2 A DEMOCRACIA COMO INCERTEZA: O PLANO DO POLÍTICO E OS DIREITOS FUNDAMENTAIS
2.2 Democracia como Incerteza, Direitos Fundamentais e Conflito
A diferença ontológica entre os planos da política e do político tem papel decisivo para quem se coloca a pensar sobre a democracia. E não será possível desenvolver o argumento deste trabalho sem exercer esse pensar, pois parece evidente que enfrentar o debate sobre a estrutura filosófica de um regime que se caracterize por ser democrático é condição necessária para darmos conta do problema da legitimidade do poder exercido por uma corte constitucional que opere em um regime assim caracterizado. Com efeito, o poder desse tipo de corte (do Supremo Tribunal Federal, no caso brasileiro) tem de ser democraticamente legítimo. Difícil negar. Mas qual o sentido que deve ostentar um regime para qualificar-se como democrático? Só é possível afirmar que o exercício da jurisdição constitucional respeita a democracia se tivermos pelo menos uma ideia geral acerca desse sentido. Não farei mais do que isso aqui, ou seja, apresentarei reflexões sobre o significado que acompanha o advento da experiência democrática. A ideia de “regime democrático”, sob esse enfoque, não deixará de exercer uma espécie de função regulativa. Em outras palavras, o tipo de legitimidade a ser exigido do Supremo Tribunal, quando no exercício de controle de constitucionalidade de leis e políticas públicas, deve ser compatível com alguma ideia sobre a democracia, que assim funcionará como um quadro referencial normativo. Novamente: não farei mais do que apresentar essa visão geral e abstrata do sentido do democrático (que nada mais é do que “pensar o político” em sua forma democrática). Até porque é essa mesma ideia geral – inspirada em Claude Lefort – que dá base para a construção da “legitimidade por reflexividade” por Pierre Rosanvallon. A obra de Lefort fornece, de fato, uma chave adequada para alcançar essa noção filosófica geral de democracia, na medida em que a intenção do autor é precisamente pensar, comparativamente, entre regimes amplos de governo. Para lhe sermos mais fiéis, diríamos que seu trabalho consiste em comparar amplas “formas de sociedade”, para assim perscrutar o “enigma” que configura a democracia. No caso da forma de sociedade democrática, ela é trabalhada, notadamente, em oposição à forma totalitária do social.
Apresentada a intenção do capítulo, é preciso deixar bem marcado que, ao aceitarmos o político como instituinte do social, pensá-lo (o político) deve nos indicar alguma coisa sobre a forma das sociedades que contemporaneamente assumem um figurino democrático. Por isso que Lefort faz equivaler o “repensar o político em nosso tempo” com as suas reflexões sobre, em seus termos, a “aventura” que representa o advento da democracia. Como adiantado, o seu pensamento procede sempre por comparação. Creio, aliás, que essa forma de trabalhar é um indicativo da impossibilidade de nos situarmos em uma espécie de “ponto arquimediano” a partir do qual pudéssemos erigir “pensamentos de sobrevoo”. Não há, na obra lefortiana, uma “fora de” quando se trata do político. Enfim, o autor utiliza como estratégia, para buscar o sentido do democrático, a análise do totalitarismo. Este, em Lefort, tanto na sua variante fascista, quanto naquela dita “socialista”, coloca-nos em posição de reinterrogar a democracia. Isso porque a empresa totalitária surge de uma mutação política – mutação de ordem simbólica100 – que atesta uma alteração de estatuto do poder. É um partido político que, no plano dos fatos, eleva-se como portador das aspirações do povo e detentor de uma legitimidade que o coloca acima das leis; toma o poder destruindo oposições e não presta contas a ninguém, furtando-se a todo controle legal. Esses os traços do totalitarismo mais característicos, que levam a uma condensação entre as esferas do poder, da lei (do Direito) e do saber (do conhecimento).101
Essa condensação de esferas é fundamental para a compreensão. Ela levará à afirmação, mais adiante, de que o Direito – ainda que referido “ao político” – precisa manter-se onticamente autônomo, apartado do poder, como condição necessária para a sustentação de qualquer democracia. Mas tratar disso agora seria adiantar um ponto importante do argumento. Neste momento, retenhamos que o dispositivo totalitário opera de maneira a gerar uma representação do “povo-Uno”. Fundamenta-se em uma negativa de aceitação da inerente divisão social, do conflito constitutivo da sociedade.
