2 FUNDAMENTAÇÃO TEÓRICO-EMPÍRICA
2.5 DESENVOLVIMENTO DA COMPETÊNCIA INTERCULTURAL
A consolidação do mercado global, impulsionado pelo avanço tecnológico (ORTIZ, 2000; FREITAS, 2008; BERNARD; FERNANDEZ, 2012), impôs às organizações multinacionais novos desafios, em que a forte concorrência exige um grande foco em eficácia (FINURAS, 1999; ORTIZ, 2000). A consolidação deste cenário tem criado a necessidade da compreensão das diferentes culturas do ambiente organizacional e suas interações (HOMEM, 2005), uma vez que a principal característica das equipes de trabalho destas organizações, denominadas equipes multiculturais, é a interculturalidade de seus integrantes (BITENCOURT; BUENO, 2015).
Partindo do argumento que a eficácia das equipes multiculturais é primordial para a sobrevivência das organizações multinacionais em um mercado global (ORTIZ, 2000), o desenvolvimento de novas aptidões e habilidades na convivência multicultural (FREITAS, 2009), denominadas CI (BERNARD; FERNANDEZ, 2012) ganha corpo e se intensifica nos debates de estudos organizacionais (RODRIGUES;
PINHEIRO, 2010).
Somado a este cenário, a pesquisa adota uma visão processual e construtivista em um nível de análise grupal, onde o conhecimento é socialmente construído através da interação social entre os membros culturalmente diversos do grupo (BERGER; LUCKMAN, 2003; RODRIGUES; PINHEIRO, 2010; BITENCOURT;
BUENO, 2015).
A expansão internacional das EMNs no contexto da globalização tem gerado uma preocupação por parte de administradores e pesquisadores no sentido de desenvolver estratégias para suportar as mudanças na gestão ocasionadas por esta expansão (MARIOTTO, 2007). Portanto, o contexto no qual esta pesquisa foi desenvolvida foram as EMNs, as quais têm apontado para uma preocupação, dentro de suas estratégias, em relação ao entendimento das diferenças locais entre os países envolvidos (BUENO, 2010), buscando garantir uma forte presença local (BARTLETT; GHOSHAL, 1992).
A definição de EMNs adotada nesta pesquisa é a apresentada pela ONU e mais aceita pela comunidade internacional, na qual as EMNs são “empresas, quer sejam de propriedade pública, mista ou privada, que possuem ou controlam a
produção, distribuição, serviços ou outras instalações fora do país em que se encontram sediadas.” (OIT, 2012, p. 2).
As exigências do mundo globalizado e os encontros interculturais estão se tornando comuns nas EMNs (MORLEY; CERDIN, 2010; BERNARD; FERNANDEZ, 2012), bem como o reconhecimento da importância do aspecto intercultural nestas organizações (FREITAS, 2008), o qual tem impulsionado o desenvolvimento de estudos sobre gestão intercultural (ADLER, 2008).
Dentre estes estudos sobre gestão intercultural e com o objetivo de buscar uma maior compreensão acerca dos motivos pelos quais algumas pessoas, grupos e organizações prosperam em situações interculturais, os pesquisadores introduziram o conceito de CI (LEUNG et al., 2014). No entanto, os estudos envolvendo o tema CI focam no nível individual, demonstrando uma carência de pesquisas envolvendo o nível coletivo, tanto grupal quanto organizacional. Este estudo propõe, portanto, uma análise da CI em nível grupal buscando contribuir na redução desta lacuna na literatura, adotando como a primeira categoria de análise, o conceito de CIG.
Ao estudar este conceito na dimensão grupal, considera-se uma perspectiva social de desenvolvimento da competência que olhe para as interações e para a cultura em uma perspectiva integradora (cognitiva, comportamenal e cultural), assumindo ainda, os princípios de integração, complementaridade, continuidade e recursividade do processo (FISCHER et al., 2009, p. 15), uma vez que a CIG é desenvolvida na interação entre os membros do grupo.
Além da interação social, outros elementos constituem a CI: a eficácia, as diferenças culturais, a comunicação, a aprendizagem e a cultura negociada. Estes elementos podem ser pensados na lógica coletiva ao tratar da CIG.
A interação está intrínseca na convivência entre indivíduos culturalmente distintos (BUENO, 2010), no desenvolvimento das competências da equipe (FISCHER et al., 2009) e na garantia da eficácia intercultural dos indivíduos e grupos (GUDYKUNST; WISEMAN; HAMMER, 1977). Esta interação pressupõe a compreensão das diferenças culturais, a qual leva a um alto grau de coesão do grupo, impactando diretamente em sua eficácia (FERRARO, 2001; ADLER, 2008).
