Nas traduções de quaisquer línguas, as normas, culturas e valores da língua alvo devem estar presentes na tradução. De outro modo, o leitor pode não com- preender o significado e sentir-se como se fosse um estrangeiro desta tradução que deveria ser destinado a ele. Por causa dessa inobservância, há inúmeros leitores insatisfeitos que sempre querem ter uma leitura em sua língua que capta o que está nas suas entranhas, ou seja, as normas surdas, os valores compartilhados pelos surdos e a cultura que se constitui a partir das comunidades surdas. O simbólico manifesto no sistema da língua de sinais está sempre carregado pelo indexical que envolve o contexto com todas as nuances culturais e pela iconicidade que se ma-
1 Mestre em Estudos da Tradução pela Pós-graduação em Estudos da Tradução – PGET / Universi- dade Federal de Santa Catarina – UFSC. Professor Assistente. Universidade Federal de São Carlos – UFSCar. Contato: [email protected]
2 Professora Mestre, Doutora e Pós-doutora em Linguística de Língua de Sinais. Professora Associa- da da Universidade Federal de Santa Catarina – UFSC. Contato: [email protected]. 3 Mestre e Doutorando em Estudos da Tradução pela PGET/UFSC. Tradutor-Intérprete de Libras.
nifesta pela língua e na língua de sinais, diferentemente da língua fonte, ou seja, neste caso o português escrito (no sentido de Peirce, Silverstein, 2004), por isso tradução interlinguística, intermodal e intersemiótica.
Nas análises das traduções no contexto do Curso de Letras Libras a distân- cia das disciplinas oferecidas nos cursos de 2006 e 2008, Segala (2010) identificou inúmeros estranhamentos, principalmente no que concerne a interferência da lín- gua portuguesa na Libras. Os leitores surdos apresentaram sua insatisfação por não compreenderem a tradução para sua primeira língua.
Baseado em Segala (2004), apresentamos cinco tipos de estranhamentos dos leitores surdos, tais como:
• Português sinalizado, ou seja, a utilização simultânea das duas línguas que
se apresentam em duas modalidades, língua a oral-auditiva e a gestual- -visual, misturando as duas línguas e deformando-as. Isso é possível exa- tamente pelas duas línguas usarem canais de articulação diferentes impli- cados em cada modalidade dessas línguas. Nesse caso, o estranhamento maior é quando o tradutor escolhe o português como língua default e insere sinais da língua de sinais na estrutura do português. Nesse caso, a Libras fica inaceitável gramaticalmente e sem sentido do ponto de vista semântico.
• Empréstimo linguístico, da língua da modalidade oral-auditiva, as vezes não
são palavras novas nascem no dentro da mesma língua, mas sim nascem por outras línguas, como emprestada e para língua da modalidade visual- -espacial, a Libras, que utiliza o alfabeto manual para introduzir um termo e ou algumas palavras que não existe na Libras, como explica Ramos (2008):
[...] a maior parte das comunidades surdas de todo o mundo utilizam a datilologia em suas línguas de sinais. Ela pode servir de algumas palavras estrangeiras, nomes próprios que ainda não tenham recebido o “apelido” em sinal, nomes de lugares ou palavras novas.
O uso demasiado desse recurso pode afetar a compreensão do texto na lín- gua alvo. Há também empréstimos de outras línguas de sinais para introduzir um termo ou palavras em Libras. Nesse caso, se o empréstimo não for situado de for- ma apropriada pode comprometer o sentido do texto na Libras.
• Neologismo, ou seja, a criação de novos sinais que acontece a partir de uma
palavra da língua portuguesa e de seu conceito para um sinal, o novo sinal. Quando há novos sinais na tradução, pode haver a incompreensão por par- te dos leitores, pois ainda não estão familiarizados com esses novos sinais.
• Linguagem de ouvintes, ou seja, a linguagem na forma como é organizada na
língua portuguesa. As pessoas usam a língua na conversa diária para fazer negócio, planejar refeições e férias, discutir política, fazer fofocas (Clark,
2000) nas formas acordadas entre os seus falantes. Assim, a linguagem ex- pressa por meio de uma língua, carregam esses acordos que se desdobram a partir das relações de uma comunidade linguística. Novamente aqui, esses acordos manifestam valores e a cultura dessa comunidade. Portanto, quan- do utilizam os acordos da “linguagem dos ouvintes” não estão devidamente traduzidos para os acordos da “linguagem dos surdos”, mais especificamen- te da comunidade surda brasileira que usa a Libras. Assim, há um estra- nhamento por parte dos surdos ao se depararem com o texto resultante da tradução que não se pautou na “linguagem dos surdos”.
• Aspectos formais, ou seja, a não observância da estrutura da língua alvo, con-
siderando aspectos sintáticos, morfológicos, fonológicos. Algumas traduções simplesmente seguem a estrutura da língua portuguesa, ignorando o uso do espaço, a forma de compor as palavras e até a fonologia que rege na Libras. Essas formas de estranhamento estão também relacionadas com a não ob- servância das normas surdas. Norma surda, segundo Stone (2009) refere ao ato da tradução mergulhado pelos aspectos culturais e políticos, principalmente quando a língua alvo é a língua de sinais. Essa norma nasce de uma comunidade surda co- letiva e heterogênea, com marcas da identidade surda, na qual os diferentes mem- bros contribuem com habilidades para o coletivo e os tradutores pertencem à esta comunidade. A relação de pertencimento é estabelecida à medida em que a norma surda é internalizada. A partir disso, é possível fazer uma tradução “bacana”, como discutiremos neste artigo.
O que temos observado é que a tradução para Libras sofre muitas inter- ferências linguísticas e culturais do Português. O que é possível fazer para evi- tar isso? Como fazer uma tradução possível em Libras? No contexto do Curso de Letras Libras da UFSC, a proposta foi de buscar soluções, considerando teorias e métodos dos Estudos da Tradução que poderiam ser implantados nas práticas tradutórias do português escrito para a língua brasileira de sinais (Quadros e Sou- za, 2008).
O que o tradutor deve priorizar para realizar uma tradução que siga a nor- ma surda? Há vários caminhos diferentes para seguir e diversas teorias para tomar como base. Não existe o traduzir certo, nem traduzir errado, mas um traduzir se- gundo o contexto de experiência na vida social e cultural, considerando as línguas envolvidas e suas comunidades linguísticas. Deste modo, buscaremos, na teoria de tradução minorizante de Venuti (2002), bem como nos estudos sobre a Nor- ma Surda (Stone, 2009), possíveis caminhos para realizar uma tradução melhor da língua portuguesa escrita para Libras. Aplicando essas discussões teóricas ao contexto das traduções para as línguas de sinais, buscamos chaves para uma porta que nos leve a um caminho possível para que esse tipo de tradução de forma mais adequada à experiência visual do leitor surdo, com o fim de minimizar os estra- nhamentos por parte desses leitores.