III PARTE: ENQUADRAMENTO METODOLÓGICO EM TERMOS TEÓRICOS DO ESTUDO
Capítulo 5: DESENHO DE INVESTIGAÇÃO
5.5. Instrumentos suplementares de recolha de dados
Carlos Moreira (2007) afirma que a opacidade da natureza da realidade social só é observável utilizando teorias e técnicas ajustadas, o que faz do investigador um observador participante. É precisamente esta ‘atitude’ ou ‘situação’ de observador participante que nós escolhemos como uma das estratégias de recolha de dados. Seguindo o conhecimento de Hébert et al. (1990), podemos recolher dois tipos de dados na observação participante que passamos a descrever: a) notas de trabalho de campo, do tipo da descrição narrativa, que constituem uma fonte objetiva de esclarecimentos baseados na compreensão e interpretação da realidade. Aqui, o investigador descreve e anota os elementos concretos da situação, assim como transcreve textualmente as conversas dos atores observados. Estes relatos descritivos constituem a informação sobre o local onde os atores evoluem, a perceção da situação vivida pelos atores, assim como as expectativas e necessidades dos atores. b) diário de bordo, do tipo da compreensão,apelando à sua própria subjetividade, no qual regista o percurso quotidiano da investigação e onde refere as suas reflexões pessoais e a sua vivência da situação. Por outras palavras, é o lugar onde o investigador toma nota, segundo Hébert et al. (1990) das suas perceções, das suas expectativas, dos seus receios, das suas satisfações, das suas hesitações, das suas relações com os atores e outros, dos seus sentimentos face aos valores desenvolvidos no seio do grupo, entre outros. Nos diários podem usar-se registos descritivos e interpretativos e segundo Lídia Máximo-Esteves (2008) devem ser datados e referenciados. Através de um diário é possível compreender o desenvolvimento da ação em observação e o próprio pensamento do professor que faz o registo, através de uma análise da sua perspetiva sobre o progresso dos indivíduos observados e do dilema que é conduzido na investigação. Conforme o autor, o diário é um dos recursos metodológicos mais recomendado, no que compete à sua riqueza descritiva, interpretativa e reflexiva.
Admitindo a possibilidade de usar os dois tipos de dados, a nossa preferência debruça- se no diário de bordo, uma vez que as notas de campo, no nosso entender, retiram espaço para uma reflexão conectada às sensibilidades que esta investigação pretende.
Utilizamos ainda o registos em vídeo (processo de observação direta), a discussão em grupo e o uso do questionário (processo de observação indireta).
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c) Registo videográfico
Inserido diretamente numa observação direta dentro de um sistema aberto tecnológico de registo, segundo Hébert et al. (1990), a partir do momento que o investigador define o local e a hora em que o aparelho é ligado, todas as imagens, palavras e sons que se encontram perante e dentro do ângulo de captação da câmara são registados, sem qualquer seleção ou intervenção por parte dele, no exato momento da recolha de dados. Os professores-investigadores usam com alguma regularidade este tipo de observação que recorre à imagem (incluímos aqui também a fotografia) como fonte de dados a analisar. Transportando a perspetiva de Máximo-Esteves (2008) em relação à fotografia para o vídeo, as imagens registadas não pretendem ser trabalhos artísticos, mas documentos que arquivem informação visual disponível, para serem analisadas e reanalisadas mais tarde e sempre que seja necessário sem depender de grande tempo. Este autor alerta que todos os registos (desde a disposição de objetos na sala, passando pela organização do espaço, até atividades artísticas quer sejam plásticas, encenações ou dramatizações) devem ser datados e referenciados espacialmente. Máximo-Esteves (2008) recorda que nos encontros entre professores-investigadores, sendo pertinente para nós aqui também incluir os artistas, é usual a apresentação de imagens (vídeo ou fotografia) que demonstram os seus trabalhos de campo, possibilitando discussões de desenvolvimento profissional, próprios destas comunidades. Nestas situações, o vídeo funciona como uma técnica auxiliar e foco de conversação onde é normalmente apresentado, em primeiro lugar, o contexto e as questões de investigação relacionadas com estas imagens, proporcionando ao grupo, simultaneamente, a articulação de novas questões e críticas ao conteúdo, na procura de interesses mais transversais e amplos a todo o grupo.
Máximo-Esteves (2008) indica de uma maneira geral que a maior crítica em relação ao vídeo é o seu lado obstrutivo, isto é, a sua interferência no decurso normal dos acontecimentos em relação a todos os participantes, embora tal como a fotografia, este inconveniente seja disfarçado como o seu uso frequente, e ainda pela disponibilidade que ele exige durante o tempo destinado para a sessão. Tal como diz Máximo-Esteves (2008), para esta questão da inconveniência, visualizamos duas alternativas: a) a utilização de um colaborador que se destine à captação das imagens; b) a aplicação de um tripé fixo, focado para o espaço ou grupo que se deseja observar.
