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Depoimento Marcela

No documento Priscila Lambach Ferreira da Costa (páginas 118-125)

Me conta um pouquinho sobre a sua vida, por favor...

Vou contar desde o comecinho. Bom, o nascimento meu foi muito festejado. Embora esperassem um menino, lógico. Família árabe. Era um privilégio. Eu era menina. O meu nome foi escolha do meu pai. Eu era a primeira neta da parte da minha mãe, então era muito bajulada. Principalmente pela família da minha mãe. Uma das causas de eu começar desde esse comecinho, foi para falar dessa iniciativa de canhoto. O que acontece? Desde criança eu tinha tendências de usar a mão esquerda. Sempre gostei. A minha tia de criança me levava muito no Grupo, ela trabalhava aqui pertinho. Já pegava o giz com a mão esquerda. Foi uma tendência minha que começou com a mão esquerda.

Só que o meu pai, como todo imigrante, principalmente árabe, tinha certos preconceitos. O que ele fazia? Via que eu estava pegando tudo com a mão esquerda, inclusive as minhas primeiras letras com a mão esquerda, não que eu tivesse sendo alfabetizada, eu devia ter uns 4, 5 aninhos, eu tenho uns negócios de geladeira da minha mãe que eu escrevia em cima. O “L”. Você entendeu? Isso eu lembro direitinho, porque vi esses dias. Então, quando ele via que eu pegava com a mão esquerda, ele falava: “dididai”, é o nome dele Didi, e eu apanhava na mão esquerda. Aí, quando eu entrei para a escola e ele viu realmente que a minha tendência era a esquerda, dai ele não aceitava. Então, o que aconteceu? Comecei a ser obrigada a escrever com a direita. Isso foi uma coisa para mim, na época ficava chateada. Mas é uma coisa que eu era muito ligada no meu pai. MUITO mesmo. Inclusive quando eu ia tirar sangue, qualquer coisa assim, ele estava comigo. Então, eu falava assim: já que ele fica chateado, não posso fazer isso para desagradá-lo. Aí comecei a desenvolver a direita.

Mas a minha força toda sempre foi na mão esquerda. Se eu tiver que ir para uma lousa, é a mão esquerda que vai predominar.

Hoje em dia, logicamente na escrita normal, eu pego a direita mais por hábito. Mas com a esquerda é uma letra totalmente diferente. E eu me sinto bem. É a minha mão mesmo. Eu me sinto eu.

A direita eu escrevo por hábito, é mais rápida.

Mas a esquerda é a mão do meu eu realmente. Eu me sinto. Sinto meu eu se manifestando.

A direita é a letra toda certinha, escrevo rápido o que gosto. Mas parece que é superficial. Isso para mim...

Quando eu vou fazer algo com a direita, é rápido e isso para mim é ótimo. Com a esquerda escrevo devagarzinho. É uma letra totalmente diferente. Totalmente. Não tem nada a ver com a direita.

Uma vez até perguntei para uma moça que estava fazendo Psicologia. Será que isso tem alguma coisa a ver? Daí me falou um monte de coisa e acabei não fazendo.

Essa é uma curiosidade, se isso influenciou alguma coisa minha, que tem os dois lados do cérebro. Logicamente que você foi obrigada a desenvolver um dos lados. Quem escreve com a esquerda desenvolve o direito. E quem escreve com a direita, desenvolve o esquerdo. Então eu não sei. Deve ter afetado alguma coisa. Não sei.

Isso para mim é uma coisa muito gozada. Quando eu vou pegar numa raquete, varrer alguma coisa, é sempre a esquerda que predomina.

Fazer uma comida no fogão, não sei mexer com a direita. Eu sinto muito leve. Não dá certo. Precisa ser a esquerda. Eu me sinto melhor! Nesses trabalhos manuais...

Só para escrever que a maior agilidade é com a direita.

Isso deve ser hereditário, porque eu tenho uma prima irmã minha, que mora em Campo Grande; o pai dela, irmão do meu pai, nunca foi de esquentar com isso. Era assim, como se diz? Bem desencanada de tudo. Não ligava muito para isso. Ela, eu sei que é canhota. Nunca ligaram. Ela escreve com a esquerda, tudo isso. Se não me engano, meu sobrinho, filho do meu irmão, é canhoto também. Me parece, também, porque a minha cunhada Luísa é. Acho que o Tadeu é canhoto também. Isso eu estou guardando de quando ele era criança.

Voltando ao assunto, isso aconteceu na minha vida.

