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Desde a tua infância conheces as sagradas Letras; elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria

No documento Patrística Vol. 27.3 - São João Crisóstomo (páginas 114-117)

HOMILIAS SOBRE A SEGUNDA CARTA A TIMÓTEO DE SÃO JOÃO CRISÓSTOMO, PADRE DA IGREJA, ARCEBISPO DE CONSTANTINOPLA

QUINTA HOMILIA 2,11 Fiel é esta palavra: Se com ele morremos, com ele viveremos.

15. Desde a tua infância conheces as sagradas Letras; elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria

que conduz à salvação pela fé em Cristo Jesus.

O que quer dizer isso? O profeta Davi admoestou: “Não te irrites por causa dos maus” (Sl 37,1), e igualmente adverte Paulo: “Tu, porém, permanece firme naquilo que aprendeste e aceitaste como

certo”. Não apenas: “Aprendeste”, mas: “Aceitaste como certo”, isto é, acreditaste. Em que

acreditou? Que esta é a vida. Se, portanto, vires o contrário do que acreditaste, não te perturbes, porque também Abraão viu o oposto, e não se conturbou. Ouvira a palavra: “É por Isaac que uma descendência perpetuará o teu nome” (Gn 21,12), e recebeu ordem de imolar a Isaac, mas não se conturbou nem se abalou. Ninguém, portanto, se escandalize diante do mal; a Escritura já o predissera outrora. E, se os bons se alegram e os maus são atormentados? Pode acontecer um desses casos, o outro, não. É possível que os maus sejam castigados, não, porém, que os bons sempre se regozijem. Ninguém igualava a Paulo, que, no entanto, viveu todo o tempo entre tribulações, lágrimas, gemidos dia e noite. “Durante três anos, dia e noite, não cessei de exortar com lágrimas”; e ainda: “A minha preocupação cotidiana” (At 20,32; 2Cor 11,28), dizia. Não se alegrava num dia e no outro se condoía, mas cotidianamente não cessava de se acabrunhar. Como diz, então: “Progredirão no mal”? Não disse que estariam tranquilos, e sim: “Progredirão no mal” , o avanço será para o pior. Não disse: Estarão

na abundância. Se são castigados, são atingidos a fim de não julgares que os pecados ficarão impunes. Uma vez que a geena não nos impede de praticar o mal, poupando-nos, ele nos estimula e soergue.

Se nenhum malvado fosse punido, ninguém pensaria que Deus vê as realidades humanas; se todos fossem punidos, ninguém esperaria a ressurreição, visto que todos aqui recebem a recompensa que merecem. Por isso, castiga e não castiga. Os justos aqui são afligidos porque são peregrinos, estrangeiros e vivem em terra estranha. Os justos, por conseguinte, toleram estes males como provação. Escuta o que Deus diz a Jó: “Atreves-te a condenar-me, para ficares justificado” (Jó 40,3)? Se uma vez os pecadores sofrem algo de semelhante, são castigados pelos pecados. Em tudo, portanto, demos graças a Deus, quer ele proceda de uma forma ou de outra; ambas são úteis. Ele nada faz por ódio ou aversão contra nós, mas, solícito, a ambas providencia. “Desde a tua infância conheces as

sagradas Letras”, isto é, aprendeste as Sagradas Escrituras desde a tenra idade. Chama as divinas

Escrituras de sagradas Letras. Dessa forma foste educado; por isso, tua fé deve ser firme, ilesa. A raiz é profunda, teve tempo de se firmar; nada a poderá arrancar. Tendo dito: “As sagradas Letras”, acrescentou: “Elas têm o poder de comunicar-te a sabedoria”, isto é, não permitem que procedas estultamente, conforme fazem muitos.

