2 PERSPECTIVA TEÓRICO METODOLÓGICA:
2.2 Afiliações epistemológicas
2.2.1 Teoria ator-rede e o construtivismo crítico
Historicamente, o construtivismo social mostrou-se importante fonte de contraposição, especialmente na década de 1970, contra o funcionalismo e o marxismo predominantes naquela época (PECI; ALCADIPANI, 2006). Peci e Alcadipani (2006) afirmam que a abordagem fenomenológica e existencialista influenciou Berger e Luckman (1995) a introduzirem conceitos centrais relacionados à sociologia do conhecimento. Isso conduziu ao foco de interesse principal de Berger e Luckman (1995), o qual, conforme Peci e Alcadipani (2006, p. 147) está na verdade assumida como realidade construída a partir dos significados subjetivos – a relação entre homem (em coletividade) como produtor e o mundo social como produto dele:
O que foi “construído como realidade” – construído pelo próprio intersubjetivo social – apresenta-se simplesmente como “realidade”. Essa “realidade” e a sua própria superação se inscrevem além do observável ou discutível pelos sujeitos, que, depois de tê-la instituída, agora vivem a realidade dotada de legalidade própria. Reificada, a realidade socialmente produzida requer ser coberta por um segundo manto de verdade.
Uma vez preestabelecidos os seus pressupostos fundamentais de verdade socialmente estabelecida em um espaço além dos aspectos materiais, o construtivismo social passa a produzir efeitos sobre análises diversas da vida social. Michael (1996) aponta alguns exemplos de perspectivas influenciadas
pela linha social construtivista. Entre as principais estão filosofia, história e sociologia da ciência (BARNES, 1977; BLOOR, 1976; COLLINS, 1985; FEYERABEND, 1976; KUHN, 2006); antropologia e história (ARIES, 1962; HEELAS; LOCK, 1981; MAUSS, 1985); sociologia do conhecimento (BERGER; LUCKMAN, 1995); etnometodologia (GARFINKEL, 1967) e pós- estruturalismo (DERRIDA, 1982; FOUCAULT, 1985).
A abordagem não ficou isenta de críticas. Ian Hacking, por exemplo, sustenta o argumento contra a utilização demasiada do conceito de construtivismo social, afirmando que muitos usos simplificam sobremaneira o processo como um todo (HACKING, 1999). Outro ponto considerado crítico está no fato de o construtivismo social, assim como outras abordagens predominantemente subjetivas (como a etnometodologia13), considera que a realidade construída exista apenas desconectada das questões materiais (PECI; ALCADIPANI, 2006). Isso converge com a afirmação de que o construtivismo social desconsidera o lado material da realidade.
Autores dos ECT aprofundaram as críticas acerca dos limites do construtivismo social, fortalecendo, dessa maneira, o que Peci e Alcadipani (2006) consideram construtivismo crítico. Bruno Latour tornou-se um dos expoentes mais destacados dessa vertente.
13
Campo da sociologia que investiga o funcionamento do conhecimento produzido pelo senso comum e do raciocínio prático em contextos sociais. É o oposto de perspectivas que consideram o comportamento humano produto de estímulos causais externos ou de motivações internas. Foi fundada por Harold Garfinkel, o qual afirmava que uma teoria da ação e da organização sociais estaria incompleta sem uma análise acerca de como os agentes sociais compartilham conhecimento e raciocínio produzidos pelo senso comum na condução de seus assuntos comuns. A principal inovação está no estabelecimento de explicações das propriedades do conhecimento produzido pelo senso comum, das compreensões compartilhadas e da ação social ordinária que pode ser desenvolvida em um programa de pesquisa empírica (OUTHWAITE; BOTTOMORE, 1996).
Um aspecto fundamental dos argumentos de Latour se relaciona com a crítica da modernidade, a qual, desde o seu início iluminista, buscou purificar a prática científica de qualquer outra atividade, introduzindo, com isso, dicotomias entre, por exemplo, o científico e o não-científico e a sociedade e a natureza (LATOUR, 2000, 2001, 2004, 2005). Latour (2000) defende o argumento de que as entidades não têm atributos intrínsecos que permitam o seu isolamento em relação aos elementos externos. Todas as entidades seriam resultantes de suas relações com outras entidades e por isso a recusa em aceitar a ideia imposta pelas fronteiras das metáforas dualistas (LAW, 1999).
[...] entities take their form and acquire their relations with other entities. In this scheme of things entities have no inherent qualities: essentialist divisions are thrown on the bonfire of the dualisms. Truth and false-hood. Large and small. Agency and structure. Human and non-human. Before and after. Knowledge and Power. Context and content. Materiality and sociality. Activity and passivity. In one way or another all of these divides have been rubbished in work undertaken in the name of actor- network theory (LAW, 1999, p. 3).
Assim como a visão modernista, o construtivismo tradicional excluiu da sociedade os não-humanos como atuantes. Esse é um ponto de ruptura fundamental entre o construtivismo social e o construtivismo crítico (MICHAEL, 1996). O construtivismo social prioriza o linguístico, sugerindo que as entidades não-linguísticas, não-humanas e não-sociais, como construções das atividades linguísticas, intersubjetivas e intertextuais, não são problemáticas. Em outros termos, Akrich (1992) afirma que o construtivismo social nega a atuação dos objetos, assumindo que apenas as pessoas são capazes de adquirir o status de atores.
