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2 BASES EPISTEMOLÓGICAS

2.1 Pós modernidade

2.1.2 Demarcações possíveis?

Faz- se uma alusão de que, o ato fundamental, considerado “o marco” do pós- modernismo, ser relativo a um fato arquitetônico datado em 1972. Às 15h32m de 15 de julho, quando Pruitt-Igoe foi demolido, com e o evento gravado, editado em oito minutos e, posteriormente, incluído no filme9 Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio Foi a expressão midiática do “tudo o que é sólido desmancha no ar” 10

de Karl Marx concretizando- se.

Outro fato que pode remeter à transição entre modernidade e pós-modernidade foi a queda do muro de Berlim, em 1989. Questão problematizada em “Adeus, Lênin”, nos provocando a pensar elementos de transição/ transitoriedade e perenidade/ efemeridade entre o que já foi e não é mais, partindo de uma história familiar, permeada por fatos históricos transplantados/ forjados.

Mais um fato a ser considerado é que antes de tudo isso, em 1966, no Brasil, o artista Hélio Oiticica irrompia com a concepção contemplativa de arte ao criar uma obra que fosse construtivamente completada pela intervenção do público, o Parangolé (SILVA, 2002, p. 117; 187).

Manifestação de um possível fim da ruptura entre as artes, incluso no movimento, no ato da dança, com alguém que veste o Parangolé, com o fazer “antiarte por excelência”.

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Disponível em < https://www.youtube.com/watch?v=nq_SpRBXRmE>, acesso em 22.nov.2018.

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Um tipo de artefato que se aparenta como capa, canga, bandeira, estandarte, tenda, rede, manta, articulado aos seus suportes materiais (tecido, pano, borracha, tinta, papel, vidro, cola, plástico, corda, esteira) com peculiares tonalidades, colorimétrica, formatos, texturas, grafismos, revelando ao expectador (que não o veste), quem é o dançarino (que revela também a si mesmo) (CÍCERO, 1993).

Com Hélio Oiticica houve

[...] “uma vontade construtiva geral” [...] a primeira característica da arte brasileira de vanguarda. [...]. O Brasil se concebe como o verdadeiro crisol em que os dados naturais ou artificiais, raciais ou culturais se mediatizam, fundem e refundem criativamente. Nessa experiência, que nos impele a ser o “país do futuro”, segundo a famosa expressão de Stefan Zweig, se encontra nossa paradoxal distinção, isto é, nossa força. (CÍCERO, 1993)

Concordando com Cícero (1993), o mérito de Hélio Oiticica, dentre tantos, é o de nos provocar a pensar em “transformar o que há de imediato na vivência cotidiana em não imediato” e “eliminar toda relação de representação e conceituação que porventura haja carregado em si a arte” desde o Brasil.

O que percebe- se a partir destas considerações sobre arte, buscando uma perspectiva pós-moderna, é que não caberia mais a explicação de mundo a partir de dualidades (arte/ expectador), mas seriam necessárias outras formas de pensar a realidade e a utopia, num convite- vida de ser parte de elaboração da prosa (o que fazemos por obrigação) e a poesia (que nos faz florescer, amar, comunicar).

No que concerne ao pensamento de Lyotard (1993) sobre estes aspectos, o saber e a cultura passaram por mudanças, (seja no entendimento do contexto enquanto pós-industrial ou como pós-moderno) e a performance daria condição aos sujeitos de se sair bem nos processos que envolvem produção de conhecimento e saber.

Por rejeitar as grandes narrativas, metanarrativas, filosofias metafísicas e qualquer outra forma de pensamento totalizante pelas relações entre tempo e espaço, pela constituição de identidades de si e nas coletividades, a pós-modernidade é perceptível, segundo Lyotard (1993).

As nuvens de elementos de linguagem, legitimadas na pós-modernidade, são apontadas por Lyotard (1993) como uma das causas do fim das metanarrativas com jogos linguísticos que são analisados sob três aspectos:

1- “[...] suas regras não possuem sua legitimação nelas mesmas, mas constituem objeto de um contrato explícito ou não entre os jogadores (o que não quer dizer todavia que estes as inventem)”; 2- “[...] na ausência de regras não existe jogo, que uma modificação, por mínima que seja, de uma regra, modifica a natureza do jogo, e que um lance ou um enunciado que não satisfaça as regras, não pertence ao jogo definido por elas”; 3- “[...] todo enunciado deve ser considerado como um ‘lance’ feito num jogo” (LYOTARD, 1993, p. 17).

Harvey (2008), porém, alerta para a possibilidade de bastar apenas ao indivíduo entender o caráter fragmentário, efêmero e caótico da pós-modernidade, bem como a retórica para dominar as intervenções, a autoridade e a autonomia sobre o saber e o conhecimento. O autor aponta que, se há algum tipo de relação entre as práticas estéticas e culturais com as experiências que mudam entre tempo e espaço, na intermediação entre o Ser e o Vir-a-Ser enquanto experiência humana, isso deve ser entendido de forma mais ampla e crítica. (p. 294) A tese de Harvey (2008) é de que houve sim uma “profunda mudança na estrutura do sentimento” e que isso se expressou a partir dos anos 1960 e se tornou hegemônica nos anos 1970 nas mudanças estilísticas relacionadas ao consumo de massa presentes na moda, na

pop arte e nas mídias e modos de vida urbanamente “gentrificada”, “happennificadas” e

dispersas.