100 A noção de “simbólico” em Lefort, conforme já sugerido, será tratada em capítulo específico, subsequente a este.
101 LEFORT, Claude. A questão da democracia. In: LEFORT, Claude. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Trad. Eliana M. Souza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 27. Devo salientar que Lefort, embora tenha no totalitarismo um fenômeno em si, ele escreve privilegiadamente em face do regime totalitário stalinista. Não é nossa intenção, por óbvio, desenvolver detalhadamente as características desse ou de qualquer outro totalitarismo. Um livro que dá uma boa dimensão do pensar lefortiano sobre o assunto é: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011.
A divisão se operaria apenas entre “povo e seus inimigos” ou entre “interior e exterior”, pois esse regime de força carrega consigo o princípio de uma homogeneidade e de uma transparência para si. Como argumenta Lefort, eis o paradoxo do fenômeno: “a divisão é denegada [denegada porque uma nova camada dominante se distingue, um aparelho de Estado se destaca] e, na medida dessa denegação, se vê fantasticamente afirmada a divisão entre o povo-Uno e o Outro”. O “Outro” é alguém situado “fora” do regime. A constituição do “povo-Uno” depende, aliás, da construção incessante de inimigos, porquanto o que está em causa é sempre a integridade do corpo. Na ideologia totalitária (expressão utilizada por Lefort), a representação do “povo-Uno” não está em contradição com a do partido. Aliás, há aí uma espécie de encadeamento da representação, como acentua o autor: “identificação do povo com o proletariado,102 do proletariado com o partido, do partido com a direção, da direção com o Egocrata.103 A todo momento um órgão é, ao mesmo tempo, o todo e a parte destacada que faz o todo, que o institui”.104 E é essa lógica da identificação regulada pela imagem de um corpo que explica a condensação – poder/Direito/saber – anunciada acima.
Isso significa que, no regime totalitário, “o conhecimento dos fins últimos da sociedade – das normas que regem as práticas sociais – torna-se propriedade do poder, ao passo que esse poder mostra-se como órgão de um discurso que enuncia o real enquanto tal”.105 O poder, pois, apropria-se da lei e do saber. Incorpora-os, produzindo “uma espécie de positivização da lei manifesta na intensa atividade legislativa, jurídica, a serviço do Estado totalitário e uma espécie de positivização do conhecimento, manifesta na intensa atividade ideológica”. O papel da ideologia no totalitarismo – tal qual apanha Lefort – é operar como um tipo de “empreendimento fantástico”, que visaria a fornecer um fundamento último do conhecimento em todos os campos. Precisamente por conta dessas circunstâncias, então, é que o totalitarismo é visto pelo filósofo político francês como “o acontecimento maior do nosso tempo”, pois nos obrigaria a sondar a natureza das sociedades modernas. O Estado totalitário, no pensamento lefortiano, só pode ser concebido se relacionado à
102 Lefort fala aqui, mais especificamente, do totalitarismo stalinista, cujo modelo serve para pensar os demais.
103 A conhecida expressão de Alexander Soljenítsin é tomada emprestada por Lefort.
104 LEFORT, Claude. A imagem do corpo e o totalitarismo. In: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 145-147.
