Caminhando para o encerramento deste primeiro capítulo, é hora de questionar, a partir das referências até agora apresentadas, se realmente as Novas Tecnologias de Informação e Comunicação trazem potencial de mudança de patamar no âmbito de mobilizações sociais e políticas e no âmbito ainda mais abrangente de participação popular no debate público e nas deliberações ou se, ao
24 “La formación de la sociedad civil en América Latina en el siglo XX e inicios del XXI se dio por el acumulo de tres ondas sucesivas, que se influencian mutuamente. La primera onda está asociada a las organizaciones de asalariados, cuya principal expresión son los sindicatos de trabajadores y empleados. Otras organizaciones corporativas fueron igualmente importante actores en el espacio público, como la de los profesionales liberales y empresarios (muchas ya constituidas en el siglo XIX), y de estudiantes. La segunda onda es formada por las ONGs, que pasan a ocupar un lugar importante en el espacio público a partir de los años 1970/80, en muchos casos inicialmente relacionadas a la lucha contra las dictaduras militares y posteriormente a movimientos por derechos identitários, de derechos humanos y medio ambiente. Finalmente la tercera onda, aún en proceso de constitución, está constituida por movilizaciones que tienen en el ciberespacio un instrumento central de actuación” (SORJ, 2015, p. 13).
25 “Las transformaciones sociales causadas por la primera y la segunda onda fueron enormes y cambiaron profundamente la sociabilidad, los valores y el papel del estado en el mundo capitalista. La primera llevó a la creación del estado de bienestar social, que mismo golpeado por recortes en muchos países, introdujo el tema de la responsabilidad de la sociedade y el estado con los más desprotegidos. La segunda onda, además de diseminar los valores de los derechos humanos, de las minorías sexuales, la lucha contra el racismo y temas ambientales, tuvo en el feminismo su mayor realización, produciendo una de las revoluciones más profundas en la sociabilidad humana, que durante milenios estuvo dominada por el patriarcalismo” (SORJ, 2015, p. 42).
contrário, apenas reproduzem o quanto já identificado de elemento comum historicamente configurado desse tipo de mobilização e participação.
A ciência política já se debruçou sobre o fenômeno dos movimentos sociais ao longo da história.
Charles Tilly constatou as grandes mudanças no conjunto de meios pelos quais as pessoas faziam reivindicações coletivas na Europa Ocidental e na América do Norte entre 1750 e 1850 (2016). A partir da constatação dessas significativas mudanças, que resultaram em uma combinação distinta de “campanhas, performances e exibições”, essa nova forma de atuação política passou a ser denominada de “movimento”, sendo então objeto de suas pesquisas e investigações o modelo e as características comuns desses movimentos e dessas mobilizações sociais. Ao fornecer um levantamento histórico dos movimentos sociais de suas origens do século XVIII até o século XXI, Tilly procura responder exatamente o porquê de movimentos sociais parecerem tão assemelhados em todo o mundo e terem se tornado uma forma importante de ação política global.
Assim é que Charles Tilly identifica que os movimentos sociais emergiram de uma síntese inovadora de três elementos: 1 - um esforço público sustentado e organizado que faz reivindicações coletivas às autoridades-alvo (que denominou de “campanha”); 2 - emprego de combinações entre as seguintes formas de ação política: criação de associações e coalizões para fins especiais, reuniões públicas, procissões solenes, vigílias, comícios, manifestações, petições, declarações na mídia e panfletagem (“conjunto variável de performances do repertório do movimento social”); e 3 - representações públicas consensuadas dos participantes: dignidade, unidade, números e compromisso por parte deles próprios e/ou dos seus constituintes26.
Essa é a base comum que transparece nos movimentos sociais e nas mobilizações sociais desde o século XVIII. Charles Tilly não deixou de considerar a importância das Novas Tecnologias de Informação e Comunicação nas mobilizações
26 Embora reconhecendo a variedade de designações em diversas línguas, Charles Tilly menciona o que seria uma universalidade de conceitos para identificar o “WUNC” no contexto dos movimentos sociais e suas campanhas: “dignidade: comportamento sóbrio, roupas limpas, presença do clero, dignitários e mães com filhos; unidade: emblemas, faixas, faixas ou fantasias correspondentes, marchando em fileiras, cantando e cantando; números: contagens de cabeças, assinaturas de petições, mensagens de constituintes, preenchimento de ruas; compromisso: enfrentar o mau tempo, participação visível dos idosos e deficientes, resistência à repressão, sacrifício ostensivo, subscrição e/ou beneficio” (tradução livre) (2016, p. 5).
sociais do século XXI, fazendo essa nota distintiva ao analisar, assim como Castells, movimentos como a Primavera Árabe.
