CAPÍTULO 2 – MODELOS E CLASSIFICAÇÕES DA E-DEMOCRACIA
2.1.2 Democracia Representativa
2.1.2.1 Informação
Democracia Liberal (legalista, individualista ou competitiva)
Aqui, optamos por amalgamar diferentes modelos que são próximos. Para tanto são propostas três divisões: o modelo legalista (foco nas instituições), o liberal individual (foco nos cidadãos) e o modelo liberal Schumpeteriano45 ou competitivo (foco nas elites políticas). Todos são baseados nas democracias representativas liberais modernas, centrados nos governos e instituições políticas formais, porém, enfatizam de distintos modos a atuação da esfera civil.
A primeira vertente é, geralmente, denominada legalista (VAN DIJK, 1996; 2000). Seguindo as definições de Held (1987) e Van Dijk (1996), baseia-se nos procedimentos que compõem as constituições e assume que as leis são a base da democracia. O sistema político é o julgamento de interesses e problemas heterogêneos, que são tratados pelos representantes. Logo, populismo e formas de democracia direta
44 Por exemplo: http://exame.abril.com.br/tecnologia/noticias/ativistas-pedem-democracia-digital?page=1. Acesso 22 Out. 2013.
45 Como sabemos, Joseph Schumpeter foi um dos principais defensores de um modelo mínimo de democracia. Para Schumpeter, a participação massiva é desaconselhável e mesmo perigosa, podendo ser ligada aos movimentos autoritários das décadas de 30 e 40 na Europa. Para Schumpeter, a população é incapaz de tomar decisões complexas e, no geral, não tem interesse de participar de decisões políticas. Dessa forma, o autor acredita que a democracia deve ser baseada nas disputas entre elites políticas especializadas (ou seja, que detém o conhecimento adequado para lidar com as questões complexas das decisões políticas), que se revezam no poder. A informação política acaba sendo um ponto importante no modelo, uma vez que ainda cabe à população eleger a elite política. Para mais sobre este modelo, ver Held (1987, 2006), Marques (2008), Nico (2012), Norris (2001).
são rejeitados. Enfatiza-se o equilíbrio entre os poderes (checks and balances) e os limites dos poderes das instituições e da administração pública (VAN DIJK, 1996, p. 47).
Na visão de Van Dijk, a lacuna entre governantes e cidadãos está na falta de informação de ambos os lados. O problema, nessa lógica, seria amplamente resolvido por um suprimento igualitário de informações para os executivos, os parlamentares, os partidos políticos e outros representantes. Ou seja, a ênfase proposta pelo autor está nas instituições e no sistema de controle e balanços, que seria beneficiado por informações melhor organizadas e mais abundantes pelas diferentes instituições componentes do Estado (VAN DIJK, 1996; PÄIVÄRINTA, SÆBØ, 2006).
Por sua vez, Dahlberg (2001; 2011) enfatiza o modelo liberal-individualista. “O modelo liberal-individualista abraça um conjunto de abordagens na tradição democrática que posiciona o indivíduo como um sujeito autônomo que conhece e pode expressar seus próprios interesses” (SILVA, 2005, p. 54), através do sistema político liberal.
Dessa forma, a livre transmissão de informações através das mídias digitais permite aos indivíduos adquirirem a informação que eles precisam para avaliar problemas e posicionamentos políticos de modo estratégico e racional (no sentido da escolha racional) e, em seguida, para tornarem públicos seus posicionamentos e escolhas aos representantes políticos através de sistemas agregativos (DAHLBERG, 2011). Logo, sistemas de petições on-line (como o Avaaz e Moveon), de voto on-line, de feedback e de enquetes digitais não estariam ligados à democracia participativa, mas, sim, a este modelo, uma vez que seriam modos de se transmitir o posicionamento dos diferentes cidadãos a seus representantes (ver também KAKABADSE, KAKABADSE, KOUZMIN, 2003). A participação, nesse momento, funciona como tentativa de influenciar os representantes políticos (cf. TEORELL, 2006).
