aquilo que o direito não é: ele não se restringe somente à lei.
A manutenção desse modelo juspositivista, distante da realidade concreta e excludente de considerável camada da população, mostra certa aversão às mudanças sociais e resulta num certo conformismo diante da conjuntura vigente. Esses pontos representam a luta contra uma construção ideológica do Estado Moderno, revelando a vinculação entre o direito e a lei estatal como uma tentativa de acobertar o fato de que, diante da íntima ligação entre o Estado e a classe dominante, as leis representam, em regra, a expressão dos interesses dessa elite hegemônica. É hora de perder a ingenuidade, entender que o direito vigente apresenta-se como discurso de poder e, portanto, adotar uma prática reflexiva que permita integrar à ordem jurídica outras paisagens e ações socionormativas.
Nessa esteira, o segundo passo para o delineamento acima proposto é o do rompimento com a hegemonia do pilar da regulação para reconhecer que, diante da estrutura de poder vinculada ao Estado democrático de direito, a norma estatal positivada é, acima de tudo, instrumento comprometido com a manutenção do poder. Amparado por uma Administração Pública burocratizada, por um Legislativo altamente comprometido com interesses de grupos ligados ao capital e por um Judiciário ineficiente, o poder hegemônico transforma os seus próprios postulados ideológicos em lei e encontra no direito o instrumento para manter a sua regulação social.
Ao assumir seu conteúdo ético, político, histórico e ideológico, o pluralismo contrapõe-se ao pilar da regulação, rompendo com a retórica da imparcialidade, da
abstração e da completude do sistema, para reconhecer sua função social e humanista, com abertura de suas diversas fontes de produção normativa e de efetivação da justiça à complexidade dos fenômenos sociais em que se forjam as ideias de que os homens não vivem, mas convivem entre si. Nessa prática emancipatória, prioriza-se o campo da ação, dos modelos de resolução de conflitos adotados no seio das comunidades e grupos envolvidos, nas formas e peculiaridades que encontram para que suas decisões sejam efetivamente observadas pelos destinatários. É sim o pluralismo sociológico de direitos uma visão antidogmática, multiforme e de conteúdo concreto gerado na totalidade da vida social e não apenas no que foi abstraído pelo direito estatal como de necessária intervenção do Estado.
Por fim, o terceiro ponto do delineamento ora proposto é o que se refere à adoção de uma linguagem jurídica, em sentido amplo, que se distancie de qualquer contexto que negue a exterioridade do Outro, suas necessidades e seus valores culturais. Inspirado nas práticas sociais, o pluralismo sociológico de direitos direciona-se às relações jurídicas que saem do sistema individualista e de dominação para se converterem em processo de transformação social, por meio de uma ação prática capaz de restabelecer o diálogo entre o direito e a pessoa humana, o Outro. Nas palavras de Almeida D. (2004, p. 82), “[...] a linguagem abstrata, o discurso deve ser assumido como algo que surge a partir desse Outro, de sua condição de exterioridade que jamais poderá ser englobada na totalidade.”
Com efeito, é tal responsabilidade que deve permear toda decisão, compromisso, expressão linguística, argumento, consenso e toda a práxis. Nessas condições é que o direito passa a ser pensado, não bastando apenas apaziguar os conflitos. É preciso modificar a situação dos envolvidos, reconhecendo a legitimidade de suas lutas pela eficácia dos direitos já previstos na legislação estatal e para reivindicar o reconhecimento de outros direitos que surgem a partir de suas necessidades específicas. Diante dessa perspectiva, toda linguagem jurídica deve voltar-se para descobrir o Outro, respeitando-o e protegendo-o, de modo a se comprometer não com os interesses dominantes, mas com a humanização da sociedade a partir da realidade histórico-cotidiana do seu entorno.
Destarte, esses fundamentos ora apresentados para nortear uma outra perspectiva do direito voltam-se, sobretudo, para um ambiente dialético, humano e reconciliador, que reconheça a legitimidade das manifestações normativas não-
estatais, contemplando a ação histórica dos diversos grupos e movimentos coletivos na luta por suas necessidades essenciais, sobretudo quando, como no caso brasileiro, estejam inseridos em um cenário cujas possibilidades diante do mundo ainda estejam tão estreitadas pelo neoliberalismo globalizado e seu racionalismo excludente. É justamente esse o grande desafio do novo paradigma sociojurídico: tornar-se responsável pela humanidade do Outro e por sua real emancipação, tal como será tratado a seguir.
4.6 Autocrítica: os desafios para alcançar um pluralismo emancipatório de alta