Quem conhece devidamente as Escrituras, de nada se escandaliza, suporta tudo com fortaleza, em parte atribuindo à fé e ao incompreensível plano de Deus, e em parte conhecendo as razões e encontrando exemplos nas Escrituras. É grande indício de sabedoria, portanto, não querer perscrutar tudo curiosamente, não querer entender todas as coisas; e se te apraz, empregarei um exemplo. Imagine-se um rio; ou antes, uns rios (não falo em teoria, mas como são na realidade). Nem todos os rios são igualmente profundos, mas uns mais, outros menos. Alguns podem afogar os que não o conhecem. Uns possuem vórtices, outros, não. Por conseguinte, é aconselhável não experimentar todos de igual modo, e não querer conhecer todas as profundezas é sinal de grande prudência. Quem quiser tentá-lo em qualquer parte do rio, ignora sobremaneira as propriedades dos rios, e geralmente perece porque, uma vez que atravessou um rio raso, enfrenta ousadamente a travessia de um rio profundo. Assim também relativamente a Deus, quem quer tudo conhecer e ousar, desconhece, de fato, o que é Deus. Com efeito, quanto aos rios, a maior parte é segura, poucos são os vórtices, pouco os lugares profundos; em Deus, contudo, a maior parte é oculta e suas obras não são investigáveis. Por que te empenhas em submergir. Certifique-se apenas de que Deus tudo governa, a tudo provê, e nosso é o livre-arbítrio. Deus umas coisas faz, outras permite, não quer mal algum. Nem tudo se faz segundo sua vontade apenas, mas inclui também a nossa. O mal vem apenas de nós, o bem de nós e de sua graça, e nada lhe está oculto. Por conseguinte, ele tudo opera. Ciente disso, enumera quais as coisas boas, quais as más, e quais as indiferentes. Por exemplo, a virtude é um bem, a malícia é um mal, e indiferentes são as riquezas, a pobreza, a vida, a morte. Se o souberes, com isso também reconhecerás que os justos são afligidos para serem coroados: os pecadores, para pagarem as penas dos pecados. Mas, nem todos os pecadores são castigados aqui na terra, a fim de evitar que muitos não acreditem na ressurreição; nem todos os justos são afligidos, para não julgares que a malícia é louvável, e sim apenas a virtude. Tais são as regras, as normas. Faze tudo de acordo com elas e não incorrerás em perigo. Como entre os mestres-escolas, o número seis mil tem uma função. Tudo se opera nesse limite, e a divisão e a multiplicação baseiam-se nos seis mil e em torno desse número tudo gira. Sabem-no todos os que aprenderam as letras. Desse modo, se alguém conhecer essas regras que brevemente repetirei, jamais cometerá erro. Quais? A virtude é um bem, a malícia é um mal e indiferentes são as doenças, a pobreza, as ciladas, as calúnias etc.; os justos na terra são oprimidos pelas tribulações; se alguns vivem bem, a virtude não parece odiosa; os maus se alegram, a fim de serem punidos no além, e

alguns deles são golpeados, para que a malícia não pareça ser boa, nem permaneçam impunes os crimes; nem todos são castigados, para não derrogar à fé na ressurreição; entre os bons também há alguns que têm pecados em mescla e aqui eles são perdoados; os maus têm bens misturados, recebem aqui a recompensa, a fim de serem punidos no além; muitas obras de Deus são incompreensíveis, e entre nós e ele há enorme, indescritível distância. Se refletirmos sobre essas coisas, nada poderá nos perturbar. Ouvindo frequentemente as Escrituras, encontraremos muitos exemplos semelhantes. “Elas

têm o poder de comunicar-te a sabedoria que conduz à salvação.” Efetivamente as Escrituras ensinam

o que se deve fazer e o que evitar; escuta o Apóstolo dizer numa passagem: “Estás convencido de ser o guia dos cegos, a luz dos que andam nas trevas, educador dos ignorantes, e mestre dos que não sabem” (Rm 2,19-20). Vês que a lei é luz para aqueles que estão nas trevas? Se a letra é luz, a letra que mata, o que será o espírito vivificante? Se a Antiga Lei é luz, o que será a Nova, onde tão grandes coisas se encerram? Tão grande é a distância entre elas quanto haveria se alguém abrisse o céu àqueles que nada veem além da terra, e fizesse com que contemplassem todas as coisas. Fomos informados acerca da geena, do reino, do juízo. Não acreditemos em coisas insensatas. São sedutoras. O que será, perguntas, se acontecerem o que predizem? Acontecem porque tu acreditas, se é que acontecem. Ele te fez cativo, é dono de tua vida e administra como quer. Dize-me.

Um chefe de ladrões que tivesse em suas mãos e em seu poder um príncipe que fugira para junto dele no deserto, desejoso de entrar em sua sociedade, poderia dizer-lhe se iria morrer ou viver? Poderia sem dúvida. De que modo? Não por prever o futuro, mas por saber que tem em seu poder ambas as alternativas: Matar ou conservar o menino que a ele se entregara. Poderia matá-lo se o quisesse, ou poupá-lo se o quisesse. Ambas as ações eram igualmente possíveis, pois lhe estava sujeito. Se lhe dissesse: Ficarás rico ou ficarás pobre, ambas estavam em seu poder. Assim, a maior parte do mundo se entregou às mãos do diabo.