105 LEFORT, Claude. A questão da democracia. In: LEFORT, Claude. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Trad. Eliana M. Souza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 28.
democracia e suas ambiguidades. “Nele, a democracia encontra uma potência adversa, mas que ela carrega também dentro de si mesma”. Em outras palavras, é a partir da refutação que o totalitarismo faz da democracia que as virtudes e características desta se desvelam; ou, se quisermos empregar os termos do autor, é a partir da experiência totalitária que a democracia “atualiza as representações que ela contém virtualmente”. O totalitarismo, enfim, confere sentido à “invenção democrática”.106
Se assim o é, podemos assumir, desde logo, não ser cabível reduzir a democracia a um simples sistema de instituições. Parece agora, a propósito, fazer ainda mais sentido caracterizá-la como “forma de sociedade” ou “regime” (no significado destacado no capítulo anterior). E para sermos mais fiéis ao que postula Claude Lefort, é preciso dizer que ela (a democracia) está em oposição, enquanto
mise en forme, não apenas ao totalitarismo, mas também às monarquias absolutistas
do Antigo Regime, nas quais “a sociedade representava para si sua unidade, sua identidade como a de um corpo – corpo que encontrava sua figuração no corpo do rei, ou melhor, se identificava com este, enquanto ele se ligava como à sua cabeça”. Essa “matriz simbólica” foi elaborada na Idade Média, sendo, pois, de origem teológico- política: “a imagem do corpo do rei como corpo duplo, ao mesmo tempo mortal e imortal, individual e coletivo, escorou-se, primeiramente, sobre a do Cristo”.107 O Antigo Regime, na interpretação que dele faz Lefort, seria composto de um infinito número de pequenos corpos que, para além de fornecerem aos indivíduos suas referências identificadoras, deveriam organizar-se no seio de um grande corpo imaginário do qual o corpo do rei figuraria como réplica garantidora da integridade do regime. No entanto, à diferença do que se passa com o partido ou o Egocrata no totalitarismo, o monarca (rei ou príncipe) do ancien régime, apesar de condensar em sua pessoa o princípio do poder, o princípio da lei e o princípio do saber, deveria supostamente obedecer a um poder superior; “dizia-se, ao mesmo tempo, desligado das leis e submetido à lei, pai e filho da justiça; detinha a sabedoria mas estava
106 LEFORT, Claude. Prefácio à edição de 1981. In: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 34-35.
107 LEFORT, Claude. A imagem do corpo e o totalitarismo. In: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 149. Vide, para aprofundamento no tema, o estudo clássico de Ernst Kantorowicz: KANTOROWICZ, Ernst H. Os dois corpos do rei: um estudo sobre teologia política medieval. Trad. Cid Knipel Moreira. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
submetido à razão”. Seja como for, o fato é que a revolução democrática explode “quando o corpo do rei se encontra destruído, quando cai a cabeça do corpo político, quando, simultaneamente, a corporeidade do social se dissolve”.108
De maneira similar, portanto, ao papel que confere ao totalitarismo, Lefort entende ser de certa maneira impossível conceber as principais virtualidades da democracia sem um exercício comparativo em face do sistema monárquico do Antigo Regime.109 A singularidade da “invenção democrática” só se tornaria plenamente sensível com essa comparação acerca do estatuto (simbólico) do poder em cada regime. Embora na monarquia o poder do príncipe não fosse ilimitado, ele não deixava de figurar em uma espécie de mediador entre os homens e os deuses, ou, sob o efeito da secularização e do laicismo da atividade política, um mediador entre os homens e as instâncias transcendentes figuradas por uma razão soberana ou por uma justiça soberana. Submetido à lei e ao mesmo tempo acima desta, seu poder indicava – e isto é importante – um polo que repousava sobre um fundamento absoluto, incondicionado, fornecendo os princípios de geração e de ordem da sociedade, ao mesmo tempo em que seu corpo figurava a unidade substancial do reino. Em uma palavra: o poder do príncipe dava corpo à sociedade.
