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DEPOIMENTOS DE INTEGRANTES DAS COMUNIDADES ECLESIAIS DE BASE

Obs - Os depoimentos foram tomados entre julho e agosto de 2013, estão gravados e foram tomadas notas descritivas.

Antonio Ferreira Costa

Começou a participar com 9 anos de idade, pais eram bastante ativos. Entrou no grupo de jovens e depois no catecismo. Os pobres eram perseguidos na periferia. No campo celebrativo havia a mística da oração e comunhão; ideal do bem comum...os padres entendiam a realidade do povo e sempre trabalhavam pelo bem comum...os padres conduziam a comunidade, a reflexão da vida era a partir dos padres...mostrando que o coletivo é uma força, mobilizavam todos...conviviam com o povo...o padre liderava mas não queria o poder e isso é uma aberração dentro da Igreja.

A ditadura tinha ligação com o poder da Igreja, perseguiram as CEBs...a comunidade não tinha recursos de fora, lutavam com dificuldades sem apoio...reflexão da realidade levou ao sindicalismo e à fundação do Partido dos Trabalhadores...iria resolver tudo, ilusão...partido se endinheirou, quem manda é o capital. A Igreja enfraqueceu...importante os movimentos com dinheiro, é terrível.

As CEBs estão vivas, como propósito de vida para a transformação, para mudar a realidade...

Edivado José Barbosa

Participou nos anos 70, com Domingos Barbé...entrou nos círculos bíblicos e grupos de rua...as CEBs da forma que eram não existem mais...antes campo político era importante, época da ditadura, articulava para superar momentos difíceis mas não era o foco principal. Principal era a vivência do Evangelho, a leitura da Bíblia era o principal. A missa era mais participativa, mais a realidade social, o pessoal era mais evangelizado, não era só contemplativo....

A CEB era totalmente ligada à paróquia, sempre ligada aos padres que a conduziam, foi a igreja que aconteceu na rua, cresceu porque tinha uma motivação em comum, a participação do povo era democrática...fez um despertar do povo para a parte política, social...sempre tendo por princípio o Evangelho...era uma igreja de base para mudar a sociedade...sempre prevaleceu a orientação da hierarquia, sem hierarquia não haveria CEBs, se a palavra do sacerdote hoje tem peso, muito mais anos atrás...os leigos assumiram muitas coisas, mas coordenados pelos padres...CEBs hoje, nome desgastado, problema político, identificado com PT, eles não estão mais na Igreja, usaram a CEB e não corresponderam, fui um dos fundadores do partido em Osasco, mas me retirei, vi muitas situações erradas..Devia preparar o político, mas não fez, dificuldade em ambas as partes, muito imediatismo de um lado e dificuldade de colocar o fundamento cristão para quem não tinha uma preparação cristã adequada...

O objetivo principal das CEBs hoje ainda continua vivo, mudar o social a partir do Evangelho, mas Igreja é muita oração e pouca rua, é mais clerical, menos conscientização social, falta formação cristã...

Edilson Oliveira

Começou a participar das CEBs nos anos 80, continua participando até hoje, faz parte da equipe diocesana das CEBs. O bispo anterior era mais atuante no contexto político/social e econômico.

Integrantes do PT nasceram nas CEBs em Osasco...as CEBs resolviam problemas sociais do próprio bairro: esgoto, asfalto, ônibus...os integrantes reclamavam como igreja. Hoje a assembleia está dispersada, a maior parte do clero está dentro da igreja, padres tem medo das CEBs. A CEB celebra a vida, celebrava as conquistas do povo, antes a celebração era partilhada com o que se conseguia, hoje é muito louvor, é mais rito. O rito é mais importante que a vida do povo.

As CEBs eram a verdadeira Igreja, bispos eram importantes, lutavam pelo social, depois se calaram. Sempre se respeitou a hierarquia, sempre teve relação harmoniosa com a hierarquia, apesar de ser romanizada. As CEBs caíram porque foram perseguidas pelo Vaticano. Nas CEBs os leigos eram mais protagonistas, problema de poder para os padres. Hoje poucos leigos são engajados nas CEBs.