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Para finalizar, Máximo-Esteves (2008) relembra que o investigador deve previamente selecionar os planos, os ângulos e o foco das filmagens de acordo com as questões em estudo, já que a câmara não filma sozinha.
d) Grupo de discussão
Gardênia Abbad et al. (2012, p.58) atribui ao grupo de discussão, sem apresentar qualquer tipo de diferença entre eles, os nomes de grupo de discussão focal ou ainda focus grupo. Este instrumento de registo de dados teve origem na sociologia e consiste numa entrevista realizada em grupo, mais precisamente numa entrevista em profundidade, no entanto o focus grupo tem como importância a análise e interação dentro do grupo em geral e não nos conteúdos verbalizados por cada participante em particular, como na entrevista. Escolhemos este instrumento de recolha de dados, porque como sugere Alonso (1998) através da sua definição de modos de estudo qualitativo, esta permite ao grupo uma conversa socializada em que a produção de uma situação de comunicação grupal serve para captar e analisar os discursos ideológicos e as representações simbólicas que se associam a qualquer fenómeno social. Alonso (1998) entende ideologia como um mecanismo de integração e de regulação social que unifica e faz complementar os diferentes papéis sociais. Para Abbad et al. (2012, p. 58) o investigador, numa discussão em grupo, deve observar: a) “a direção que a discussão toma”; b) “as interações entre as ideias de cada um” e; c) “o resultado dessa interação nas opiniões iniciais dos participantes”. Contudo, não nos interessa um consenso de ideias, mas as diversas opiniões dentro do mesmo grupo, enriquecendo assim o processo e os resultados gerados. Cada focus grupo possui caraterísticas próprias que envolvem a proposta lançada, o tamanho do encontro ou reunião, a composição e os procedimentos de condução de discussão. Alonso (1998) alude que cada grupo de discussão não deve ter mais do que oito a dez pessoas e a duração deve ser entre os noventa minutos e as duas horas. Estas pessoas, supostamente, comentam e debatem sobre uma série de temas ou estímulos, induzidos numa dinâmica interativa por um diretor ou mediador formal da reunião. Desta forma, o autor remete que o grupo de discussão tende a recriar dentro de uma situação parcialmente controlada e programada, uma vivência coletiva focada numa série de temas deliberadamente selecionados segundo um guião experimental, com a possibilidade de ser modificado pelo diretor da discussão,
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consoante o desenrolar da mesma. Estes são apresentados como os alicerces para a construção de sentido do grupo.
Alonso (1998) adverte que, tal como qualquer processo interpretativo, a leitura do texto de um grupo de discussão pode ter uma infinidade de interpretações, como precisamente nos posiciona a hermenêutica fenomenológica em autores como Hans-Geirg Gadamer ou Paul Ricoeur. Este autor referencia que o trabalho de leitura e análise de um grupo de discussão não é uma análise de conteúdo, nem uma análise textual na busca de um modelo abstrato que gere uma enunciação concreta, mas uma análise estratégica, modelada pelos objetivos da investigação, na qual há um projeto a reconstruir dentro de um contexto concreto, envolvendo as práticas significantes dos sujeitos nela incorporados. Mais acrescenta Alonso (1998, p. 127) que um grupo de discussão não é uma técnica ‘objetivo- explicativa’, uma vez que existe uma ‘inter-subjetividad’ inserida na mesma realização do grupo, o que é uma prática relacional-reflexiva, onde o conhecimento aparece como processo e não como resultado.
Todos estes instrumentos de investigação deverão ter o consentimento e autorização formalizada de que toda a informação neles registada poderá ser utilizada para efeitos de participação em benefício da investigação com justiça, respeito, responsabilidade, confidencialidade e cientificidade.
e) Inquérito por questionário
Desde já assumimos que esta é uma pequena abordagem à recolha de dados por questionário assistindo ao vastíssimo estudo que cabe ao tema, embora seja nossa tentativa a maior completude possível em relação à sua utilização prática no projeto, e não esquecendo também o melhor esclarecimento do leitor.