Por meio de uma série de estudos empíricos, Latour (2001) evidencia, por exemplo, que nada na definição comum do que seja sociedade poderia
explicar a conexão entre, por exemplo, um político que defende o investimento público em uma nova arma de guerra e os limites da química e da física que precisam ser superados a fim de tornar a nova arma possível. O que faz conectar dois campos aparentemente isolados são os movimentos de translação por meio dos quais se torna possível admitir a possibilidade de que dois interesses até então distintos e distantes possam ser combinados num único objetivo. Como afirma Latour (2001, p. 105),
chamar a primeira ambição de “puramente política” e a segunda de “puramente científica” é absurdo, pois justamente a “impureza” é que irá permitir a consecução dos dois objetivos.
Isso implica mudar o quadro de referência do que seja social. Latour (2001) faz uso do recurso da semiótica, oferecendo um termo opcional ao social, algo que não tenha seu significado subvertido tão facilmente como sendo oposto à natureza. Trata-se do termo “coletivo”. Por meio dele será possível evitar as sombras que as dinâmicas sociais lançam sobre o que não é social14.
Coletivo é contrario à sociedade, pois enfatiza as associações entre humanos e não-humanos: “um intercâmbio de propriedades humanas e não- humanas no seio de uma corporação” (LATOUR, 2001, p. 222). Entretanto, quando o coletivo é utilizado e o dualismo é rejeitado, isso não significa
14
Em vez de dinâmicas sociais, a utilização de dinâmicas coletivas evita o viés semiótico de, ao enfatizar apenas o termo social, desconsiderar o lado não-social, não- humano ou não-linguístico dessas dinâmicas. Para maiores detalhes ver Michael (1996). Sobre a preferência da sociologia da translação pelo termo coletivo em vez do termo social, ver Latour (2001). Para este Latour (2001, p. 346), coletivo “se refere à associação de humanos e não-humanos”, ao contrário de sociedade, “que é um artefato imposto pelo acordo modernista”.
desconsiderar os traços característicos das diversas partes que integram o coletivo. Como afirma Latour (2001, p. 222-223),
o jogo não consiste em estender a subjetividade às coisas, tratar humanos como objetos, tomar máquinas por atores sociais e sim “evitar a todo custo o emprego” da distinção sujeito-objeto ao discorrer sobre o entrelaçamento de humanos e não-humanos. O que o novo quadro procura capturar são os movimentos pelos quais um dado coletivo “estende” seu tecido social a “outras” entidades. É isso que eu quis dizer até agora com a expressão provisória Ciência e tecnologia são aquilo que socializa não- humanos para que travem relações humanas. Improvisei a seguinte frase para substituir a expressão modernista: Ciência e tecnologia permitem que a mente rompa com a sociedade para alcançar a natureza objetiva e impor ordem à matéria eficiente. Mudar o quadro de referência de social seria uma necessidade que possibilitaria a compreensão de que há simetria entre os humanos e os objetos, algo não cogitado pelos cientistas sociais quando ignoraram o importante papel desses últimos em suas análises acerca da realidade.
A ideia é que a sociedade é feita de humanos e não- humanos, sujeitos e objetos. No cotidiano, humanos e não-humanos nunca estão dissociados. Eles formam, em conjunto, redes que constituem aquilo que chamamos de real. Cada ação que realizamos está associada, ou é mediada, por não-humanos que também agem, apresentado, assim como os humanos, capacidade de ação (PECI; ALCADIPANI, 2006, p. 148).
O processo de construção, portanto, não é apenas social: ele é coletivo. Tudo se constrói desse modo, inclusive os fatos. Para que isso seja possível é necessária a mobilização de uma diversidade de elementos heterogêneos e associá-los em torno de objetivos comuns. É justamente na heterogeneidade de
associações que está “o envolvimento de humanos e não-humanos” (PECI; ALCADIPANI, 2006, p. 149). Em torno de uma fabricação - sinônimo de construção muito utilizado por Latour (2000, 2001) - juntam-se fragilidade, interesses, ciência, computadores, solidez, história e multiplicidade, dentre outros elementos impossíveis de serem totalmente percebidos na sua completude. Latour (2001) não considera, no entanto, que o processo de fabricação seja um jogo no qual a soma dos elementos isolados é sempre igual à soma das partes quando elas são ajuntadas. Os elementos introduzidos nunca saem do processo com as mesmas propriedades e características iniciais. Eles se transformam e também são transformados.
Conforme afirmam Peci e Alcadipani (2006), o vocabulário relacionado ao processo de fazer enfatiza o papel de alguma agência, embora ela possa ser considerada limitada. Entretanto, quando nos tornamos atentos a maneiras mais humildes de falar, essa agência desloca-se de um mestre todo poderoso para as diversas coisas agentes atuantes com as quais temos que dividir a ação. Humanos e não-humanos passam a ser considerados simétricos, na compreensão da ação, assim como a ação passa a ser considerada distribuída entre as diversas entidades que a constituem.
2.2.2 A Teoria Ator-Rede e o programa forte de sociologia do conhecimento