CAPÍTULO 4: CAMINHOS DA PESQUISA
4.3. Procedimentos de coleta e registro de dados 1 Pré entrevista
4.3.2. Depoimentos e videografia: a primeira entrevista
As narrativas foram coletadas pela pesquisadora através de entrevistas individuais semi-dirigidas80, abordando aspectos da história de leitura dos sujeitos surdos, com a participação de intérpretes de LIBRAS/Português, que estiveram presentes em quase todas as sessões (exceção da 1ª. Entrevista com Ângelo, onde a pesquisadora estava sozinha), uma vez que as interpretações sobre o pensamento do entrevistado poderiam ser corroboradas pelo referido profissional e haveria, assim, maior legitimidade do processo de atribuição de sentidos.
Duas intérpretes participaram da coleta das narrativas, sendo que cada uma ficou responsável por acompanhar os depoimentos de cada sujeito até o fim das sessões.
As entrevistas foram videogravadas, (a partir de videoconferências81 ou a partir de entrevistas presenciais), (re)apresentadas ao depoente (necessariamente), na presença do intérprete, em LIBRAS e finalmente transcritas, para posterior apresentação ao sujeito.
Assim, as entrevistas foram registradas em vídeo, para que se assegurasse a interpretação dos dados narrados e análises rigorosas, já que foram apresentadas em língua de sinais, onde, portanto, as expressões corporais e faciais são bastante impregnadas de significado(s), merecendo um tratamento analítico mais amplo, em relação à tradução e
transcrição para o Português (BRITO, 1995).
Neste contexto, de acordo com Ferrés (1996), o vídeo, como instrumento de pesquisa, teve uma função avaliadora, uma vez que se referiu ao ato de comunicação no qual o que interessou, fundamentalmente, foi a elaboração de valores, atitudes ou habilidades dos sujeitos captados pela câmera.
A videografia, ou registro em vídeo das atividades humanas, segundo Roschelle, Jordan, Greeno, Katzenberg e Del Carlo (1991, apud MEIRA, 1994), pôde capturar múltiplas pistas visuais e auditivas, como expressões faciais, entre outros aspectos. Segundo Meira (1994), o vídeo é menos sujeito ao viés do observador, simplesmente porque ele registra informações de maior densidade.
Neste ínterim, as sessões de entrevista ocorreram através de videoconferência (pólos: Campinas – Belo Horizonte e Campinas – Rio de Janeiro) ou com o registro de filmadoras VHS amadoras. Foram entrevistas recorrentes (mais detalhadas posteriormente), estimuladas também com a presença de fotos, livros escolares antigos (didáticos/ cartilhas), sendo diretivas (com perguntas de acordo com o ramo da história oral praticada), onde a pesquisadora buscou interferir o mínimo possível nos depoimentos,
80 Um roteiro foi elaborado com base no modelo de perguntas exemplificado por Thompson (2002) que não
constituem um questionário, mas uma orientação para o entrevistador. Vide Anexo 1.
81 As videoconferências foram feitas numa sala específica para tal, na Faculdade de Educação – Unicamp.
Havia o contato prévio da equipe do setor de multimeios da referida faculdade e os outros pólos (no caso, instituições particulares em Belo Horizonte e Rio de Janeiro) que foram agendados, oportunamente, pela pesquisadora, com o auxílio da equipe mencionada. É importante salientar que o agendamento feito pela pesquisadora incluía a apresentação antecipada dos participantes da pesquisa, a fim de que fossem recebidos adequadamente pelos profissionais locais.
tendo durado, em média, 1 hora e meia cada. Foram quase 13 horas de gravação das entrevistas, no total. Houve 3 sessões com o sujeito Ângelo, 2 sessões com Lourdes, 2 sessões com Luciano e 2 com Valdir, completando 9 sessões todo o processo.
Vale ressaltar que, através do trabalho de Soares (2004), baseado no modelo proposto por Lacerda (1996), foram (re)elaboradas as transcrições das narrativas video- gravadas para LIBRAS (vide Anexo 2), fundamentalmente através do processo conhecido como glosagem82, ou seja, da equivalência sinal-palavra (Viotti, 2005).
Tal processo foi feito também com o auxílio de intérpretes da língua de sinais que assistiam às videogravações e legitimavam os sentidos dos sinais utilizados pelos depoentes, através do registro escrito.
