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CAPÍTULO 3. O CONCEITO DE E-DEMOCRACIA

3.2 Definindo e-democracia

3.2.3 O conceito ampliado de e-democracia

Nesse momento, cabe uma explicação. Primeiramente, demonstramos a complexidade em torno da e-democracia, que envolve diferentes termos e definições que variaram segundo os campos de avaliação e suas expectativas ou até mesmo conforme os momentos de avaliação. Posteriormente, demonstrou-se que existem diversas linhas de estudo e de reflexão dentro da e-democracia de acordo com diferentes modelos democráticos. Adicionalmente, vimos que podem ser consideradas perspectivas top-down ou mesmo bottom-up de democracia digital. Porém, posteriormente, tentou-se demonstrar como o conceito de e-democracia está

basicamente reduzido à participação e à deliberação, estando os outros valores como acessórios a estes.

Este movimento pode soar como paradoxal ao leitor, mas agora poderá ser mais bem definido. Sua explicação se encontra na delimitação da e-democracia enquanto campo teórico e de pesquisa. Enquanto campo autodenominado, a e-democracia tende a assumir o sentido estrito já expresso no tópico anterior. Por outro lado, se tomado de maneira ampla, é capaz de abarcar todas as definições e vertentes já apontadas.

Logo, por um lado, há o discurso da e-democracia já identificado, segundo o qual as TICs funcionam predominantemente para resolver a grande mazela das democracias representativas contemporâneas, isto é, a grande separação entre representantes políticos e representados ou à falta de participação política por parte dos cidadãos (COLEMAN, BLUMLER, 2009; LUSOLI, 2013). Há, inclusive, como já apresentado, uma gama de autores que afirmam que a e-democracia está cada vez mais centrada apenas nos estudos do e-voto, ou seja, de tecnologias para permitir o voto eletrônico em eleições e em consultas e referendos (MACINTOSH, 2008; MACINTOSH, WHYTE, 2008; SÆBØ, ROSE, FLAK, 2008; SANFORD, ROSE, 2007).

Por outro lado, grosso modo, pode-se compreender a democracia digital enquanto o uso de tecnologias de comunicação e informação para o avanço de valores democráticos ou simplesmente para facilitar atividades democráticas (COLEMAN, NORRIS, 2005; STREET, 2001). Logo, geralmente também se deseja o revigoramento ou simplesmente fortalecimento da relação entre cidadãos e seus representantes (ibidem). Porém se admite que a participação política não é o único caminho para tanto.

Esta é justamente a defesa realizada por Norris (2001), que deseja o uso das tecnologias digitais de comunicação e informação para o fortalecimento de governo e, principalmente, das instituições da democracia representativa através de eleições livres e justas. Norris enfatiza a necessidade de competição pelos cargos oficiais e a alternância de partidos e candidatos nessa disputa. O ponto chave seria em que medida governos e sociedade civil aprenderam a utilizar os novos canais de comunicação e informação para fortalecer as instituições representativas, conectando Estado e cidadãos. Logo, a participação pública e o engajamento cívico são importantes, mas também transparência, abertura e accountability de agências governamentais e o fortalecimento de canais interativos entre cidadãos e instituições intermediárias.

Tal situação justifica o interesse de Norris (2001) no uso das TICs por governos, parlamentos e partidos, assim como indivíduos e sociedade civil, especialmente tentando verificar se as TICs oferecem novas ou mais oportunidades para atores periféricos nas disputas de poder, como cidadãos não organizados, organizações cívicas de pequeno porte e partidos políticos menores (ver também NORRIS, 2003).

Também valorizando a representação, porém com uma ênfase mais deliberacionista, a perspectiva de Stephen Coleman é bastante eminente no campo. Seu longo trabalho vem tentando demonstrar que os principais ganhos da e-democracia não se resumem à participação política, mas, sim, ao fortalecimento da representação política. As TICs deveriam ser utilizadas para tornar os representantes políticos mais

accountables, mais próximos dos seus representados ao mesmo tempo em que

fomentariam as habilidades cívicas dos cidadãos, permitindo e incentivando práticas democráticas (i.e. e-participação e deliberação on-line). Ou seja, se temos uma lacuna excessiva entre as duas instâncias e se os indivíduos não estão naturalmente propensos a participar das oportunidades, os governos devem fazer um movimento duplo. Primeiramente, eles devem estar atentos às redes de comunicação, interação e colaboração já existentes na sociedade civil, nas iniciativas bottom-up para aproveitar sua inventividade e suas energias criativas na renovação dos processos de representação, como já descrito anteriormente.

