4 ESTADO CONSTITUCIONAL SOLIDARISTA E DESENVOLVIMENTO
4.5 Desenvolvimento como solidariedade
Sociedades de grande escala, especializadas numa complexa divisão do trabalho social e criadas numa cultura solidarista, estabelecem a comunidade na qual os indivíduos podem descobrir a textura da vida moral, compreender a verdadeira solidariedade ou transcender à anomia do individualismo sem essência, em que se faz presente a seguinte máxima kantiana: “Age de forma que trates a humanidade, tanto na tua pessoa, como de qualquer outro, sempre também como fim e nunca unicamente como meio” 262
.
O desenvolvimento projeta-se na condição de direito fundamental transindividual de solidariedade. As perspectivas e novas propostas para o desenvolvimento encontra-se na nova dinâmica de concretizar os direitos fundamentais pela via solidarista, de reafirmar sob novas bases o pacto federativo de índole cooperativa, aproximar o direito da ideia de justiça, oferecendo novos mecanismos de redução das desigualdades sociais e regionais em ambiente plural de possibilidades oferecidas pela teoria integral de proteção.
261 Cfr. BRITO, Edvaldo. Reflexos Jurídicos da Atuação do Estado no Domínio Econômico. Cit. p. 18. 262
KANT, Immanuel. Fundamentação da metafísica dos costumes. 2. ed. Lisboa: Edições 70, 2007, p. 59. Trata- se do 2º imperativo categórico.
Favorecendo a realização do objetivo fundamental de construir uma sociedade livre, justa e solidária, na realidade pluralista, caminhamos em direção ao novo constitucionalismo integral, aproximando as comunidades vulneráveis da afirmação da sua cidadania solidária e participativa na construção do seu próprio progresso existencial e cumprindo deveres de solidariedade ao participar como sujeito ativo do desenvolvimento.
Duguit já afirmara: “todo individuo tem a obrigação de cumprir na sociedade certa função em razão direta do lugar que ocupa. O possuidor da riqueza pode realizar trabalho, que em função dessa riqueza, só ele pode realizar. Só ele pode aumentar a riqueza geral fazendo valer o capital que possui. Está socialmente obrigado a realizar essa tarefa”. A propriedade não é o direito subjetivo do proprietário; é a função social do possuidor da riqueza. O Direito positivo não protege o pretendido direito subjetivo do proprietário; mas garante a liberdade do possuidor da riqueza para cumprir a função social que lhe incumbe pelo fato mesmo dessa posse, podendo-se dizer que a propriedade se socializa263, ou, no que é próprio da sua visão: se solidariza.
O desenvolvimento como solidariedade de dimensão transindividual ultrapassa o âmbito da juridificação constitucional e das leis internas de cada nação264. Por mais que o pluralismo de Peter Häberle, e a teoria estruturante de Friedrich Müller remetam a aspectos relevantes da realidade social como parte integrante da norma de decisão, é preciso ir além. A solidariedade é antes de tudo fenômeno social integrativo.
É necessário que os impulsos do constitucionalismo societal (societal constitutionalism) sejam expandidos de forma interconstitucional para os subsistemas sociais globais (economia, ciência, cultura, política, religião, mídia). Questionará Teubner: os atuais subsistemas globais estão desenvolvendo uma dinâmica de crescimento descontrolado que deve ser submetida a restrições constitucionais?265 Entendemos que sim, porém essa dinâmica deve ocorrer no espaço diatópico interconstitucional, em que a vinculação aos valores
263DUGUIT, León. Las Transformaciones del Derecho (Público y Privado). Buenos Aires: Editorial Heliasta, 1975, p. 240.
264 Em sentido diverso da nossa tese, apresentando profunda abordagem sob o prisma da Constituição Federal e das leis internas: RISTER, Carla Abrantkoski. Direito ao desenvolvimento: antecedentes, significados e
consequências. Rio de Janeiro: Renovar, 2007. A autora justifica sua abordagem sob o prisma interno por
entender que existe falta de implementação e ausência de garantias dos direitos humanos, que sofre críticas de legitimidade (necessidade de haver legislação que os garanta), de coerência (ausência de mecanismos que os dote de exigibilidade) e cultural (por não traduzirem valores universais (Op. Cit. p. 522).
constitucionais transnacionais sejam horizontalizados (eficácia interprivada direta266), com participação autônoma dos subsistemas sociais com foco no seu desenvolvimento em regime de solidariedade.
