Para desenvolvimento de uma proposta metodológica para o ensino de Química, além do trabalho de observação de uma turma, realizamos uma entrevista com uma professora de Química da EJA. A Entrevista teve como objetivo ter a percepção e opinião da professora sobre qualidade e eficiência do ensino de Química na turma do 2° da EJA. O Quadro 1, a seguir, apresenta as perguntas e respostas dessa entrevista:
Quadro 2 - Entrevista com a Professora regente.
1 - Qual o seu nome completo e sua formação acadêmica? Você tem alguma outra formação?
Ana Carolina Souza Lopes, sou Licenciada em Química. Ainda não possuo nenhuma complementação.
2 - Há quanto tempo você atua como docente? E desde quando você leciona em turmas da EJA?
Atuo como docente desde 2018, porém como professora regente este é meu primeiro ano na EJA. Como professora cobrindo licença, atuei na EJA em 2018 também.
3 - Normalmente os discentes das turmas de EJA têm que idade? Eles normalmente trabalham?
As turmas de EJA são muito heterogêneas. Temos muitos estudantes com 18 anos oriundos do Ensino Regular, pois já reprovaram um ou dois anos e acabam indo para EJA para concluir. Mas temos também alunos mais velhos, como uma senhora de quase 80 anos. Todavia, predominantemente são jovens e normalmente trabalham, ou cuidam das casas dos familiares.
4 – Você, a partir da sua vivência em sala de aula consegue caracterizar o perfil dos seus estudantes dessa modalidade?
Como meu primeiro ano de regência na EJA foi este ano e está acontecendo durante a pandemia fica difícil caracterizar os estudantes ou mesmo conhecê-los, pois eu não os vi ou conheci, porém, posso dizer que têm estudantes que realmente querem estar ali, pretendem fazer Enem e até mesmo tem sonhos de faculdade. Cumprem as atividades, porém também têm estudantes que não querem estudar e estão ali somente para concluir o Ensino Médio o mais rápido possível.
5 - Nós sabemos que com a pandemia do Covid - 19 mudou muito a rotina da escola pública e afetou bastante o ensino e aprendizagem dos discentes.
Você acha que este fato afetou o desempenho dos estudantes da EJA?
Existiram muitas evasões? Qual sua opinião sobre este fato?
Com certeza a pandemia afetou o ensino e aprendizagem dos estudantes porém, o ensino a distância possibilitou também a oportunidade para àqueles que trabalham fora da cidade até mesmo do estado poderem estudar, como exemplo, meus alunos que trabalham na Imetame Metal Mecânica e que viajam o país. Hoje, com a volta às aulas presenciais obrigatórias, não sabem como irão poder continuar a estudar. Por outro lado, a falta de conexão prejudicou muito o ensino e aprendizagem, pois nem sempre possuíam internet para desenvolver as atividades. Às vezes, os celulares não comportavam a demanda e nem sempre possuíam computadores. Levando em consideração que o ensino de Química é muito abstrato, cheio de regras e normas. Para o estudante aprender não foi fácil
e nem dedutivo. Devido a esses fatores, durante a pandemia houve muita evasão escolar nas turmas da EJA. Apesar da chamada ter 30 alunos, o rodízio de alunos que se matricularam e desistem foi muito grande.
6 - Você dá aula de Química para EJA? Quais recursos didáticos que normalmente utiliza?
Sim. Quando estávamos no remoto utilizamos vídeos no Youtube e APNPS (atividades pedagógicas não presenciais). As APNPS eram postadas no Google Sala de Aula, grupos de WhatsApp e impressas. Tinha que ter essa última opção, pois nem todos os alunos tinham acesso à internet. E assim, aconteciam as devolutivas. Agora, que as aulas estão presenciais, ocorrem através de aulas expositivas, porém, devido a pandemia não é possível levar os alunos ao laboratório, pois o espaço é pequeno. Outro fato é que há poucas aulas, pois recentemente a escola adotou a EJA profissionalizante e com isso a Química só possui uma aula semanal.
Mas dentro do possível faço algo diferente. Como para iniciar a etapa, fiz em todas as turmas, uma demonstração. Fiz uma aula demonstrativa do porquê usar o álcool em gel, que é uma proposta dessa EJA, a fim de ligar a Química com realidade dos alunos. E a partir da desnaturação da proteína do ovo abordei, também, diversos assuntos que posso trabalhar da 1ª a 3ª etapa da EJA.
7 - Nesse momento quais são as principais dificuldades para lecionar Química para a EJA?
As maiores dificuldades da escola, atualmente, não é o conteúdo, mas sim a burocracia do sistema, muito papel para nada, a questão da quantidade de hora/aula e como estávamos em EAD (Ensino a distância) eu tinha 4 páginas para explicar e passar as atividades. Como faria para colocar nas APNPS fluxogramas, mapas mentais entre outros? Nesse formato é difícil de trabalhar na EJA. Ainda existe o fato que muitos não tinham acesso à internet o que dificultava ainda mais a nossa interação.
8 - Você acha que, com conteúdos aplicados, os alunos, conseguem, ao final compreender e fazer contextualização com cotidiano? Se não, o que você poderia mudar nesse contexto?
Não acho que fazem essa conexão. Muitas das vezes quando estou explicando uma matéria percebo que eles não compreendem e não há traços das aprendizagens de matérias anteriores, pois na Química, uma matéria depende da outra, que por mais que tente trazer o máximo para realidade deles, acabam não tendo essa visão. Não posso ficar muito tempo na mesma matéria, pois não tenho tempo, visto que há muitos conteúdos a serem estudados. Acho que se o ensino fosse híbrido poderia ajudar, pois teríamos mais tempo. Para isso, o professor teria que ser valorizado, com melhor salário e, não apenas aumentar o número de aulas.
Já que o professor trabalha mais horas do que é contratado. A educação pode ser mudada, porém para melhorar, é necessário alterar todo um contexto.
9 - Na sua visão, qual a maior dificuldade, encontrada pelo discente, na aprendizagem de Química?
A maior dificuldade do ensino e aprendizagem na EJA está nos assuntos complementares. Não é só no conteúdo, apesar de eles acharem o conteúdo difícil e abstrato e não conseguirem fazer a conexão com realidade, porém, há também fatores pessoais que influenciam nessa falta de interesse. Na verdade, é todo um contexto.
10 - Os discentes, durante o semestre, costumam ser ativos em sala de aula?
Eles normalmente entregam as atividades para casa?
Na maioria das vezes eles não estavam ativos ou interagiam na sala de aula e não faziam atividades. Porém, como já citei, existiam casos surpreendentes de alunos que mesmo na adversidade levavam a sério o ensino, como é o caso dos alunos que trabalham viajando.
Fonte: Autor da pesquisa (2022)
A partir do que foi apresentado pela professora na entrevista, juntamente com a observação feita em sala de aula, foi possível fazer um planejamento mais realista para aplicação do projeto. Após essas informações, tivemos uma melhor noção do que poderia ser feito a fim de tentar melhorar e potencializar a aprendizagem para a turma da EJA. Nas subseções abaixo será descrita a proposta metodológica baseada na gamificação no ensino de Química.