3. DEMOCRACIA E ESFERA PÚBLICA
3.2 DEMOCRACIA E TRANSPARÊNCIA
Zepeda (2008) citando Bobbio (1986), fala que além do poder vísivel que é um pressuposto do ideal de uma sociedade democrática, existe um poder oculto paralelo, e que a democracia não tem dado conta de eliminar, considerado como “poder invisível”, e que acaba por ameaçar os governos democráticos:
Com realismo crítico, Bobbio registra que , frente ao ideal democrático do poder visível se tem desenvolvido formas que o ameaçam: o subgoverno (poder econômico que gravita em torno das decisões e atos do governo, manipulando-o na busca de favorecer os poderes de fato), o criptogoverno (poder político de fato baseado nos aparatos de inteligência e contra-espionagem, sempre inclinados a apropriar-se de todo controle legal e visibilidade pública) e o poder omnividente (a capacidade do poder político para observar so dados e atos particulares e privados da população. (ZEPEDA, 2008, p. 45)
É justamente sobre a questão da força do poder invisível nas democracias, que segundo Bobbio paira o espectro de sua derrocada, e por esse motivo o autor vê a necessidade da transparência nas ações de estado, com o intuito de fortalecer os governos democráticos, segundo suas palavras: “Nenhum déspota da Antiguidade, nenhum monarca absoluto da Idade Moderna, nem que estivesse rodeado de mil espiões, conseguiu ter toda a informação sobre seus súditos que o mais democrático dos governos pode obter do uso dos cérebros eletrônicos.” (ZEPEDA, 2008 apud BOBBIO, 1986, p. 45). A velha pergunta que é recorrente em toda história do pensamento político: “quem cuida dos cuidadores”, hoje pode ser repetida com a seguinte pergunta: Quem controla os controladores?” (Ibid, p. 45).
Ainda sobre análise de Bobbio referente ao poder invisível, Zepeda (2008) afirma que:
Apesar do diagnóstico, Bobbio assinala que a virtude da democracia em relação a estes fenômenos reside na sua capacidade de manter-los como exceção e não como regra, e que portanto, o ideal de visibilidade do governo segue animando as intenções de controle democrático destes fenômenos ilegítimos e alérgicos a supervisão e a responsabilidade públicas.” (ZEPPEDA, 2008, p. 45)
Por isso a ligação entre democracia e a transparência dos atos de governo, juntos formam uma dupla importante para as intenções de controle democrático do Estado. Fazendo assim com que a participação da sociedade nas decisões políticas tenha influencia na vida do povo. Segundo Bobbio: “Com um aparente jogo de palavras, pode-se definir o governo da democracia como o governo do poder público em público” (BOBBIO, 1986, p. 84).
Outro autor que fez a ligação entre transparência de governo e democracia através da razão pública foi Habbermas: “Em uma democracia que mereça este nome, os processos de formação da vontade política institucionalizados juridicamente [...] tem que estar retro- alimentativamente conectados com, e permanecer porosos, a formação de uma opinião pública informalmente articulada, o mais argumentativamente possível”. (ZEPEDA, 2008, p. 45).
Expresso de uma maneira mais simples, só com uma sociedade civil independente e capaz o suficiente para apresentar de maneira clara seus argumentos e que mantenha uma relação perene com o sistema institucional, é que uma democracia verdadeira pode existir. Em sistemas democráticos, construídos sobre a égide de direitos sociais, civis e políticos, são os direitos políticos que definem de maneira principal este caráter democrático (Ibid, 2008).
Habbermas destaca a importância dos direitos políticos, por expressarem a opinião e a decisão do povo, destacando que só podem exercer-se de maneira adequada se existir uma esfera pública de discussão e argumentação, aberta a todo mundo, que converta em argumentos válidos os pontos de vista que são submetidos a esta esfera e cumpram com seus requisitos:
Foi Habermas que construiu o sistema mais amplo e exaustivo na história da filosofia e na teoria social para dar conta destas condições de diálogo e debate político que fazem possível a democracia genuína. Sua teoria foi denominada “ética ou teoria do discurso” e é centrada na determinação da natureza e condições dos argumentos que fazem possível uma comunicação política plena como base da vida democrática. Para Habermas, um discurso ou debate é um ato linguístico ao que concorrem vários participantes, cada um com visões diferentes e contra-postas, e cada um com a ideia de que seu argumento é válido. O relevante deste ato de discurso ou debate é que se ajuste a regras determinadas na perspectiva de conceder validez as pretensões de quem participa na discussão. (ZEPEDA apud HABERMAS, 2008, p. 46).
Temos que os argumentos possuem um peso relevante, sendo o único capaz de estabelecer uma pressão aceitável nesse processo de diálogo, e para que haja uma situação
ideal de discurso é necessário haver condições de igualdade democrática, utilizando o critério de justificação racional dos argumentos (ZEPEDA, 2008, p.47).
