Os desafios para o futuro brasileiros quanto às questões que envolvem as comunidades surdas estão relacionados, especialmente, com a implementação da educação bilíngue. A legislação é promissora, mas ainda precisa ser colocada em prática. A implementação da meta 4.7 é o desafio que já está posto. Junto à meta, o relatório sobre a implementação da educação bilíngue com proposições concretas deve ser colocado efetivamente em ação. Para isso, a negociação dos representan- tes da comunidade surda, por meio da FENEIS, precisa ser estabelecida com os gestores da educação. O desafio é convencer os gestores de que a interpretação deles da legislação quanto ao que significa a educação bilíngue para surdos pre- cisa ir além no sentido de garantir a identidade linguística da comunidade surda na educação. A implementação do PNE requer a criação de ambientes bilíngues nas comunidades escolares. Isso requer a presença de educadores surdos. Este é o grande desafio das políticas públicas brasileiras para a educação de surdos.
Para além do âmbito escolar, ainda há desafios identificados pelas lideran- ças surdas brasileiras que impõem outros tipos de desafios. As relações entre os surdos e os ouvintes apresentam muitos conflitos que envolvem relações assimé- tricas de poder. Os espaços do mercado de trabalho são disputados entre surdos e ouvintes gerando conflitos reais nas relações. Os surdos sentem-se ameaçados pelos ouvintes que aprenderam a Libras, pois estes começam a ocupar posições que poderiam (deveriam) ser ocupadas pelos surdos. Um dos grandes desafios envolve a discussão sobre a quem pertence a Libras. Os surdos falam sobre os ou- vintes “roubarem a Libras” deles. Estas discussões são profundas e desafiadoras e parecerem ser recorrentes nas zonas de contato entre surdos e ouvintes. A Federa- ção Mundial de Surdos (WFD) e a Federação Internacional de Intérpretes de Lín- guas de Sinais (WASLI) estabeleceram um acordo de cooperação reconhecendo a primazia das organizações de surdos para o desenvolvimento político, cultural e educacional das línguas de sinais. A WFD também recomenda que pessoas surdas devem ser priorizadas no ensino de línguas de sinais, assim como serem consi- deradas as pessoas de referência cultural e linguística de suas respectivas línguas de sinais. Essas recomendações precisam ser consideradas pelas pessoas ouvintes que escolhem trabalhar com a língua de sinais, pois envolve questões éticas que quando infringidas geram conflito com a comunidade surda.
A partir da zona de conflitos, as políticas afirmativas são desafiadoras. O Decreto 5.626/2002 estabelece que os surdos têm a prioridade na formação para o ensino da Libras. Com isso, vários surdos se formaram como professores, mas quando chegavam no mercado de trabalho, os ouvintes acabavam ocupando as posições para o ensino de Libras. Então, o PNE 13.005/2014 estabeleceu que os surdos têm a prioridade para o ensino da Libras. Agora, o desafio é implementar esta prioridade que está sendo dada legalmente aos surdos. No entanto, os confli- tos entre os profissionais surdos e ouvintes permanece. Este é um grande desafio a ser enfrentado no Brasil.
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