Advan Dias da Silva

Participa das CEBs desde o final da década de 70. Conheceu a igreja popular do pe. Domingos Barbé, importante a parte social, resolveu situações caóticas- saúde/direito da pessoas/organização do bairro: água, esgoto, posto de saúde. As CEBs tinham a participação de todos, antes era afastado da igreja, agora participa de tudo: celebrante da palavra, formação, catequista.

Crescimento das CEBs pela consciência evangélica/bíblica, entende e compreende o evangelho na vida das pessoas, das CEBs saíram as pastorais sociais. O leigo era protagonista, mas a direção era da hierarquia. O clero tomou conta das pastorais sociais, não queria ser ameaçado, as CEBs eram rejeitadas pela hierarquia, não eram apoiadas. Problema social, união de todos para tirar operário da cadeia, depois caiu no Partido dos Trabalhadores, continua entrosado com o partido, apesar de não ter nada de bom...o projeto era bom para o trabalhador mas foi desvirtuado.

A CEB é protagonista de sua história, forma a pessoa, a Renovação Carismática quebrou as CEBs, Igreja mais capitalista, povo aceita mais oração, mas menos comprometido, sem o social, mais alegre, mas sem luta.

Sonia Aparecida Marques Leal

Milita na Igreja desde o final dos anos 60, na região de Pirituba, tomou conhecimento das CEBs em 1974/75. Sabia do trabalho de D. Angélico, com os pobres. Onde morava vinham missionários de Osasco. Conheceu o movimento operário, leu a cartilha do método ver, julgar e agir. Eles seguiam o livro do movimento, mas sem Bíblia.

Tinha identificação com o trabalho social, mas escutava que nas CEBs não se rezava, apenas trabalhavam. Sabia que lutavam muito pelas coisas do bairro, junto com outros segmentos da paróquia, outra questão é que não tinha padre. Meu coração me indicou que deveria ficar no RCC.

José Davi Leal

Começou na igreja no interior do nordeste. Não se falava de política na sua cidade. Em São Paulo, em Osasco, em 1980, já existia muita rivalidade entre CEBs e RCC. Trabalhavam juntos pelas reivindicações do bairro, mas quem dirigia a CEB não rezava. Trabalhavam para benefícios da comunidade, mas sem noção de mudanças das estruturas sociais. Ficou na RCC, porque não gostava de política na igreja.

O Partido dos Trabalhadores queria fazer reunião política no salão paroquial e isso misturava as coisas, um problema. Queriam deixar o povo de rua morar no salão, era uma apropriação de algo que era de todos, não só de alguns.

Manoel Antonio dos Santos

Começou na Igreja no final dos anos 70, trabalhando em grupo de rua. Participação com os leigos nas CEBs aprendeu como celebrar, exemplo: quando uma criança ia ser batizada a equipe do batismo ia na casa da criança, conhecia a família dava orientação com base no Evangelho, agora não se faz.

Leigo tinha vez na Palavra, vale a pena repartir o que tinha. As CEBs eram atuantes, tinham reuniões, os leigos tiveram abertura, mas se acomodaram, tiveram oportunidades, mas não foram em frente. Mudança na hierarquia, as CEBs cairam, os padres assumiram as CEBs e acabaram com elas. Mas leigos no comodismo, porque não caminharam sozinhos só com Jesus Cristo?

Maria de Fátima Barbosa

Veio do interior de São Paulo. Começou na igreja na década de 70. Lá era outro tipo de Igreja. Aqui encontrou a luta pelo lado social, reunião de paroquianos. Nas CEBs o povo participava da celebração e tinha participação comunitária.

Dá muito trabalho mudar, tem que caminhar junto. Hoje padre não quer trabalhar, rezar não dá trabalho, mas CEBs tem ação. Os padres tem medo das CEBs, afastam as pessoas que foram ou são ligadas às CEBs. Tenho esperança nesse novo papa, vai por força nas CEBs. Houve muita mudança na Igreja, agora o povo só assiste, não participa. Se o padre não leva adiante, não vai para frente. Hoje é tudo dentro da paróquia.