Por fim, há o modelo Schumpeteriano ou competitivo. Baseado na descrição de Held (1987), Van Dijk (1996) afirma que, neste, a política é entendida como uma competição eterna de partidos e seus líderes pelo apoio dos eleitores. Nesse sentido, os melhores líderes e representantes são eleitos e eles avaliam entre si as questões e interesses, resolvendo conflitos com negociação. Esta é a solução para o problema da complexidade e para a crise do sistema político. As tecnologias de comunicação e informação seriam usadas, primordialmente, nas eleições e em campanhas informativas. O público interessado, a base eleitoral fragmentada dos líderes políticos e os partidos
deveriam ter a oportunidade de deter mais informações sobre visões, posicionamentos e comportamento eleitoral de seus líderes e representantes. Meios de registros de opinião e de conversação são usados apenas em benefício da liderança política.
Pippa Norris (2001) advoga por este modelo, que ela denomina como Schumpeteriano, entretanto, enfatiza mais o papel dos cidadãos. Como os candidatos devem competir pelos votos, é importante que os cidadãos tenham ampla informação para entender as alternativas eleitorais, para escolher seus líderes e partidos, e, também, para avaliar o desempenho daqueles que estão no poder, além de obter a capacidade de predizer a consequência de seu voto. Norris também enfatiza a transparência das decisões governamentais, nas quais deve estar claro quem é responsável pelo quê e para que se promova accountability via votação. Eleições livres e justas devem ocorrer em intervalos regulares para traduzir os votos populares em posições nos diferentes gabinetes, além de permitir a alternância de autoridades governamentais.
Trabalhando nessa perspectiva, argumenta Norris (2001), o ponto chave de avaliar o papel das tecnologias digitais para a democracia é em que medida governos e sociedade civil aprendem a usar as oportunidades promovidas pelos novos canais de informação e comunicação com o objetivo de promover e fortalecer as instituições representativas centrais, conectando cidadãos ao Estado. Nesse sentido, a participação pública e o engajamento cívico gerados pelas novas tecnologias são importantes, mas fundamental é a habilidade da internet de prover informações capazes de promover transparência, abertura e accountability das agências governamentais no nível nacional e internacional e também de fortalecer canais de comunicação interativos entre cidadãos e instituições intermediárias.
e-Transparência
A e-transparência, ou ainda, a transparência através de meios digitais, pode, para todos os fins, ser enquadrada no modelo liberal acima apresentado. Todavia, optamos por separá-la, porque a) constitui um dos valores mais acentuados da democracia liberal em estudos da e-democracia e, consequentemente, b) observa-se que já existe um campo da transparência on-line no Brasil e em estudos internacionais e c) deve-se enfatizar sua importância como parte da democracia eletrônica. Como defenderemos, posteriormente, a democracia digital se focou excessivamente nas questões de participação e
deliberação. Assim, a e-transparência, acredito, acabou por ser absorvida pelos estudos de Administração Pública e de governo eletrônico. O fato de não haver um único modelo de e-transparência nos estudos levantados pode estar ligado ao fato de não serem considerados como parte do modelo liberal ou por essa fraca adesão dentro do campo da e-democracia.
Apesar de a publicidade ser um conceito antigo e importante na democracia (AZEVEDO, 2013; BENTHAM, 2011), um novo debate surgiu forte com o advento e proliferação das tecnologias da comunicação e informação nos anos 80 a respeito da transparência mediada por tecnologias ou simplesmente e-transparência (ALMADA, 2013; MEIJER, 2009; YU, ROBINSON, 2012). Nesse sentido, segundo Silva (2009), as ferramentas digitais de comunicação têm desafiado o Estado a explorar novas formas de publicidade. Ao oferecerem portais governamentais, os governos ganhariam uma forma de se comunicar diretamente com os cidadãos, mas, simultaneamente, serviriam como repositórios abertos de informações disponíveis aos cidadãos, independente de restrições geográficas e espaciais (JAMBEIRO et al., 2010; PINHO, 2008). Silva ainda ressalta que estas informações estavam anteriormente confinadas fisicamente e longe da visão e do conhecimento (SILVA, 2009, p. 113).