À vista, então, desse modelo de regime é que podemos identificar o traço revolucionário e sem precedentes da democracia: o lugar do poder torna-se um lugar
vazio. Eis aí uma das metáforas mais iluminadoras de Lefort. E representa o fato de
que – independentemente das minúcias dos arranjos institucionais (que são estudadas no plano da ciência política) – o poder, agora, é inapreensível. Mantendo- se vazio, só pode ser exercido por meio de procedimentos (protegidos pelo Direito) que possibilitem reajustes periódicos, a impedir que os governantes deles se
108 LEFORT, op. cit., p. 150-152.
109 O autor resume bem a posição que confere à antiga monarquia no seu argumento: “[...] A singularidade da democracia só se torna plenamente sensível quando se traz à memória o significado do sistema monárquico sob o Antigo Regime. Na verdade, não se trata de voltarmos a algo esquecido, mas sim de recolocar no centro da reflexão o que foi ignorado em razão de uma perda do sentido do político. Com efeito, é no quadro da monarquia, de uma monarquia do tipo particular, desenvolvendo-se originariamente dentro de uma matriz teológico-política, fornecendo ao princípe um poderio soberano dentro dos limites de um território, tornando-o, ao mesmo tempo uma instância secular e um representante de Deus, que se esboçaram os traços do Estado e da nação, e uma primeira separação entre a sociedade civil e o Estado. Longe de se reduzir a uma instituição superestrutural, cuja função derivaria da natureza do modo de produção, a monarquia, por sua obra de nivelamento e de unificação do campo social e, simultaneamente, por sua inscrição nesse campo, tornou possível o desenvolvimento de relações mercantis e um modo de racionalização das atividades que condicionaram a emergência do capitalismo”. LEFORT, Claude. A questão da democracia. In: LEFORT, Claude. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Trad. Eliana M. Souza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 31-32.
apropriem, incorporem-no. Permanece, contudo, infigurável. Ninguém é consubstancial ao poder. Tornam-se visíveis apenas os mecanismos de seu exercício e os homens – simples mortais – que detêm a autoridade política momentânea.110
A implicação mais clara dessa mudança de estatuto do poder é um desintrincamento entre as esferas do poder, do Direito (lei) e do conhecimento (saber). Na exata medida em que o poder deixa de manifestar o princípio gerador e organizador do corpo social, não mais condensando em si as virtudes de uma justiça e de uma razão transcendentes, “o Direito e o saber afirmam-se, face ao poder, através de uma exterioridade e de uma irredutibilidade novas”. As consequências disso são muito importantes, inclusive para o argumento deste trabalho. Uma vez que o poder, em sua materialidade, dissipa-se, uma vez que seu exercício se apresenta temporalmente limitado e subordinado ao conflito das vontades coletivas, a autonomia do Direito brota, mas – o que é marcante e muitas vezes despercebido – esta não consegue fixar-lhe a essência (do Direito). A dimensão de um devir do Direito então se manifesta na democracia, repousando em um debate contínuo sobre seu fundamento e sobre a legitimidade do que é (e deve ser) estabelecido. Processo semelhante ocorre com o saber. A sua autonomia “vai de par com um remanejamento contínuo do juízo crítico acerca dos conhecimentos e uma interrogação sobre os fundamentos da verdade”.111 Ora, isso tudo é precisamente o que o paradigma pós- fundacionalista está a nos mostrar: a impossibilidade de um fundamento último. Essa característica – além das próprias autonomias do Direito e do saber – é essencial para a manutenção do regime democrático. Não parece arriscado afirmar que a democracia – regime em que o poder está constantemente em busca do seu fundamento – é por excelência a forma de sociedade do paradigma pós-fundacionalista.
Daí que, em Lefort, o reconhecimento político dos direitos humanos não seja um tema qualquer.112 Tais direitos estão em uma relação umbilical com a democracia,
110 LEFORT, Claude. A questão da democracia. In: LEFORT, Claude. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Trad. Eliana M. Souza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 32. Esse enunciado do “poder como lugar vazio” será explorado em mais detalhes quando abordada, no capítulo seguinte, a questão do “simbólico”.
111 LEFORT, Claude. A questão da democracia. In: LEFORT, Claude. Pensando o político: ensaios sobre democracia, revolução e liberdade. Trad. Eliana M. Souza. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 1991. p. 33.
