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Revelam-se novas disputas, reforça-se o empreendedorismo

5 O EMPREENDEDORISMO DE BASE TECNOLÓGICA

5.4 Revelam-se novas disputas, reforça-se o empreendedorismo

Dúvidas acerca da efetividade da EBC em alcançar a grande expectativa criada em torno do seu ferramental provocou diversas críticas. Na opinião de Soete (2009), o conceito de SNI está em erosão devido a, pelo menos, quatro motivos. O primeiro se relaciona com a perspectiva “nacional” de sistema de inovação. Ela está sobre pressão por conta das tendências da globalização e dos

limites impostos por políticas restritas a espaços geográficos limitados. O segundo está no foco das políticas que está sobre a taxa de mudança técnica ou inovação e não sobre a direção que essas mudanças têm assumido. O terceiro está na emergência de vários tipos de conhecimento necessários à inovação, sem a necessidade particular de investimentos em ciência e tecnologia: “inovação sem pesquisa”. Com o maior fluxo de informação surgem outros problemas, tais como os ligados às leis de propriedade intelectual que restringem o acesso a determinados tipos de informação. Finalmente, o quarto motivo é que os SNI se mostram mais relevantes no âmbito regional e no local do que no nacional (SOETE, 2009). Isso leva a questionar se de fato existem grandes sistemas nacionais ou apenas subsistemas regionais. No caso brasileiro, levando em conta as inúmeras diferenças regionais e a variedade de contextos institucionais, talvez fosse mais produtivo dedicar maior atenção aos subsistemas coevolutivos do que aos sistemas integrais.

A Hélice Tríplice, HT (Triple Hélix Theory) caminha na direção de resolver duas questões fundamentais levantadas. A primeira está ligada à prioridade de se focalizarem os espaços locais na criação de ambientes inovadores. O segundo é de tentar resolver o problema da dicotomia entre o descritivo e o normativo. Além disso, na EBC presume-se que organizações de conhecimento, como a universidade, ocupem lugar de destaque. Esse fato diminui a força do pensamento latino-americano, representado pelo triângulo de Sábato (o qual enfatiza o papel do governo), assim como também diminui a força dos SNI (os quais enfatizam o papel das firmas para o surgimento de iniciativas inovadoras na economia) (ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 2000).

A HT representa uma entidade de atuação conjunta de três esferas essenciais: a universidade, a indústria e o governo, ou UIG (ETZKOWITZ, 2003a, 2008; ETZKOWITZ; LEYDESDORFF, 1996, 1998, 2000). Conforme Etzkowitz (2008), a interação entre esses três entes é chave tanto para a inovação

como para o crescimento econômico na EBC. A universidade passa a desempenhar papel fundamental nas sociedades baseadas em conhecimento, assim como a indústria e o governo, no passado, foram instituições fundamentais na sociedade industrial. Governo e indústria permanecem importantes, uma vez que o primeiro propicia relações duráveis e estabilidade das instituições econômicas e o segundo, por representar o lócus de produção que sustenta os mercados e gera empregos e impostos. Entretanto, a liderança do processo de desenvolvimento na atualidade recai sobre a universidade, a qual, como organização do conhecimento, passa a assumir o papel de oferecer contribuição direta para o desenvolvimento econômico, além de contribuir de modo indireto formando recursos humanos qualificados e produzindo pesquisas. A vantagem da universidade sobre as outras instituições produtoras de conhecimento, como os departamentos de P&D das indústrias, está na fonte contínua, dinâmica e incomparável de ideias novas vindas de novos estudantes e de uma estrutura não tão engessada e focalizada (ETZKOWITZ, 2008).

A hélice tríplice permite perceber, além de cada esfera em separado, o produto final formado pelo movimento das três esferas e pelos espaços resultantes de relacionamentos e de criação de funções mútuas. Como afirma Etzkowitz (2008), o modelo ajuda a explicar por que as três esferas mantêm um status relativamente interdependente e distinto, além de mostrar onde a interação pode acontecer e explicar por que a dinâmica pode ser formada com intensidades e gradações distintas de dependência e interdependência, conflito e confluência de interesse. A proximidade, no entanto, não significaria perda da identidade de cada esfera, embora Etzkowitz (2008) apresente diversos exemplos em que há permuta de papéis entre UIGs.

