3. DEMOCRACIA E ESFERA PÚBLICA
3.4 DEMOCRACIA DIGITAL
Dentre as práticas de governo que aliam participação cidadã e cidadania, que utilizam ferramentas tecnológicas digitais, destacam-se as ações do gabinete digital, tendo como notável caso de implantação de um experiência de democracia digital, o governo do Estado do Rio Grande do Sul. A iniciativa foi reconhecida com prêmios nacionais e internacionais7, e tornou-se referência no Brasil para ações de e-governo. Para Wu (2013), a
nova forma de gestão pode ser definida da seguinte maneira:
O Gabinete Digital é um ambiente público de debates, empenhado na construção de relações de novo tipo entre Estado e sociedade. Mais do que um conjunto de instrumentais tecnológicos de participação, busca afirmar-se enquanto uma estrutura inovadora que pretende aumentar a porosidade do Estado e fazer ecoar nas pesadas estruturas do Poder Executivo estadual, um pouco das sonoridades multíssonas que animam o canto colorido das ruas, praças e redes do século XXI (WU, 2013, p.13).
Conforme o relato de Wu (2013), que foi o coordenador-geral do gabinete digital do Rio Grande do Sul, foram realizadas diversas audiências públicas digitais que tinham o intuito de promover o debate sobre vários temas relevantes para a sociedade, através de alguns canais de participação cidadã criado para atender as demandas do projeto. Com a utilização das ferramentas “Governador Responde” e “Governador Pergunta”, foi realizada uma grande audiência pública digital que conseguiu mobilizar mais de 100 mil pessoas e obteve 220 mil votos com as diversas discussões.
A participação social tem um papel fundamental na teoria democrática no contexto da política contemporânea, principalmente com a chamada crise da democracia representativa liberal moderna, na qual há uma crítica sobre a falta de representação efetiva dos representantes para com os seus eleitores e também pela grande autonomia e opacidade na execução das ações dos governantes que não prestam contas com a sociedade (AGGIO; SAMPAIO, 2013). Outros autores (BOBBIO, 1997; GOMES, 2010) discordam dessa visão de “crise” da democracia e consideram que a falta de participação política dos cidadãos, está associada a questão educacionais e culturais, conforme destaca Aggio e Sampaio (2013).
Para Silva (2005), “nas variações do debate sobre democracia digital, o que está em jogo é a busca de maior participação da esfera civil nos processos de produção de decisão politica.” (AGGIO; SAMPAIO, 2013, p. 454). A efetivação de uma democracia direta,
reclamações sem burocracia (BRASIL, 2015). 7
Os prêmios mencionados são: Prêmio Conip de Excelência em Inovação na Gestão Pública, concedido pelo Instituto de Estudos de Tecnologias para Inovação na Gestão Pública (ITIP); Prêmio A Rede 2011, concedido pela Revista A REDE; Prêmio TI & Governo 2011, concedido por Plano Editorial; Prêmio e-gov de excelência em Governo eletrônico, concedido pela Associação Brasileira de Entidades Estaduais de TIC (ABEP) e Prêmio Bank Beneficiary Feedback Awards, concedido pelo Instituto do Banco Mundial, Prêmio Puntogov da Red Gobierno Abierto (COCCO, org., 2013)
dependeria do nível/grau de participação popular através da utilização de tecnologias da informação e comunicação (TIC’s). Nesse sentido, Silva (2005, apud GOMES, 2004) destaca cinco níveis de participação popular que utilizam as TIC’s no contexto das diversas visões sobre democracia.
O primeiro grau de democracia digital é caracterizado pela disponibilidade e informação e na prestação de serviços públicos, então as TIC’s possuem o papel de otimizar a circulação de informações e melhorar a prestação de serviços públicos, em um processo de transmissão de informação “alicerçado em um fluxo de interação predominantemente de mão única: o governo disponibiliza informações ou torna a prestação de serviços mais eficiente, através do emprego dessas tecnologias da informação” (Ibid, 2005, p. 454). Existe um papel ativo do governante em transmitir a informação e um papel passivo do cidadão de esperar a informação que será partilhada sobre saúde, segurança, educação, entre outros.
Já o segundo grau de democracia digital, apesar de se assemelhar ao primeiro com o viés de transmissão de informação somente por um lado, neste caso a utilização das TIC’s são utilizadas para a obtenção de informações dos cidadãos que vão contribuir para a visualização da opinião pública, que vai ajudar o governante durante a tomada de decisões. Então apesar de haver um canal de comunicação no qual existe um retorno de informação do cidadão para o governante, o primeiro ainda se mantém passivo e não há diálogo entre ambos.
O terceiro grau é regido pelos princípios de transparência e prestação contas em um sentido de publicidade mais efetiva e comprometida com a transparência das informações da gestão pública e com menos ênfase na formação de opinião pública. Nesse caso, a decisão sobre a gestão ainda continua sob a esfera politica.
Em sequência, o quarto grau da democracia digital se refere a uma democracia deliberativa, que “consiste na criação de processos e mecanismos de discussão, visando o convencimento mútuo para se chegar a uma decisão política tomada pelo próprio público, definindo práticas mais sofisticadas de participação democrática” (SILVA, 2005, apud GOMES, 2004, p. 456), sendo considerado como o enfoque em que a participação social mais se efetiva no processo de decisão política, através da inserção da esfera civil na esfera política. Por fim, o quinto grau de democracia digital é considerado como o ideal na esfera da participação civil nas decisões políticas, sendo necessária uma mudança no modelo democrático para a sua viabilização. Segundo Gomes:
Neste último grau, as TICs teriam uma função fundamental: retomar o antigo ideal da democracia direta 7 . Embora o quarto grau também defenda um fim mais ou menos similar – o aumento da participação direta da esfera civil na produção da decisão política – ele se preocupará com os processos de deliberação 8 , mantendo a esfera política em seu papel de representatividade. No caso específico deste quinto grau, embora também possa haver processos de deliberação (no sentido de discussão racional), a tomada de decisão não passa por uma esfera política representativa: a esfera civil ocupa o lugar da esfera política na produção da decisão. A ênfase aqui está no fato de que só argumentar não seria suficiente: é preciso deixar que o povo
decida. Isto significaria “um estado governado por plebiscito” (GOMES, 2004b, p. 6). Numa democracia digital de quinto grau, prevalece a idéia de que, com as possibilidades interativas em massa das novas tecnologias da comunicação, a decisão deveria estar assim transferida diretamente para a esfera civil. (SILVA, 2005,
apud GOMES, 2004, p. 457)
4. ANÁLISE DA TRANSPARÊNCIA DOS PORTAIS ELETRÔNICOS DOS