Em segundo lugar, Coleman acredita que os governantes devem agir para fomentar e-cidadãos, através de espaços nos quais os indivíduos possam postar mensagens, histórias, sentimentos, valores, perspectivas etc. que possam, efetivamente, alcançar e moldar a agenda política. Isso, em grande medida, não pede por simples e restritas iniciativas de e-democracia, que tendem a ser fechadas em torno de si mesmas, mas, sim, de políticas públicas, que enfatizem esse fortalecimento das relações entre cidadãos e governos. Através do exemplo do Reino Unido, que foi um dos líderes nas políticas públicas e na experimentação de projetos de e-democracia, Coleman acredita que seja a hora de superar o discurso e efetivar estes valores, capazes de fomentar cidadãos mais deliberativos e governos mais propensos a ouvir e responder às deliberações públicas. Logo, seu trabalho valoriza o fortalecimento das relações entre cidadãos e governos em democracias representativas no que ele chama de representação direta, ou seja, o fortalecimento da representação através de canais diretos de inputs dos cidadãos e de escuta e feedback por parte dos governantes, o que manteria as bases das democracias representativas liberais, mas incrementaria a relação de representação

existente entre indivíduos e governos (COLEMAN, 1999; COLEMAN, GOTZE, 2001; BLUMLER, COLEMAN, 2001; COLEMAN, SPILLER, 2003; COLEMAN, 2004; COLEMAN, 2005; COLEMAN, 2007; COLEMAN, 2008; COLEMAN, 2009; COLEMAN, BLUMLER, 2009; COLEMAN, 2012; COLEMAN, MOSS, 2012; MOSS, COLEMAN, 2013; COLEMAN, SAMPAIO, 2014).

Não obstante, acredito que a concepção do professor Wilson Gomes (2011) seja a mais ampla, sendo, inclusive, capaz de enfatizar valores defendidos por ambos. Em sua definição, a democracia digital é

qualquer forma de emprego de dispositivos (computadores, celulares, smart phones, palmtops, ipads...), aplicativos (programas) e ferramentas (fóruns, sites, redes sociais, medias sociais...) de tecnologias digitais de comunicação para suplementar, reforçar ou corrigir aspectos das práticas políticas e sociais do Estado e dos cidadãos em benefício do teor democrático da comunidade política (p.27-28).

Nesse sentido, Gomes aposta em uma visão mais ampla, que valoriza diferentes valores políticos que sejam importantes aos Estados democráticos, dentre os quais: liberdade de expressão, opinião e participação, accountability, transparência, incremento de pluralismo, da representação das minorias e uma consolidação de direitos de grupos ou indivíduos mais vulneráveis na sociedade (GOMES, 2011, p. 28). Assim, para serem democraticamente relevantes, Gomes defende que as iniciativas de e- democracia devem promover, ao menos, um dos três princípios abaixo: 1 – fortalecimento da capacidade concorrencial da cidadania (aumentar e/ou consolidar quotas relevantes do poder do cidadão em relação a outras instâncias na disputa da produção de decisão política, sendo, geralmente, promovido através transparência ou participação política); 2 – consolidar e reforçar uma sociedade de direitos (assegurar que minorias políticas e setores vulneráveis da sociedade tenham acesso à justiça); 3 – promover o aumento da diversidade de agentes e agendas na discussão pública e nas instâncias de decisão política, aumentando instrumentos, meios e oportunidades para que essas minorias se representem ou sejam representadas nas decisões políticas (p. 29- 30)84.