As organizações e/ou instituições híbridas que surgiriam nas interfaces das esferas principais são compostas, conforme Etzkowitz e Ranga (2010), por: (a) entidades de P&D (grupos de pesquisas acadêmicas, órgãos públicos de

pesquisa, departamentos de P&D das empresas e demais organizações culturais e artísticas da sociedade em geral que se relacionam de modo interdisciplinar com a prática da pesquisa); (b) atores não dedicados à P&D (non-R&D actors), como os que atuam nos contextos de design, produção, marketing, vendas, adoção tecnológica, aplicação de novas ideias a partir da combinação de conhecimento existente, interação entre usuários, aquisição de patentes e licenciamento, entre outras coisas e (c) organizações resultantes da combinação entre elementos originalmente característicos de pelo menos duas das esferas constituintes da HT. Nessa última categoria se inserem centros interdisciplinares de pesquisa, consórcios e contratos de pesquisa firmados entre academia e indústria, institutos de pesquisa, escritórios de transferência de tecnologia das universidades, parques tecnológicos, incubadoras de empresas e instituições de fomento a empreendimentos de base tecnológica, entre outras formas organizacionais mais flexíveis (ETZKOWITZ; RANGA, 2010).

Outro componente da estrutura HT é composto pelos relacionamentos interpostos entre as diversas entidades. Segundo Etzkowitz e Ranga (2010), os principais tipos de relacionamentos são: construção conjunta e de competências, formação e consolidação de mercados, criação e mudança de organizações e instituições, redes, transferências tecnológicas, aquisição de bens e serviços, atividades de incubação e financiamento, entre outras. Todos esses relacionamentos contribuem de alguma forma, seja criando colaboração, seja moderando os conflitos naturais entre entidades historicamente consideradas incomensuráveis. Postos em prática, esses relacionamentos possibilitam a substituição de papéis. Isso ocorre quando, além de cada esfera da HT atuar nas suas funções tradicionais, também elas assumem o papel antes destinado à outras esferas. Por exemplo, além de atuar na regulação e no controle (que é um representa um papel básico dos governos), o governo passa a prover financiamento para capital de risco. Similarmente, a universidade pode atuar

para além do ensino, pesquisa e extensão, investindo recursos em atividades de transferência de tecnologias, encorajando empreendimentos de risco ou fomentando incubadoras de base tecnológica. A indústria também pode assumir o papel da universidade por meio de treinamento de recursos humanos e de práticas de pesquisa, no mesmo nível das universidades. Em contextos locais, nos quais a indústria não está consolidada ou não demonstra interesse nesses relacionamentos, outras instituições podem assumir o seu papel. Exemplos de instituições dessa natureza são as associações profissionais, as representações comerciais e outras lideranças locais que assumem a direção de fomentar parcerias com a academia e os governos (ETZKOWITZ; RANGA, 2010).

O terceiro componente da estrutura de interação HT é constituído espaços físicos e/ou virtuais (Triple Helix Spaces) que possibilitam a interação UIG e de onde se originam as funções ou atributos decorrentes dessa interação (ETZKOWITZ; RANGA, 2008). De acordo com Etzkowitz e Ranga (2010), os espaços são os lugares onde de fato as interações acontecem por meio de atributos como a geração de inovação, a geração de riquezas e o controle normativo.

Destaca-se na visão da HT o fato de considerar a inovação não mais a partir apenas do entendimento schumpeteriano acerca da liderança da grande empresa capitalista e nem tampouco apenas por meio da intervenção governamental sobre o mercado, como no pensamento latino-americano. Nessa discussão, a interação UIG assume lugar destacado. Etzkowitz (2008) afirma que à medida que a produção de conhecimento passou a ser um elemento significante para a produção e o desenvolvimento de novos produtos, as instituições de geração de conhecimento e o próprio governo se tornaram importantes atores, adquirindo assim um novo status de atuação interinstitucional.

