5 O EMPREENDEDORISMO DE BASE TECNOLÓGICA
5.5 Desdobramentos da disputa e calidoscópio da Teoria Ator-
Ressalta-se que as disputas produzem efeitos sobre a construção de um cenário no meio do qual as instituições ligadas à produção de conhecimento adquirem importância crescente para a eficácia de outras instituições. Em outros termos, as instituições que produzem conhecimento adquirem maior importância para que, por exemplo, indústrias acessem recursos fundamentais no sentido de se manterem competitivas nessa era do conhecimento. Se, em abordagens clássicas, a empresa assumia a liderança do crescimento econômico, especialmente em abordagens mais contemporâneas da EBC é requerida de universidades e centros públicos de pesquisas uma atuação mais pró-ativa. Quando isso é levado em conta na interpretação do contexto brasileiro, no qual,
de modo geral, as empresas não têm a tradição de investir em geração de conhecimento, essa responsabilidade recai ainda com mais peso sobre as instituições públicas. Em se pensando acerca de atuação pró-ativa do complexo público de pesquisa a favor da produção de conhecimento aplicável nas indústrias, é possível compreender parte do motivo pelo qual o EBT tem sido tão valorizado nessas instituições.
As interações entre diversos atores, assim como previsto por modelos como a HT ou nas versões mais contemporâneas dos sistemas de inovação, talvez promovam a possibilidade de aplicações generalistas de alguns dos pressupostos preestabelecidos pela TAR. Tais modelos de interação normalmente têm favorecido o entendimento de que existe heterogeneidade de elementos e situações que são difíceis de serem previstas. Há, nesses modelos, a noção de que a interação entre muitos elementos pode promover ações coletivas, como, por exemplo, a que vem convencionalmente sendo chamada de “universidade empreendedora” (ETZKOWITZ, 2003b). O sucesso ou o fracasso podem depender da capacidade plástica de adaptação e criação dessas configurações improváveis. Nesse ponto, a TAR pode auxiliar oferecendo análise diacrônica que contribui para melhor compreender (a) como acontece a aproximação entre os atores humanos e não-humanos e seu engajamento nas redes performáticas; (b) como as fronteiras herméticas ideologicamente debatidas são destruídas na prática criando simetrias; (c) como acontece a translação de interesses e a negociação e (d) como acontece a construção das performatividades e dos agenciamentos que favorecem, dentre outras coisas, o compartilhamento de papéis.
Outro ponto por meio do qual a TAR pode oferecer instrumental categorial de análise para os modelos da EBC talvez esteja em torno da ideia de
coevolução38. Na administração, coevolução pressupõe a coexistência de espécies diferentes ou similares de organizações que, conforme Martin e Etzkowitz (2000), provocam tensões umas sobre as outras, influenciando mudanças nas suas estruturas e funções ao longo do tempo. Como afirma Wilson e Hynes (2009), nesse âmbito, um meio que pode ser percebido como favorável à coevolução é o desenvolvimento de arranjos cooperativos interorganizacionais, os quais cobrem uma variedade de formas contratuais entre empresas e instituições de naturezas e papéis distintos. No contexto de maior fluidez das fronteiras que dividem a ciência da tecnologia, a universidade da indústria e o público do privado, a ideia de coevolução tem sido incorporada como um pressuposto básico de abordagens recentes da EBC (GEELS, 2005; LEYDESDORFF, 2000; MARTIN; ETZKOWITZ, 2000) e pode possibilitar um ponto de contato entre o seu prescritivismo e o descritivismo da TAR, por meio, por exemplo, do conceito de simetria generalizada (LATOUR; WOOLGAR, 1997).
