Me conta um pouquinho sobre a sua vida, por favor...
Nunca tive trauma de coisa alguma. Nunca tive depressão por conta de coisa alguma. Tive quatro filhos assim (na sequência). Tudo de cegonha louca, sabe? Da Dulce, a mais velha, para a Raquel foram três anos. Então era uma cegonha responsável e inteligente. Depois um ano e três meses, e um ano e três meses. Você já imaginou?
Quase nada. Não sobrava muita coisa.
Posso dizer que quando eram pequenos eu tinha quem me ajudasse, mas quando acabava o dia eu estava exausta. Vai atrás de um, pega o brinquedinho do outro, dá comigo para o seguinte, leva para o colégio, sai correndo. Mas nada que me alterou a vida.
Nunca tive problema nenhum. Não posso sequer imaginar de dizer: “meu Deus, será que isso é resultado de não terem deixado eu ser canhota?” Nada, nada, nada.
O mais light possível, você pode escrever, que não tenho coisa alguma. Agora, descobri com a vida que tudo que me obrigaram a fazer, eu faço com a direita. Como com a direita. No Colégio S jogavam vôlei, e toda vida eu dei saque com a esquerda. E diziam: “meu Deus, como você consegue?”. E o Eric (marido) quando você disse que vinha, disse: “pois é, uma coisa que eu fico olhando em você é quando” eu resolvo, excepcionalmente quando quero me enfeitar, faço um risquinho bem pequenininho, “fico olhando você fazer aquilo com a mão esquerda” (fala do marido). Nunca me obrigaram maquiar. E aí eu nem sabia se fazia com a esquerda ou direita. Não tinha reparado. Hidratante é com as duas mãos, mas pó de arroz sólido, blush, batom, tudo é com a esquerda.
Só o que me obrigaram... (que faço com a direita). Tenho a impressão que não é bem só, mas você pode dividir: o que não fui obrigada, faço com a esquerda; o que fui obrigada, faço com a direita. Principalmente escrever e comer, que foram as duas coisas que as irmãs do Colégio S me obrigaram.
em um apuro. Não sei se abro o carro com a esquerda ou com a direita” . Eu estava dizendo que tudo que me obrigaram eu faço com a direita, e tudo que não me obrigaram eu faço com a esquerda. Deve haver alguma exceção, mas eu não sei dizer.
Na verdade, hoje em dia eu sou ambidestra, porque eu lido com as duas. Agora eu não sei mais escrever com a esquerda. É difícil. Eu vou melhor que uma pessoa que só faz com a direita, mas é difícil.
Você causou diversos problemas. Porque eu comecei a reparar o que fazia com a direita e com a esquerda.
Fiquei vendo. Por exemplo, o carro. Guiar todo mundo guia igual. Mas se eu chego no carro, se eu pego a maçaneta com a direita ou com a esquerda. Eu acho que é com a esquerda.
E outro dia, depois que você disse que vinha, eu quis fazer uma coisa que faço com a esquerda, com a direita, e você sabe que me prendeu aqui? (massageia o ombro direito) [risos]
Eu digo: que coisa difícil de se notar.
Não tenho nada...não sei mais o que você quer saber?
Marido: Você falou do olho? Acho o mais importante. Ela fazer a delineação do olho perfeito com a esquerda
É engraçado, né. É espontâneo. O que eu faço com a esquerda decerto continuo fazendo. Você quer saber uma coisa que eu sei que faço com a esquerda? Bater clara. Hoje em dia a maioria das pessoas bate com coisa elétrica. Eu ainda gosto de bater a mão. Tenho preguiça de pegar mixer, coisa de bater clara, lavar etc. Eu bato clara com a esquerda! (enfatiza) É gozado, porque não fiquei com trauma nenhum. Não fiquei gaga como o George VI7, nada. [risos]
O diabo inclusive era chamado: o canhoto.
Marido: Se você olhar no dicionário tem muitos nomes diferentes para o diabo. Canhoto era um deles.
7 George VI assumiu o trono de Rei da Grã Bretanha e Irlanda em 1936. A história conta que era
O diabo.
Então a primeira coisa, quando eu saí de casa, no primeiro dia de aula, eu sabia fazer umas letrinhas...
Imediatamente elas me tiraram da mão esquerda e falaram: “não é com essa mão que a gente escreve. É com essa (direita). E você está escrevendo com a mão errada”. Mas eu toda vida fui boa praça, não liguei para aquilo, e aprendi com a direita. E pronto.
Mas fazia tudo com a esquerda.
Em casa minha mãe e meu pai nunca ligaram.
E hoje eu tenho duas netas canhotas. Tenho. Uma filha da Dulce, e uma filha do Eric Filho. As duas são canhotas. Mas hoje não. Hoje deixam. Fazem tudo com a mão esquerda. O que quiser. Se quiser fazer alguma coisa com a direita, ninguém proíbe. Mas faz tudo com a esquerda.
E como era lá na escola? Essa proibição?
Se eu tivesse com a mão esquerda...
Não sei se a gente começou a escrever com lápis no Jardim da Infância. Devia ser com lápis. Elas me tiravam: “não! Não é com essa mão que a gente escreve. Tem que pegar o lápis com a outra”.
Então foram forçando, forçando, até uma certa altura que passei a escrever com a direita e pronto.
E você era a única (canhota) na sala?
Ninguém. Só eu. Pior ainda. Se ainda tivesse companhia... [risos]
Amarraram, fizeram esse tipo de coisa?