A HT não é um produto final e estático, mas um espaço de coevolução (LEYDESDORFF, 2000) por meio do qual se abrem possibilidades para cada esfera se transformar, reduzindo os conflitos e compartilhando papéis antes restritos, sem que cada qual perca sua identidade particular. Os novos formatos organizacionais que rompem com estruturas hierárquicas tradicionais assumindo a forma de redes flexíveis e fluidas são produto dessa coevolução. Etzkowitz (2008) chama o movimento de surgimento de novos formatos organizacionais de síntese. Há aí uma tentativa de desmistificar a ideia ainda dominante de dicotomia entre o público e o privado, que coloca, por exemplo, as estruturas da administração pública em contraposição às estruturas da administração privada. Na interação idealizada há a superação dessas dicotomias e pelo menos a pretensão de compartilhamento institucionalizado do discurso político de ação conjunta e cooperativa em prol do desenvolvimento não apenas econômico, mas também social.

Os papéis, antes circunscritos, passam a assumir um caráter híbrido e dinâmico, contingente às necessidades sociais e econômicas da coletividade. Um exemplo são os grupos de pesquisas universitários que assumem caráter quasi- firms. Isso ocorre quando eles absorvem qualidades empresariais que lhe permitem explorar atividades empreendedoras, integrando pesquisa e negócios sob a rubrica da missão institucional mais ampla da universidade de contribuir para o desenvolvimento econômico, além unicamente de gerar pesquisa e ensino (ETZKOWITZ, 2003b).

As ideias de entrelaçamento e relacionamento recíproco vão dar o contorno daquilo que se espera de UIGs. Há aí uma barreira a ser superada para que ocorra efetivamente o aumento de performance do todo, comparativamente ao estado de isolamento antes praticado. Nesse contexto, aquelas regiões localizadas no entorno de universidades levam vantagens, embora Etzkowitz (2008) admita que essa não seja uma regra rígida. O foco está, sobretudo, no

desenvolvimento local. Por meio da HT, o interesse volta-se para o âmbito mais específico, como o municipal. Dificilmente vai existir, portanto, uma mesma configuração de interação HT em âmbito nacional, especialmente num país tão grande e diverso como o Brasil. Nesse caso, melhor dizendo, existirão várias HTs, com distintas gradações de interação. Uma repercussão pragmática mais ampliada, no âmbito nacional, se observa por meio da possibilidade de as políticas públicas deixarem de beneficiar apenas grandes projetos nacionais de ciência e tecnologia e prestarem atenção também às iniciativas locais mais promissoras.

Ao comentar um caso brasileiro de performance de HT, como havia grande resistência à incubação de investimentos privados em universidades públicas (movimento habitualmente acusado de privatização da universidade), Etzkowitz (2008) afirma que houve uma adaptação ao contexto local por meio da transformação da ideia de original incubadora a fim preencher a missão da universidade. Assim surgiram as incubadoras de cooperativas no Instituto Alberto Luiz Coimbra de Pós-Graduação e Pesquisa em Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro - COPPE, com o objetivo de treinar pessoas das favelas vizinhas, capacitando-as para o desenvolvimento de serviços específicos para, só então, enviá-las de volta ao mundo em forma de organizações. A iniciativa de criação de incubadoras no Brasil se disseminou e hoje o seu papel social dificilmente é contestado, mesmo considerando a incubação de pequenas empresas privadas em estruturas públicas de universidades ou governos locais.

Na Figura 6, ilustram-se as principais influências que ajudaram na consolidação do EBT no CPP, com destaque para as influências dos países avançados na formulação de políticas públicas, do papel da OECD, da abordagem econômica dos SNI e das abordagens gerenciais da EC e da HT. Todas essas influências produzem a EBC e seus consequentes efeitos sobre a

orientação de políticas científicas, tecnológicas e de inovação, as quais criarão o contexto de desenvolvimento do EBT nas IPCT.

Figura 6 Valorização do empreendedorismo de base tecnológica nas instituições públicas de ciência e tecnologia

Fonte: Elaborada pelo autor.