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Descrição do projeto e pergunta de investigação

III PARTE: ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO EM TERMOS TEÓRICOS DO ESTUDO

Capítulo 5: DESENHO DE INVESTIGAÇÃO

5.1. Descrição do projeto e pergunta de investigação

O projeto de investigação tem como título ‘O novo clown: metamorfoses contemporâneas de uma arte milenar.’ Nesta investigação, o clown é a coluna vertebral e a ‘escuta’ é o grande impulso ou tema principal, caraterizado na prática pela cinestesia do ser em construção. Este clown vai convocar outras áreas como: yoga, kung-fu e a dança-teatro. Assim, interessa perceber como a prática de clown pode ser relacionada, nos dias de hoje, com outras áreas, fomentando o encontro deste ao mesmo tempo que lhe fornece ferramentas de caráter individual que colaboram com ele sem perderem a sua forma original ainda que todos trabalhem juntos para um saber comum. Propomos, desta forma, a transdisciplinaridade entre artes e disciplinas. A ‘escuta’ funciona como o elo de ligação desta relação transdisciplinar que une e serve de limite entre o comprometimento e o individualismo de todas as áreas.

Desta maneira, pensamos utilizar como ferramenta auxiliar a técnica viewpoints de

Anne Bogart, por se envolver totalmente com a escuta corporal, inclusive com a resposta

cinestésica, que é evidenciado no seu livro ‘the viewpoints book’, juntamente com Tina

Landau, por exemplo na seguinte frase:

“Listening involves the entire body in relation to the ever-

changing world around us. In viewpoints training, one learns to listen with the entire body.”

(Bogart; Landau, 2005, p. 33)

Esta técnica vai funcionar na ajuda da construção de uma personagem em devir sem um fim específico, ou seja, sempre sujeita a novas formas de modelação a ser criada através de processos criativos laboratoriais. Então surge a questão fundamental da investigação:

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Qual o contributo do yoga, do kung-fu, da dança-teatro e da técnica viewpoints na construção de uma personagem que emerge do clown? Na análise de partes constitutivas destes laboratórios interessa identificar a presença dos momentos onde a consciência e a resposta cinestésica foram mais relevantes e perceber o seu contributo enquanto produto artístico, tal como perceber o contributo para a construção de competências criativas e reflexivas nos indivíduos como pessoas, artistas e futuros formadores.

5.1.1. Educação Artística

Quando pensamos em abordar o tema da Educação Artística somos interpelados pelo seu contexto histórico em Portugal, embora não possamos fugir também a uma contextualização de foro internacional quando falamos da educação no clown. Sobre a Educação Artística, desde uma perspetiva geral e nacional, fazemos nas linhas que se seguem uma abordagem de acordo com o Diário da República – II Série, nº 28 de 3 de Fevereiro de 1999. No séc. XX, João de Barros (1881-1960) iniciou, no âmbito da 1ª República, uma campanha pela educação artística: “Não há sociedade democrática que possa viver, progredindo, sem o culto da arte”. Depois, Aurélio da Costa Ferreira, em 1916 edita um texto sobre “Arte na escola” e, ainda, Cardoso Júnior ou Leonardo Coimbra: “A primeira educação deve ser artística”. A 28 de Maio de 1926, o regime ditatorial estabelecido não auxiliava o desenvolvimento destas matérias. Contudo, tal como disse Arquimedes Silva Santos, nos anos 50, surgem novas dinâmicas despertadas pela criação da Associação Internacional de Educação pela Arte, sem poder esquecer o trabalho desenvolvido por Calvet de Magalhães e Alice Gomes, entre outros. Em 1957 concretizam-se em Lisboa e no Porto uma série de conferências, das quais fez parte e se publicou a comunicação de Rui Grácio “Educação estética e ensino escolar”. Em 1971, Madalena Perdigão, proporciona na Fundação Gulbenkian um colóquio sobre “O projecto de reforma do ensino artístico”, do qual emerge a reforma do Conservatório Nacional. O 25 de Abril de 1974 descerrou condições para uma renovação do pensamento e da ação nesta área, acontecendo em 1978 a criação, no Ministério da Educação, do Gabinete Coordenador do Ensino Artístico, sob a alçada de Madalena Perdigão. Este Gabinete exibiu em 1979 um plano nacional de educação artística, não tomado. No entanto, até à década de 80, os direitos que estatuíam o ensino artístico remontava à década de 30. A Lei de Bases do Sistema Educativo

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de 1986, em vigor, aclamou a importância das artes na educação. No seguimento, em 1987, germinou o projeto “Escola cultural”, que em 1989 é permutado pelo projeto “A cultura começa na escola”, entretanto desaparecido. Em 1990 é autorizado o diploma quadro do ensino artístico, em vigor o Decreto-Lei nº 344/90, apoiado na experiência anterior, relevando-se o já referido “Plano nacional de educação artística” de 1978. Em 1991, o GETAP (Gabinete de Educação Tecnológica, Artística e Profissional), do Ministério da Educação, hoje decomposto, promove, na Maia, o colóquio “Educação artística especializada, preparar as mudanças qualitativas” onde procura difundir (1578 DIÁRIO DA REPÚBLICA - II SÉRIE nº 28 - 3-2-1999) os decretos regulamentadores para as diferentes áreas artísticas no seguimento do diploma quadro de 1990, já citado. Os diversos decretos em causa nunca transporiam da fase de proposta. Em 1993, o Ministério da Educação, a Secretaria de Estado da Juventude e o Clube Português de Artes e Ideias arremessam o programa “PAIDEIA - Arte nas Escolas”, que compreendeu, até 1997, cento e oitenta escolas secundárias. Na década de 90, aumentaram-se os projetos locais de ações artísticas ligadas às escolas, sejam: na continuação de ações com alguma longevidade, na utilização da ‘área-escola’, outros mecanismos antecedentes semelhantes ou através de parcerias entre organizações culturais e escolas. Em 1996 foi determinada uma comissão conjunta entre o Ministério da Educação e o Ministério da Cultura para estudar a situação do ensino artístico e prosseguir com propostas globais de reforma. A comissão em causa expôs o seu relatório e, entretanto, foi escolhida uma segunda comissão conjunta, ainda em funcionamento. O Diário da República deslinda como esta matéria tem sido de procedimento instável e pouco consequente, preservando em estado de desarticulação as estruturas presentes, não maximizando as suas possibilidades e não concebendo condições para que este domínio tenha o destaque que lhe é reconhecido como forte instrumento de qualificação pessoal e social. O Diário refere ainda que em diversos países, com uma vivência mais segura que a portuguesa, repensa-se a intervenção na área das artes. Portugal tem o ensejo de participar, em paralelo, numa movimentação que busca adaptar os sistemas educativos às exigências da contemporaneidade.