Comparativamente, a transparência possibilitada pelo computador fornece às pessoas uma informação melhor, o que contribui para a racionalização da sociedade e permite que os cidadãos comuns possam fazer suas próprias avaliações e compartilhá-las com outros cidadãos, gerando dados não disponíveis anteriormente para a formulação de política e podendo aumentar a eficiência e a eficácia do sistema política (ALMADA, 2013, p. 54).
Segundo Silva (2014), existem oito argumentos principais que defendem a transparência digital, a saber: 1) a legalidade (fortalecimento de um melhor ordenamento jurídico); 2) accountability (prestação de contas dos agentes políticos); 3) deliberação pública (insumos para processos deliberativos); 4) participação política (circulação de mais informação para fomentar o engajamento político do cidadão); 5) confiança política (fortalecimento da confiança do cidadão no sistema político); 6) redução da corrupção (contribuição de forma preventiva); 7) eficiência estatal (identificação de deficiências e méritos de práticas governamentais) e 8) insumos para organizações civis (repositórios on-line para divulgação de dados governamentais que facilitam as atividades de grupos civis) (ver também ALMADA, 2013; AMORIM, 2012; AZEVEDO, 2013; HARRISON et al., 2012; MEIJER, 2009; ROBINSON et al., 2009).
A discussão da transparência digital perpassa inúmeros aspectos, como quantidade e qualidade das informações disponíveis, acessibilidade assíncrona e inteligibilidade dos dados, que inibam ou eliminem as barreiras cognitivas ao cidadão comum e que possam agir como possibilidade de constrangimentos aos representantes políticos e instituições políticas formais (MEIJER, 2009; SILVA, 2009; WELCH, 2012). Porém, não é nosso objetivo discuti-los aqui, em detalhes.
Finalmente, as iniciativas digitais capazes de promover ou proporcionar transparência podem ocorrer pela ação dos governos “quando números, dados, e estatísticas sobre o funcionamento do Estado são postos em sítios governamentais em uma linguagem que tente esclarecer essas informações técnicas de modo a torná-las mais compreensíveis ao cidadão” (ALMADA, 2013, p. 52) ou por indivíduos e grupos da esfera civil, que, muitas vezes, têm o governo como fonte, mas que tratam e decifram “os dados brutos para dispor aos demais cidadãos de modo que estes dados refinados tornem-se, então, compreensíveis para o cidadão comum” (ALMADA, 2013, p. 53).
Neste modelo, também se pode localizar grande parte dos estudos e reflexões acerca do governo aberto. Como já dito, apesar do mesmo enfatizar diferentes valores (participação, colaboração e transparência), boa parte da ideia de abertura do Estado está relacionada à abertura de dados estatais, assim como regras, princípios e questões técnicas necessárias para essa abertura (PELED, 2013; YU, ROBINSON, 2012).
Cultura livre, aberta e libertária
Dahlberg (2011) acredita que esse movimento na e-democracia (que ele denomina marxista autônomo) valoriza a capacidade das redes de comunicação digital em permitir a auto-organização e a participação dos indivíduos em atividades produtivas, ignorando o sistema capitalista e o estado centralizado e considerando a passagem do modo industrial (material e energético) para o informacional (eletrônico- digital) (LEMOS, LÉVY, 2010). A decisão democrática é gerada organicamente através de redes de produtividade que são colaborativas e descentralizadas. O sujeito participante desses movimentos não é parte de uma “massa”, do “povo” ou das “classes trabalhadoras”, mas seria um agente autônomo que produz colaborativamente com outros agentes.