Contudo, sua conclusão é no sentido de que essas mobilizações sociais do século XXI, tão decantadas pelo uso intenso das novas tecnologias, devem ser avaliadas com cuidado e prudência:
No entanto, este capítulo também emite quatro avisos severos. 1. Evite o determinismo tecnológico; reconheça que a maioria das novas características dos movimentos sociais resulta de alterações em seus contextos sociais, econômicos e políticos, e não de inovações técnicas como tais.
2. Observe que, como durante os séculos XIX e XX, as inovações de comunicação do século XXI sempre operam de maneira bilateral: de um lado, reduzindo os custos de coordenação entre ativistas que já estão conectados uns com os outros; por outro, excluindo ainda mais definitivamente aqueles que não têm acesso aos novos meios de comunicação e, assim, aumentando a desigualdade de comunicação. 3. Lembre-se de que a maior parte da atividade do movimento social no século XXI continua a depender das formas locais, regionais e nacionais de organização que já prevaleciam durante o final do século XX.
4. Embora notando que a globalização está moldando a distribuição mundial dos movimentos sociais, evite a suposição de que o confronto entre globalização e antiglobalização agora domina a cena do movimento social.
Ignorar esses avisos o cegaria para as mudanças sociais reais que estão afetando a reivindicação coletiva em todo o mundo, bem como para a persistência de questões locais, regionais e nacionais nos movimentos sociais (TILLY; WOOD, 2016, p. 98-99).27
Essas consistentes observações não refutam a hipótese de trabalho aventada nesta tese, antes contribuem para o seu exame crítico.
Com efeito, os movimentos sociais do século XXI não são exatamente moldados, formatados e existentes por causa das NTIC; ao contrário, é perceptível que as inovações nos formatos e nas características das mobilizações sociais contemporâneas ocorrem em terreno já fértil e consolidado de mobilizações sociais de características mundialmente assemelhadas desde o século XVIII.
O que vale para as mobilizações sociais vale também para a ocupação do espaço público de debate e a participação popular nos processos deliberativos; as NTIC não inventam a democracia participativa, cuja ideia e mesmo desenvolvimento e experiência é anterior ao seu surgimento.
27 Em tradução livre.
Contudo, as NTIC proporcionam investigações que podem responder à indagação do presente trabalho: é possível que, dadas as suas potencialidades de fomento à mais rápida e eficiente participação popular consciente e apropriadora do debate público, os obstáculos à concretização da democracia participativa no Brasil sejam superados?
Com essa perspectiva, fica demonstrado o porquê da opção em trabalhar a democracia participativa no Brasil – dentro da perspectiva liberal, ou seja, como linha evolutiva prometida, mas não realizada, da democracia liberal – tendo como horizonte as NTIC.
É que, com o advento e desenvolvimento da internet e, com ela, das NTIC, pode-se falar em um “novo normal” em que as condições de sociabilidade humana – e, portanto, também as condições de exercício do poder político – perpassam a sua utilização, sob todos os aspectos.
Não é mais possível examinar as instituições da democracia (eleições periódicas, partidos políticos, liberdade de expressão e de imprensa, direito à informação, espaço público de debates, liberdades de reunião e de associação, direito de crítica e de oposição, por exemplo) sem que seja examinada a sua interface com as NTIC, no contexto da “ciberdemocracia”.
É que as instituições democráticas, nos moldes preconizados pela Constituição de 1988, não estavam preparadas para lidar com essas novas ferramentas; aliás, nem mesmo o direito que emergiu da redemocratização estava preparado para lidar com inovações tecnológicas tão intensas que causariam profundas transformações em sua estruturação e possibilidades, ao menos em tese.
Estudos sobre democracia liberal e, neles, estudos sobre democracia participativa, são intensos e profícuos em seus variados aspectos e em suas variadas dimensões, seja no direito constitucional, seja na ciência política; estudos sobre as NTIC também são profundos e diversificados, seja na perspectiva das ciências de tecnologia e informação, seja nas ciências da comunicação social, seja mesmo na ciência política.
Contudo, já são mais raros estudos que procurem efetuar a interconexão entre democracia e as NTIC, tendo o direito como elemento de ligação e a determinação constitucional de que seja efetivada a democracia participativa como norte, o que justifica a realização da presente pesquisa e aponta os seus caminhos metodológicos.