112 É bom referir, desde logo, que não desconheço a diferenciação comumente feita pela literatura jurídica entre direitos “do homem” (não escritos), “humanos” (positivados em instrumentos de direito internacional) e “fundamentais” (inscritos em textos constitucionais). Todavia essas expressões serão utilizadas de maneira indistinta aqui. Todas referidas à positivação pelo poder (seja em uma Constituição, seja em um tratado internacional) dos direitos reconhecidamente mais importantes
marcando, também eles, a mutação do político de que falávamos. Andam, portanto, de par com o fenômeno da desincorporação (do poder, do Direito e do saber). Aliás, mais importante para caracterizar a democracia do que a relação de autonomia entre essas esferas, é a circunstância de que a dissociação, notadamente, das instâncias do poder e do Direito – de algum modo já presente desde o princípio do Estado monárquico113 – qualifica-se pelo próprio fenômeno da desincorporação, acompanhado do desaparecimento do “corpo do rei”. Isso não significa que o poder se torne estranho ao Direito. Essas esferas, desintrincadas, articulam-se entre si, de maneira que a legitimidade do poder não pode ser construída sem recorrer ao Direito. O poder “torna-se mais que nunca o objeto do discurso jurídico e, da mesma maneira, sua racionalidade é mais que nunca examinada”. No entanto, não é possível pretender que o Direito ofereça um fundamento absoluto, imutável ao poder. Estamos no paradigma pós-fundacionalista. O poder, a lei e o saber, desincorporados. Doravante, então, “a noção de direitos do homem dá sinal em direção a um foco indomável; nele o direito vem figurar vis-à-vis do poder uma exterioridade indelével”.114
É, portanto, todo um outro modo de exterioridade do Direito (e dos direitos fundamentais) em relação ao poder que se instaura com a mutação do político. Já observamos que, na monarquia, o príncipe precisava respeitar direitos, os quais se enraizavam em uma espécie de pacto passado cuja memória ele não tinha a faculdade de abolir. Mas esse pacto de reconhecimento de direitos submetia o príncipe apenas porque se conformava a sua própria natureza, como por um exercício de liberdade sua. Havia, portanto, uma relação de consubstancialidade entre a pessoa do príncipe
das pessoas. É como faz Claude Lefort. A propósito, o mais relevante a registrar é que autor constrói sua concepção sobre a natureza e a função dos direitos humanos (ou, sinonimamente, direitos “do homem” ou “fundamentais”) em contraposição a Marx. Ele nega a visão de que os direitos humanos corresponderiam a uma espécie de véu ideológico que operaria uma racionalização das relações injustas de propriedade e de força. No interior do pensamento lefortiano, “esses direitos já não parecem mais formais, destinados a acobertar um sistema de dominação, mas vemos investir-se neles uma luta real contra a opressão. [...] Do mesmo modo, o que deveria suscitar nossas críticas não é tanto o que Marx lê nos direitos do homem, mas o que ele é impotente para aí descobrir. Com efeito, Marx cai e nos joga numa armadilha que em outras ocasiões e para outros fins foi bastante hábil em demonstrar: a da ideologia. Deixa-se aprisionar pela versão ideológica dos direitos, sem examinar o que significam na prática, que reviravolta fazem na vida social. E, por isso, torna-se cego ao que no próprio texto da Declaração aparece à margem da ideologia.” LEFORT, Claude. Direitos do homem e política. In: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 60 e 67.
113 Relembremos aqui que o poder do príncipe não era despótico. Tinha uma relação, se não de respeito, pelo menos ambígua com a lei.
114 LEFORT, Claude. Direitos do homem e política. In: LEFORT, Claude. A invenção democrática: os limites da dominação totalitária. Trad. Isabel Loureiro; Maria Leonor Loureiro. Belo Horizonte: Autêntica, 2011. p. 62.
e o Direito, de forma que o seu poder, de fato, desconhecia limites. Ocorre que, com a mutação do político, um novo ancoradouro para o Direito é fixado. Não mais uma justiça transcendente incorporada à pessoa do príncipe, mas agora “o homem” vem a ser o seu porto, positivado, inclusive, em Constituições escritas. Mas o que poderia significar “o homem” como ancoradouro do Direito nas democracias? Em Lefort, isso