Aliás, quando uma pessoa se habitua a acreditar nele, coopera muito com aqueles sedutores. De fato, ninguém dá atenção aos malogros, mas somente aos sucessos. Se houver um adivinho que conheça previamente os acontecimentos, venha para eu crer. Não estou me exaltando; não é grandeza manter-se livre diante deles. Pois, embora seja grande pecador, perante eles não me humilharia; rio- me de todos, por graça de Deus. Venha um adivinho que tiver conhecimentos prévios e diga-me o que me sucederá amanhã. Mas não o dirá, pois estou sob o poder de meu Rei, e tal homem não tem domínio sobre mim, nem me sujeita; estou longe de seus covis e cavernas. Milito nas fileiras do Rei. Mas um homem roubou, replicas, e o adivinho o descobriu. Ora, nem sempre é verdade; é ridículo e falso. Eles nada sabem; se soubessem, deviam primeiro declarar o que lhes toca, porque muitas oferendas feitas aos ídolos foram roubadas, e grande quantidade de ouro sumiu. Por que não o predisseram aos seus sacerdotes? Por conseguinte, não sabem coisa alguma, são incapazes de predições sobre a conservação de suas riquezas, até mesmo quando os templos de seus ídolos se incendiaram e muitos pereceram conjuntamente. Por que não cuidam dessa incolumidade? Mas é um sucesso acontecer algo do que foi predito. Temos profetas, que nunca falham; não falam ora a verdade, ora a mentira, mas é veraz tudo o que proferem. Trata-se de verdadeira presciência. Enfim, suplico- vos, desisti desta loucura, se acreditais em Cristo; se, porém, não acreditais, por que desprezais, por que errais? “Até quando claudicareis das duas pernas” (1Rs 18,21)? Por que procuras um adivinho? Por que o interrogas? Uma vez que te aproximaste e interrogaste, tu te escravizaste, pois perguntaste como se acreditasses. Não, respondes, não creio ser verdade, mas experimento. Ora, experimentar se é verdade é duvidar, não é estar convicto de que ele mente. Por que, então, interrogas o que vai acontecer? Se responder: Acontecerá o seguinte, age deste modo e escaparás, nem assim deves adorar

o ídolo, mesmo que tua loucura não avance tanto. Se predizem o futuro, nada lucrarás, a não ser tristeza supérflua. Não acontece o que foi predito, mas a tristeza continua, e atormentas a ti mesmo. Se isso nos fosse vantajoso, Deus não o impediria, nem podia ficar enciumado aquele que nos revelou as coisas celestes. “Tudo o que ouvi do Pai eu vos dei a conhecer”, tudo o que ouvi do Pai vo-lo anunciei; e: “Não mais vos chamo de servos. Mas vos chamo de amigos. Vós sois meus amigos” (Jo 15,15.14). Não nos fez predições porque não quer que nos aflijamos sobre o futuro. Como não inveja, predizia aos antigos, por exemplo, a respeito das jumentas (1Sm 9,3) etc., porque eles eram insensatos; a nós, porém, não quer que nos aflijamos a este respeito, ou retira a solicitude de o conhecer. Mas acerca de que fomos informados? Daquilo que eles não souberam; pois é insignificante o que entenderam. O que nos foi comunicado é o seguinte: Haveremos de ressuscitar, seremos imortais e incorruptíveis, no além a vida não terminará, o que é terreno passará, seremos arrebatados nas nuvens, os maus serão castigados e inúmeras outras coisas sucederão, sem desmentido. Não é muito melhor este conhecimento do que encontrar o jumento perdido? Eis que o tens de novo, que o encontras. Qual a vantagem? Não o perderás novamente de outro modo? Embora ele não te abandone, tu o deixarás por ocasião da morte. Aqueles bens, porém, que eu mencionei, se os quisermos ter, nós os possuiremos perpetuamente. Busquemos, e possuamos os bens permanentes, estáveis. Não atendamos aos vates, aos adivinhos, aos prestidigitadores, mas a Deus, que claramente tudo sabe e tem conhecimento completo. E assim saberemos tudo o que convém saber e conseguiremos todos os bens.

NONA HOMILIA

3,16. Toda Escritura é inspirada por Deus e útil para instruir, para refutar, para corrigir, para

educar na justiça,

No documento Patrística Vol. 27.3 - São João Crisóstomo (páginas 114-117)

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