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3. DEMOCRACIA E ESFERA PÚBLICA

3.3 ESFERA PÚBLICA MIDIATIZADA

Com o avanço tecnológico e o uso das tecnologias da informação e comunicação (TIC's) nos processos sociais, temos um contexto de midiatização da sociedade que devemos levar em conta no debate sobre a constituição de um conceito de esfera pública midiatizada. A sociedade contemporânea está inserida em uma lógica da midiatização e tende à um processo de virtualização das relações humanas, “presente na articulação do múltiplo funcionamento institucional e de determinadas pautas individuais de conduta com as tecnologias da comunicação” (SODRE, 2000, p. 3), considerando-as como tecnomediações setoriais.

É importante diferenciar a midiatização da mediação e da interação. As mediações simbólicas da sociedade estão presentes nas linguagens e leis, por exemplo. Já a midiatização é considerada por Sodre (2000) como:

uma ordem de mediações socialmente realizadas - um tipo particular de interação, portanto, a que poderíamos chamar de tecnomediações - caracterizadas por uma espécie de prótese tecnológica e mercadológica da realidade sensível, denominada medium. Trata-se de dispositivo cultural historicamente emergente no momento em que o processo da comunicação é técnica e mercadologicamente redefinido pela informação, isto é, por um produto a serviço da lei estrutural do valor, também conhecida como capital. (SODRÉ, 2000, p. 3)

Essa prótese tecnológica de que fala Sodré, é algo intrínseco aos indivíduos e aos processos sociais, como uma prótese que se agrega ao corpo se tornando uma extensão da pessoa nas relações dentro da sociedade. O horizonte comunicacional no interior das tecnomediações é a interatividade absoluta, e o conceito de mediação não recobre a totalidade do campo social (ao contrário do de mediação), e sim “o da articulação hibridizante das múltiplas instituições (formas relativamente estáveis de relações sociais comprometidas com finalidades humanas globais) com as várias organizações de mídia” (SODRE, 2000, p. 4), que são consideradas como aquelas instituições que possuem uma finalidades estritamente tecnológicas ou mercadológicas e afindas com um código semiótico específico.

A sociedade midiatizada reflete uma nova forma de organização da vida, o que Sodré (2000) chama de bios midiático, um bios específico da tecnocultura, justificada pela redefinição do espaço público burguês, sendo o quarto bios aristotélico. O primeiro é o bios do conhecimento, o segundo é o do prazer e o terceiro é da política. A mídia deixa de ser

definida como um transmissor de informações e passa a ser considerada como ambiência, uma forma de vida, ou seja, os processos técnicos midiáticos estão intrínsecos à sociedade e não apenas mediam a sociedade através dos meio, os processos são midiatizados:

A midiatização implica, assim, uma qualificação particular da vida, um novo modo de presença do sujeito no mundo ou, pensando-se na classificação aristotélica das formas de vida, um bios específico. Em sua Ética a Nicômaco, Aristóteles concebe três formas de existência humana (bios) na Polis: bios theoretikos (vida contemplativa), bios politikos (vida política) e bios apolaustikos (vida prazerosa). A midiatização pode ser pensada como um novo bios, uma espécie de quarta esfera existencial, com uma qualificação cultural própria (uma "tecnocultura"), historicamente justificada pelo imperativo de redefinição do espaço público burguês. (SODRÉ, 2000, p. 5)

Com a ampliação massiva do uso da internet para a comunicação entre as pessoas, houve uma mudança significativa na forma como se realizam as relações sociais hoje. Para Habermas (2006) a televisão promoveu uma modificação na racionalidade dos meios de comunicação em uma âmbito cognitivo, ou seja, transformando o enfoque da palavra para a imagem, e dessa forma a auto-representação que se faz da celebridade (no sentido de notoriedade) se torna mais visível do que o conteúdo que ela agrega à um evento discursivo. No mesmo sentido, mas de maneira mais intensa, a internet possibilitou a ampliação e a fragmentação da esfera pública midiática e reconfigurou as redes de comunicação, tornando a esfera pública mais includente e possibilitando um intercâmbio muito mais intenso do que nas épocas anteriores. Para Habermas (2006):

A utilização da internet simultaneamente ampliou e fragmentou os nexos de comunicação. Por isso a internet produz por um lado um efeito subversivo em regimes que dispensam um tratamento autoritário à esfera pública. Por outro lado, a interligação em redes horizontais e informalizadas de comunicação enfraquece ao mesmo tempo as conquistas das esferas públicas tradicionais, pois estas enfeixam no âmbito de comunidades políticas a atenção de um público anônimo e disperso para informações selecionadas, de modo que os cidadãos podem ao mesmo tempo se ocupar dos mesmos temas e contributos criticamente filtrados. O preço do aumento positivo do igualitarismo, com o qual a internet nos brinda, é a descentralização dos acessos a contribuições não-redigidas. Nesse meio, as contribuições de intelectuais perdem a força necessária para formar um foco (HABERMAS, O caos da Esfera Pública, 2006).

A regulamentação da transparência e do acesso à informação através da implementação da lei de acesso à informação, demonstra como os processos sociais e políticos são permeados pela midiatização, que neste caso, possui a criação de um portal eletrônico na internet para a disponibilização dos dados públicos como uma das principais obrigatoriedades regulamentadas. Ainda há mecanismo de contato pessoal para o pedido de acesso às informações públicas, através da utilização de protocolos impressos que são entregues diretamente nas instituições solicitadas, mas a organização do sistema de acesso à informação (e-SIC6) representa o estabelecimento de práticas de transparência através de

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Sistema Eletrônico do Serviço de Informações ao Cidadão (e-SIC) permite que qualquer pessoa, física ou jurídica, encaminhe pedidos de acesso à informação, acompanhe o prazo e receba a resposta da solicitação realizada para órgãos e entidades do Executivo Federal. O cidadão ainda pode entrar com recursos e apresentar

processos midiatizados.