De resto, ser canhoto nunca me trouxe problemas na escola. Como eu tive que aprender com a direita, não tive problema.

Quando eu comecei a ser alfabetizada, já usei a direita. Mas a esquerda nunca foi esquecida. Desenvolvi isso.

Quando eu ia com a minha tia dar aula, na lousa, tinha uma lousa de criança pequenininha. A gente morava em uma casa, ficava no quartinho de brinquedo, e eu ficava lá com meus alunos. Era sempre com a esquerda. Tem um tio que eu cuidei dele, que faleceu tem uns 13, 14 anos. Até o último instante da vida dele, ele irmão do meu pai, solteiro. A gente saía muito, ele ia muito na minha casa. E também não aceitava que eu escrevesse, nem fizesse nada com a esquerda. Tanto é que no último instante da vida dele, uma semana antes dele morrer, eu ia para uma viagem de Congresso. Ia servir para ele, na boca dele e ele: “eu já falei que todo canhoto é desastrado. Eu não quero que você me sirva com a mão esquerda”. Falou rindo, no fim da vida. E eu: “agora você tem que aceitar tio. Eu estou aqui”. Ele era bem assim! Se eu saía com ele para almoçar e pegasse alguma coisa com a mão esquerda, ele ficava muito bravo. Ele e meu pai.

Os outros, meu padrinho, que era muito mais velho que eles nunca ligou para isso. Os irmãos do meu pai que moravam em Corumbá, Mato Grosso, nunca ligaram para isso. Família da minha mãe era bem light, nunca ligou. Isso era típico mesmo do imigrante, que teve aquela educação, sabe?

Eu estava lendo outro dia, se tem alguma coisa a ver com islamismo. Tudo de Alá, do Alcorão. E, se não me engano, eles dizem que tudo que vem da mão esquerda não é muito aceito por Alá. Isso vem um pouco da religião. E atualmente mesmo com essa história de que ninguém liga pra isso tem uma descriminação. Tem! Porque as vezes a pessoa fala: “você tá do lado torto”! Você é jovem, mas deve sentir isso em algumas coisinhas. Não que os novos lembrem tanto disso, mas alguma coisa eu acho que tem.

Você nunca pode dar bom dia com a mão esquerda. Tem que dar com a direita. Se estender com a esquerda, a pessoa já fica meio...

Quando as pessoas se referem a sua casa, é de pé direito alto. Se falar de pé esquerdo, vão ficar te olhando. [risos]

São pequenas coisas, tem os resquícios.

Meu pai e meu tio vivenciaram, e adquiriram lá do Líbano. Não foi uma cultura passada, e sim adquirida. Os outros não. Tinha gente mais velha do que ele, esse meu tio Felipe tinha a idade deles e não ligava para isso. Era um bon vivant, não gostava de trabalhar, era ótimo. Curtiu muito a vida. Teve 6 filhos. E era bem danado. E bem light, que não se preocupou muito com isso.

Como era quando você ia com a sua tia no Grupo [escolar]?

A minha tia me levava. Ela trabalhou a vida inteira lá. Era muito respeitada. Morei dois anos com a minha avó. Então moravam os filhos solteiros com ela, em uma casa aqui perto, alugada. Em frente ao Hospital C atualmente. Morei dois anos. Só fui embora porque meu pai veio me buscar. Não queria ir embora, pois minha paixão era a minha avó. Primeira neta, nossa! Minha tia levantava cedo para dar aula; se eu acordasse e ela não estivesse mais lá, minha avó tinha que me levar até ela. Dava aula junto. Quando eu cresci, vim morar aqui, estudava, mas continuava indo dar aula com ela. Aliás, o meu sonho era ser professora!

Mas a minha mãe e um irmão dela, que era caçula, o Tio Joaquim, que foi o último irmão homem a morrer, em 2003, ele falava para mim: “você vai ser doutora”. Porque a professora já tinha, a Clarice, achavam que era muito pouco. Mas eu adorava dar aula. Era uma das coisas...

A Juliana que trabalha no Paulo, quando chegou aqui, a gente morava nesse apartamento, em 1965, 66, eu devia ter uns 7, 8 anos, eu chegava e tinha que dar aula para ela. Ensinei ela a escrever o nome. O quadro negro era a porta. Eu comprava o giz, e ensinava a Joana. Mas ela nunca gostou. Minha mãe falava: “você vai ficar 2 horas ensinando ela”. E eu: “pode deixar”. Eu era mais velha, e gostava! Ela foi minha primeira aluna [risos]. Fiquei uns dois anos ensinando ela.