Como exemplo de arte pós-moderna, Harvey recorre à Cindy Sherman, uma artista que nos provoca a várias interrogações em meio à plasticidade de suas fotografias: ela representa papéis? Ela representa a si mesma? Ela deseja ser o que representa? Com a ideia de que a artista representa “retratos da mesma mulher com aparências diferentes” Harvey (2008, p. 18-20) nos aponta para uma questão crucial, o posicionamento auto-referencial dos autores diante de si mesmos como sujeitos.

Outra transição relevante parte de uma lógica individualista para tribalismos, abordada por Maffesoli (1987). As tribos planetárias estariam no cerne da mudança de uma

organização da sociedade para uma organicidade da socialidade. Nesta tônica, o Indivíduo,

com identidade fechada e função na sociedade moderna, também modificou-se na socidade pós-moderna, passando a ser uma pessoa com um papel, considerando efemeridades, hedonismo ou os cinismos na convivência com os outros.

A partir de Maffesoli (1987) também pode- se refletir sobre outras concepções de agregação humana, assim como a construção do indivíduo e do sujeito para dar mais clareza ao que hoje é retomado por tribalismo, que se caracteriza por compartilhamento de sentimentos em comum, de forma gregária e empática, numa “ética da estética”, que consiste no que é compartilhado com os outros numa dada ethos, numa dada maneira de ser,

considerando um modo de existência, que ajuda a nos organizarmos dentro da socialidade (LEMOS, 2008, p.86).

Percebe- se que o contexto que ora busca- se apresentar está pautado nas relações e no movimento entre sujeito e comunidade, bem como as relações e disrupções entre estes. Para isso, considera-se importante entender construção do sujeito ao longo da história entre modernidade e pós-modernidade dialogando com Harvey (2008), Hall (1995) e outras referências.

Harvey (1989), a partir de Harbermas (1983) nos aponta que o termo “moderno” foi forjado num dito “projeto de modernidade” que visava desenvolver a ciência objetiva, a moralidade, as leis universais e a arte autônoma, nos termos da própria lógica interna destas. Pessoas trabalhando livremente e criativamente gerariam um acúmulo de conhecimento projetado para a emancipação humana e enriquecimento da vida.

O que o pensamento iluminista fez, segundo Harvey (1989), que concorda com Cassirer (1951), foi abraçar a perspectiva do progresso e da ruptura com a história e a tradição.

Na medida que ele também saudava a criatividade humana, a descoberta científica e a busca da excelência individual em nome do progresso humano, os pensadores iluministas acolheram o turbilhão da mudança e viram a transitoriedade, o fugidio e o fragmentário como condição necessária por meio da qual o projeto modernizador poderia ser realizado (HARVEY, 1989, p. 23).

Esse conceito é chave para entender que a virada entre modernidade e pós- modernidade possui raízes históricas mais profundas, buscando romper com algo estabelecido e que necessita de clareza sobre o que se está deixando para adotar uma nova perspectiva e Harbermas (1983, p. 9) é crítico em relação a estes rumos, por conta

[...] da extravagante expectativa de que as artes e as ciências iriam promover, não somente o controle das forças naturais, como também a compreensão do mundo e do eu, o progresso moral, a justiça das instituições e até a felicidade dos seres humanos.

Não obstante, é necessário retomar que, no Século XX, o que acompanhou- se foi uma busca de emancipação e libertação humana, como base do preceito iluminista, sucumbindo em meio à contradição da morte em campos de concentração, militarismo exacerbado, duas guerras mundiais e ameaça de aniquilação nuclear como expressão da “destruição criativa” da modernidade.

instrumental não levaria a humanidade à concretude da liberdade universal, mas à concepção de uma “jaula de ferro”11

enquanto metáfora da racionalidade burocrática, da qual não haveria escapatória. Sobre a possibilidade de resistência às estruturas repressivas de uma racionalidade burocrático- técnica, Harvey (1989, p. 50) assevera que Foucalt (1972, p. 159) faz eco ao pessimismo Weberiano, de não conseguirmos evitar a “gaiola de ferro”, e esse conceito seria transposto ao corpo enquanto “lugar” que gravaria os registros repressivos.

Um mito que ajudaria a compreender esta dimensão “destrutivamente criativa” seria Dionísio na formação de um mundo temporal da individualização e do vir-a-ser no qual “o único caminho para a afirmação do eu era agir, manifestar a vontade, no turbilhão da criação destrutiva e da destruição criativa, mesmo que o desfecho esteja fadado à tragédia (do desenvolvimento)” (HARVEY, 1989, p. 25-26), mas outros pensamentos sobre a elaboração do conceito de sujeito são pertinentes.