Citando Antonio Negri, Dahlberg (2011) denota que o sujeito de redes coletivas é referido como “multitude” para refletir sua pluralidade irredutível, sua comunidade de singularidades. Seriam enfatizadas a produção e a (re)distribuição de bens digitais de fonte aberta (open source) e livre, o que incluiria softwares (e.g. Linux), músicas e filmes (incluindo a pirataria) e mesmo novas formas de se publicar (e.g. Wikis, Indymedia). Essa produção, distribuição e compartilhamento livres tornariam a sociedade mais inteligente e politicamente consciente, ao mesmo tempo em que oferecem novos instrumentos aos ativistas para transformações sociais e políticas (LEMOS, LÉVY, 2010).
Aqui, em maior ou menor medida, seria possível localizar movimentos libertários, movimentos de software livre, de cultura aberta, de transparência hacker e similares. Algumas visões de governo aberto também poderiam ser encaixadas aqui (cf. YU, ROBINSON, 2012). Apesar de este modelo pregar uma separação do Estado, enfatizar-se-ia o papel das redes digitais e, principalmente, da colaboração dos indivíduos para ajudarem os governos a entender melhor as necessidades e os anseios da população. Da mesma maneira, as demandas por abertura do governo passariam diretamente pela abertura dos dados governamentais, que seguiriam vários dos princípios aqui elencados.
2.1.2.2 Discussão (e formação da opinião)
Comunitário
O modelo comunitário enfatiza a possibilidade de a internet fortalecer o espírito e os valores comunitários (DAHLBERG, 2001). “Nessa corrente, a democracia só se sustenta se os valores forem compartilhados e as relações reforçadas, produzindo assim engajamento cívico e capital social. Para eles, a comunidade deve prevalecer frente ao indivíduo” (BRAGATTO, 2008, p. 23). A comunicação descentralizada, interativa e em duas vias permitiria utilizações que não se restringiriam ao comercial ou governamental e possibilitaria a instalação de comunidades virtuais que reforçariam os elos comunitários.
A ideia de “comunidade virtual” é significativamente permeada por esta visão. Para Howard Rheingold, as comunidades virtuais são agregações sociais que se formam através de redes de computadores, onde o interesse por um debate sobre determinado tema se prolonga, levando um conjunto
de pessoas a criar laços sentimentais, constituindo teias de relações no ciberespaço. Ele vê nestas comunidades on-line um novo espaço público capaz de revigorar as relações comunitárias desgastadas pelo esvaziamento do espaço público tradicional (SILVA, 2005, p. 55).
Para Lemos e Lévy (2010), uma atualização do debate sobre comunidades virtuais implica em também considerar os sites de redes sociais, assim como outras ferramentas de comunicação digitais, como blogs e aplicativos de mensagem instantânea (e.g. Skype). Neste sentido, os membros destas comunidades virtuais mais contemporâneas compartilhariam um espaço telemático e simbólico “mantendo certa permanência temporal e fazendo com que seus participantes sintam-se parte de um agrupamento de tipo comunitário, diferentemente de outros que podem se dar no mesmo espaço telemático sem, no entanto, guardarem qualquer vínculo afetivo e temporal” (p. 102).
No restante, já tratamos a respeito dessa visão ao apresentarmos a corrente comunitária no tópico da Ciberdemocracia. Para mais sobre redes comunitárias digitais e comunidades on-line, ver os trabalhos de Chadwick (2006) e Lemos, Lévy (2010).
Contrapúblico
Poucos trabalhos efetivamente tocam na palavra contrapúblico e, provavelmente, alguns autores resistiriam em serem encaixados nesse modelo; entretanto, nos parece que realmente essa proposição de Dahlberg (2011) é uma categoria ampla, capaz de abarcar inúmeros estudos de internet e de democracia46, motivo pelo qual apresento o modelo abaixo.