Já a comunicação é tratada como um elemento da CIG, uma vez que é considerada a base do entendimento intercultural (FRANCIS; JEAN-FRANÇOIS, 2010;
SUCHANKOVA, 2014), entendimento este, fruto de um processo de aprendizagem,
uma vez que aprender sobre as especificidades de cada cultura impulsiona a EMC em direção a melhores resultados (FISCHER et al., 2009) e a uma cultura negociada entre os membros culturalmente diversos do grupo, baseada na cooperação e em práticas híbridas de trabalho (BARMEYER; DAVOINE, 2015).
Com base nas análises realizadas acerca dos elementos acima citados, provenientes da literatura, propõe-se que a Competência Intercultural Grupal - CIG é a habilidade do grupo de atingir seus objetivos com eficácia por meio da interação social, da comunicação eficiente e da negociação das diferenças culturais, resultante de um processo de aprendizagem grupal em um contexto multicultural (LANE;
DISTEFANO, 2000; GERTSEN, 1990; DINGES; BALDWIN, 1996; BYRAM, 1997;
BENNET et al., 1986; FANTINI, 2000; MENDENHALL; OSLAND, 2002; EARLY;
ANG (2003); DEARDORFF, 2004; FRIEDMAN; ANTAL, 2005; JOKIKOKKO, 2005;
MORAN et al., 2009; BIRD, 2010; LOUGH, 2011; FITCH, 2012; BARMEYER;
DAVOINE, 2015).
A partir da proposição de um conceito de CIG que viabilizasse a avaliação da CI em nível grupal, emergiu a necessidade de investigar como ocorre seu desenvolvimento. Assim, destaca-se como segunda categoria de análise o desenvolvimento da CIG. A partir da investigação da literatura acerca dos modelos de CI que sustentam os pressupostos assumidos nesta pesquisa, adota-se aqui pressupostos do Modelo de Maturidade Intercultural de King e Baxter Magolda (2005), do Modelo de Desenvolvimento da Sensibilidade Intercultural de Bennett (1986) e do Modelo de Atitude de Aculturação de Berry et al. (1989).
Os três modelos destacam a progressão da CIG em direção aos níveis mais maduros de consciência e sensibilidade cultural, uma vez que a própria experiência da diferença cultural torna-se mais complexa e sofisticada, impulsionando o grupo para um nível de integração maduro, no qual é aceita a possibilidade de grupos multiculturais operarem num sistema multicoletivo.
Estes modelos destacam, ainda, aspectos importantes aqui assumidos: (a) a CIG como dinâmica, cujo desenvolvimento pode ocorrer ao longo do tempo, com vários estágios por meio da interação; (b) a integração pode ser pensada no âmbito coletivo, pois um alto grau de integração dentro de uma equipe multicultural pode representar alto grau de desenvolvimento da CIG.
Por fim, a análise realizada permitiu elencar os termos-chave para o desenvolvimento da CIG: tempo, elementos e dimensões, desenvolvimento,
dinâmica e variável, recursividade, conhecimento, experiências, estágios, níveis, integração, acolhimento e aculturação.
Com base nas termos-chave, propõe-se que o desenvolvimento da CIG é um processo que ocorre ao longo do tempo, uma vez que ela é dinâmica e variável, por meio dos conhecimentos e experiências dos membros do grupo em relação a interação, eficácia, relacionamento intercultural (diferenças culturais e cultura negociada) e comunicação, resultado de um processo de aprendizagem. Como processo, ocorre em estágios que envolvem a cognição, o comportamento e a cultura, intrapessoal e interpessoal, e expressam níveis onde um estágio maduro de desenvolvimento implica em alta integração entre os membros do grupo e acolhimento de novos membros.
O desenvolvimento da CIG ocorre em ambientes de trabalho multiculturais (EVANS et al., 2002), assim emerge a terceira e última categoria de análise, as equipes multiculturais – EMCs, sendo elas definidas como equipes organizacionais constituídas por três ou mais indivíduos a partir de dois ou mais diferentes países que, a partir de ferramentas e procedimentos, tratam de conjuntos de funções organizacionais durante um longo período de tempo (ZIMMERMANN, 2010).
Por fim, com base no exposto acima, propõe-se o seguinte modelo conceitual da pesquisa, conforme figura a seguir.
FIGURA 3 – MODELO CONCEITUAL DA PESQUISA
FONTE: A autora (2015).
Empresas Multinacionais Equipes Multiculturais
ALTA Competência intercultural do grupo
BAIXA Competência intercultural do grupo Processo de desenvolvimento da CIG
(interação, eficácia, diferenças culturais,
comunicação, aprendizagem e cultura negociada) Nível de desenvolvimento da CIG
Tempo
O modelo conceitual considera que as EMNs estão permeadas de EMCs que, ao buscar a eficiência nos processos de trabalho e desempenho superior, desenvolvem, em maior ou menor grau, a CIG. Este processo demanda uma alta interação do grupo e acolhimento de novos membros, dentre outros fatores. Cabe então investigar como isso ocorre. A metodologia de operacionalização deste modelo está detalhado na próxima seção, denominada de procedimentos metodológicos.