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5.1.2. Enquadramento do estudo na investigação em Educação Artística

Indubitavelmente, o meu percurso como investigador, artista, professor e formador muito influencia o pensar deste projeto. Desde que me iniciei nas artes circenses em 1999, mais precisamente no malabarismo e clown, apoiado por um público sempre em movimento, que é a rua, senti que a sua fuga e tendência a misturar outras artes e disciplinas é sempre maior. Fiz parte de escolas, instituições, tirei cursos superiores e profissionais, participei em laboratórios, workshops, eventos, espetáculos, entre outros. Lecionei em diferentes escolas e dei formação a diferentes faixas etárias. Sem nunca me cansar, continuo a fazer todas estas atividades explorando sempre diversas áreas da Educação Artística. Sendo esta um pouco alargada, pensei trazer para este projeto algumas das linguagens que considero mais pertinentes no meu percurso e que permitem, de certa forma, contextualizar a personagem que daí advem.

O corpo que pretende dar vida a este projeto de tese é pensado na área da Interculturalidade na Educação Artística apoiado no modelo transdisciplinar sobre o estudo de uma personagem a partir do clown contemporâneo. Como referimos anteriormente no ponto 5.1., descrição do projeto e pergunta de investigação, a personagem a advir situa-se num panorama que mistura diferentes áreas e disciplinas, durante um laboratório de criação artística com outros elementos. É esta criação laboratorial que faz a ponte de ligação entre a arte e a educação. Assim, a criação artística através de laboratórios com a participação de outros, será um espaço de oportunidade para experimentar, desenvolver técnicas, conteúdos e competências, juntamente com o artista/investigador/professor na possibilidade de se criar e gerar nova informação. Então, dois grandes objetivos do estudo são oferecer e transmitir novo conhecimento que promova uma alternativa na aprendizagem do clown contemporâneo em educação artística, e procurar o progresso e a transformação da aprendizagem do clown na contemporaneidade atual. O clown, ao iniciar o caminho pelo qual o híbrido vai atuar, mostra as suas verdadeiras faces, trabalhando elementos inerentes ao ator, ao mesmo tempo que proporciona o aparecimento de uma personagem, que no final, com a intervenção agora (des)construtiva da técnica viewpoints, pode abandonar o clown e passar a ser outro produto artístico com ou sem uma identidade artística específica (clown, dança, teatro, circo...). A escuta do corpo pensante, o tema do projeto é precisamente o conceito base da técnica viewpoints de Anne Bogart, daí ser a

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técnica a servir de ferramenta na criação laboratorial, visando o aumento do sentido cinestésico dos artistas, das personagens e das próprios indivíduos enquanto pessoas. Por tal, vão ser identificados a presença de momentos que envolvam a consciência e a resposta cinestésica. Esses momentos/fragmentos identificados pelo artista/investigador/professor vão ser analisados e vão mover-se para a resposta à pergunta de investigação. Desta maneira, o entendimento desta consciência vai influenciar o movimento corporal das

performances, delimitando as fronteiras inexistentes de conexão entre as disciplinas em

questão. Encontramos aqui outro objetivo desta investigação que é refletir sobre momentos em que a consciência e resposta cinestésica se façam sentir mais verdadeiramente ao fundir o yoga, o kung-fu, a dança-teatro e o clown, no intuito de dar vida a uma personagem em constante remodelação, durante um laboratório de criação. Este corpo que transita na sua identidade através do confronto transdisciplinar tem aqui a oportunidade de ver e sentir o mundo que o rodeia sob um ponto de vista alargado e relação próxima através da educação artística no ensino não formal.

Temos também como objetivo promover uma relação transdisciplinar entre as artes e disciplinas supracitadas. Esta relação visa uma interação máxima entre as disciplinas, respeitando as suas individualidades, participando cada uma para um saber comum, sem as transformar numa única disciplina, mas num pensamento/objeto organizado que as ultrapassa. A partilha das várias formas de discurso das diferentes áreas e a sua análise, destacando a proporção entre as práticas e mostrando como funcionam coletivamente na conceção de uma personagem, contribuem para a formação e ação de um corpo em movimento aberto a múltiplas propostas. Aproxima-o de fontes de conhecimento que se complementam e não o isola de produções de conhecimento que se situam próximas do

clown. Esta proximidade está diretamente relacionada com toda a compreensão corporal,

cinestésica e expressiva que cada uma das disciplinas partilha e desenvolve à sua maneira, na tentativa de encontrar o seu ser interior, podendo ultrapassar a grande e verdadeira dimensão do clown. Se não existir essa proximidade, se não houver coexistência, se hierarquizarmos o sujeito, se houver separação da realidade e se resultado final for mais importante do que o processo, então a compreensão não será a mesma.

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