Segundo Dahlberg (2011), neste modelo, a democracia é baseada em duas suposições. Primeiramente, qualquer formação social necessariamente envolve relações de inclusão ou exclusão, uma contestação discursiva e organizada das relações sociais (incluindo identidades e práticas); segundo, esta situação antagônica é a base para a formação de vibrantes contrapúblicos, ou seja, espaços de comunicação interativos e reflexivos, onde identidades alternativas e contradiscursos contestam os discursos dominantes e enquadram práticas e sentidos hegemônicos, incluindo os limites legítimos da esfera pública (p. 867). Neste sentido, a democracia digital contribui para a
46 Aqui optamos por não tratar do modelo pluralista de e-democracia proposto por Van Dijk (1996; 2000). Acreditamos que haja poucos estudos que efetivamente utilizem a teoria de Dahl ([1989]2012) como referência para estudos de internet e democracia. De toda sorte, os estudos que o façam estariam em menor ou maior medida encaixados entre as visões comunitárias e de contrapúblico.
articulação e o desenvolvimento dos contrapúblicos e dos contradiscursos. Em especial, as mídias digitais seriam capazes de incluir vozes de discursos minoritários e permitir a formação de contrapúblicos e contradiscursos; ligar as diferentes vozes representativas para, estrategicamente, formar contradiscursos; e, consequentemente, contestar os limites discursivos da esfera pública mainstream (BENNET, 2003; CASTELLS, 2003; DAHLBERG, 2007; LYCARIÃO, SAMPAIO, 2011; MAIA, 2007, 2011; MITRA, 2001).
Numa definição similar (Partisan Democracy), Päivärinta e Sæbø (2006) denotam que, neste modelo, se trata de cidadãos ativos participando do debate político, mas não através de canais tradicionais e não necessariamente através de representantes. As tecnologias de informação são utilizadas para obter visibilidade para críticas e expressões políticas alternativas, sem as interrupções ou controle da elite política. Essas discussões sem restrição seriam capazes de agendar as discussões públicas (p. 824). Estes contrapúblicos seriam formados através de sites alternativos, espaços on-line subalternos, listas e sites de movimentos sociais, redes digitais de mídias alternativas, wikis e blogs (DAHLBERG, 2011, p. 861-862).
Finalmente, Dahlberg também inclui algumas formas de ativismo on-line e off- line como partes integrantes deste modelo. No primeiro quesito, o autor destaca especialmente a desobediência civil eletrônica (ou hacktivismo), que atrasam ou derrubam certos websites, e obstruções culturais, como sites de paródia. No ativismo presencial, a comunicação digital ainda daria apoio indispensável para a coordenação e a publicidade dos processos (DAHLBERG, 2011, p. 862).
Aqui, é possível o paralelo com o modelo de democracia basista ou default, relatado por Gomes (2007). Este seria excessivamente acionado no Brasil, ocasionado pelo passado de ditadura militar no Brasil, o que teria proporcionado pesquisadores e ativistas sociais centrados apenas na sociedade e com uma atitude crítica – fortemente antiliberal – em relação ao Estado. Nesse sentido e consoante Dahlberg (2011), Gomes lista quatro pontos principais dessa visão default de democracia:
Neste quadro, a internet da sociedade civil é aquela em que se verifica uma profusão de iniciativas digitais dotadas de pelo menos uma das características seguintes: a) destinadas à formulação de reivindicações diante de um Estado que lhe é naturalmente adversário; b) apropriadas para o desafio, protagonizado pelos contrapúblicos ou pelas vozes alternativas às formas tradicionais e institucionalizadas da circulação do poder político; c) voltadas para que a sociedade cuide dos seus próprios assuntos, apesar e a prescindir do Estado e das instituições políticas (GOMES. 2007, p. 13).
Deliberativo
Da mesma maneira que houve uma guinada deliberativa nos estudos sobre democracia e teoria política (DRYZEK, 2000), pode-se afirmar que o mesmo ocorreu com a teoria, a pesquisa e as aplicações de e-democracia (DAHLBERG, 2011). Há diferentes correntes da teoria deliberativa que podem enfatizar diferentes valores (MARQUES, 2008), porém, é seguro afirmar que a teoria de Habermas foi a mais influente nas diferentes correntes de e-democracia.