Nesse ponto parece concordar Teubner ao defender que a agenda para o constitucionalismo transnacional muda no seguinte contexto: não é a criação, mas sim a transformação fundamental de uma pré-existente ordem constitucional267 (em nossa concepção, interconstitucional). Com os parâmetros normativos atualmente existentes já é possível expandir o paradigma integral, solidário e pluralista da proteção interconstitucional ao desenvolvimento.
O contexto não hierárquico se expande da interconstitucionalidade (enquanto expressão da esfera jurídica) para os subsistemas sociais solidariamente participantes do desenvolvimento (enquanto expressão da esfera social) e destinatário das normas internacionais, constitucionais e comunitárias, sem protagonismos.
As decisões que resguardam o interesse público devem ser tomadas não apenas por governos, mas por diversos subsistemas sociais, em particular, o econômico268. A fragmentação faz com que cada área de ação desenvolva sua própria racionalidade, em intensa competição por posições de poder e influência social. Daí a necessidade de interconstitucionalizar as relações entre atores sociais organizados de forma a promover sua autonomia e assegurar sua compatibilidade mútua numa contemporânea divisão social do trabalho para a sociedade complexa269.
A tecelagem dos fragmentos é também possibilidade oferecida por Marcelo Neves em sua teoria da transconstitucionalidade, ao promover diálogos entre ordens jurídicas em questões constitucionais através de pontes de transição270.
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Grande impulso interconstitucional para implementação da eficácia interprivada dos valores interconstitucionais foi produzido pela ONU: UN Human Rights Committe, General Comment N. 31, Nature of
the General Obligation Imposed on States Parties to the Covenant, 26 de maio de 2004, UN Doc. CCPR/C/21/
Rev. 1/Add. 13, par. 6-8 (The Comment emphasizes that States Parties are not only required to refrain from violating the rights of individuals, but must also prevent the violation of individual rights by private persons). Sobre o tema: CLAPHAM, Andrew. Human Rights in the Private Sphere. Oxford: Oxford University Press, 1996 e também seu Human Rights Obligations of Non-State Actors. Oxford: Oxford University Press, 2006.
267 TEUBNER, Cit. p. 11. 268
Ibidem, p. 33.
269 No mesmo sentido, porém destacando o aspecto apenas constitucional: TEUBNER, Cit. p. 40. SCULLI,
Theory of Societal Constitutionalism. Cit. p.208. Não é pro acaso que Teubner conclui seu Constitutional Fragments, cit. p. 173, afirmando, a partir de Emile Durkheim (1933), que a moderna divisão do trabalho exige
um constitucionalismo societal de solidariedade orgânica. 270 NEVES, Marcelo. Transconstitucionalismo. Cit. p. 290-291.
Não se pode perder de vista que a integração interconstitucional através da unidade ética de valores convergentes (direitos humanos, fundamentais e comunitários) em face da confluência social heterogênea de interesses (convergentes, divergentes e mesmo insurgentes) não pressupõe o consenso global mundial ou mesmo comunitário sobre determinado modelo de progresso ou desenvolvimento, ele pressupõe um projeto solidarista de defesa de setores sociais excluídos do progresso existencial como sujeitos ativos do seu próprio desenvolvimento.
O que se exige na sociedade mundial do presente, como bem observou Marcelo Neves, é a promoção da inclusão, reduzindo o crescente setor de exclusão, trata-se da integração social no sentido da teoria dos sistemas (Luhmann) – chance da consideração social de pessoas, de incluí-las no acesso aos benefícios dos sistemas funcionais271.
Mas não se trata de incluí-los de maneira a torná-los hiperdependentes dos sistemas (necessitados, sem liberdade), mas, de intensificar os laços de solidariedade orgânica ou por diferenciação, para que cada indivíduo possua a responsabilidade e o dever de projetar seu progresso na dimensão transindividual de cooperação para o progresso coletivo.
De outro lado, a solidariedade mecânica ou por similitude (que fundamenta a existência de um direito interconstitucional sancionador – decorrente dos deveres integrais de proteção) coibirá as práticas dos modelos sistêmicos patológicos, inicialmente vinculando-os diretamente ao projeto interconstitucional, solidário, pluralista, diatópico e integral de proteção dos direitos humanos, fundamentais e comunitários, posteriormente intervindo na sua atuação para direcioná-lo ao modelo de desenvolvimento sustentável inclusivo (fundamentando a existência de um direito interconstitucional premial).
271 Ibidem. p. 292. Nesse sentido Niklas Luhmann alerta para o perigo da “avalanche de exclusão” em face da desmontagem do Estado Social, mesmo nas regiões mais desenvolvidas do globo (Die Politik der Gesellschaft. Frankfurt: Suhrkamp, 2000, p. 427 et seq.