Um exemplo de como utilizar a simetria generalizada está na leitura que se faz da aproximação entre atores humanos e não humanos a partir da criação de contingências produzidas internamente ou trazidas de fora, as quais agem e dão forma a esse movimento. A EBC, melhor exemplificando, valoriza as interações UIG como potencialidades para o desenvolvimento econômico,
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Na biologia, os processos de evolução são explicados com base na ideia de seleção e de sobrevivência do mais apto. Tais processos são analisados por meio da observação das alterações genéticas ao longo do tempo nas populações. O termo coevolução provê uma perspectiva alternativa, a qual proporciona a descrição de casos onde duas ou mais espécies afetam reciprocamente a evolução de outras (WILSON; HYNES, 2009). Wilson e Hynes (2009), ao aplicarem a ideia para analisar o ambiente de mercado, afirmam que a co-evolução é útil para entender as organizações heterogêneas que desenvolvem ou não a capacidade de se adaptar por meio de processos de interação mútua e de aprendizado recíproco. Isso implica afirmar que, em arranjos institucionais coevolutivos, há vantagens para organismos coenvolvidos em relação àqueles que permanecem herméticos.
colocando-as numa condição de extrema importância para os desafios da atualidade, cabendo, especialmente às universidades, novos papéis antes não considerados (ETZKOWITZ, 2003b). Assim, a EBC é, como rede performática, um ator importante, como também é qualquer estrategista governamental (que não pode ser compreendido separadamente das circunstâncias nas quais ele está inserido e por isso é fabricado). Todos precisam ser considerados como igualmente importantes (simetria entre humanos e não humanos) na compreensão do processo de cooperação UIG.
O conceito de simetria pode ser útil também na concepção de modelos e políticas de desenvolvimento científico e tecnológico, uma vez que esse espaço ainda é cercado por assimetrias. No nível da concepção, a percepção assimétrica ainda separa, entre outras coisas, o público do privado, o conhecimento da prática e a ciência da tecnologia. Partindo desse fato, é necessário compreender que a realidade é mais complexa do que pode prever o modelo prescritivo, o qual é construído sobre bases assimétricas, estendido às demais realidades sobre as quais se espera que ele exerça efeitos previsíveis, sem considerar os movimentos de translação e a ação distribuída que sempre redirecionam o curso dos desdobramentos. É preciso considerar que, embora as fronteiras entre o público e o privado, entre o conhecimento e a prática, entre a ciência e a tecnologia tornem-se mais flexíveis e plásticos, isso ocorre não porque as fronteiras estão deixando de existir, mas porque há elementos que atuam nessas extremidades e que fazem mediação entre os diversos interesses, possibilitando a sua translação. A universidade pública abre espaço para contribuir para a criação de pequenas empresas privadas por meio de incubadoras, ou passa a se preocupar com os direitos de propriedade sobre os resultados de investimentos públicos realizados em projetos de pesquisa, não porque, numa explicação simplória e assimétrica, ela foi cooptada pelo mercado, mas porque as muitas associações anteriores a levaram a perceber benefícios nessa transformação.
Mesmo considerando fronteiras mais plásticas, as realidades que caracterizam as IPCT ainda permaneceram distintas das realidades que caracterizam o mercado ou os governos. Entretanto a maior contribuição entre elas acontece porque há eficiência translacional nos espaços de mediação39 entre essas realidades. Nesse contexto, a cooperação não surge de uma convergência de objetivos, mas de, em mesmo existindo objetivos e necessidades distintas, se percebem benefícios ao adotar determinados cursos de ação. O empreendedorismo nas IPCT é um desses cursos de ação distribuída possíveis.
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Talvez aqui não fique bem claro o modo pelo qual ocorre essa eficiência translacional nos espaços de mediação. Entretanto, os resultados apresentados nos próximos capítulos retomam essa discussão e apresentam alguns mediadores possíveis entre diferentes realidades caracterizadas, como, por exemplo, por comunidades científicas, setores industriais e níveis de governo. Star e Griesemer (1989) chamam esses mediadores de “objetos de fronteira”.
6 COMPREENDENDO A CONSTRUÇÃO DO EMPREENDEDORISMO