Segundo Alberto Sousa (2005), este instrumento de recolha de dados consiste em colocar diretamente uma série de perguntas a um conjunto de sujeitos, os inquiridos, e utiliza-se quando a investigação procura estudar opiniões, atitudes e pensamentos representativos de uma dada população. Quivy (2008) diz que estas perguntas normalmente são relativas à situação social, profissional ou familiar, às opiniões, à atitude em relação a opções ou a questões humanas e sociais, às expetativas, ao nível de conhecimento ou de consciência de um acontecimento ou de um problema, ou ainda sobre qualquer ponto que
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interesse os investigadores sobre os inquiridos. Perante o conhecimento de Quivy (2008) o questionário pode ser gerido de duas maneiras: a) administração indireta, ou seja, o inquiridor completa-o a partir das respostas que lhe são facultadas pelo inquirido; b) administração direta, quando o próprio inquirido o preenche. Sousa (2005) refere que normalmente na investigação por inquérito recorre-se individualmente, simultaneamente ou cruzando às seguintes técnicas: a entrevista pessoal, a entrevista telefónica, o questionário de aplicação coletiva, o questionário enviado pelo correio e testes de aplicação coletiva. Para além destes requisitos que ajudam na formulação de um questionário, abordaremos agora, na escrita de Giuseppe Iarossi (2011) o tipo de perguntas mais usadas: perguntas sensíveis, perguntas de memória, perguntas subjetivas (gerais) ou objetivas (especificas), plausibilidade das respostas, comparabilidade das respostas, confiança do respondente, perguntas fechadas e perguntas abertas ou narrativas.
Neste projeto usaremos o inquérito através de uma administração direta onde o inquérito é preenchido pelo próprio inquirido, recorrendo à técnica de aplicação coletiva em que o mesmo inquérito é aplicado a um grupo de participantes que fazem parte de um laboratório de criação artística. Sousa (2005) refere que esta aplicação coletiva oferece vantagens no que respeita à rapidez e disponibilidade do aplicador para responder a dúvidas, eventualmente levantadas pelos sujeitos. Usaremos ainda o tipo de perguntas gerais e abertas que são caracterizadas pela liberdade que os inquiridos têm para responder com as suas próprias palavras, opiniões, os seus conhecimentos, sentimentos e as suas perceções. Iarossi (2011) menciona que as perguntas abertas não obrigam os inquiridos a uma predeterminação de respostas, concedendo-lhes desta forma a máxima espontaneidade de expressão. Além do que William Foddy (1993, apud Iarossi, 2011) remete, este tipo de perguntas permite ao investigador identificar o nível de conhecimentos e informação do inquirido, a proeminência do evento, a força dos seus sentimentos a as suas influências motivacionais, enquanto impedimento de formatações. Iarossi (2011) profere que neste formato aberto, o inquirido apresenta um conjunto de informações (a resposta à pergunta), e o investigador retém a resposta a partir dos estímulos fornecidos. No formato fechado é o investigador que fornece os estímulos, e o inquirido retém a informação para obter a resposta mais relevante. Então, a pergunta a adotar depende da decisão acerca de quem vai interpretar a informação e obter a resposta, uma vez que dados os mesmos estímulos e informações, qualquer dos formatos usados leva à mesma resposta relevante.
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Iarossi (2011) refere que se extraírem dos dois formatos respostas diferentes, esta diferença atribui-se ao agente que interpreta o conjunto de informações. Este autor admite que para um dado conjunto de estímulos, o melhor agente interprete do conjunto de informações fornecida pelo inquirido é o próprio inquirido. Aqui os auscultados podem, voluntária ou involuntariamente, não revelar toda a informação para o investigador não obter a resposta certa. Sendo assim, nesta questão o formato fechado é mais favorecido do que o formato aberto. Iarossi (2011) segue dizendo que as perguntas abertas têm um papel importante na investigação quando: se procura informação sobre fenómenos complicados; as percentagens de alternativas são tão extensas que se torna quase impossível fazer uma lista de todas; as respostas possíveis não podem ser reduzidas a poucas palavras; se quer medir o conhecimento; quando interessa o raciocínio que está por detrás de um comportamento ou preferência; se suspeita de que eventos externos possam afetar as respostas do inquirido.
Uma das regras de ouro que Manuela Hill e Andrew Hill (2005) nos apresentam para uma boa pergunta é o objetivo geral, ou seja, o tipo de informação que quer solicitar de cada uma das perguntas que se insere no questionário.
e.1. Desvantagens das perguntas abertas:
- Requerem mais tempo e esforço do que as perguntas fechadas (Iarossi, 2011);
- A liberdade que concedem aos auscultados dá origem a respostas mais variadas (Iarossi, 2011);
- A diversidade das respostas resulta numa maior variedade de interpretações, logo mais trabalho de análise (Peterson, 2000, apud Iarossi, 2011);
- Dependem mais da experiência e capacidade de análise por parte do inquiridor, pois quanto mais complexa for a resposta, maior é o risco do inquiridor registar apenas os aspetos considerados por ele interessantes e relevantes (Warwick & Lininger, 1975, apud Iarossi, 2011).
Para a persecução destes instrumentos de dados os participantes do estudo assinaram um consentimento informado da necessidade de recolhermos informação escrita e audiovisual na ficha de inscrição (Anexo I).