O padrão ético da discussão pública nos circuitos de poder e na esfera pública fundamenta e legitima esse modelo dialógico. Essa ética discursiva “inclui tanto a rejeição ao sigilo governamental, como o simbolizado pelos arcana imprerii e a razão de Estado, como a justificação da necessidade de um certo nível de capacidades discursivas da cidadania como condição de possibilidade do exercício de seus direitos de participação democrática.” (Ibid). Zepeda (2008) fala ainda sobre a rejeição aos sujeitos autoritários que pronunciam os argumentos de conveniência e verdade que lhe convém:
É uma objeção, por um lado, dos monólogos dos sujeitos autoritários do poder, segundo os quais a verdade é só o que a eles convém (argumento de conveniência) e por que eles o dizem (argumento de autoridade), e por outro, uma reinvidicação de que a verdade sobre as questões sociais só podem ser o resultado de um diálogo racional, includente, democrático e livre de pressões (ZEPEDA, 2008, p. 47).
O papel da esfera pública é fundamental como espaço que possibilita a discussão dialógica entre os indivíduos. Para a compreensão dessa noção de esfera pública e suas especificidades, as ideias do Habermas são mostradas na sua obra “Mudança estrutural da esfera pública” e em “Direito e democracia”.
Quadro 11 – Comparação das concepções Habermasianas sobre a esfera pública Abordagem quanto ao (as) Mudança Estrutural da
Esfera Pública
Direito e Democracia
Conceito Domínio social das discussões em
que os cidadãos privados se engajam quando reunidos em público.
Domínio social em que os fluxos de comunicação, provenientes dos contextos da vida concreta de atores sociais, individuais ou coletivos, são condensados e filtrados como questões, indagações e contribuições, firmando-se ao redor do centro do sistema político como força tendente a influenciá-lo de modo favorável à esfera civil.
Público A burguesia é parte de uma
engrenagem historicamente dada, por meio da qual se busca assegurar a autonomia privada dos indivíduos privados contra o Estado autoritário.
A burguesia não tem mais sobre os seus ombroso peso das obrigações de um reconstrução histórica da esfera pública liberal.
Características fundamentais Privacidade. Discursividade. Discutibilidade. Publicidade. Esfera civil. Discursividade. Discutibilidade. Publicidade. Fonte: adaptado de Amorim (2012, p.43)
algumas mudanças conceituais entre a Mudança estrutural da esfera pública e Direito e Democracia, são mantidas a maioria das características fundamentais, destoando do quesito privacidade e esfera civil, alterando o enfoque liberal do primeiro para o âmbito da deliberação.
O conceito de esfera pública que é constituído por Habermas na Mudança estrutural da esfera pública, forma-se pela delimitação do espaço que pode ser considerado como público (acessível à qualquer um), contrapondo-se ao privado que é restrito. A opinião pública seria formada por um público que é o sujeito da esfera pública (BLOTTA, 2012). A opinião pública deriva do francês “opinion publique” e também da expressão em inglês “public opinion”, sendo que “a opinião pública se torna a expressão deste público judicante que se diferencia do Estado por razões econômicas, culturais e políticas e passa a fiscalizar e criticar o exercício dos poderes constituídos.” (Ibid, 2012, p. 32). Na MEEP a “esfera pública continua a ser identificada como espaço em que pessoas privadas se reúnem em um público com a especial finalidade de discutir com os governos, o alcance da regulamentação que incide sobre a esfera privada da economia [...]” (Ibid, 2012, p. 33).
Habermas (2003) fala do processo de re-funcionalização da esfera pública literária através da apropriação da esfera pública pelo público constituído pelos indivíduos conscientizados. Sobre essa relação da esfera pública literária com a esfera pública política:
Graças à mediação dela, esse conjunto de experiências da privacidade ligada ao público também ingressa na esfera pública política. A representação dos interesses de uma esfera privatizada da economia de trocas, é interpretada com a ajuda de idéias que brotaram do solo da intimidade da pequena-família: a “humanidade” tem aí o seu local genuíno e não, como corresponderia a seu modo grego, na própria esfera pública. […] A tarefa da esfera pública burguesa é a regulamentação da sociedade civil. (HABERMAS, 2003, p. 69)
A relação entre a esfera pública literária e a esfera pública política se assemelha a mesma relação feita por Habermas posteriormente à MEEP nos debates sobre o “mundo da vida” e o “discurso”. (BLOTTA, 2012). Esse destaque da esfera pública política da esfera literária se deu pela alteração da natureza da dominação política “ao acrescentar a legalidade das leis a exigência de sua legitimidade, isto é, passa a se formar a partir da esfera pública o fino equilíbrio entre autonomia individual e autonomia política característico do direito moderno.”
Para Habermas (1997) a esfera pública é um fenômeno social elementar, no entanto esse conceito não é considerado junto aqueles que possuem a função de descrever a ordem social. A esfera ou espaço público pode ser descrito então como:
uma rede adequada para a comunicação de conteúdos, tomadas de posições e opiniões; nela os fluxos são comunicacionais são filtrados e sintetizados, a ponto de se
condensarem em opiniões públicas enfeixadas em temas específicos. […] a esfera pública se reproduz através do agir comunicativo, implicando apenas o domínio de uma linguagem natural; ela está em sintonia com a compreensibilidade geral da prática comunicativa cotidiana. […] A esfera pública constitui principalmente uma estrutura comunicacional do agir orientado pelo entendimento, a qual tem a ver com o espaço social gerado no agir comunicativo, não com as funções, nem com os conteúdos da comunicação cotidiana. (HABERMAS, 1997, p. 92).