Apesar de sua perspectiva concorrencial se aproximar levemente da proposta de Pippa Norris (2001), a diferença é notável. Enquanto a autora deseja um fortalecimento principal de instituições e de corpos intermediários das democracias representativas,

84 Também Coleman, ao defender a democracia representativa, afirma que a e-democracia não é um experimento que deve substituir todo o sistema democrático que evoluiu até hoje, mas suplementar e complementá-lo (COLEMAN, NORRIS, 2005).

Gomes está enfatizando o ator político que acredita estar em desvantagem no atual jogo político, o cidadão individual. Como sabemos, Gomes (2007) deseja que os ganhos das democracias liberais não sejam perdidos ou mesmo menosprezados, contudo, deseja que se enfatize a esfera de decisão política como uma arena, que está em constante disputa por inúmeros atores, como governo, oposição, partidos políticos, agentes econômicos e religiosos e, também, corporações sociais – ONGs, movimentos sociais e associações cívicas – que também lutam por implementar a sua agenda (ver também GOMES, 2004). Em sua visão, fomentar a sociedade civil organizada não basta, pois algumas destas corporações sociais possuem agendas tão específicas, que grande parte dos cidadãos individuais não se sentiria contemplada por elas85.

Assim, Gomes prega o reforço do poder da soberania popular. Neste esforço, a participação é um dos meios para garantir esse empowerment, já que uma das formas de verificar a saúde democrática de um Estado está no poder relativo que um cidadão tem de “fazer prevalecer a sua opinião e a sua vontade face às instâncias que com ele concorrem na determinação da decisão política no Estado e na sociedade” (GOMES, 2011, p. 37), o que não significa menor atenção a outros valores, como transparência, liberdade de ação, igualdade, informação ampla, entre outros.

Todavia, poder-se-ia argumentar que, na verdade, a defesa de Gomes não é uma defesa ampla, mas, corrobora com o discurso da democracia, apontado por Lusoli (2013). Na verdade, é importante destacar que Gomes reconhece a participação como um valor democrático importante, todavia, enfatiza que não é necessariamente o mais importante. Ele se mostra contrário à defesa genérica de que mais participação significa necessariamente mais (ou melhor) democracia, lembrando que há participações que são vazias de significado ou mesmo com objetivos não democráticos.

Portanto, não há a necessidade aventada pela democracia participativa de uma participação massiva e constante dos cidadãos, mas que haja canais abertos e oportunidades para os concernidos participarem quando desejar. Gomes ainda lembra que as tecnologias digitais são importantes para informação política, accountability e transparência e que todas essas iniciativas podem incrementar a formação da opinião pública e, consequentemente, da participação de indivíduos em tais iniciativas. Ou seja, sua defesa está em não considerar os indivíduos nem como republicanamente imprestáveis, nem como cidadãos que estão sempre ativos e desejando tomar parte de

85

Para ver uma defesa dos ganhos democráticos advindos de tais grupos da sociedade civil e de como os conflitos entre indivíduos e grupos podem ser resolvidos na agenda da e-participação, ver Maia (2011).

discussões e oportunidades de participação política (ver também COLEMAN, 2009; MARQUES, 2008).

Logo, na visão de Gomes (2005a, 2007, 2011), é possível denotar diversos valores democráticos que são enfatizados, incrementados e corrigidos pelo uso das TICs tanto por cidadãos quanto por governantes. Assemelha-se, em grande medida, ao proposto por Graham Smith (2009), como já demonstrado. Ou seja, mais que enfatizar este ou aquele bem democrático ou modelo de democracia, busca-se compreender a complexidade das democracias e a necessidade de iniciativas e meios que fortaleçam de maneira ampla a cidadania e, em consequência, a soberania popular.

Gomes então tece uma definição de e-democracia, a meu ver, ampla. Nesta acepção, faz sentido englobarmos as inúmeras vertentes e posições já elencadas nos diferentes modelos de e-democracia, vetores e nomenclaturas já apresentadas. Dessa maneira, acredito que quando determinados autores apresentaram os modelos de democracia mais relevantes no campo, eles tinham em mente uma visão mais ampla dos usos dos meios digitais e eletrônicos para criar, fortalecer e realizar atividades democráticas, ou ainda, ações que fomentassem valores democráticos visando o bem da comunidade política.