Eu tenho uma memória muito boa! Se você perguntar para mim, me lembro até de quando era bebezinho. Ainda lá em Corumbá, em pé no berço, junto ao quarto dos meus pais. Me lembro da casa, dos meus amiguinhos.

cadê a Janete e o Zezinho? Ela não sabia, e achava que tinham ido para Cuiabá. Eu me lembro da Janete, umas pessoas assim.

Minha memória eu gosto. Modéstia à parte, é muito boa. Com o tempo a gente vai perdendo.

Lembro de muitas coisas da vida.

E a questão da mão, era mais de escrita?

Não podia pegar garfos, talheres principalmente. Isso eles não aceitavam. Se eu fosse servir alguém, não podia pegar um copo com a esquerda, tinha que passar para a direita. Meu pai e o Tio David; minha mãe tudo bem. Meu tio não aceitava até o último instante.

Ele faleceu no dia 24 de maio. Dias antes fui servir uma esfirra para ele, e ele: “já falei que canhoto é tudo desastrado”. Por que Priscila? Até o fim da vida!

E você acha que canhoto é mais desastrado?

Não, não acho. Embora eu tenha um livro, da Mônica Bonfiglio, ela é canhota também. Ela tem um livro, Magias, não sei o quê. Eu fiz um curso com ela em 1990. E lá ela escreve que ela é canhota, e fala alguma coisa sobre. Ela fala que todo canhoto tem uma sensibilidade maior, um sexto sentido bem aguçado.

Ficava alguém te orientando para escrever diferente em casa...

Não. Meu pai ficava muito bravo se visse. Não gostava. De criança realmente batia na minha mão.

Você lembra como foi para desenvolver o movimento?

Da mão direita eu não lembro. Vou ser honesta. Foi uma coisa muito automática. Supérflua. Não foi natural. Hoje escrevo bem rápido.

Uma coisa é de dentro para fora. E outra é mecânica.

Até as assinaturas não têm nada a ver. São totalmente diferentes.

O que mais que você queira contar? Que acha interessante?

Fui uma época ter aula de tênis e jogo com a esquerda. Mais complicado! Também fui ter aula de golfe, aí é meio complicado. Os professores querem estimular, porque não tem taco para canhoto, mas eles ficam meio assim. Estimulam, mas vejo que no fundo ficam meio assim [receosos].

Você acha que eles tem dificuldade de ensinar ao contrário?

Têm sim! Embora quando eu fui aprender a jogar tênis, eles falavam que a Maria Esther Bueno é canhota e foi uma das grandes tenistas. Gravei isso, porque eles falavam para mim. Falavam para me incentivar.

Na hora de bater bolinha e jogar com alguém é mais complicado. O destro pega a raquete. Quem vai jogar normalmente com você, a parte contrária, dificilmente é canhota. Então é um destro, e ele sente um pouco de dificuldade.

Quando, às vezes, eu falo para alguém, principalmente quem estudou comigo na faculdade, diz que eu lembro de muita coisa porque eu era canhota. E que desenvolvi os dois lados do cérebro. Diz que é por isso que eu tenho boa memória. Alegam isso!

Escovar dente só com a esquerda. Não conseguiria com a direita. Nem tento. Escovar cabelo também tem que ser só com a esquerda.

Sou totalmente canhota!

O que mais? O que mais você quer saber?

Quero saber de você o que você quer me contar... [pausa] Se lembra de algo da adolescência?

A única coisa marcante era quando eu ia sair para algum restaurante, principalmente com o meu Tio David, ele falava: “só não me pega com a mão esquerda”. E ele ficava muito bravo. Muito bravo. Muito bravo mesmo! Verdade. Ele faleceu bem depois do meu pai. Meu pai faleceu tem 33 anos, e o Tio David 13, 14.

Nenhum filho meu é canhoto. Acho que exceto um sobrinho...o Tadeu Didi.

O que você é? Canhota ou destra?

O meu íntimo, o meu eu é canhoto. E o supérfluo é os dois. [risos]

Não posso negar que a mão mecânica, 80% eu faço com a esquerda. Tem os 20 que é a mão mecânica, e a mão do meu eu que é canhota.

Minha força está na mão esquerda, minha natureza.

Ser canhota para você é...

Me realizar como pessoa. Ser eu. Eu me sinto bem.

E eu já reparei se fizer uma coisa manual com a direita não é bom. Se mexer uma panela com a direita, a comida não sai gostosa. Não me sinto.

É só a caneta para escrita.

No documento Priscila Lambach Ferreira da Costa (páginas 118-125)

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