Nada, nada. Não amarraram a mão, não fizeram nada. Foram insistindo. Para comer no refeitório também. O meu era integral, a gente almoçava lá
comecei a fazer. Tão logo podia trocava. Até que um dia eu passei a só comer com a direita.
Não criou problema nenhum. Aliás, para a entrevista eu devo ser muito pouco eficiente. Não tenho trauma, estresse, coisa alguma. Não amarraram a minha mão, fui por bem. Mas que diabo? [risos]
Alguém explicava por que não podia escrever com a esquerda?
Não. Só que o certo era escrever com a direita. E o certo era comer com a direita. E escrever com a esquerda e comer com a esquerda, era errado. Simples, pronto.
Com 6 anos, e naquele tempo não é que nem hoje que falam alguma coisa e a criança logo retruca: “por que isso, por que aquilo?”. Você não podia. Se era errado, eu tinha que aprender com o certo. Não havia objeção ao que a irmã estava dizendo. (respira fundo) Meu Deus, a gente não podia fazer nada.
Eu sou do tempo que quando a professora entrava no Colégio S, elas entravam, a gente levantava e ficava ao lado da carteira esperando. Quando ela sentava, a gente sentava.
Eu não sei se abro e fecho garrafa com a esquerda... Nunca dei muita importância a isso, sabe?
Então, por exemplo, depois que você falou que vocês vinham, eu comecei a prestar atenção em algumas coisas que eu faço e nem sabia. Com a esquerda e com a direita.
Foi automático, sem maiores problemas.
Por isso que eu digo que sou sem graça para a entrevista. Eu não tenho nada.
Trabalho manual eu faço com a direita, porque no Colégio S tinha aula de trabalho manual. Até hoje não me passa pela cabeça, nem sei, pegar uma agulha, pregar um botão com a esquerda.
Tudo com a direita. Mas tinha lá.
Isso eu não me lembro se elas me obrigaram a pegar e fazer com a direita. Não sei. Decerto foi. Porque era ensinado no colégio.
Tudo que foi de lá eu faço com a direita.
Existe hoje em dia tesoura para canhoto, e coisa.
Porque as tesouras, principalmente as grandes, são feitas com uma lâmina maior e outra menor, uma sobre a outra. Fica mais difícil.
As pessoas gostam (de serem canhotas), porque é diferente.
Marido: Vou te contar uma coisa. Não sei se você já ouviu de alguém. Sou canhoto de perna. Só chuto com a esquerda. E para mastigar. O lado de cá (esquerdo). Uma vez me aconteceu de mastigar uma maça (do lado direito) e mordi a língua. Você imagina o trabalho que deu para estancar o sangue... (por causa do anticoagulante)
O Eric então é direito, esquerdo e aí vai.
[risos]
Marido: A única coisa que faço com a esquerda é o pé. E mastigar. Ainda hoje que lembrei disso.
Mastigar eu não sei se faço com a esquerda ou com a direita.
E você se intitula destra ou canhota?
Hoje eu sou destra. Se me perguntarem, digo que sou destra. O canhoto ficou lá tão longe, tão longe, que o que eu faço com a mão esquerda é espontâneo. Não sei se estou fazendo com a esquerda ou com a direita. De resto é esquerda ou direita conforme cai a coisa.
Marido: Tinha um pacto com o demo (brincadeira)
Estão vendo o perigo! Somos duas canhotas aqui.
(risos) Duas canhotas aqui!
Para as freiras, antigamente era um caso de polícia, gente.
Elas falavam com os pais, ou não?
Não. Elas resolveram ali mesmo. Não me lembro nunca que tenham falado com pai. Coisa assim não.
Marido: O S era um colégio autoritário, à moda antiga. Nem sei se havia, a não ser quando era para expulsar, se havia alguma conversa com o pai. Hoje que há Associação de Pais e Mestres, reuniões.
Naquele tempo não. A irmã dizia, a diretora dizia, estava dito. Em casa, ninguém ligou.
Ai, ai. (respira fundo).
Estou pensando em histórias, mas acho que não tenho. Brinco com o Eric que nós dois somos muito sem graça.
Porque o Eric viveu uma vida de estudar e trabalhar. Trabalhar e estudar. E ficava em casa, brincava com os filhos, quando pequenos ia passear com as crianças, coisas assim. Mas nunca foi de muito movimento social. Ele dizia: “não tenho tempo. Se eu começar a fazer noitada, sair e tudo, nem estou pronto para estudar, nem para trabalhar”. A gente tinha vida social, é lógico, mas nunca fomos desses arroz de festa. Como se dizia antigamente. E nós somos muito pacatos.
Agora que o Eric não trabalha, e estamos mais velhos, brinco que somos tão sem graça. Não vemos novela, não dizemos palavrão...Na internet estou, mas não sabemos contar anedota. Não somos sem graça? (risos).
Marido: Uma coisa que vou acrescentar à você. Eu tinha enxaqueca quando era mais moço. Sempre do lado esquerdo. Uma única vez senti a dor de cabeça do lado direito. Anos a fio, do lado esquerdo. Entrava por aqui (pela frente) e saía por trás. Não sei se tem alguma coisa a ver com a esquerda e direita, não tenho a menor ideia. A enxaqueca é uma doença com dor hemicrania. Mas eu podia ter do lado direito, não do lado esquerdo. Mas era sempre do lado esquerdo.