A partir disso, as entrevistas transcritas na íntegra com os sujeitos (Anexo 3), foram traduzidas, pela pesquisadora, para o Português.
Assim, na transcrição de tais entrevistas (vide Anexo 2), tem-se, primeiramente a transcrição em LIBRAS (feita pela intérprete) para garantir a visualização do processo de interlocução original. Abaixo de cada seguimento da entrevista, em itálico, a tradução para o Português (feita pela pesquisadora), considerando os possíveis desvios de sentido que toda prática de tradução implica, com a intenção de garantir a compreensão dos leitores não conhecedores/ familiarizados com a LIBRAS.
A legenda da transcrição utilizada foi a seguinte: (entre parênteses): estão gestos ou comportamentos dos interlocutores; /ENTRE BARRAS E LETRAS MAIÚSCULAS/, estão os sinais da LIBRAS ; em itálico está a tradução para o Português, quando necessário; sinal de interrogação entre parênteses (?) quando os sentidos foram bastante fragilizados pela tradução; (entre parênteses e itálico) estão as complementações lingüísticas do discurso para melhor entendimento do leitor.
Especificamente, as palavras estão em letra maiúscula, identificando que existem sinais correspondentes em LIBRAS. A separação por hífem refere-se às palavras realizadas através da dactilologia, durante o diálogo. As frases estão estruturadas conforme o uso em LIBRAS. Como exemplo, tem-se o seguinte excerto:
entrevistadora: /OI/ BOM/ (sorri)
Oi, tudo bom?
Ângelo: /OI/ BOM/ PRAZER/ CONHECER/(sorrindo)
Oi. Tudo bom. Prazer em conhecê-la.
entrevistadora: /PRAZER/ MEU/ CONHECER/ VOCÊ/
O prazer é meu em conhecer você.
Em relação ao processo tradutório da LIBRAS para o Português, a pesquisadora procurou conferir um caráter próximo da informalidade da/na fala, utilizando- se de recursos lingüísticos muitas vezes dissonantes do Português padrão, para que as narrativas pudessem indicar um comportamento comum, cotidiano, nas relações dialógicas da mesma natureza ou de natureza parecida.
Com base nas entrevistas transcritas (glosagem e tradução), as análises foram feitas e a criação das categorias foi possível, em função das respectivas histórias narradas (Anexo 2).
É importante destacar que o que norteou tal análise foi, como lembra Amado (1998), a noção de que a dimensão simbólica das entrevistas não clareia diretamente os fatos, mas permite aos pesquisadores rastrear as trajetórias inconscientes das lembranças e associações de lembranças; permite, portanto, compreender os diversos significados que indivíduos e grupos sociais dão às experiências que têm. Para tal autora, negligenciar essa dimensão é revelar-se ingênuo ou positivista. Ignorá-la, como querem as concepções tradicionais da história, relegando a plano inferior as relações entre memória e vivência, entre tempos, entre indivíduos e grupos sociais e entre culturas, significa reduzir a história a uma sucessão de eventos dispostos no tempo, dividindo-a em unidades estanques e externas; seria o mesmo que imobilizar o passado nas cadeias do concreto, do real, onde supostamente, residiria sua verdadeira natureza, que caberia aos historiadores resgatar, para a posteridade.
Assim, conforme indicado, a coleta de dados por meio de entrevistas recorrentes foi realizada por sinais, ou seja, verbalmente83 – em consonância com os
Ver em <http://lanic.utexas.edu/project/etext/llilas/cilla/franchetto.pdf> (acesso em 25.10.2006).
83 Conforme as referências feitas, como manifestações de oralidade, subentende-se aqui, manifestações da
língua/ linguagem, o que significa ampliar as formas de expressões lingüísticas para além de seu aspecto verbal/ sonoro.
depoimentos de história de vida - e iniciada por uma pergunta aberta apresentada pela pesquisadora, na primeira sessão (“Que influências você recebeu, ao longo de sua vida,
para que se tornasse um leitor? Como se tornou um leitor proficiente de português?”). A partir desta pergunta, o depoente verbalizou suas vivências, tendo sido direcionado aos aspectos principais do roteiro de pesquisa elaborado previamente (Anexo 1).