O conceito de Gomes só não traduz a questão da trajetória da e-democracia. Como este trabalho extensivamente demonstrou, a ideia de democracia digital mudou de modo significativo em um período de tempo curto. Por sinal, acredito que isto esteja diretamente ligado aos dois conceitos básicos que a formam.

Como sabemos, a democracia é essencialmente um projeto. Bobbio (1997) defendeu-a, em diversos momentos, como se tratando de um projeto em constante “crise”, isto é, que sempre conterá insatisfeitos. Afinal, explica Bobbio, as sociedades estão constantemente se alterando e as leis e os valores democráticos precisam se adaptar a tais mudanças ao longo do tempo. Logo, a democracia é um projeto inacabado, mas que nunca será concluído e aí está parte de sua força e importância. Para Coleman, Norris (2005), a democracia é um experimento social. Não chegam as bases constitucionais e institucionais, mas deve haver um conjunto de valores-guias, que são constantemente refinados, atualizados e moralmente interrogados. Em certo nível, a e- democracia pode ser vista como um estágio da evolução histórica do experimento democrático. Logo, a e-democracia também é um experimento em si, que “busca utilizar as novas e interativas tecnologias para dar mais realismo à reivindicação

democrática de que o governo é, em algum sentido, feito por e para o povo” (Coleman, Norris, 2005, p. 30)86.

Da mesma maneira, a parte eletrônica do conceito denota tecnologias de comunicação e informação, que são atualizadas e melhoradas em uma velocidade quase imensurável. Da mesma maneira que Marques (2012) destaca como as exigências para a inclusão digital dos cidadãos crescem ao longo dos anos, o mesmo é válido para a democracia digital. No começo, era de grande valia que os governos tivessem sites e utilizassem emails (e.g. NORRIS, 2001; HILL, HUGHES, 1998; MARGOLIS, RESNICK, 2000;), enquanto, no momento, já esperamos que ofereçam plataformas digitais com certo nível de sofisticação, utilizem redes sociais, dados abertos e ferramentas web 2.0. Da mesma maneira, cresce o nível de expectativa não apenas da utilização, mas também do emprego de tais ferramentas (e.g. maior presença e interação por parte de políticos e instituições na rede).

Dessa maneira, de forma ampla, compreendo que:

e-Democracia denota o emprego adequado de tecnologias de informação e comunicação para suplementar, reforçar ou incrementar valores democráticos, que sejam vistos, em determinado momento histórico, como oportunos para a ampliação da influência da esfera civil em regimes democráticos modernos.

Neste conceito, o “adequado” caracteriza o uso de tecnologias vigentes. Logo, não se quer dizer as tecnologias mais avançadas, modernas ou novas, mas aquelas mais propícias, de acordo com o contexto. Em diversas situações, inclusive, isso significa

não fazer uso das tecnologias mais modernas de forma a incluir mais cidadãos nos

processos de e-democracia.

Por sua vez, a expressão “como oportunos” destaca que a e-democracia deve ser vista como um projeto em constante modificação e evolução conforme as necessidades do povo em consideração em ligação direta ao seu “momento histórico”, como já destacado. A ideia de oportunidade também busca ressaltar a possibilidade da e- democracia não tratar apenas de necessidades, mas também de anseios por melhorias e desenvolvimento.

86 No original: “E-democracy is, in one sense, a stage in the historical evolution of the democratic experiment. Itself an experiment, e-democracy seeks to use new, interactive technologies to give greater reality to the democratic claim that government is in some sense both by and for the people”.

Por fim, este é um conceito que se centra na soberania popular ao dizer “influência da esfera civil”. Isso não quer dizer que não haja importância na perspectiva shumpeteriana com foco em iniciativas voltadas para o Estado, porém, implica em afirmar que, se tais iniciativas buscam exclusivamente uma melhoria dos processos internos, esta ocupação está nos estudos de e-governo. Por outro lado, esforços que ampliam a accountability dos governantes e das agências estatais estariam da mesma maneira incluídos neste conceito de e-democracia, afinal há uma ligação direta com a soberania popular.