Em seu modelo, Habermas (1997) reconhece os avanços das democracias representativas liberais, enfatizando a importância dos direitos (e das leis e constituições), da igualdade e liberdade dos cidadãos, mas enfatiza a importância de as decisões políticas e as leis serem legitimadas pela soberania popular, logo, há uma esfera pública pujante e desejável para uma democracia. A esfera pública, que não é uma instituição ou lugar claro, forma-se através do poder comunicativo e seu objetivo é captar as diferentes demandas dos públicos que a compõem, filtrar as principais demandas e, em seguida, ampliá-las em direção ao centro de tomada de decisões. Apesar de não ter poder administrativo, a esfera pública deve influenciar e guiar as decisões dos agentes políticos formais. Para tanto, os cidadãos devem entrar em processos deliberativos, que são baseados em debates racionais, nas trocas, públicas e livres, de argumentos, em que todos os participantes devem ser considerados iguais e capazes de influenciar o debate, ou, ainda, nos quais não existam disparidades econômicas e sociais intoleráveis e que a força do melhor argumento seja a mais decisiva (HABERMAS, 1997, 2005, 2006)47.
Em especial, há dois elementos que parecem justificar essa ênfase deliberacionista. Primeiramente, utilizam-se os princípios da teoria deliberativa no qual os cidadãos são considerados soberanos na democracia e que precisam estar mais diretamente conectados às decisões políticas (PÄIVÄRINTA, SÆBØ, 2006). Em segundo lugar, um grande número de estudiosos acreditou que a internet era, inicialmente, a materialização da esfera pública idealizada por Habermas (cf. BOHMAN, 2004; BUCHSTEIN, 1997; DEAN, 2003; GIMLER, 2001; PACHARISSI, 2002; POLAT, 2005). “A comunicação digital em duas vias, de baixo custo, user-
47
Para mais sobre o modelo deliberativo e as diferentes fases do pensamento de Habermas, ver Gomes (2008), Maia (2010).
friendly, flexível e moderada é vista como fomentando o compartilhamento de
informação, o debate racional e a formação da opinião pública” (DAHLBERG, 2011, p. 860, tradução nossa)48.
Grosso modo, pode-se afirmar que três correntes atuaram em paralelo. A
primeira foi baseada justamente na tentativa de se refletir sobre o papel da internet como uma “esfera pública virtual”, ou seja, se a internet era uma esfera pública ou se ela tinha o papel de incrementar ou reduzir a esfera pública já existente. Fung e colegas (2013) descrevem esse modelo como sendo da esfera pública robusta. Em resumo, pressupõe- se que as tecnologias digitais aceleram os fluxos de comunicação, permitem a comunicação de muitos para muitos (em comparação com as tecnologias de radiodifusão que eram de um para muitos) e baixam os custos para criar e expressar visões de mundo.
Nesse sentido, alguns autores defenderam a internet como a esfera pública proposta originalmente por Habermas (1984) e sua situação ideal de fala. Tratar-se-ia de uma rede aberta e inclusiva de públicos sobrepostos que têm ligações temporais, sociais e substanciais; um local onde seria possível a comunicação sem sujeito. Como ela ofereceria acesso universal, comunicação sem coerção, liberdade de expressão, agenda sem restrições, participação fora das instituições políticas tradicionais e geraria uma opinião pública através de processos de discussão, a internet se assemelharia à situação de ideal de fala (cf. BUCHSTEIN, 1997, p. 251).
Ademais, a internet teria enorme potencial para facilitar as discussões entre cidadãos e governantes. O debate não mais seria determinado pelo tempo, podendo ser multidirigido, não existindo a necessidade de parceiros fixos ou autorizados (MAIA, 2008). O anonimato possibilitado pela internet poderia diminuir as diferenças socioeconômicas dos participantes da discussão e contribuir para uma condição mais paritária de participação no debate49. Por sua vez, “se a discussão acontece em um ambiente livre de medo, de intimidação ou de ridículo, uma variedade maior de pontos
48
No original: “Digital media in general, and the internet in particular, are seen as enabling this demo-