CEBs é missionária.

Genesco Agripino da Silva

Começou em uma comunidade do padre Domingos Barbé, que lutava com os operários, na pobreza. A celebração do Evangelho era como coisa da vida, tinha um aumento de fé, uma catequese, com vários cultos ecumênicos. A comunidade que participei não era ligada à paróquia. Tinha um campo político muito grande, muito importante para mim. As celebrações falavam dos fatos da vida, os ministros participavam, para mim era uma libertação. Foi um grande aprendizado. Conseguimos muita coisa para o bairro, muita

gente celebrava, hoje temos a associação de bairro, temos professor de ginástica para idosos, creche.

Elieser João de Souza

Comecei na igreja nas comunidades do padre Domingos Barbé. Conheço a realidade brasileira, a pastoral operária, a luta por justiça. A formação do padre Barbé foi muito importante, era um profeta vivo, formação perfeita. O ver, julgar e agir é importante, tinha tarefas por fazer. Era Jesus Cristo na vida da gente. Continuo no trabalho social e no movimento sindical.

O PT nasceu nas CEBs, era a celebração da vida dentro da Teologia da Libertação. Trabalho social, qualquer um é muito importante, se padre apoia vai mais rápido, se não apoia, continua mesmo assim. Não concordo com a postura atual da hierarquia, mas aceito. Os padres da mídia são de direita, são contra as CEBs. As CEBs estão por baixo, tenho fé no novo papa.

Muitos de nós abandonaram o barco, aprender o Evangelho com justiça, ética e verdade é o compromisso de cada um.

Xavier Cutajar

Estudei teologia no Brasil. Entendi que não devia importar uma teologia romana, aprendi a entender o local, as necessidades do povo, a ler o Evangelho e refletir sobre a vida. Sempre fiquei em Osasco, não tinha nem paróquia, ajudei a construir muitos centros comunitários. Lá tudo da comunidade era decidido, com o maior número de pessoas, não apenas representantes. O padre era mais um, igualdade de condições com os leigos, e não devia ser responsável pelas finanças da comunidade.

Muitas famílias traziam crianças mortas para batizar...porque tantos mortos, motivo um lixão onde eram despejados toneladas de sujeira todos os dias...movimentação política da população para fechar o lixão. Aqui só se resolve com política, acaba se envolvendo com política.

O padre era um assessor, não estimulava ter padres nas comunidades, leigo era preparado para a Palavra e conduzir a comunidade. Padre não era o dirigente autoritário. Sempre foi apoiado pelos bispos de São Paulo e de Osasco. CEBs e Teologia da Libertação estão interligadas, com o leigo sendo protagonista. A RCC, o individualismo dentro da Igreja, a

pressão dentro da própria Igreja que começou a combater as CEBs e a TdL, foram as causas da queda das CEBs.

Damásio Nunes de Carvalho

Começou com os grupos do padre Domingos Barbé. Eram pequenas comunidades, nem se chamavam CEBs, CEBs veio ser ligada mais tarde com a TdL. Grupo que celebrava junto e que tinha militância política pela vivência na oração, lutavam pelos movimentos sociais, por moradias para pessoas que tinham casas em áreas invadidas. O Evangelho era vivido para o resgate da vida dos pobres.

A TdL, tem na sua essência, o resgate das pessoas que vivem na pobreza. Hoje temos outras teologias, o pentecostalismo é apenas céu e não vida, apenas gestos não transformam. A Igreja nunca deixou de controlar as CEBs. Se um bispo não quer, os encontros não acontecem.

As CEBs foram um local onde os que estavam sem voz puderam se manifestar durante a ditadura militar. Os leigos foram protagonistas durante a caminhada das CEBs, inclusive conduziram alguns padres. A Igreja vai demorar muitos anos para retomar, se retomar, a eclesiologia de Paulo VI.

ANEXO 4